Restos de Colecção

21 de julho de 2016

Loja “Rampa”

A loja de moda para senhora, homem e criança, “Rampa”, localizada no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 15, em Lisboa, projectada pelo arquitecto Francisco Conceição Silva (1922-1982), construída por Diamantino Tojal, com a supervisão do engenheiro Pereira Gomes, foi inaugurada em 4 de Junho de 1956, seis meses depois de ter começado, em 2 de Janeiro de 1956, a demolição da primitiva loja.

Exterior da loja “Rampa” inaugurada em 4 de Junho de 1956

Anúncio da primitiva loja em 6 de Dezembro de 1955

Anúncio da inauguração da nova loja “Rampa” em 4 de Junho de 1956

O projecto da loja “Rampa”, estabelecimento com 3 pisos, que vendia roupas femininas, masculinas, criança e objectos artísticos, teve a colaboração do arquitecto José Daniel Santa-Rita Fernandes (1929-2001) do pintor Rolando Sá Nogueira, Almada Negreiros, Júlio Pomar, entre outras obras de outros artistas. Conceição Silva estendeu a sua acção a todo o design de interiores que incluiu o desenho de todo o mobiliário. A imagem deste espaço comercial era marcada por uma fachada totalmente envidraçada que funcionava como montra da totalidade da loja e que deixava ver a rampa espiralada do interior que unia os diferentes pisos. O único elemento opaco desta fachada era a moldura da porta de entrada, revestida com azulejos da autoria de Querubim Lapa (1925-2016), funcionando como um aro suspenso que podia ser visto de várias perspectivas, quer do exterior, quer do interior da loja.

 

Esta loja seria demolida, junto com o prédio onde estava instalada, nos anos 80 do século XX. Recordo que o arquitecto Conceição Silva, foi responsável, também, pelo projecto do “Hotel do Mar”, inaugurado em 6 de Agosto de 1966 em Sesimbra, cujo artigo respectivo poderá ser consultado, neste blog, no seguinte link: Hotel do Mar”.

Anúncio de 17 de Janeiro de 1967

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

20 de julho de 2016

Folhetos de Filmes Portugueses (2)

Filme realizado em 1935

Filme realizado em 1943

Filme realizado em 1936

Filme realizado em 1947

Panfletos gentilmente cedidos por Carlos Caria

18 de julho de 2016

Capristanos

«Havia no Bombarral um comerciante de vinhos muito rico, Ramiro Magalhães, que tinha automóvel e motorista. Os seus negócios eram tratados em Lisboa, no  Avenida Palace Hotel, aonde se deslocava três vezes por semana. Um dia, o motorista adoece, o que o deixa muito aborrecido, pois no dia seguinte tem uma reunião muito importante. No escritório, um empregado diz-lhe que na terra dele, o Peral, havia um homem, dono de uma taberna, que tinha carta de condução.» conta Aleixo Gomes Batalha, que com Arthur Capristano conviveu durante os 20 anos em que foi seu empregado. E é assim que, logo no dia seguinte, Arthur Eduardo Capristano (1896-1967) passa a acompanhar Ramiro Magalhães nas suas viagens à capital. O empresário simpatiza com ele e ajuda-o a tomar de trespasse uma taberna no Bombarral.

Primeira camioneta adquirida em 1933 para, inicialmente, fazer a carreira entre Bombarral e Lourinhã

A família muda-se então para a terra dos vinhos. Já são quatro, pois entretanto tinham nascido dois rapazes, José (o mais velho) e Artur, que mais tarde viriam dar continuidade a um negócio que ainda ia dar os primeiros passos. Da taberna, a família Capristanos passam para uma pensão, tomada também de trespasse, à porta da qual Arthur Capristano vê passar diariamente uma "charrette" puxada por dois cavalos, que faz o transporte do correio entre a estação de caminhos-de-ferro do Bombarral e o Cadaval.

Bombarral

O passo seguinte foi o transporte de mercadorias entre a estação ferroviária de São Mamede e Peniche, agora já com uma camioneta, que comprou em segunda mão, e um motorista. «Como o senhor Capristano era muito imaginativo», conta Aleixo Batalha, «arranjou uma armação de ferro, um oleado e bancos para instalar na camioneta de carga e poder transportar passageiros, aos domingos, do Bombarral para a praia da Consolação.»

Coroada de êxito esta experiência, Arthur Capristano abalança-se, em 1933, na compra da primeira camioneta de passageiros, inaugurando as carreiras Bombarral-Lourinhã e Bombarral-Torres Vedras. A expansão do negócio exige mais dinheiro, impondo a entrada de um sócio capitalista: Joaquim Ferreira dos Santos. A nova empresa, a “Capristano & Ferreira, Lda.” faz sucesso, apesar dos sócios desiguais: um «self-made man» e um empresário que tinha acumulado capital no comércio dos vinhos. Multiplicam-se as carreiras. Do Bombarral para Lisboa pode-se ir pelo Cercal e por Vila Franca de Xira ou por Torres Vedras e pela Malveira. De Lisboa para Leiria, é possível escolher entre ir por Alcobaça ou pela Nazaré e Marinha Grande. A nova firma adquire ainda a empresa Caldense, passando a deter as rotas Caldas-Peniche e Caldas-Santarém, e compra, a um tal Viriato, uma carreira que fazia Caldas-Cercal-Alcoentre-Vila Franca-Lisboa. Pelo meio, factura-se com alugueres para excursões em Portugal e no estrangeiro.

1935

1940

Bilhete nos anos 50 do século XX

Além das garagens em Lisboa e em Leiria, outras vão surgindo nos destinos das várias carreiras, aumentando o património imobiliário da empresa. A sociedade irá manter-se até ao fim dos anos quarenta, altura em que os dois sócios se desentendem e se separam, ficando um com a frota e o outro com os imóveis. Durante dez anos, os “Capristanos” comprometem-se a pagar dez contos mensais (uma fortuna na época) pelas garagens de Joaquim Ferreira dos Santos, que assim fica senhor do património e com rendas garantidas. Em breve, porém, Arthur Capristano constrói garagens próprias e lança mais carreiras, reconstituindo a pujança da casa. Na origem do desentendimento entre os sócios terão estado os filhos de Arthur Capristano, José e Artur. Embora não tenham nascido em berço de ouro, tiveram uma juventude dourada. Estudaram em Lisboa, no Colégio Moderno, e cedo começaram a mostrar interesse pelo negócio do pai, atitude que desagradava a Joaquim Ferreira dos Santos e que levou à separação.

José da Conceição Capristano (1920-1998)

                            1944                                                                                     1946

 

Com 250 trabalhadores - 125 nas oficinas, 25 nos escritórios e uma centena afecta à exploração, entre motoristas, cobradores, empregados de filiais, ajudantes e fiscais -, o Bombarral revela-se demasiado pequeno para os “Capristanos”, que decidem mudar-se para as Caldas da Rainha, onde constroem aquela que será a mais luxuosa estação rodoviária da Península Ibérica e uma das melhores da Europa. O edifício, com a assinatura do arquitecto Camilo Korrodi, é inaugurado em 16 de Janeiro de 1949. Mais do que uma central de camionagem, o empreendimento foi o primeiro centro comercial da cidade termal. Tinha escritórios, restaurante, café, sala de espera, bilheteiras, tabacaria, barbearia. Vitrinas bem iluminadas serviam de montras às principais lojas caldenses, que ali exibiam os seus produtos, e durante todo o dia os mesmos altifalantes por onde eram anunciadas as partidas e chegadas transmitiam música ambiente. Um verdadeiro luxo para a época.

Garagem “Capristanos” nas Caldas da Rainha

Com a mudança do Bombarral para as Caldas, a família Capristano levou consigo os empregados. Construiu três vivendas para si, mas também um bairro para o pessoal - casas de um piso, brancas, alinhadas. O Bombarral ressente-se, tal como as Caldas, anos mais tarde, quando a empresa é vendida aos “Claras” e os trabalhadores, as oficinas e o escritório são transferidos para Torres Novas.

Na empresa vivia-se um bom ambiente de trabalho e uma situação laboral apaziguada, de acordo, aliás, com os ditames do regime. A maioria dos antigos empregados refere o carácter austero do velho Arthur e o rigor da gestão dos filhos, mas tem saudades da camaradagem e do clima familiar que então se respirava. Artur Capristano (neto) confirma a dedicação dos trabalhadores à casa: «Nenhum autocarro dormia na rua. Se empanava - e naquela época as camionetas avariavam-se com mais frequência -, os mecânicos iam lá a qualquer hora, arranjavam-na e recolhiam-na, mesmo que trabalhassem de noite ou tivessem de a rebocar.».

Capristanos.6

No dia 24 de Outubro de 1948, desfile organizado pelo “Grémio dos Industriais de Transportes em Automóveis”, onde participaram 200 autocarros, de todos os pontos do país.

 

 

Nos anos cinquenta, com 450 trabalhadores, os “Capristanos” dominam a Região Oeste. Têm filiais em Lisboa, Leiria, Santarém, Peniche, Torres Vedras, Bombarral, Rio Maior, Alcobaça e Nazaré. A rede de carreiras é densa e serve tudo o que é aldeola nas freguesias mais distantes. O automóvel estava ainda reservado às classes com maiores rendimentos e... com carta de condução; o caminho-de-ferro português definhava, incapaz de acompanhar a modernização das redes europeias. Graças aos planos de fomento, tinham-se construído algumas estradas e Portugal vivia o surto da camionagem.Beneficiando do proteccionismo do regime, o mercado das rodoviárias estava bem dividido, repartindo-se por áreas, sem guerras de concorrência. O Centro do país era dominado pelos “Capristanos”, pelos “Transportes Claras” (com sede em Torres Novas) e pelos “Oliveiras Transportes” (a norte de Leiria).

Autocarro «Guy Wolf» carroçado pela empresa “Martins & Caetano, Lda.” em foto de 1953

Autocarro «Guy Olf» O302 de 1958


Desenho digital gentilmente cedido por Eugénio Santos através de “Memórias de Empresas e Autocarros Antigos

Mas, inesperadamente,  em 19 de Dezembro de 1961, a empresa “Capristanos” é vendida aos “Claras Transportes, S.A.R.L.”. A notícia apanha toda a gente de surpresa.. As Caldas da Rainha deixam de ser um importante centro de decisão do sector rodoviário, em benefício de Torres Novas. «Foi um prejuízo muito grande para a cidade. Fecharam o escritório. A maior parte do pessoal foi para Torres Novas. Das 150 pessoas, ficaram umas 20», conta António Emanuel Botelho, cujo percurso se identifica com o da camionagem nas Caldas: viveu 16 anos em Torres Novas e, com a nacionalização dos Claras, em Junho de 1977, regressou à cidade termal como funcionário da então “Rodoviária Nacional”, reformando-se um ano depois. A empresa pública mantém a mesma geografia das antigas empresas privadas que lhe estavam na origem. Mais tarde, com a privatização, a “Claras” passa a Rodoviária do Tejo, que continua a ter sede em Torres Novas.

Autocarro e Garagem da empresa “João Clara & C.ª (Irmãos), Lda.”  em Torres Novas

 

É para o ramo do Turismo que Artur e José Capristano decidem mudar. Nos anos sessenta começava o "boom" do turismo e, em 1962, os dois fundam a “Capristanos Viagens e Turismo, SA” e a “Cityrama - Viagens e Turismo, SA.” A ascensão de ambas é meteórica, segundo Artur Capristano (neto), para quem a mudança de ramo «não foi nada mau negócio». O fundador, Arthur Eduardo Capristano morre a 22 de Julho de 1967. Dois anos depois, os filhos desfazem a sociedade e repartem entre si as duas empresas de turismo. Artur Capristano (filho) morre em 1994, com 71 anos de idade, e o irmão, José, quatro anos depois, aos 78 anos.

Diversos tipos de autocarros utilizados pela “Capristanos Viagens e Turismo”

Autocarro «Mercedes-Benz» O302/58 de 1971

 

«Mercedes-Benz» O302/58 de 1971


Desenho digital gentilmente cedido por Eugénio Santos através de “Memórias de Empresas e Autocarros Antigos

 

Autocarro «Saviem» da “Cityrama” em foto de 1965

Autocarro «Saviem» SC1 de 1960


Desenho digital gentilmente cedido por Eugénio Santos através de “Memórias de Empresas e Autocarros Antigos

Alfinete da “Capristanos Viagens e Turismo” e emblema de motorista da “Capristano & Ferreira, Lda.”

 
gentilmente cedidos por Carlos Caria

Bibliografia: este texto foi retirado, com algumas pequenas alterações, de um artigo escrito por Carlos Cipriano no jornal “Público”, de 20 de Novembro de 2000, intitulado “História de uma dinastia”.

fotos in: Vallado dos Frades, Ilustração Portugueza, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Horácio Novais), Memórias de Empresas e Autocarros Antigos

14 de julho de 2016

Arquitecto Miguel Ventura Terra

Completam-se hoje, dia 14 de Julho de 2016, 150 anos sobre o nascimento do arquitecto Miguel Ventura Terra (1866-1919) em Seixas do Minho em 14 de Julho de 1866, figura maior da arquitectura portuguesa, no início do século XX.

Miguel Ventura Terra (1866-1919)

     

Para acompanhar este artigo  do itinerário das principais obras de Miguel Ventura Terra, optei por recorrer, em parte, ao texto publicado no blog “Toponímia de Lisboa”, da CML intitulado “Marcas de Ventura Terra na toponímia de Lisboa”, publicado em 1 de Julho de 2016, e que pela sua qualidade servirá bem os meus propósitos, e no qual procedi a pequeníssimas alterações. Chamo á atenção para o facto de os títulos em amarelo terem o link para a história ilustrada respectiva neste blog.

De regresso a Portugal em 1896, após estudos em Paris, Miguel Ventura Terra foi nomeado arquitecto de 3.ª classe da “Direção de Edifícios Públicos e Faróis” e venceu o concurso de reconstrução da “Câmara dos Deputados” após o incêndio de 1895, o espaço que hoje identificamos como Assembleia da República, na Rua de São Bento. O hemiciclo de Ventura Terra viria a ser inaugurado em 1903.

 

Em 1900, idealizou o pedestal para o monumento ao Marechal Saldanha do escultor Tomás Costa, na Praça Duque de Saldanha, assim como projetou dois pavilhões, da representação portuguesa na “Exposição Universal de Paris” de 1900, no Trocadéro e no Quai d’Orsay.

Estátua do Marechal Duque de Saldanha inaugurada em 13 de Fevereiro de 1909

Presença portuguesa na Exposição Universal de Paris de 1900

        Pavilhão das Colónias Portuguesas                                                     Pavilhão de Portugal

 

Quanto à crítica da imprensa internacional na época: «Por forma que a exposição de Portugal com o seu ar campesino, a sua uveira minhôta, as cangas rusticas, o carro e os bois, a latáda, a vindimadeira de Teixeira Lopes, tudo a sugestionar á imaginação scenas dos nossos campos, surge, desabrocha como um sorriso ingenuo e natural, sem pretensões no meio dos brilhantes arrebiques da vizinhança. Entra-se alli para descansar; é fresco é viçoso; repousa a vista e alegra o espirito: á e impressão que todos sentem, ao visitarem a secção agricola portugueza cujo projecto decorativo foi executado pelo nosso eximio artista Ventura Terra, que por esse motivo obteve dos jurys internacionaes o alto premio de diploma de medalha de ouro.»

No ano seguinte, graças à iniciativa do Coronel Rodrigo António Aboim Ascensão da “Associação de Proteção à Primeira Infância” (APPI) foi o autor da primeira creche lisboeta,  que incluiu a construção de uma Vacaria, no Largo do Museu de Artilharia nº 2. Data também de 1901 um edifício de habitação no nº 5 da Praça Marquês de Pombal.

“Associação de Proteção à Primeira Infância” no Largo do Museu de Artilharia

Em 1902, foi o ano de  concretizar o Palacete de Henrique José Monteiro Mendonça”, nos nºs 18-28 da Rua Marquês de Fronteira, galardoado com o “Prémio Valmor de Arquitectura” 1909; a  Casa do  Jacinto Cândido, na Rua da Arriaga e a casa de Guilherme Pereira de Carvalho na Avenida da Liberdade (ambas já demolidas); o  prédio do Comendador Emílio Liguori na Rua Duque de Palmela nº 37 ( que viria a ser a sede do jornal Expresso) e ainda, a casa de José Joaquim Miguéis, na Avenida António Augusto Aguiar nº 134 (demolida em 1997). Ainda com projeto de 1902 foi  edificado o conjunto de três prédios erguidos pelo republicano Joaquim dos Santos Lima, na Avenida Elias Garcia nº 62 (então Avenida José Luciano) com a Avenida da República nº 46 e, ainda a Sinagoga de Lisboa também designada como “Shaaré Tikvá” ou “Portas da Esperança”, na Rua Alexandre Herculano, artéria onde Ventura Terra traçou também o seu próprio edifício residencial no nº 57, exemplo significativo da aplicação da Arte Nova em Portugal  que foi o 2º “Prémio Valmor de Arquitectura” a ser atribuído, no ano de 1903, como recorda uma placa na fachada para além de outra placa que informa que «Esta casa foi legada às escolas de Belas Artes de Lisboa e Porto pelo distinto arquitecto Miguel Ventura Terra, que nela faleceu em 30 de Abril de 1919, destinando o seu rendimento líquido para pensões a estudantes pobres das escolas que mostrem decidida vocação para as belas artes». Ainda  neste arruamento somou  Ventura Terra em 1911 o edifício do nº 25 que também foi “Prémio Valmor de Arquitectura” nesse ano.

Casa de Guilherme Pereira de Carvalho na Avenida da Liberdade projectada em 1902

   

Palacete de Henrique Mendonça e prédio de Joaquim dos Santos Lima na Avenida Ressano Garcia

 

Sinagoga de Lisboa e Casa Ventura Terra, ambos na Avenida Alexandre Herculano

 

Miguel Ventura Terra defendia a autonomia disciplinar da arquitetura e em 1903, com os arquitectos Adães Bermudes, Aragão Machado, Rosendo Carvalho e António Dias da Silva forma a “Sociedade dos Archiitectos Portuguezes”, com sede na Rua Vítor Cordon, nº 14 - 1º, e da qual foi o primeiro presidente. Hoje encontramos como sua herdeira associativa a Ordem dos Arquitectos, na Travessa do Carvalho nº 23,  no antigo edifício dos Banhos de São Paulo. Ainda em 1903 Ventura Terra foi o autor da  Casa do Dr. Alfredo Bensaúde, no cruzamento da Rua de São Caetano com a Rua do Arco do Chafariz das Terras, na Lapa.

Primeiro número do “Annuario” em 1905

 

Nesta revista o regulamento dos «Honorarios dos Architectos» aprovados em 1904

Em 1904, Miguel Ventura Terra foi o delegado de Portugal ao “VI Congresso Internacional dos Arquitetos”, na cidade de Madrid e traçou a Casa da Condessa de Taboeira na Rua Arriaga nº9, bem como a casa de Júlio Gualberto da Costa Neves na Rua Rosa Araújo nº37.

Em 1905 projetou a sede do “Banco Lisboa & Açores” para a Rua Áurea nº 82 -92, construído por “A Constructora” e traçou  a casa da Viscondessa de Valmor, D. Josefina Clarisse de Oliveira, - entretanto já viúva do Visconde de Valmor -no  nº 38 da Avenida da República (então Avenida Ressano Garcia), com esquina para o  nº 22  da Avenida Visconde Valmor (então Rua Visconde Valmor), construído por Joaquim Francisco Tojal, e que foi o “Prémio Valmor de Arqitectura” de 1906.

                     “Banco Lisboa & Açores”                                                   Casa da Viscondessa de Valmor

 

Publicidade em 1905 aos dois construtores dos edifícios anteriores

  

“Casa Sandoz” na Rua de São Caetano em Lisboa e projectada em 1907

Seguiram-se os Liceus: o “LIceu de Camões” (1907) na Praça José Fontana, o “Liceu Pedro Nunes” (1908) na Avenida Álvares Cabral, e o “Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho” (1913) na Rua Rodrigo da Fonseca, obra que por falta de verba demorou 18 anos a acabar e por isso foi terminada pelo arquitecto António do Couto.

                                 “Liceu de Camões”                                                                 “Liceu Pedro Nunes

 

“Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho”

Em 1907 traçou a casa de João Silvestre de Almeida, com vitrais Arte Nova e pintura de mural de Veloso Salgado, na  Rua Mouzinho da Silveira nº12 , onde hoje encontramos a sede do “Banco Privado Português”. Em 1908, idealizou a Maternidade Dr. Alfredo da Costa, na Rua Viriato. Também neste ano e bem próximo, na Avenida Fontes Pereira de Melo ficou concluído o Palacete para José Joaquim da Silva Graça, proprietário do jornal “O Século”, que foi vendido em 1930 para se tornar no Aviz Hotel, o qual funcionará até 1961 e será demolido no ano seguinte. Ainda em 1908, Miguel Ventura Terra participou no traçado de alguns detalhes do Palácio Marquês de Vale Flôr, na Rua Jau, quando o arquitecto José Cristiano de Paula Ferreira da Costa retomou  este projeto por falecimento de Nicola Bigaglia, sendo este edifício classificado como monumento nacional deste 1997.

Maternidade Dr. Alfredo da Costa

Palacete Silva Graça

 

Hall e vestíbulo de entrada do “Teatro Nacional de S. Carlos

 

Para além da arquitetura, Miguel Ventura Terra era um republicano pelo que no período de 1908 a 1913 foi também vereador  na Câmara Municipal de Lisboa, na 1ª vereação republicana de Lisboa, presidida por Anselmo Bramcaamp Freire. Elaborou planos na área do urbanismo, como os que concebeu para o “Parque Eduardo VII” e para a zona ribeirinha da capital (1908) e em 13 de Outubro de 1910 propôs a atribuição do topónimo “Esplanada dos Heróis da Revolução”, em terrenos do “Parque Eduardo VII” - «que seja dado o nome de Esplanada dos Heróis da Revolução ao espaço que no meu projecto de Parque Eduardo VII fica compreendido entre o limite norte da Praça do Marquês de Pombal, as ruas Fontes Pereira de Melo e António Joaquim Aguiar e o Palácio de Exposições e Festas onde começa o parque propriamente dito.» - proposta aprovada mas que não chegou a ser concretizada. Em 9 de Março de 1911 propôs ainda a atribuição dos nomes de Eugénio dos Santos, Nuno Santos e Silva Porto a ruas importantes de Lisboa. Ainda nesta área refira-se que Miguel Ventura Terra era amigo do escultor António Teixeira Lopes, e solicitou-lhe a execução de um busto em mármore do 1º Presidente Republicano da Câmara de Lisboa, Anselmo Braamcamp Freire, pago pelos 11 vereadores.

Outras obras fora de Lisboa projectadas pelo arquitecto Miguel Ventura Terra

Colónia da Sineta / Asilo de Santo António, projecto de 1906 para  João Taborda de Magalhães, com o para ser uma colónia de Verão para crianças pobres, em Caxias

Vidago Palace Hotel” com projecto inicial de 1907 e inaugurado em 6 de Outubro de 1910

Basílica de Santa Luzia em Viana do Castelo e “Hospital Valentim Ribeiro” em Esposende e inaugurado em 1916

 

Voltando a Lisboa …

Prédio de António Thomaz Quartim, na Rua Alexandre Herculano. “Prémio Valmor de Arquitectura” de 1911

Em relação a este “Prémio Valmor de Arquitectura” de 1911 a revista “Construção Moderna” observava: "O prédio (...) é sem contestação, um dos mais belos, de todas aquelas avenidas que ladeiam a da Liberdade, e o seu corpo lateral é um trabalho artístico imponente e de valor. Assim o compreendeu o júri que foi encarregado de proceder à concessão do Prémio Valmor. (...) A construção custou aproximadamente trinta e cinco contos de reis",

Em 1912-1913, num traçado representativo da Arte do Ferro projeta o seu “Teatro Politeama”, na então designada Rua Eugénio dos Santos (hoje, Rua das Portas de Santo Antão). Ainda em 1913, Ventura Terra recebeu uma Menção Honrosa do “Prémio Valmor de Arquitectura” para o Palacete que idealizou para o nº 3 da Avenida António Augusto Aguiar, onde é hoje a sede da “Ordem dos Engenheiros”, cabendo a parte de cantaria a Pardal Monteiro, que trabalhou no atelier de Miguel Ventura Terra quando ainda frequentava a “Escola Superior de Belas Artes de Lisboa” e o entendeu sempre como mestre de referência.

Sede da “Ordem dos Engenheiros” na Avenida António Augusto de Aguiar

Teatro Politeama

«As novas casas de Ventura Terra proscrevem a velha rotina da chateza alvar e sórdida, anterior à invasão da higiene, do asseio, da ginástica e do tub nos costumes lisboetas, e refutam simultaneamente o espírito de inovação pretensiosa e pelintra, o "snobismo" (para o dizer numa palavra) alojado nos cérebros frágeis das modernas gerações. São alegres, são simples, são lógicas, são concentradas e discretas. Harmonizam-se sem violento contraste de forma ou de cor com o aspecto das edificações circundantes, com a luz ambiente, com o solo, com o céu de Lisboa. A sua nobreza de aspecto não se impõe por hiperbólicos artifícios exteriores, antes se deduz honradamente de cultura e da dignidade interior da vida familiar, laboriosamente inteligente, da qual parecem ser a mais apropriada colmeia; e, como toda a obra arquitectónica do autor, esses novos prédios lisbonenses como que têm, sob um esmalte de arte o inconfundível carinho dos dois fundamentais elementos do talento de um arquitecto: a probidade e o juízo.» in: “Arte Portuguesa” de Ramalho Ortigão - Livraria Clássica Editora, lI Vol., de 1943.

Relembro outros grandes arquitectos, que se destacaram pela sua obra, na primeira metade do século XX em Portugal: Manuel Joaquim Norte Júnior (1878-1962), Raúl Lino (1879-1974), Luís Cristino da Silva (1896-1976), José Cottinelli Telmo (1897-1948), António Maria Veloso Reis (1899-1985), Carlos João Chambers Ramos (1897-1969), Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957), Cassiano Branco (1897-1970), Jorge Segurado (1898-1990), João Simões (1908-1993), Raúl Rodrigues Lima (1909-1980), etc.

Programa das comemorações dos 150 anos do nascimento de Miguel Ventura Terra

 
© Fernando Jorge

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Municipal de Lisboa, RetrovisorAssembleia da República, Ventura Terra