5 de junho de 2018

Hotel da Praia do Sol

O “Hotel da Praia do Sol”, foi fundado na Rua dos Pescadores, na então “Praia do Sol”, actual Costa da Caparica, por Manuel de Agro Ferreira em 1934.

Em 1 de Janeiro de 1950, era publicado o primeiro número do jornal “Praia do Sol”. Publicação oficial da Junta de Freguesia da Costa da Caparica, era um jornal de 4 páginas, que existiu entre 1950 e 1982, tendo tido como primeiro director o jornalista, escritor e olisipógrafo Norberto de Araújo (1889-1952). Tratava-se de uma publicação de orientação regionalista e propangadística do «belo e do útil», divulgando os temas de interesse para a freguesia, que importava valorizar como forma de promover o turismo, atrair visitantes de fim-de-semana, veraneantes e novos habitantes, fomentando o desenvolvimento local: turismo, lazer, restauração, comércio, hotelaria, transportes, história e património cultural e natural.

Artigo na revista “Semana Portugueza” em Dezembro de 1935 e o 1º número do jornal “Praia do Sol”

  

O editorial deste primeiro número refere que se pretendia «prestar justiça a quem a merece, e  assim, destacar quantos por suas funções, influências e posição, na vida pública portuguesa olham com carinho para a Costa da Caparica e para os seus múltiplos problemas de turismo, de higiene, de assistência, de moral social, económicos e progressivos. Na defesa não apenas da terra e do mar, mas também da sua gente.»

Entre estes amigos da Costa da Caparica, destacam-se dois «vultos do passado»: Jaime Artur Costa Pinto e Manuel d'Agro Ferreira, «o homem que arrastou ministros  e escritores à Costa da Caparica para que daqueles terrenos nascesse a linda Praia do Sol» e duas figuras contemporâneas: o comandante Sá de Linhares, presidente da Câmara Municipal de Almada, e o comandante Henrique Tenreiro, presidente da “Junta Central das Casas dos Pescadores”).

Estância de Turismo desde 1925, as praias da Costa da Caparica - “Praia do Sol” - eram uma «estância balnear de cura e de repouso» e «praia de verão por excelência, dos lisboetas (...) podendo chamar-se-lhe o Sanatório Marítimo de Lisboa.» Se, em 1920, era frequentada por uma «dúzia de famílias», na década de 1950 era já por centenas.

“Colégio do Menino Jesus” e barracas de pescadores na Praia do Sol

Artigo em 1934 no livro “A Praia do Sol (Caparica)” editado por de M. Costa Ramalho, em 1934

Anúncio de 1934

Este aumento da procura levava à necessidade de reorganizar o espaço, de criar as infraestruturas turísticas necessárias e garantir transportes públicos que eram assegurados pela “Empresa de Camionetes Piedense, Lda.”, - propriedade de José de Sousa Silva e Fernando Sobral e sediada em Almada - com carreiras diárias regulares para Cacilhas e para a Trafaria, com «horários encurtados, veículos cómodos, serviço primoroso, pessoal correcto».

Primeiras carreiras para a Praia do Sol

 

«A acção de Manuel Agro Ferreira (1879-1943) insere-se neste contexto. Este solicitador proveniente da zona de Aveiro, com escritório em Lisboa, desde alguns anos que procurava as praias da Costa por motivos de saúde do seu filho, que sofria de raquitismo.
Em 1933, aproveitando a "política de realizações" do Estado Novo e o investimento então feito na construção rodoviária, Agro Ferreira propôs a construção de uma estrada marginal ao Tejo, que ligasse Cacilhas à Costa da Caparica, à semelhança da Marginal entre Lisboa e Cascais que seria inaugurada no contexto dos centenários.
Agro Ferreira defendia que Lisboa deveria ter acompanhado o Tejo no seu desenvolvimento urbanístico, ao invés de se ter desenvolvido para o interior, pois a sua vocação natural e histórica era desenvolver-se em duas margens. Para isso, era necessário tornar a margem sul um núcleo importante de actividades industriais, comerciais e turísticas, criando uma avenida marginal que impulsionasse este desenvolvimento.

Manuel de Agro Ferreira (1879-1943)

Esta proposta suscitou o interesse do Ministério das Obras Públicas e Comunicações, presidido por Duarte Pacheco, que na mesma altura lançava um concurso público para a concessão da ponte sobre o Tejo, que viria depois a ser cancelado, mas que serviria de mote para os anos 50-60.
Agro Ferreira não deixou de continuar a sua luta ao apresentar no I Congresso Nacional de Turismo (1936) duas comunicações: "As praias da Costa, indevidamente chamada de Caparica" e "A Avenida da Margem Sul".
Na primeira, Agro Ferreira salientava o crescimento da Costa como fenómeno singular em Portugal e desenvolvia as suas teses anteriores, ao projectar na margem sul um complemento turístico a Sintra e aos Estoris, tendo como pólos centrais a Costa da Caparica, a Arrábida e o rio Sado.»  transcrito a partir dum artigo de 25 de Novembro de 2015, publicado no belíssimo blog Almada Virtual Museum”, da autoria de Rui Granadeiro.

Fotos com o “Hotel Paria do Sol” depois de ampliado, passando a oferecer 70 quartos a partir de 1942

 

                     Anúncio de 26 de Junho de 1942 …                                            … e de 15 de Agosto de 1942

 

 

Além de constatar que, poucos anos depois de ser inaugurado, foi ampliado para o lado da Rua dos Pescadores, acerca das características do “Hotel Praia do Sol”, além do descrito no anúncio anterior, nada mais consegui saber, infelizmente.

Em 20 de Novembro de 1960, podia-se ler num artigo publicado no jornal “Diario de Lisbôa”, e intitulado “A Costa da Caparica necessita de um bom hotel para intensificar as suas actividades turísticas” :

«O progresso urbano do conselho almadense e o incremento dos transportes rodo-fluviais têm proporcionado á região da Praia do Sol um afluxo importante de turistas, que tem vindo a aumentar todos os anos. (...)
A Praia do Sol, quando convenientemente apetrechada com hoteis e piscinas, e parques de campismo (o actual parece-nos exíguo) e de estacionamento, desempenhará papel de relevante interesse na industria turística nacional, em franca expansão.
Aceite, como certo, o desenvolvimento da Costa da Caparica, não podemos esquecer a péssima estrada que liga aquela estância balnear a Cacilhas. A partir de Almada, a referida via apresentasse-nos sinuosa, sem bermas convenientes e estreita, dificultando o trânsito normal.
Não se registam ali desastres frequentes, pois as velocidades são, felizmente, reduzidas, mas aqueles escassos dez quilómetros levam, muitas vezes, mais de meia hora a percorrer.
Só os autocarros dos serviços colectivos - e contam-se por dezenas - ocupam por completo a faixa de rodagem e deixam as viaturas ligeiras em situação embaraçosa, não permitindo ultrapassagens e provocando engarrafamentos constantes. (…) Duas soluções se impõem: a construção da projectada auto-estrada Piedade-Costa; ou a rectificação e alargamento das curvas da estrada actual. Esta última hipótese implicaria, aliás, a ser convertida em realidade, um pequeno dispêndio financeiro.»

Anúncio de 1960

De referir que, esta auto-estrada viria a ser realidade a partir de 6 de Agosto de 1966 com a inauguração da, então, “Ponte Salazar”, mais conhecida por “Ponte Sobre o Tejo”.


gentilmente cedido por Carlos Caria

O “Hotel Praia do Sol” actualmente, de 2 estrelas com 54 quartos e funcionando apenas como hotel-residencial

 

 

 

fotos in: Delcampe.net, Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital

2 comentários:

Rui Granadeiro disse...

Caro José Leite,

Grato pela referência, pelo excelente artigo e pelos seus ebooks recentemente publicados online.

Pode ser de interesse saber que a foto onde aparece o Colégio do Menino Jesus da Praia, da autoria de Alberto Carlos Lima (Arquivo Municipal de Lisboa, "pescadores"), faz parte de uma reportagem da qual uma outra foto é incluida num artigo de persistência romântica muito tardia e da autoria de Bulhão Pato (Illustração Portugueza, Convento dos Capuchos, Lisboa, 29 outubro 1906).

Com os melhores cumprimentos

Rui Granadeiro

José Leite disse...

Caro Rui Granadeiro

Eu é que agradeço, não só a sua contribuição como as suas amáveis palavras.

O seu blog tem uma elevada qualidade, que é raro ... Não querendo eu, com estas palavras , efectuar apenas um "troca de galhardetes".

Os meus cumprimentos
José Leite