11 de janeiro de 2011

Estaleiros Navais H. Parry & Son

Em 10 de Junho de 1865, António José Sampaio procede à escritura do aluguer de um pedaço de salgado na Praia da Lapa, em Cacilhas, para aí construir um estaleiro de maiores dimensões que aqueles que possuía nas proximidades da Quinta do Outeiro e no lugar da Mutela. Em 17 de Dezembro de 1872, aquele industrial paga à Câmara Municipal de Almada, pelo foro do referido salgado situado em Cacilhas, a importância de vinte e dois mil e quinhentos réis.

                                                                    Estaleiro e oficinas em Cacilhas

                               

                                                              Sede na Avenida 24 de Julho em Lisboa

                                                         

Durante duas décadas, serão construídas e reparadas naquele estaleiro imensas embarcações e navios de tonelagem variável, em madeira e aço, até que em 31 de Dezembro de 1893, o estaleiro é vendido à firma “H. Parry & Son, Lda.”, por noventa contos de réis, confirmando-se a transacção por escritura de 15 de Julho de 1899.

                                                                                           1900           

                                       

                                                                                             1902

                       

A firma “H. Parry & Son, Lda.” tinha sua sede na Boa-Vista, na Avenida 24 de Julho em Lisboa, possuindo porém umas instalações navais no lugar do Ginjal, junto à “Praia das Lavadeiras”, no sopé do morro em que assenta o castelo de Almada.

Desconhece-se em que condições se instala no Ginjal, mas é um facto que são ali construídas a partir da segunda metade do século XIX, muitas e importantes embarcações, tanto de madeira como metálicas, entre os quais o navio de passageiros “Belém”, lançado à água no dia 25 de Abril de 1864, o primeiro navio com casco em aço a ser construído em Portugal.

          

A partir desta data desenvolve-se uma indústria naval diferente, baseada na construção de embarcações de cascos de ferro, exigindo técnicas diferentes, equipamentos e condições de estaleiro diferentes. É nesta data que a foz do Tejo assume, novamente, um papel fundamental e quase exclusivo no panorama da indústria naval nacional.

                                   

No início do séc. XX acentua-se este papel com a implantação de novos estaleiros na margem Norte e na margem Sul do Tejo, bem como de empresas de pesca de arrasto. Toda esta actividade de construção naval e pesca vai fazendo surgir empresas ligadas à reparação naval, aos aprestos marítimos, etc. ao mesmo tempo que o número de operários ligados a estas actividades cresce. O peso da actividade naval na economia portuguesa era cada vez maior e na foz do Tejo esse peso era muito significativo.

 

          

 

            

No séc. XX outras empresas de construção e reparação naval instalam-se ou reinstalação na margem Sul do Tejo como são o caso do “Arsenal de Marinha ou da “Lisnave”.

                                                            Projecto de ampliação das instalações em 1949

                                 

                                  

Em 2 de Janeiro de 1954, os herdeiros de “H. Parry & Son, Lda.” cederam todos os seus interesses a Jacques de Lacerda, personalidade que tendo sido admitido na empresa em 1 de Setembro de 1922, aos 14 anos de idade, como ajudante de guarda-livros, virá anos mais tarde a assumir a posse plena da empresa.

Em 1972, 51% do capital da firma é vendido ao grupo C.U.F., no qual a família MeIo detinha a maioria do capital social, até que, em 1975, com a Revolução de 25 de Abril  de 1974, o estaleiro é nacionalizado.

                                 

Vista geral dos estaleiros em 1980

A falência é decretada em Maio de 1986, por proposta do Instituto de Investimentos e Participações do Estado, sendo mais tarde arrematada em hasta pública pela Lisnave, pela importância de 245 mil contos. Segue-se o despedimento colectivo dos trabalhadores, o encerramento das actividades e o derrube total das instalações, restando da firma “H. Parry & Son, Lda.” apenas a memória e as docas secas no largo de Cacilhas.

                                                                                           1916

                                

De referir que nesta zona da margem sul do rio Tejo era muito importante a nível nacional na área da construção e reparação navais, pois possuía uma  concentração industrial que integrava no concelho de Almada a “Lisnave”, o “Arsenal do Alfeite”, a “Sociedade de Reparação de Navios”, a “Companhia Portuguesa de Pesca”, o estaleiro “H. Parry & Son”, a “Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau”.

fotos in: Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

10 comentários:

Ricardo Moreira disse...

O edifício da sede ainda existe: http://maps.google.com/?ie=UTF8&hq=&hnear=Lisbon,+Portugal&ll=38.706542,-9.148107&spn=0.000752,0.001206&t=h&z=20&layer=c&cbll=38.706617,-9.1479&panoid=SIVDRyEEmxaJK3o0Megj3A&cbp=12,347.91,,0,-17.77

Anónimo disse...

Meu Deus ja la vai tanto tempo quando sai da H.Parry& Son ( era Maçariqueiro )bons tempos
o pessoal na hora da troca de turno ficava agurdar o apito para sair a correr para tomar banho de agua quente .
Carlos Fernando Alves Mendes
ou (Carlos do Cavalo )
Ou Filho do Batalha .

Carlos oliveira disse...

Fui torneiro mecânico em 1966.
Tempos duros, mas de muita solidariedade. Alguns aprendizes fizeram greve em 1968. Fomos corridos da secção. Mais tarde voltámos.

Anónimo disse...

Caros titulares das (ou intervenientes nas) memórias da "H. Parry & Son", agora que para o cálculo das pensões de reforma é necessária (ou conveniente) conhecer-se toda a carreira contributiva saber-me-ão informar qual era a Caixa de Previdência para a qual descontava o pessoal administrativo desta empresa entre 1968 e 1975?
Obrigado
J.F.

JML disse...

É pena não contarem a história verdadeira do Parry & Son e a dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Nunca falaram de quem levantou o Parry & Son e quem teve a ideia de Construir de raiz os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, onde todo o povo adorava esse fundador, chamava-se JACQUES DE LACERDA e era meu avô.
O 25 de abril foi capaz de dar cabo do Parry & Son e os Estaleiros Navais de Viana do Castelo é o que se vê.

José Leite disse...

Caro JML

Grato pelo seu comentário e pela informação adicional.

Os meus cumprimentos

José Leite

Paulo Marques disse...

Nasci em 1966, as primeiras prendas de natal que recebi, foram dadas pelo H.Parry&son,ou pelas mãos do Srº Jaime Lacerda., pois o meu pai era empregado, desta empresa,e no ano 1981 ingressei no último grupo de Aprendizes., e por esses anos o capital havia sido dividido, entre o estado e o grupo "Melo"., Do que sei e do que me recordo de ouvir, era os empregados desta casa, a falarem com saudade do Srº "Jaime Lacerda", por isso achei importante deixar aqui este pequeno comentário, pois eu trabalhei nesta casa 1981 a 1985, saí antes do fecho, para a empresa onde actualemente trabalho, do "Parry" tenho saudades da camaradagem que nunca mais vivi, nem nunca mais encontrei.
Paulo Marques (Paulinho da Viola)
pauloanmarques@gmail.com

Anónimo disse...

Adorei o texto e os dados que retirei para catalogar o relatório e contas da H. Parry & Son que tenho em mãos. Pena não terem aqui os anos de nascimento e morte desse importante diretor Jacques de Lacerda... Parabéns pelo site fantástico. Vim aqui tirar dados importantes para a minha catalogação. Obrigado, Adriano Silva da BPMP (facebook)

José Leite disse...

Caro Adriano Silva

Muito grato pelas suas amáveis palavras.

Os meus cumprimentos

José Leite

Luis M disse...

Um abraço do António Maçarico!