5 de dezembro de 2017

Hotel Netto em Sintra

O “Hotel Netto”, localizado na Vila de Sintra, junto ao “Palácio da Vila” ou “Palácio Nacional de Sintra”, na rua do Arrasario (actual Conselheiro Segurado), e propriedade de José Maria Netto, abriu as suas portas em 28 de Maio de 1879.

Anúncio da abertura do “Hotel Netto” de 28 de Maio de 1879

«É realmente excellente o serviço do novo hotel Netto em Cintra. Á boa vontade dos donos da casa, reune a magnifica salla de jantar, e os quartos que são todos alcatifados e mobilados com o maior gosto. O serviço de cosinha é dos melhores que conhecemos e por isso recommendamos aquelle novo hotel aos nossos leitores.» in: “Diario Illustrado”

No jornal “Diario Illustrado”, em 9 de Julho de 1884

O edifício onde se instalou o “Hotel Netto”, tinha pertencido a António Lopes ferreira dos Anjos, que tinha a concessão da água do “Tanque do Touro”, desde 6 de Agosto de 1875, e que servia, também este hotel. Por sua vez, esta casa terá pertencido ao antigo almoxarife do Palácio da Villa, o capitão-mor Maximo José dos Reis, e que depois foi de uma filha do mesmo, casada com Frederico da Silva Pereira, irmão do Conde das Antas.

Apesar de ser escassa a informação acerca das actividades do “Hotel Netto”, nos seus primeiros anos, uma notícia publicada no jornal “Correio de Cintra”, em 3 de Setembro de 1898 informava que ali teria ocorrido um incêndio, devido ao descuido de uma criada enquanto engomava roupa. O incêndio foi extinto pelo pessoal e com a ajuda dos bombeiros. «Notou-se a falta de água em todas as bocas de incêndio...»

           

E o guia turístico “Spain and Portugal - Handbook for Travellers” para 1898, informava:

Cintra. - Hotels. Hotel Lawrence, at the W. end of the village, English landlady; Hotel Netto with a small garden, R.500, R.200  déj. with wine 700, D. with wine 8OO, pens. 1600-2000 rs. (prices posted up in the rooms); Hotel Nunes, adjoining the Palacio- Real, pens. 1600-2000 rs. - Private Lodgings for a long stay, easily obtained.

Já no início do século XX, o “Hotel Netto”, já está na posse de dois galegos de seus nomes Romão Garcia Vinhas e José Lopes Alves, tendo este último tomado posse do imóvel por falecimento do primeiro. Este Hotel era por esta altura, juntamente com o Lawrence's Hotel”, “Hotel Nunes”, “Hotel Victor”, um dos mais frequentados pela aristocracia e burguesia lisboetas.

1907

1913

1933

O "Jornal de Sintra", de 1 de Agosto de 1937, publicava sobre o “Hotel Netto”, um simpático artigo, aquando da mudança de gerência para Manuel Lopez Alves, do qual transcrevo o seguinte excerto:

«Sabíamos que a nova gerência deste acreditadíssimo hotel o transformara quási radicalmente. Assim e gostosos de apreciar os progressos da nossa terra, dirigimos nós  ali a título de tudo e de nada, mas na mira sincera de podermos ver o que era essa transformação.
Manuel Lopez Alves, dedicado amigo deste jornal com todo o prazer nos recebeu e nos levou a percorrer as dependências do acreditado hotel, que sofreu de facto, transformações quais radicais, desde a entrada até aos confins do amplo e confortável prédio, de cujos quartos todos mobilados de novo e com instalações de água quente e fria, se disfrutam paisagens de terra e mar verdadeiramente deslumbrantes.
Nesses melhoramentos andou o fino gosto do grande arquitecto, nosso amigo sr. Norte Júnior, que mais uma vez não quis deixar os seus honrosos créditos por mão alheias.
Tanto no confortável escritório, onde as coisas estão preparadas para se prestar quaisquer esclarecimentos ao turista, português ou estrangeiro, até aos amplos salões onde se serve a comida e desde estes até aos aposentos de hospedes tudo é decência e comodidade, tudo é aceio e higiene, tudo é, em suma, um hotel digno das tradições do Neto e da Vila de Sintra.
A par das dezenas e dezenas de quartos e dos chics «appartmens» de janelas rasgadas olhando a luxuriante Serra de Sintra, os prados e os vergéis, o mar e a mancha bizarra das povoações limítrofes e por aí fora até ao vetusto Convento de Mafra, tudo no Hotel Neto constitui o que se chama uma ducificante paragem do bem-estar e da saúde que muitos sanatórios portugueses invejariam. (…)»

Grupo de refugiados judeus que ficaram hospedados no “Hotel Netto”, em 1941

“Hotel Netto” dentro da elipse desenhada, em 1940

Um dos hóspedes mais ilustres, do “Hotel Netto”, foi o escritor José Maria Ferreira de Castro (1898 - 1974), que chegou a residir no hotel durante 12 anos.

O “Hotel Netto” encerraria definitivamente nos anos 70 do século XX., e ficaria ao abandono até 2016.

    

Depois de décadas ao abandono, o edifício foi vendido em hasta pública, em 10 de Março de 2016, à empresa “Restelo Azul - Exploração Turística, S.A.” - ligada ao empresário Carlos Saraiva - por um milhão de euros. O imóvel está, desde Setembro de 2016, a ser reabilitado e transformado num hotel de charme. A nova unidade hoteleira, de quatro estrelas, terá 34 quartos e três suítes, num total de 68 camas.

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa

1 comentário:

Graça Sampaio disse...

Passei por esse belo hotel 2 ou 4 vezes por dia durante anos a caminho do colégio onde estudei desde os 10 aos 15 anos e onde, mais tarde, me estreei a dar aulas. Quantas saudades desse espaço "vintage" aonde fui a alguns bailes bem divertidos na minha juventude. Fotografei-o todo em ruínas cheia de tristeza e fico agora contente com a notícia de que vai ser remodelado. Que bom! Se puder, ainda hei de lá ir passar uma noite para recordar os meus bons tempos de Sintra.

Obrigada.