1 de Fevereiro de 2011

Fábricas de Cimento Portuguesas

Em 1830, Joseph Aspdin patenteou o processo de fabrico de um ligante hidráulico, cujo método consistia em juntar proporções bem definidas de calcário e argila, reduzi-las a pó e calciná-las num forno, de forma a obter clínquer que era depois moído até se transformar em cimento. O produto resultante, depois de moído, tinha cor e características semelhantes às das pedras da Ilha de Portland, daí ter-se-lhe dado o nome de cimento “portland”.

O cimento “portland”, começou a ser produzido em Portugal em finais do século XIX, por iniciativa de António Teófilo de Araújo Rato. Este empresário representava a segunda geração da empresa lisboeta “António Moreira Rato & Filhos”, fundada em 1840, que se dedicava à importação e venda de materiais de construção, entre os quais o cimento “portland”.

O cimento “portland” é hoje, tal como na altura de Joseph Aspdin, uma combinação química predeterminada e bem proporcionada, de cálcio, sílica, ferro e alumínio, sujeita a um processo de fabrico complexo, rigorosamente controlado e abarcando uma grande variedade de operações.

                          Diagrama das operações unitárias que representam o processo de produção de cimento

                                           

No princípio da década de 1890, após uma fase de estudos, químicos e económicos, tomou a decisão de iniciar a produção desse produto em Portugal, assim, procedeu à compra e aluguer de terrenos em Alhandra, no concelho de Vila Franca de Xira. Em 1892 iniciou-se a construção da fábrica e foi requerido o alvará para a introdução da nova indústria. Essa autorização foi-lhe concedida já no ano de 1894, passando a beneficiar do exclusivo de produção, desde essa data, por um período de 10 anos. A construção da fábrica Tejo foi dada como concluída também em 1894, iniciando a sua produção ainda em finais desse ano. A impossibilidade de reunir interessados para formar uma nova sociedade que explorasse essa nova indústria, determinou que ela fosse levada a cabo no seio da casa António Moreira Rato & Filhos.

Em 1912, na sequência de alguns problemas de ordem técnica e financeira, a família Moreira Rato vendeu a fábrica a uma sociedade anónima, que se tinha constituído para esse efeito, por iniciativa de vários capitalistas do Porto: a Companhia Cimento Tejo.

                                                             Cimentos comercializados em Portugal em 1910

                

Finalizado o período de exclusivo concedido aos proprietários da fábrica Tejo, uma segunda empresa cimenteira se veio instalar em Portugal. Em 1904 foi formada a “Companhia dos Cimentos de Portugal”, sociedade anónima com sede em Bruxelas e com capital social de 1.100.000 francos belgas, o equivalente, segundo a escritura, a 220 contos. Esta sociedade comprou, em Outão, uma fábrica de cimento natural, a fábrica da Rasca, a qual reconverteu para a produção de cimento artificial, tendo iniciado a sua laboração em 1906.


Empresa de Cimentos de Leiria - Cimento “Liz”

A 4 de Julho de 1920, na Gândara (Leiria), era colocada a primeira pedra da futura fábrica de cimento Maceira-Liz, que foi inaugurada oficialmente a 3 de Maio de 1923.

Em 1942, António Champalimaud ascende à administração da Empresa de Cimentos de Leiria (ECL), propriedade do tio Henrique Sommer, que viria a falecer, em 1944, e a deixar-lhe grande parte dos seus bens. Nesse mesmo ano, António Champalimaud ocupa o lugar de director-delegado na Cimentos de Leiria e decide investir na indústria cimenteira em Angola e Moçambique. É então que compra a Fábrica de Cimento Portland. O seu espírito empreendedor expande as fronteiras da marca ‘Liz, chegando ao continente africano já no primeiro ano de sua administração, instalando fábricas e empreendimentos em Moçambique e Angola.

                                    Empresas de cimento do universo da ‘Empresa de Cimentos de Leiria’ em 1957

         

Com o arranque da primeira linha de produção, lançou-se no mercado a marca de cimento ‘Liz’, um cimento do tipo Portland, rapidamente absorvido pelo consumo interno que, reconhecendo a sua qualidade, justificou cinco anos depois a instalação de uma segunda linha de fabrico.
Em todo o processo de fabrico são utilizados avançados meios tecnológicos, introduzidos pela primeira vez em Portugal, como sejam a utilização de prensa de rolos na moagem de clínquer (produto intermédio na produção de cimento) e o sistema de carregamento rodoviário de cimento a granel em regime de "self-service".

Entre 1968 e 1970 entraram em funcionamento duas outras linhas de produção, apresentando como inovação, em Portugal, os fornos curtos com torres de pré-aquecimento e o comando centralizado de todo o processo fabril. Linhas essas que, após remodelação em 1986, são hoje responsáveis pela produção de mais de 1 350 000 toneladas/ano de cimento cinzento. Foi também ali que se deu início a um processo de aproveitamento de pneus usados para a produção de 10% a 13% da energia térmica necessária a cada um dos fornos.

                                                          Vista da Fábrica de Cimento em Maceira -Liz

                                                   

                                       Edifício da Moagem                                     Ciclones do forno de cimento        

                   
                      fotos in: Docomomo Ibérico

                                                           

         

Outro dos domínios de inovação em que a Maceira-Liz se distinguiu foi na produção de embalagens, existindo no seu perímetro industrial, há mais de 50 anos, uma fábrica de sacos de papel com uma capacidade de produção de 40 milhões de unidades/ano, parte da qual é vendida a outras indústrias.

Até à revolução em Portugal,  em Abril de 1974, o Grupo de Cimentos Liz controlava sete fábricas de cimento, com 19 fornos de clínquer em operação, localizados em Portugal, Angola e Moçambique. Destes fornos, três, no momento do seu arranque, foram os maiores fornos do mundo.

Hoje esta fábrica com a denominação de ‘Maceira-Liz’ pertence ao universo ‘Secil’.

De referir que em 1969, António Champalimaud, constitui no Brasil, na região metropolitana de Belo Horizonte no estado de Minas Gerias, a  ‘Cimentos Liz’, na época denominada ‘Soeicom S/A - Sociedade de Empreendimentos Industriais, Comerciais e Mineração’ - para atuar na área de mineração e fabricação de cimentos. Inaugurada no ano de 1976, nos municípios de Lagoa Santa e Vespasiano, a ‘Cimentos Liz’  (Soeicom) inicia as suas atividades e, a partir de então, as cidades passam por um desenvolvimento econômico sem precedentes, despertando para as suas vocações industriais que, anos depois, as transformariam em um dos principais polos fabris do estado de Minas Gerais. Em 2007 mudança da razão social da ‘Soeicom’, que passou a se chamar ‘Empresa de Cimentos Liz’.

Após a morte de António Champalimaud, a 8 de maio de 2004, o controle da ‘Empresa de Cimentos Liz’ é assumido por seu sétimo filho Luís Champalimaud.


“Secil” - Companhia Geral de Cal e Cimento, S.A.

Passaram já quase 80 anos desde a criação da Secil e quase 100 anos desde a instalação no Vale da Rasca, junto à foz do rio Sado, no Outão do primeiro forno para produção de cimento.
Instalada no vale que separa as formações calcárias da serra da Arrábida das formações argilo-calcárias que se estendem até Setúbal, a Fábrica da Rasca dispunha das matérias-primas necessárias e de fáceis acessos por terra e por mar. Factores decisivos para que, no início do século, um pequeno grupo de engenheiros belgas e portugueses se tivessem lançado na construção de uma fábrica de cimento naquele local.

                                                                                        em 1921 …

                                 

Em 1904 é fundada a Companhia de Cimentos de Portugal; instalação da fábrica do Outão em Setúbal que arranca com dois fornos verticais para uma produção de 10 000 t/ano, em 1906. E em 1918

Companhia Geral de Cal e Cimento adquire os terrenos e instalações, que arrenda à ‘Secil - Sociedade de Empreendimentos Comerciais e Industriais, Lda.’.

É criada a marca ‘Secil’ em 1925

Em 1930 é constituída a ‘Secil - Companhia Geral de Cal e Cimento, S.A’., resultante da fusão da Secil com a Companhia Geral de Cal e Cimento e da participação das firmas dinamarquesas F. L. Smidth & Co. e Hojgaard & Schultz A/S.

                                                                      Secil’ , nos anos 60 do século XX

                                   

                                                                                 ‘Secil’, actualmente

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Entre 1930 e 1972 a Secil instala 7 fornos por via húmida (processo de fabrico da altura), aumentando sucessivamente a sua capacidade de produção até atingir 1 milhão de toneladas de clínquer, tornando-se na maior fábrica de cimento em Portugal.

A localização privilegiada da fábrica do Outão permite que tenha aí três cais acostáveis, dotados de meios autónomos de carga e descarga simultâneas. Com o incremento das actividades devido à ampliação da fábrica e instalação de novos fornos, reconheceu-se a vantagem de dispor de uma frota marítima própria para a colocação do cimento pelos principais centros distribuidores instalados em Lisboa e no Porto, além do transporte de carvão para abastecimento dos fornos, tanto mais que a sua localização no estuário do Sado e afastada de qualquer via férrea ou rodoviária o justificava também.

A Secil chegou a ter estatuto de armador até 1986, possuindo alguns navios de transporte de cimento.

                                  Vapor ‘Secil’,  de 1934                                                     ‘Secil Outão’ , de 1964

      

Em 1994 verifica-se a privatização do capital público, no sector cimenteiro; a Secil passa a ser empresa de capital inteiramente privado - Aquisição da empresa CMP, passando a ser detentora das fábricas de cimento ‘Maceira-Liz’ e ‘Cibra-Pataias’.

                      Maceira -Liz num anúncio de 1941                                 Cimentos “Cibra” num anúncio de 1957

      


Companhia “Cimento Tejo” :

Fábrica "Cimentos Tejo" em Alhandra, foi fundada por António Teófilo de Araújo Rato que a 6 de Outubro de 1892 pede o exclusivo do fabrico de cimento Portland artificial , obtendo por Alvará Régio de 24 de Abril de 1894 a concessão da patente. O fabrico do cimento Portland artificial foi lançado em 1894 por António Moreira Rato.

                                                                                            1894

                                 

António de Sommer Champalimaud, em 1950, utilizando de empréstimos concedidos pela Casa Bancária José Henriques Totta, gerida pelo seu sogro, Manuel de Mello, adquiriu, com a ajuda de Salazar, a firma Cimentos Tejo.

O centro de produção fica localizado na Vila de Alhandra, Concelho de Vila Franca de Xira, na margem direita do rio Tejo. Distando cerca de 25 km de Lisboa (para Norte), beneficia de bons acessos rodoviários (através da EN10 e A1), ferroviários (está ligado à linha de caminhos de ferro do Norte através de ramal ferroviário próprio) e marítimos (dispõe de um porto fluvial).

                                                                                             1905

                                                

Associada à actividade da fábrica está a pedreira de calcário do Bom Jesus, situada a cerca de 2 km da fábrica. O centro de produção cobre uma área total de 374 hectares, sendo 346 hectares correspondentes à área dos terrenos da pedreira e 28 hectares relativos à área fabril.

                                 

Em 1931 entrou em laboração o primeiro forno rotativo e 3 anos mais tarde o segundo, ambos a funcionar pelo processo de via húmida.

Em 1959 na nesta fábrica foi instalado o maior forno cimenteiro do mundo ( cento e sessenta e sete metros e meio de comprimento) com a capacidade de produção anual de quinhentas mil toneladas de clínquer.

         

        

                             

Em Maio de 1974 esta fábrica foi nacionalizada, assim como todo o património industrial e financeiro de António Champalimaud ...

Em 1977 com a entrada em funcionamento do forno 6 deu-se início da produção pelo processo de via seca e em 1985 fez-se a reconversão de um forno já existente dando origem ao actual forno 7.
O estatuto da empresa foi alterado em 1991, passando a designar-se ‘CIMPOR – Cimentos de Portugal, S.A.’ e em 1996 o CPA foi integrado na ‘CIMPOR – Indústria de Cimentos, S.A.’

Actualmente com duas linhas fabris de produção em funcionamento (linha 6 e linha 7), a fábrica de Alhandra tem uma capacidade de 2,2 milhões t/ano de clínquer e 2,65 milhões de /ano de cimento e dispõe das tecnologias mais modernas utilizadas pela indústria cimenteira.

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