Restos de Colecção

24 de novembro de 2023

Tátá & Rodrigues, Lda.

Em 1903 era fundada uma retrozaria denominada "Tátá, David & Comandita", na Rua Garrett 53 e 55, em Lisboa. Esta firma era constituída por Jose Julio Tátá e Jacintho Pedro David Neves. A esta firma sucedeu-lhe outra: a "Tátá & Comandita", que em 1914 se transformou na sociedade "Tátá & Rodrigues, Lda.", constituída pelo fundador José Júlio Tátá e Francisco Caetano Rodrigues, que entrou como sócio capitalista e colaborador.

"Tátá & Rodrigues, Lda., Sucr. F. Rodrigues" onde está o funcionário no escadote, em foto de 1951


1908


1910


1916


1920


Interior

«Comerciante experimentado que até então sempre dera provas de notável inteligência e argúcia, Francisco Caetano Rodrigues veio depois a assumir a gerência da casa, de que ficou único proprietário em 1924,» sob a razão social "Tátá & Rodrigues, Lda., Sucr. F. Rodrigues".

Logo nesse ano de 1924 o estabelecimento sofreu obras de remodelação interior e exterior. Em 1937, tendo já alcançado grande prestígio, o seu proprietário tomou de trespasse a loja vizinha, nos 57 e 59, da marca americana "Columbia Graphophone Company", representada pela firma "P. Santos & C.ª, Lda.". Pôs em prática, um vistoso projecto de reconstrução que deu à fachada um aspecto moderno e sumptuoso e aos seus salões de venda um notável ambiente de conforto.

Carro alegórico da "Tátá & Rodrigues, Lda.", no Carnaval de 1927


Na "Semana dos Artistas" em 22 de Janeiro de 1928


As três actrizes no interior da "Tátá & Rodrigues, Lda." na Rua Garrett


Actriz Corina Freire no stand da "Tátá" no Salão de Outono "Voga" em 1928

Dispondo hoje de magníficas e luxuosas instalações, no 'encadrement' apropriado à beleza dos seus depósitos, êste estabelecimento constitui uma excelente lição de energia e clarividência mercantil, pois para atingir o alto nível que disfruta agora, tornou-se necessário que o seu actual proprietário, Francisco Caetano Rodrigues, sacrificasse toda a sua dinâmica iniciativa ao desenvolvimento e solidificação de uma obra começada com excelente êxito e que de princípio foi lisonjeiramente acolhida.» in: "Praça de Lisboa" (1946)

O ramo de retrosaria foi rápidamente alargado à comercialização de chapéus de senhora, ramo em que foi uma das lojas mais reputadas de Lisboa. Para tal foi montada uma loja específica na Rua de S. Nicolau, 73, a qual, anos mais tarde se mudou para a Rua Augusta, 138 -1º andar, por cima da filial de "A Pompadour", denominada "Sucursal Económica" ali estabelecida desde 1934 e com as suas instalações ampliadas em 1957.


"Tátá & Rodrigues, Lda.", na Rua de S. Nicolau



"Tátá & Rodrigues, Lda., Sucr. F. Rodrigues", na Rua Augusta 138- 1º andar


"Tátá & Rodrigues, Lda., Sucr. F. Rodrigues" , na Rua Garrett nos anos 60 do século XX

Fui ver o que se passava com esta empresa e verifiquei que pelo menos até final de 2022, existia com a razão social "Tátá & Rodrigues, Sucessores, Lda.", com sede no mesmo local, Rua Garrett, 53 a 59. Mas actualmente recorrendo ao Google Maps, eis que para não variar ...


fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)

"Chat Noir" - Café Concerto

O café-concerto, brasserie française, e café-teatro "Chat Noir", abriu no início de 1893, na Rua do Alecrim, 23 em Lisboa. Era seu proprietário um francês de apelido Vuatelet. Foi uma « ... casa francesa onde se fizeram grandes pândegas com mulheres.»

"Chat Noir" com a sua tabuleta, à esquerda na foto (no rectângulo a vermelho)


Na revista "António Maria" de 23 de Fevereiro de 1893


No extremo sul do prédio ao lado do carro branco, onde está a tabuleta era o entrada do "Chat Noir"

Em 18 de Novembro de 1881 era inaugurado o que viria a ser considerado o mais importante de todos os cabarets da história, génese do cabaret moderno: "Le Chat Noir". Fundado por Rodolphe Salis (1851-1897) no bairro boémio de Montmartre, em Paris, era um estabelecimento totalmente intimista e informal, ocupando pouco mais de 15 m2. Comportava aproximadamente cinquenta pessoas, que bebiam, fumavam e conversavam, enquanto assistiam a uma série de apresentações artísticas, apresentadas pelos próprios artistas do local, frequentemente acompanhadas ao piano. Era o que se chamava um "café-concerto".


Rodolphe Salis (1851-1897)


Exterior e interior do "Chat Noir em Montmartre - Paris


«Morto Salis, a cerveja e o espirito da rue Victor Massé nunca mais tiveram o sabor que então tinham. E o Chat Noir começou a decahir. Demoliram-lhe as tradições; agora estão a demolir-lhe a casa. Tout passe!» in: revista "Serões" de 2 de Agosto de 1905.

Seria no "Chat Noir" parisiense que em 9 de Agosto de 1889, teria lugar uma homenagem a Raphael Bordallo Pinheiro (1846-1905), numa em soirée oferecida por Rodolphe Salis, fundador e proprietário deste cabaret.

Na revista "Arte Musical" de 15 de Junho de 1907, a propósito dos "Chat Noir" francês e português pode-se ler:

«Ha em Paris um cabaret, que quasi todos os estrangeiros visitam e que se chama o Chat Noir. Nada tem que vêr com o seu defunto (?) homonymo de Lisboa, a não ser por, n'um e n'outro, correr a cerveja a jorros... ; e mesmo assim pode muito bem dar-se que os taes jorros, na lojeca da rua do Alecrim, não passem d'uma figura rethorica um pouco descabellada. (...)
No theatro do Chat Noir o espectaculo é, como se pode suppôr, leve e despretencioso, mas não descamba nas vergonhas artisticas que por cá temos presenciado em tentativas similares.»


Na revista "António Maria" de 15 de Abril de 1893


6 de Agosto de 1893


Na revista "António Maria" de 26 de Agosto de 1893


17 de Março 1894

«Ha uns trinta annos, pouco mais ou menos, havia dois cafés na rua do Alecrim: o café de Paris, defronte do actual Chat Noir, pertencente ao José Maria, que morreu corretor do hotel Alliance, e o café do Hoffmann, n'um primeiro andar junto ao Arco Pequeno.»

Três referências ao "Chat Noir":

Em 1899, no livro "Lisboa d'Outros Tempos" de Pinto de Carvalho (Tinop):

«Ha uns trinta annos, pouco mais ou menos, havia dois cafés na rua do Alecrim: o café de Paris, defronte do actual Chat Noir, pertencente ao José Maria, que morreu corretor do hotel Alliance, e o café cio Hoff- mann, n'um primeiro andar junto ao Arco Pequeno.»

Na revista "A Paródia" de 11 de Fevereiro de 1904 ...

«A sogra do Conselheiro Falhado invectiva seu genro por motivos de privação domestica, que trazem inconsolavel sua pobre filha.
-O senhor é um perfido ! O senhor é um estroina! O senhor, na sua edade e na sua posição, não devia sair de casa á noite!,
- Mas ... ,
- Aqui não ha mas; nem meio mas! Deixe-se de forças ! O senhor gasta tudo quanto tem com as pecoras do Chat noir e depois volta para casa sem trazer sequer com que occorrer aqui ás primeiras e mais sagradas necessidades ... »


Ambos os anúncios são de um programa do "Theatro Nacional D. Maria II" de 5 de Maio de 1894



11 de Abril de 1897

No livro "Almas Femininas" de Maria O'Neill, de 1917 ...

«- São vulgares, mesmo nos homens mais sérios, estas verduras loucas, proprias dos poucos annos. A's vezes acompanham-nos durante toda a vida; mas o mais natural é pôrem-nas ode parte ao encarar a existencia pelo lado sério e pratico.
- E é esse o caso de Jorge?
- Assim o creio. Tinha uma d'essas ligações passageiras com uma hespanhola elegante e graciosa, que encontrou n'um café que ahi ha, chamado o Chat Noir. Ella cançou-se de o aturar e deixou-o.»


1900


Última referência que encontrei ao "Chat Noir", em 1904

O "Chat Noir" encerraria em 1905 e seria substituído pela "Cervejaria Alemã". Em 1943, já era o "Alecrim Bar".


Janeiro de 1943

Entretanto em 25 de Outubro de 1913, tinha surgido o seguinte artigo na revista "A Construção Moderna e as Artes do Metal":


fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de Lisboa, Le Chat Noir Restaurant

22 de novembro de 2023

Hotel de L' Europe, Hotel Gibraltar e Hotel Universal

O "Hotel de L'Europe", ou "Hotel Europa", instalou-se entre 1840 e 1845 no Palácio Barcelinhos, no Chiado, em Lisboa. Vinha substituir o afamado "Hotel dos Embaixadores" que ali tinha funcionado, até então. Este palácio era propriedade do barão de Barcelinhos, Manuel José de Oliveira, um negociante e proprietário abastado, conhecido por Manuel dos Contos, que ali tinha instalado a sua residência.

1845


"Hotel de L'Europe" em foto de 27 de Maio de 1908, no edifício dos "Grandes Armazéns do Chiado"


1896

No tocante a estabelecimentos de hospedagem - «na opinião do sr. Miguel Pais o melhor destino que podia ter o Palácio Barcelinhos» - foram quatro os que aí se instalaram: o "Hotel dos Embaixadores" (anterior a 1840/45); o "Hotel de L'Europe" (a partir de 1840/45), ambos com entrada pela Rua Nova do Carmo, 16; o "Hotel Gibraltar" (a partir de 1874); e o "Hotel Universal" (a partir de 1882) . Estes dois últimos com entrada pelo nº 7 da Rua Nova do Carmo, frente ao Chiado.

O "Hotel de L'Europe" (com entrada pelo n.º 16 da Rua do Carmo), sucedeu ao "Hotel dos Embaixadores". Consegui confirmar que já lá se encontrava em 1845 e perdurou até 1912, data em que os "Grandes Armazéns do Chiado" alargaram as suas instalações à essa ala (1º andar para a Rua do Carmo) do palácio. Quando do grande incêndio, em  1880 que destruiu a ala sul do hotel, a gerência pertencia a Madame Radegonde Gachet. Mais tarde a gerência ficou entregue Ferdinand Piper, e, por falecimento deste, o negócio foí administrado pela viúva.

Entrada do "Hotel de L'Europe" na Rua Nova do Carmo em 1898 (tabuleta no 1º andar)


1853

«Ali se hospedaram as autênticas celebridades que deliciavam o povo da capital - o povo abastado ou empenhado, entenda-se bem. Ali se alojaram com confortos abaciais algumas das primas-donas de gargantas cristalinas e de exigências arruinadoras, tais como a Devriés, a Scalchi, a Lolli. Ali se instalou pela segunda vez que veio a Lisboa, a 10 de Abril de 1888, a refulgente imperatriz da cena, a genial Sarah Bernhardt, o seu grego amante Damala e o seu enorme dogue, um teátrico cão dinamarquês, capaz de amedrontar Nelson quando bombardeou Copenhague. Todas essas personalidades em voga toma,am posiçoes academiais nas respectivas janelas a fim-de serem admiradas convenientemente, respeitosamente e artisticamente.
Os jornais da época acrescentavam que a célebre artista, que durante a viagem enchera um vagão dos caminhos de ferro com a sua enorme bagagem, se tinha instalado numa suite de 5 salas. Os espectáculos foram pouco concorridos, não só porque o empresário havia faltado a compromissos, como também porque os bilhetes eram muito caros - uma libra cada fauteuil.»


1898

O "Hotel Gibraltar" ocupou o andar nobre ao longo da ala do Palácio Barcelinhos da Rua Nova do Almada, com entrada pela porta principal, nº 7 da Rua Nova do Carmo, frente ao Chiado. Anteriormente, estivera num 2.º andar do n.º 10 da Travessa de Estêvam Galhardo (que em 1885 mudou a denominação para Rua de Serpa Pinto), pelo menos de 1864 a 1874, sendo seu proprietário José António da Silva, o fundador e proprietário do conhecido e tradicional "Restaurant Club" (conhecido por "Restaurante Silva"), inaugurado em 3 de Dezembro de 1874 mesmo ao lado, no nº 12-1º andar. O hotel pertenceu depois ao dono da fábrica de cervejas da "Trindade", fundada em 1836 pelo galego Manuel Moreira Garcia.

"Handbook for Travellers in Portugal" de 1863. "Hotel Gibraltar" e "Hotel Universal", ambos, ainda na Rua Estevão Galhardo

Já nas novas instalações no Palácio Barcelinhos, e em sãs convivência e concorrência com o "Hotel de L'Europe" (instalado na ala da Rua Nova do Carmo), o "Hotel Gibraltar" tinha uma sala de jantar, com mesa para 180 talheres e a antiga sala de baile, que não foram atingidas pelo incêndio de 1880. Este incêndio  danificou todos os quartos do lado nascente, onde estavam seis hóspedes de nacionalidade estrangeira, membros do "Congresso Antropológico e Literário", e que tinham sido inauguradas em 20 de Setembrodo mesmo ano. Foi das janelas do "Hotel Gibraltar" que. na noite de 31 de Outubro de 1878, na cidade de Lisboa, se fez a primeira experiência de iluminação eléctrica do Chiado, com máquinas e candeeiros cedidos por El-Rei D. Luís.

24 de Julho de 1874

A sempre contundente, Maria Rattazzi (Marie Bonaparte-Wyse 1831-1902) no seu livro "Portugal de Relançe" de 1881, comentava ...

«O Hotel Gibraltar, ainda no Chiado, tem a apparencia exterior de uma egreja; foi-o n'outros tempos; a escada é magnifica, os quartos grandes, arejados; a cozinha é que é execravel, as camas ainda peiores do que a cozinha, parecendo além d'isso que todas as baratas do paiz escolheram este hotel para seu domicilio. Os preços são mais elevados do que os dos hotéis de primeira ordem o não tem vista para o mar.
Dedicam-se ahi especialmente aos criados, gratificam-os com mimos, dao-lhes café três vezes ao dia, como o melhor meio para se insinuarem no espirito dos anos. Processo realmente engenhoso. O hotel Gibraltar é geralmente frequentado pela tribu nómade dos 'commis voyageurs'. Acceitam-se hospedes permanentes. Ha mesmo alguns que se conservam alli desde a abertura do estabelecimento, tendo arranjado um pequenino lar capitonado.
Um pavoroso incêndio devorou ultimamente os principaes aposentos do hotel Gibraltar, fazendo uma espécie de aucto de fé ás minhas implacáveis companheiras de quarto, as senhoras baratas, que, felizmente, foram as únicas victimas.»


Março de 1875

Madame Rattazzi que, em 19 de Junho de 1879, era tema de notícia no satírico "O Antonio Maria" de Raphael Bordallo Pinheiro (1846-1905) ...

«Madame Rattazzi chegou a Lisboa antehontem ao romper da aurora, alojando-se com a sua comitiva no hotel Gibraltar.
Parece que s.exª ao escolher este hotel, de nome symbolico, teve uma intenção reservada. Quiz dar a intender aos que dão demasiado credito ás chronicas parisienses, que tambem, uma vez por outra, não lhe desagrada ser inconquistavel.
Metteu-se pois em Gibraltar.»


1880

Como já foi referido o "Palácio Barcelinhos" foi alvo alvo de um incêndio em 29 de Setembro de 1880 (ver foto anterior): «O sinistro acontecimento teve início num pequeno prédio que ficava anexo na vertente sul, correspondendo aos n.º 102 e 104 da Rua Nova do Almada, alugada a Vitorino Francisco Moreira Vidal, dono de um armazém de móveis e à firma Lence & Viúva Canongia, com casa de pianos para venda e aluguer. As labaredas propagaram-se à propriedade que lhe ficava contígua pelo lado da Rua do Crucifixo, que servia de palheiro ou cavalariça, alastrou até grande parte do palácio e abrangeu as instalações dos Hotéis Europa e Gibraltar, vários estabelecimentos comerciais e o atelíer do artista madeirense J. Camacho, fotógrafo da Casa Real, muito conhecido e conceituado em Lisboa, onde faleceu em 1898.»


O incêndio no "O António Maria" de Raphael Bordallo Pinheiro

O hotel mais célebre de todos, instalado no Palácio Barcelinhos, foi o "Hotel Universal". Os seus princípios são anteriores a 1850, quando começou como simples hospedaria, na Travessa Estevam Galhardo, nº 23, estabelecida por um brasileiro, de nome Francisco Leandro Alves, ao qual sucedeu Augusto Lívio de Mendonça. 

1863

Porém, a partir de 1852, quando tomou conta do negócio o célebre culinário João Baptista Podestá, italiano de origem, muito enaltecido e distinguido por Bulhão Pato, é que este hotel criou fama, ao receber personalidades de grande destaque, principalmente D. João de Menezes, D. Luís da Câmara, João José Vaz Preto, José de Melo Giraldes, César Poppe, Onofre Cambiazzo, Simão Gattai, Dr. Tomás de Carvalho, Dr. José de Avelar, Palmeirim, Bento da França, Júlio César Machado, Luís de Campos, Freitas de Oliveira, Galiazzo Fontana (dono do armazém de pianos "G. Fontana & C.ª ") e até, de vez em quando, apareciam Alexandre Herculano, Caetano Fontana e Eugénio Mazoni que deliciavam muitas vezes a assistência com solos de harpa e de piano.


1882

Duas referências literárias a este hotel: 

«José Augusto falleceu a 24 de setembro de 1854, em Lisboa, na hospedaria da D. Luiza, na travessa de Estevam Galhardo, onde, annos depois, se estabeleceu o Hotel Universal.» in: "O romance do romacista; vida de Camillo Castelo Branco" de Alberto Pimentel (1890).

«Em dezembro d'esse anno de 1859 foi que Manoel Pinheiro Alves, ao tempo hospedado em Lisboa no Hotel Universal, mandou procuração ao advogado portuense Alexandre da Costa Pinto Coelho de Magalhães, ali geralmente conhecido por «dr. Alexandre», para que requeresse em juizo querella contra D. Anna Augusta Plácido e Camillo Castello Branca a fim de serem punidos na forma do artigo 401 do Código Penal.» in: "Os amores de Camillo: dramas intimos colhidos na biographia de um grande escriptor" de Alberto Pimentel (1899).

Depois de deixar a classificação de hospedaria, o "Hotel Universal" recebeu a formosa cantora do "Real Theatro Nacional de S. Carlos", Elisa Hensler, a quem foi concedido o título de condessa de Edla, quando do seu casamento, em 1896, com o rei D. Fernando II de Saxe-Coburgo-Gotha. Antes do consórcio - conta Tinop - a insinuante artista vienense saía do hotel, noite alta, para se encontrar com o futuro marido - às vezes com o trajo de cena - que a esperava num trem no Largo da Abegoaria.

Onde esteve instalado o "Hotel Universal", a seguir ocupado pelo "Grande Hotel Borges", a partir de 31 de Outubro de 1882 (à esquerda na foto de baixo)

O "Hotel Universal", viria a mudar-se da Travessa de Estêvam Galhardo para o Palácio Barcelinhos - instalações que o "Grande Hotel Borges" aproveitou para aí se mudar, em 31 de Outubro de 1882 -, em 20 de Maio de 1882, ocupando o lugar do extinto "Hotel Gibraltar", após o incêndio de 30 de Setembro de 1880. Foi a partir de então - segundo Matos Sequeira - que acabaram no "Hotel Universal" as reuniões literárias e os jantares elegantes.

20 de Maio de 1882


O seu proprietário, o italiano João Baptista Podestá, muito simpático e acolhedor e altamente estimado, viria a falecer em 1886, após já ter perdido a sua mulher, «a sua dedicada companheira, que atraía, com singular poder, quantos a conheciam, não só pela graça da fisionomia como pela educação e inteligência».


2 de Julho de 1882

Este hotel era procurado assiduamente por Camilo Castelo Branco (1825-1890), que lá esteve pouco tempo antes do encerramento, e antes de ter posto termo à vida, na sua casa de S. Miguel de Seide, a 1 de Junho de 1890. O romancista chegou a Lisboa na manhã de 20 de Outubro de 1887, como noticiaram os jornais, e instalou-se no seu quarto preferido, no 1º andar do lado da Rua Nova do Almada. Voltou em 22 de Novembro do ano seguinte, continuando atormentado pelo sofrimento causado pela cegueira, sendo infrutíferas as consultas aos melhores oftalmologistas. Camilo também se instalava no "Grande Hotel Borges". e, por último, em 1889, no "Hotel Durand", do Largo Barão de Quintella.



Escadaria e Salão Nobre que tinham sido do "Hotel Universal" em tempos, e nesta foto já parte integrante dos "Grandes Armazéns do Chiado"


Entrada original do "Hotel Universal", aqui  já dos "Grandes Armazéns do Chiado" e muito pouco alterada


1888

Depois dos "Grandes Armazéns do Chiado" terem alugado as antigas instalações do "Hotel Universal" no Palácio Barcelinhos, este reabrira, em 1897, na Rua Garrett 37, esquina com a Rua Ivens 72, sendo propriedade da firma "Ruiz & Ferreira". Mas em 1900 já tinha mudado de dono e denominação: era "Hotel do Chiado" e propriedade de Rodrigo Augusto Placido Garcia. Entretanto, e também em 1897 abria outro "Hotel Universal" na Rua de S. Nicolau, 13 e propriedade de António Dias Ferreira...


1897


1 de Outubro de 1897


22 de Maio de 1898

Só faltava a foto deste hotel ... em 1913

Bibliografia: revista "Olissipo" - Boletim Trimestral do Grupo Amigos de Lisboa, nº 87 de Julho de 1959.