Restos de Colecção

16 de outubro de 2022

1º Salão Automobilista do Porto em 1914

O "1º Salão Automobilista do Porto", e de Portugal, realizou-se no "Palácio de Cristal", na cidade do Porto, entre 14 e 21 de Junho de 1914. Foram organizadores deste evento, os «spostsman» Cesar Ramos e Romualdo Torres, apoiados pelo "Automóvel Club de Portugal", fundado em 15 de Abril de 1903.


A ideia para a sua organização surge em 1913, após a realização do primeiro "Circuito do Minho". No final desta prova desportiva, os veículos que nela participam foram expostos na nave central do  "Palácio de Cristal" do Porto. 

"Circuito do Minho" na revista "Illustração Portugueza" de 30 de Junho de 1913

Esta iniciativa tem um enorme sucesso. A grande afluência de público entusiasma os organizadores da prova, que convidam o gerente do "Palácio de Cristal" e o "Automóvel Club de Portugal" a organizar uma exposição anual de fabricantes de automóveis.



Na revista "Illustração Portugueza" de 15 de Junho de 1914

Neste "1º  Salão Automobilista do Porto", inscreveram-se, através dos seus representantes/importadores em Portugal, quarenta e seis marcas de automóveis, sete de motociclos e nove empresas de acessórios, incluindo gasolineiras e pneus.

O jornal "A Capital", em17 de Junho de 1914 noticiava:

«É a mais importante manifestação do automobilismo até hoje realizada em Portugal e evídencía o progresso d'essa industria - Não é necessario ir a Londres e Paris para vêr um Salon, completo e brilhante; possue-o, sem duvida o Porto



Excedeu as previsões mais optimistas e malogrou todas as difficuldades mantidas por aquelles que, na nossa terra, "não fazem nem deixam fazer", o Salão Automobilista do Porto, inaugurado no Domingo ultimo e que dura até ao Domingo proximo. è a primeira exposição de automoveis e de industrias acessorias que se effectua em Portugal e, para começo, conseguiu egualar as melhores exposições dos paizes estrangeiros, tanto pelo valor material que reune, como pela modelar organização que presidiu á disposição dos mostruarios e no embelezamento artístico das naves do Palacio de Cristal.



O exito, no conjuncto, não se deve, exclusivamente, ao trabalho intelligente dos "sportsmen" portueneses Cesar Ramos e Romualdo Torres: deve-se ao esforço de todos, á sua boa vontade e, um pouco, áquelle justificado espirito commercial, que torna os "officiaes do mesmo officio" rivaes, ciosos de que qualquer faça melhor e procurando sempre fazer mais que os outros. (...)

(...) ha um mustruario importante e gigantesco, de tudo quanto o automobilismo inventou e descobriu de pratico. Chega-se á minucia dos objectos que andam ligados aos progressos do automobilismo, desde os pharoes, ás peças do motor, accumuladores, dinamos, sereias, embalagens do turismo, caixas  de embalagem dos pneus. Em resumo, o comprador tem por onde escolher e se decidir, diante de chassis e carros "carrossados" de 46 marcas differentes, as mais celebres do mundo, as da industria americana, as da industria europeia, aquellas que manteem uma fama mundial de conquistadores da estrada, aquellas que obtiveram a consagração dos "carros reis" do turismo.»

Foi neste Salão que, foi apresentado, pela primeira vez, o primeiro automóvel português o "ATA - Ateliers Teixeira Automobiles" desenvolvido pelos irmãos Dias Teixeira, - que no final do século XIX, já comercializavam de bicicletas "Raleigh", e, em 1903, já eram representantes da "Fiat" para zona norte do Porto - que tinham chegado à fase de produção com um modelo terminado e pronto a ser comercializado. Mas não foi em Portugal que este automóvel nasceu, mas sim na Bélgica. é que os irmãos Teixeira, «desde muito cedo alimentaram a esperança de construir um automóvel popular português, mas rapidamente chegaram à conclusão que tal tarefa, devido à falta de infraestruturas, matérias-primas e mão-de-obra qualificada, era impossível no nosso país.» Mas não desistindo do seu ideal os irmãos, decidiram transferir-se para a Bélgica.


Automóvel "ATA" em exposição e um dos irmãos Dias Teixeira

Apesar de terem vendido 25 automóveis "ATA", no "1º Salão Automobilista do Porto" de 1914, só 3 seriam importados e entregues aos seus compradores, devido ao eclodir da "I Grande Guerra Mundial" (1914-1918). A produção destes automóveis ficou por aqui.

O jornal "A Capital", em 20 de Junho de 1914 comentava:

«Durante a semana o Salon realizou pequenas festas, que serviram de laços para estreitar a camaradagem entre expositores, clientes, jornalistas e todos aquelles que contribuiram para o exito enorme, indiscutivel e brilhante do 1º Salão Portuguez de Automobilismo, onde se viram os mais engenhosos productos e realizações praticas das industrias americana e europeia.

O chá realizado na quinta feira foi um motivo para uma reunião elegantíssima, concorrida de milhares de pessoas, nas quaes avultava o elemento feminino, a melhor "roda" do Porto, garrido e brilhante nas suas vistosas toilettes. Na sexta feira, os srs. Romualdo Torres e Cesar Ramos tiveram um rasgo simpathico, permittindo a entrada no Palacio aos chauffers profissionaes, os "encartados", de praça, de taxis.»


A eclosão da I Grande Guerra Mundial (1914-1918), em 1914, vem impedir a realização do segundo evento (já planeado para 1915) nos anos que se seguem. A partir de 1922, e até ao início da II Grande Guerra Mundial (1939-1945) em 1939, o Salão Automóvel do Porto viria a ser organizado e realizado, quase todos os anos no "Palácio de Cristal".

Lembro que o "1º Salão Automobilista do Porto", não foi reconhecido oficialmente. Considera-se oficialmente como o 1º Salão Automóvel realizado em Portugal, o que teve lugar no "Coliseu dos Recreios" de Lisboa, entre 4 e 13 de Julho de 1925, e organizado pelo "Automóvel Club de Portugal". 


"I Salão Automóvel de Lisboa" no "Coliseu dos Recreios" em Julho de 1925

Nota: Poderá consultar neste blog o "I Salão Automóvel de Lisboa" nos seguintes links: "I Salão Automóvel de Lisboa (1)", "I Salão Automóvel de Lisboa (2)

12 de outubro de 2022

"Café Império" em Lisboa

O actual "Café Império", foi inaugurado 14 de Outubro de 1955, com a denominação de "Café do Império", três anos após a inauguração do cine-teatro "Império", ocorrida em 24 de Maio de 1952 e em cujo edifício foi implantado o café. O edifício construído pelo empreiteiro Herculano José Pinheiro, era propriedade da "Empresa Cinematográfica Império, Lda.", e o café propriedade do comerciante e industrial  Américo dos Santos.


Fachada do "Café do Império" e loja de máquinas de escrever "Olympia" , ao lado


"Café Império" e loja de máquinas de escrever "Olympia", em 1963

O edifício do "Império" foi inicialmente projectado pelo arquitecto Cassiano Branco (1897-1970), em 1945, sob um traço de arquitectura modernista, mas não viria a ser ele o responsável pelo projecto final, devido a problemas de saúde. Assim de acordo com José Augusto França (in "Arte em Portugal no séc. XX", pág. 558) a solução arquitectónica final foi da responsabilidade do arquitecto António Varela (1902-1962) , tendo posteriormente havido ainda outras intervenções finais de outros dois arquitectos, como refere Augusto França: «finalmente remediadas por Raul Chorão Ramalho e Frederico George».

Alçado lateral (corte) da Avenida Almirante Reis onde se observa a galeria do futuro Café

Inicialmente, o projecto já contemplava um «Café, Bar-Dancing», como é referido na página da revista "Construção Civil e Obras Públicas" de 1950, e que reproduzo em seguida. O acesso a este café era feito a partir dos foyers do cine-teatro "Império". Em 1955 é aprovado o projecto de alteração, da autoria do arquitecto Raúl Chorão Ramalho (1914-2002), do «Café, Bar-Dancing», suprimindo os acessos pelos foyers e passando a sua entrada a ser exclusivamente pelo exterior do edifício. O projecto contemplou, ainda, a organização e ampliação dos serviços de cozinha e copa, a supressão de um corredor previsto ao longo da parede sul da cave, e modificações determinadas pelas soluções decorativas da autoria do escultor Joaquim Martins Correia (1910-1999) e do pintor Luís Dourdil (1914-1989).

As mesas e cadeiras foram fornecidas pela "Metalúrgica da Longra, Lda.", fundada por Américo Teixeira Martins em 1920, em Longra-Felgueiras, e encerrada, definitivamente, em 1993.

«É o local ideal para se tomar café, para se conversar, podendo ser frequentado pelos dois sexos. Um verdadeiro salão confortável, largo, arejado, onde se está bem, já convivendo, já criando um relativo isolamento. (...)
Devemos também dizer que o luxuoso Café do Império dispõe de um magnífico salão de chá, bar, pastelaria, bilhares - estes separados das dependencias do café. Não lhe falta sequer a mais moderna aparelhagem de refrigeração e aquecimento, que lhe dão uma temperatura agradável em qualquer estação do ano.»  in: "Diario de Lisbôa"

Neste café-restaurante, muitos espectáculos foram apresentados, e neles actuaram, nas décadas de 50 e de 60 do século XX, artistas como Madalena Iglésias, António Calvário e Artur Garcia.

No ano de 1955, outros dois grandes, e famosos, café-restaurantes de Lisboa, foram inaugurados: o "Monumental" e o "Monte Carlo", ambos já desaparecidos.




Conjunto escultórico de Joaquim Martins Correia

O "Café Império" esteve encerrado, entre Maio e Agosto de 2006, reabrindo em 26 de Agosto do mesmo ano, após uma polémica que envolveu a "Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)", que ao adquirir o edifício accionou o direito de preferência do trespasse do café, e encerrou o estabelecimento, gerando a contestação dos 18 funcionários, de vizinhos e da Câmara Municipal de Lisboa, devido à possibilidade de o café ser transformado num local de culto. A "IURD" ainda iniciou as obras, e procedeu a um despedimento colectivo, mas estas foram embargadas pela autarquia. A igreja acabou por trespassar o "Café Império" à antiga arrendatária, a empresa de restauração "Oraboni & Ribeiro, Lda.", que manteve os mesmos funcionários.






Além do restaurante, o "Café Império" tem ainda um espaço de pastelaria, entre outros. Nele ainda se pode assistir a espectáculos de música ao vivo, com artistas convidados, entre as 23h00 e as 02h00.


  

                                                    2016                                                                              2017

9 de outubro de 2022

Nitratos de Portugal

A fábrica de adubos químicos da empresa "Nitratos de Portugal, S.A.R.L.", foi inaugurada em 15 de Junho de 1961, no Sítio dos Salgados, na freguesia de Vialonga - Alverca do Ribatejo. O projecto foi da responsabilidade dos engenheiros Vasco Cambournac - silo de nitrocalamónio e edifício de ensacagem (1960) - Joaquim Campos dos Santos Vizeu e José Manuel Tavares da Fonseca - silo de nitrolusal (1967).

O complexo fabril da "Nitratos de Portugal, S.A.R.L." - para produção, fundamentalmente, de adubos azotados, nitrolusal, nitrocalamónio e nitrato de cálcio - com cerca de 30 hectares, foi construído nas antigas várzeas do rio Tejo e implantado entre duas importantes vias de comunicação: a "Auto-Estrada Lisboa-Vila Franca de Xira", inaugurada em 28 de Maio do mesmo ano, e a linha de caminhos-de-ferro do Norte. A construção ficou a cargo da empresa "Construções Técnicas, Lda.".






A empresa "Nitratos de Portugal, S.A.R.L.", resultado da fusão de três empresas do sector, tinha sido criada em Agosto de 1957, como parte do programa de desenvolvimento do grupo "SACOR", visando a produção de adubos, fundamentalmente azotados, produzidos a partir do amoníaco fabricado por uma outra empresa do grupo, a "Sociedade Portuguesa de Petroquímica, S.A.R.L.". Esta empresa foi, também, fundada em 1957, e instalada na Matinha, com o objectivo a criação de um projecto de produção de gás de cidade, amoníaco e hidrogénio. Começou a produzir em 1961.

Diagrama processual da Linha de Gás de Síntese da "SACOR"

A capacidade de síntese de amoníaco na unidade de produção da "Sociedade Portuguesa de Petroquímica" era de 180 ton/dia. Após a produção de amoníaco, este era enviado para a empresa "Nitratos de Portugal", através de um pipeline com cerca de 18 kms. de extensão. Os produtos finais obtidos nesta unidade eram o nitrocalamónio e o nitrato de cálcio.

Projecto do pipeline, em 1966

A área fabril integra uma diversidade de edificações relacionadas com as exigências desta indústria química e com o universo social, como refeitório, vestuários, balneários e administração. Destaque para os dois grandes silos de nitrocalamónio e de nitrosal, em forma oblonga e de análogas soluções construtivas baseadas num sistema porticado de arcos. Esta solução, bem como a do silo de amoníaco da "CUF - Companhia União Fabril", recordam experiências construtivas inovadoras dos hangares parabólicos para aviões no aeroporto de Orly (1921-1923) da autoria do engenheiro Eugène Freyssinet.




1 de Dezembro de 1963


Silo de nitrocalamónio e edifício de ensacagem (à esquerda) e silo de nitrolusal (à direita)

Os nitratos (NO3) são constituintes azotados cuja presença é natural no meio ambiente em consequência do ciclo do azoto. Representam uma fonte de azoto essencial para o crescimento normal das plantas, uma vez que, cerca de 90% do azoto requerido por estas se apresenta na forma de nitratos. A sua utilização promove o crescimento mais rápido dos produtos hortícolas e o obter de folhas mais vistosas e de maiores dimensões. Como senão, os nitratos embora de grande importância por serem essenciais à formação da biomassa vegetal e animal, podem assumir o papel de contaminantes químicos veiculados pelos vegetais e pelas águas superficiais ou subterrâneas, destinadas à produção de água para consumo humano.

1915

Célebre ficou o "Nitrato do Chile", pela sua publicidade agressiva, com painéis em azulejo pelas estradas de Portugal. A sua importação e representação exclusiva, para Portugal foi entregue à "CUF - Companhia União Fabril".

Painel de azulejos


Cartaz de 1925


1925


Em 1972, a "Nitratos de Portugal S.A.R.L." iniciou a sua actividade noutro campo dos produtos químicos para a agricultura - a formulação de pesticidas de variados tipos, - actividade que tem vindo a desenvolver, paralelamente ao tratamento do enxofre produzido pela "Sacor".

Quanto a vias de comunicação, as instalações fabris são servidas por uma estrada nacional, ou auto-estrada, e pela linha férrea, com ramal próprio ligado à linha do Norte. 

Capacidade de Produção (em 1973):

Adubos  -  260 000 t/ano 
Enxofres  -    6 000 t/ano
Pesticidas  -     600 t/ano
Ácido nítrico concentrado  -  10 000 t/ano


1963


1967

Em 22 de Agosto de 1975, a empresa "Nitratos de Portugal, S.A.R.L." é nacionalizada juntamente com outras duas empresas do sector da produção de adubos: "Amoníaco Português, S.A.R.L." e a "Sociedade Portuguesa de Petroquímica, S.A.R.L.". 

Dois anos mais tarde, o Decreto-Lei 530/77 de 30 de Dezembro criava a "Quimigal" - «empresa única integrando patrimónios das empresas nacionalizadas CUF, Amoníaco Português e Nitratos de Portugal, ficando excluída da empresa única a Sociedade Portuguesa de Petroquímica, cujo relançamento se orientará para os ramos da produção de gás de cidade e de petroquímica». Pelo que foi instituída a empresa pública "Química de Portugal, E.P.", abreviadamente denominada por "Quimigal".

1973


Postal informativo

Em 1997 e resultante da privatização da "Quimigal Adubos" e com a integração das actividades de adubos e sementes da "Sapec Agro", nasce a "ADP - Adubos de Portugal, S.A.". Dois anos depois, em 199, o "Grupo José de Mello", até então detentor de 50% das acções compra os restantes 50% ao "Grupo Sapec", tornando-se único accionista da empresa, através da holding "CUF".


Em 2009 o grupo espanhol "Fertiberia, S.A.", adquire a "CUF - Adubos de Portugal, S.A." e altera a denominação social para "ADP Fertilizantes, S.A.". Nesse ano empresa contava com 416 colaboradores. Em Portugal, o grupo espanhol detém ainda duas outras empresas associadas à ADP: a "Nova AP - Fábrica de Nitrato de Amónio de Portugal", que tem sede no Lavradio e emprega, de acordo com a empresa, 60 colaboradores; e a "SOPAC - Sociedade Produtora de Adubos Compostos" (antiga Sapec Adubos), com sede em Setúbal, e capacidade de produção de 400 mil toneladas por ano e que emprega 96 colaboradores.  



Fotos via Google Maps (2022)

Bibliografia:

Dissertação para o Grau de Mestre em Engenharia e Gestão Industrial "Análise Estratégica do Cluster Petrolífero/Petroquímico Português - O Passado, o Presente, eo Futuro" - Daniel da Marça Teixeira - IST - Outubro de 2010

fotos in: Hemeroteca DigitalBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Horácio Novais), Biblioteca Nacional Digital