Restos de Colecção

12 de maio de 2022

Rádio Cine

A sala de espectáculos "Radio Cine" terá aberto pela primeira vez as suas portas em Montemor-o-Novo no mês de Abril de 1935. Propriedade da "Empresa Rádio Cine, Lda,", e com os seus 488 lugares, funcionou no edifício do antigo "Hospital do Espírito Santo e Santo André", até ao final dos anos 50 do século XX. 


Interior do "Rádio Cine"


"Hospital do Espírito Santo e Santo André", onde funcionou o "Rádio Cine"

Nos arquivos da Torre do Tombo, há uma menção existe uma referência à exibição de uma peça teatral de seu nome "João de Montemor", em 1953 : «Peça em quatro actos da autoria de Joaquim Caetano Pinto a ser representada em Montemor-o-Novo na Empresa Rádio Cine por um grupo de amadores.»

No mesmo ano, ainda há referência a outra peça teatral "Trinta Botões" : «Comédia em um acto da autoria de Eduardo Garrido. Peça representada em 1932 na União Social Católica, em 1938 no Sport Cclu Intendente e em 1953 pelo Radio Cine de Montemor o Novo.»

No desdobrável histórico editado pelo Posto de Turismo desta localidade, com o título "Montemor | O | Novo centro histórico | arrabalde" pode-se ler:

«O seu nome deve-se à junção de duas Albergarias: Espírito Santo e Santo André. Aqui funcionou este hospital até 1882, altura em que foi transferido para o Antigo Recolhimento de Nossa Senhora da Luz.
Na Igreja do Espírito Santo, funcionou no séc. XX uma sala de espectáculos, o "Rádio-Cine".»


Montemor-o-Novo nos finais do século XIX



Montemor-o-Novo nos anos 40 do século XX

Por outro lado o "Portal Montemor o Novo" refere:

«Em 1878 o recolhimento foi extinto e as instalações hospitalares anteriormente localizadas no Hospital Espírito Santo e Santo André (actualmente conhecido como edifício Rádio-Cine) foram para aqui transferidas, decorria o ano de 1882, e onde se mantém.
Neste antigo edifício conventual de grandes dimensões, com dois pisos, estão actualmente instalados, para além do já referido hospital, uma farmácia e o Centro de Saúde de Montemor. A igreja á atualmente usada como capela funerária.»

Outras duas colectividades de cultura e recreio de Montemor-o-Novo ...



E a propósito de "Carlista",  no jornal "Diario Illustrado" de  3 de Abril de 1875 ...


Em 17 de Janeiro de 1960, era inaugurado o "Cine-Teatro Curvo Semedo". Com capacidade para 700 espectadores foi projectado pelo arquitecto Raúl Lino (1897-1974), tendo a sua construção sido iniciada em 1925 (!) ... Este cine-teatro veio substituir o "Theatro Montemorense", consumido pelas chamas em Maio de 1922.

A propósito do "Theatro Montemorense", e segundo o "Diccionario do Theatro Portuguez" (1908) da autoria de Souza Bastos ...
«É propriedade de uma companhia edificadora, que o construiu. Começou a ser edificado em 1879 e foi inaugurado pouco tempo depois por alguns artistas de Lisboa, que representaram a comedia: 'A voz do sangue'. Já ali representavam muitos artistas distinctos, entre os quaes: Taborda, Antonio Pedro, Cesar Polla, Augusto de Mello, Posser, etc. Possue vistas de bosque, jardim, praça, diversos gabinetes, etc. O rendimento d'este theatro é de 120$000 réis e a despeza réis 25$000 em cada recita. Tem 13 camarotes de 1ª ordem, 13 de 2ª, 8 frizas, 30 fauteuils, 80 logares de superior e 100 de geral. O theatro aluga-se por 84000 réis em cada recita.»



Dentro da elipse desenhada, o Hospital e os "restos mortais" do "Theatro Montemorense"


"Cine-Teatro Curvo Semedo" por altura da sua inauguração


Interior e exterior actuais



Hospital e Centro de Saúdo, e à sua esquerda (na foto) o "Cine-Teatro Curvo Semedo"

Aqui ficam alguns folhetos ilustrativos da sua actividade cinematográfica e teatral do "Rádio Cine", entre 1946 e 1948, disponibilizados "Arquivo Municipal de Montemor-o-Novo". De referir que escolhi folhetos sobre filmes e peças teatrais portugueses, mas exibiu principalmente filmes americanos da distribuidora "Rádio Filmes, Lda." cuja história pode ser consultada, neste blog, no seguinte link: "Rádio Filmes".


Balcão da "Rádio Filmes, Lda.", na Av. Duque de Loulé em Lisboa








7 de maio de 2022

Antigamente (163)

    

"Mercado de Belém", em 1939. Frente e traseiras

Veículos da "Farmácia do Exército"


1962


Pastelaria e Confeitaria "Cunha, Lda.", na R. de Santa Catarina, no Porto


Guindastes da "Administração Geral do Porto de Lisboa - AGPL"

1 de maio de 2022

Grande Hotel Guadiana

O "Grande Hotel Guadiana", propriedade do industrial conserveiro Manuel Ramirez, foi inaugurado na Avenida da República, em Vila Real de Santo António a 21 de Março de 1926. O seu projecto ficou a cargo do arquitecto Ernesto Korrodi (1870-1944) e datado de 1918, com a designação inicial de "Hotel de Turismo"


"Grande Hotel do Guadiana" na altura da sua abertura



Manuel Garcia Ramirez


Anúncio na primeira década do séc. XX

Para a construção do hotel, demoliu-se a cooperativa de pescas de dois andares planeada pelo Marquês de Pombal. E porque pelo Marquês? ... Vide o  excerto que publico a seguir, sobre o nascimento de Vila Real de Santo António, assim como o postal que indica o edifício em questão.


Dentro da elipse desenhada, o edifício que viria a ser demolido para dar lugar ao hotel



"Grande Hotel Guadiana" em construção


Vila Real de Santo António

Com o título "Algarve tem desde ontem um grande hotel", o jornal "Diario de Lisbôa" noticiava em 22 de Março de 1926 a inauguração:

«Foi ontem inaugurado, em Vila Real de Santo António, um explendido hotel, que representa, além dum grande melhoramento, uma altíssima realização de beleza e de arte, digna de ser admirada não só por todos os algarvioa, como por todos os turistas.

Notícia da inauguração na revista "Ilustração Portuguesa" de  16 de Abril de 1926

O Grande Hotel Guadiana é, sem favor, um dos nossos mais confortaveis hoteis. Tem três andares, belos quartos, com lavatorios fixos e agua encanada, bastantes casas de banho com agua quente e fria. Todos os quartos têm janelas, donde se disfruta uma linda vista do mar. É uma obra que honra o seu proprietarios sr. Manuel Ramirez, a quem os habitantes de Vila Real prestaram uma justa e merecida homenagem.

Para comemorar a inauguração do Grande Hotel do Guadiana, foi oferecido um banquete aos representantes dos jornais de Lisboa e de Sevilha. Ao "toast", usaram da palavra, para enaltecer a obra do sr. Manuel Ramirez, os srs. Roldan e Pego; Manuel de Sousa Coutinho, que demonstrou a necessidade de se repararem as nossas estradas para assim atraírmos os turistas; (...) Jorge Noronha de Oliveira, consul de Portugal em Sevilha, que afirmou que a inauguração do Grande Hotel Guadiana o veiu tirar de embaraços, quando qualquer espanhol lhe perguntava onde havia um hotel bom.»


No dia da inauguração

A gerência do hotel foi entregue ao hoteleiro alemão Conrad Wissmann (1859-1947). Devido à participação de Portugal na Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918), Conrad Wissmann foi expulso do país e todos os seus bens, que incluíam 5 hotéis, foram confiscados pelo governo português que os administrou ruinosamente. No início do século XX o “Grand Hotel Central” era sua propriedade que foi membro honorário da Sociedade de Propaganda de Portugal”. Era, também, proprietário e gerente do “Grande Hotel da Curia”, coadjuvado por seus sobrinhos hoteleiros no Grand Hotel do Bussaco”, e também proprietário do “Grande Hotel Avenida”, em Vila do Conde. 


Conrad Wissmann (1859-1947)

Após o final da Guerra, Conrad regressou a Portugal sem que lhe fossem devolvidos seus bens e arrendou ao Estado o "Grande Hotel da Curia" que fora seu. Terá sido Ernesto Korrodi (responsável pela ampliação deste hotel iniciada em 1925) que o recomendou a Manuel Ramirez, que não tinha experiência hoteleira para gerir esta nova unidade hoteleira.

Segundo notícia do jornal "Correio do Sul" de 24 de Julho de 1927 o "Grande Hotel Guadiana", com os seus 50 quartos, já se encontrava em pleno funcionamento assim como o seu sucursal o Casino-Restaurante "Peninsular" em Monte Gordo. Este Casino viria a dar lugar ao "Casino Oceano" em 1934.

Casino - Restaurante "Peninsular" de Monte Gordo

Segundo o guia "Hoteis e Pensões de Portugal" de 1939, a seguinte referência ao "Grande Hotel Guadiana" :

«O melhor e o mais confortável do Sul do País. Hotel de primeira ordem, em edifício construído para êsse fim. Situado na Avenida marginal do Rio Guadiana e defronte de Ayamonte (Espanha). Quartos com todo o confôrto moderno, tendo alguns com quarto de banho privativo. Quarto de banho em todos os andares, com água quente e fria. Descontos especiais para Famílias, Hóspedes permanentes e viajantes comerciais.  Director: C. Wissmann 

Categoria: 2ª
Quartos:   50

Preços:     
Primeiro almoço:  4$00
Almoço:    12$50
Jantar:     15$00
Diária:    Minimum: 25$00      Maximum: 60$00»

O mesmo guia referia a outra oferta hoteleira em Vila Real de Santo António:

"Café e Pensão Monumental"
"Estalagem 5 de Outubro"
Café Restaurante "As Caves do Guadiana"

O "Grande Hotel do Guadiana", encerra por volta de 1940. Em 1946 continua encerrado. O proprietário era à data Emílio Garcia Ramirez, filho de Manuel Ramirez que em carta endereçada à Câmara Municipal de Vila Real de Santa António, - conforme atesta acta da reunião camarária de 7 de Outubro de 1946 -, culpabiliza as entidades oficiais pela morosidade da reabertura do Hotel.
Em 1947 a Câmara Municipal toma a iniciativa da sua reactivação, procurando o apoio do então "Secretariado Nacional de Informação Cultura Popular e Turismo". Em 1948 é requerido pelos herdeiros de Manuel Ramirez, à Câmara Municipal, um alvará sanitário para funcionamento do Hotel.

Nos anos 60 do século XX o "Grande Hotel Guadiana" fecha as suas portas, e depois de defendida a sua demolição, são iniciadas em 1987 obras de recuperação por parte de uma entidade privada, visando a sua reabertura, que se verificará em 1992 com nova inauguração.


    


Publicidade na "Agenda Pombalina" de 1952




Interiores do hotel depois de encerrado


1950


Etiqueta de Bagagem

Devido às dificuldades financeiras dos herdeiros, o hotel encerra em Outubro de 2007, altura em que é colocado à venda pela leiloeira inglesa "Sotheby's International Realty", que efectiva a venda por 1.1 milhões de euros. Depois de um atribulado processo judicial, o hotel é expropriado e a Câmara Municipal de Vila Real de Santo António propõe  a classificação de Imóvel de Interesse Municipal, que depois de rejeitado pelo IGESPAR vem a efectivar-se em 5 de Abril de 2011.



2007


2009

Em 15 de Novembro de 2018, o antigo "Grande Hotel Guadiana" reabriu as suas portas com um novo nome: "Grand House Algarve" do grupo "Relais & Châteaux". Oferece 30 quartos e suites.






Quanto à empresa conserveira "Ramirez & C.ª (Filhos) S.A.", fundada em Vila Real de Santo António em 1853, pelo pai de Manuel Ramirez, Sebastien Ramirez, como "S. Ramirez", mantem-se como a empresa de conservas de peixe mais antiga do Mundo, em laboração com a sua sede em Matosinhos. No próximo ano comemorará 170 anos .... é obra !!


Sebastian e Manuel Ramirez