29 de julho de 2011

Gás da Companhia em Lisboa

Resultante da fusão entre a “Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás” (1848) e a “Companhia Gás de Lisboa” (1887), constituíu-se a 10 de Junho de 1891, em Lisboa, a sociedade “Companhias Reunidas de Gás e Electricidade” (CRGE), para produzir e distribuir gás e electricidade.

                                      1942                                                                           1943

         

A CRGE toma posse de todas as instalações de produção e distribuição de gás existentes à data da sua constituição: as fábricas de gás da Boavista e de Belém, os gasómetros da Boavista, Pampulha e Bom Sucesso, e cerca de 400 000m de canalizações. O número de consumidores privados era à época, superior a 13 000, sendo o preço fixado para o gás de 45 reis/m3 e de 30 reis quando utilizado para o accionamento de motores.

A iluminação a gás inaugurou-se em Lisboa nas noites de 29 e 30 de Julho de 1848, com os primeiros 28 candeeiros. Ainda antes da assinatura do primeiro contrato para a iluminação a gás de Lisboa (1847), entre o governo e a “Companhia Lisbonense de Illuminação a Gaz”, já estavam arrendados os armazéns nos 2 e 3 da Praia da Boavista, para instalar a fábrica. O carvão era descarregado no denominado Cais do Carvão, ali junto, seguindo para a fábrica, onde era destilado em retortas. Seguiam-se depois operações de lavagem, arrefecimento, condensação e depuração, antes do armazenamento do gás nos gasómetros. Em 1852 existiam na Boavista cinco gasómetros e duas baterias de fornos totalizando 120 retortas

                                                             Fábrica de Gás da Boavista                                          

                                  

 

Expande-se a rede de canalização de gás para os concelhos de Oeiras, Cascais, Sintra (1899) e Setúbal (1903), tendo neste último adquirindo uma fábrica de gás aí existente.

Em 1915 a rede de gás está praticamente estabilizada, com uma capacidade de produção nas 2 fábricas que atingia 35 000 000m3/ano e 500km de canalizações; o número de consumidores aumenta para 36 700. Será no período da 2ª Guerra Mundial que se sentirá um significativo aumento dos consumos e do número de consumidores, apesar das dificuldades na obtenção de combustível, quando o Governo decidiu aplicar um plano de restrições aos consumos de energia eléctrica, deixando livres os do gás.

                                                                 Fábrica de Gás de Belém

                                   

 

Em 1938, a decisão do governo em celebrar o duplo centenário do Mundo Português (1140-1640-1940) com uma Exposição Monumental em Belém, veio acelarar a resolução do problema da transferência da Fábrica de Belém. Pretendia-se que os terrenos junto à Torre de Belém estivessem desocupados em 1940, tendo sido decidido construir uma nova fábrica, na zona oriental da cidade. No entanto, a nova fábrica de gás não pôde começar a produção em 1940, conforme previsto, pelo que se realizou a Exposição do Mundo Português com a fábrica junto à Torre de Belém em laboração.

A fábrica continuaria a funcionar em Belém até 1949, anunciando-se em Dezembro daquele ano a venda da sua estrutura e materiais em hasta pública, e, em 7 de Junho de 1950, registava-se fotograficamente a demolição das altas chaminés de alvenaria. A área desocupada pela fábrica foi transformada num jardim, conferindo à Torre de Belém um enquadramento mais digno e limpo.

                                      1910                                                                        1940

             

            
 
A localização da nova fábrica de gás na zona oriental, junto ao rio, com boas ligações ferroviárias e rodoviárias, permitiria um fácil abastecimento e uma eficiente distribuição dos subprodutos. Conforme acordado, o Estado entregaria às CRGE 39.000 m2 de terra na margem da Matinha, na zona oriental de Lisboa. Considerando a área insuficiente para a instalação da nova fábrica, as CRGE optaram por adquirir a Quinta da Matinha.

Sofrendo sucessivos atrasos devido às dificuldades de abastecimento, criadas pela II Guerra Mundial que eclodira, a fábrica começou a sua laboração, em regime experimental, em  Novembro de 1943, sendo a sua capacidade de produção diária de 75.000 m3 de gás extraído da hulha. A fábrica seria oficialmente inaugurada a 8 de Janeiro de 1944, ocupando 4 dos 20 hectares conquistados ao rio.

                                                                 Fábrica de Gás da Matinha

                            

Os procedimentos incluiam 5 fases distintas: numa 1ª fase, após o descarregamento do carvão na ponte-cais e respectivo transporte por meio de vagonetas sobre carris até ao Edifício dos Fornos, o carvão era destilado em retortas verticais; na 2ª fase, de depuração, eram retirados ao gás o alcatrão, o amoníaco e o enxofre; numa 3ª fase, seria extraído o benzol; numa 4ª fase procedia-se à armazenagem do gás no gasómetro de 30.000m3; por último, a 5ª fase incluia os procedimentos necessários ao transporte do gás, que passava por compressores que lhe conferiam alta pressão, para ser distribuído na rede de 300mm.

 

Três postos depressores na cidade15 garantiam a redução da pressão do gás para níveis que permitissem a sua utilização. Estes postos depressores tinham o seu funcionamento continuamente registado no quadro geral de controle da fábrica.

Para além das instalações de produção, existiam na fábrica reservatórios de água, poços artesianos e dois sistemas subterrâneos de abastecimento de água, com a finalidade de assegurar o funcionamento normal e o serviço de combate a incêndios. Uma subestação eléctrica que garantia o funcionamento das instalações da fábrica e a sua iluminação, e também uma destilação de alcatrão (onde lhe seriam retirados subprodutos como benzol, óleos fenólicos, óleos pesados, naftalina, etc. e onde era produzido alcatrão para estradas).

Para consultar a história do gás butano (botija) em Lisboa, consultar post de 29 de Novembro de 2009 com o título: “Gazcidla” na etiqueta ‘Gás’

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

3 comentários:

Miguel disse...

Mais um fabuloso artigo!
Eu trabalho no edifico Altejo na Matinha não muito longe da fábrica referida no artigo.
Não fazia ideia que passava todos os dias pelo terreno da antiga Fábrica de Gás que abastecia Lisboa e arredores.

Encontrei este artigo pois procurava saber para que serviu um edifício antigo mesmo ao lado do Edifício Altejo que é propriedade da EDP... mais um mistério que fica por descobrir.

José Leite disse...

Caro Miguel

Grato pelo seu comentário

Cumprimentos

Alim disse...

Muito bom este artigo; teve de certeza muita investigação e está esclarecedor. Vou tirar umas indicações para colocar nas fotos que vou partilhar no FB sobre a fábrica que agora está abandonada.