Restos de Colecção

11 de julho de 2021

"Transpraia" na Costa da Caparica

O pequeno comboio "Transpraia" ligando a Costa da Caparica à Fonte da Telha, foi inaugurado em 29 de Junho de 1960. Era sua proprietária a firma "Transpraia - Transporte Recreativos da Praia do Sol, Lda." fundada em 8 de Março de 1960 pelos dois industriais Canas Cardim e Casimiro Pinto. Este último viria a ficar como administrador.


"Transpraia" no dia da sua inauguração

A história do apelidado comboio miniatura ou comboiozinho "Transpraia" remonta a um periodo em que a Costa da Caparica não era ainda um destino de eleição e conhecida um pouco por todo o mundo, pelos seus belos areais. E esse é o principal facto que origina o aparecimento deste emblemático marco turístico. Nos anos 50 surgem dois industriais da região, Canas Cardim e Casimiro Pinto que decidem apostar no turismo.

Surge assim o primeiro projecto para instalar uma linha de caminho de ferro ao longo do areal, ligando a Costa da Caparica ao Cabo Espichel, numa distância superior a 20 quilómetros e que iria colocar fim ao isolamento de toda a orla costeira, bem como dotar a região de um produto turístico ímpar e atractivo. O primeiro troço Costa da Caparica - Praia da Riviera seria inaugurado em 29 de Junho de 1960, como já foi referido.



Cores iniciais do "Transpraia"


"Transpraia" com as primeiras menções publicitárias

Nesse mesmo dia o jornal "Diario de Lisbôa" noticiava:

«O secretário nacional da Informação inaugurou hoje na Costa da Caparica, um comboio miniatura. Ao acto assistiram, entre outras individualidades, o prof. Mário Figueiredo, o almirante Fialho, o governador civil de Setúbal, os presidentes das câmaras de Almada e do Seixal e representantes da empresa 'Transpraia'.
Depois da bênção do comboio pelo padre Pedro de Monte de Caparica, os convidados tomaram lugar no comboio para um pequeno passeio.
Após o passeio a 'Transpraia' ofereceu um almoço aos seus convidados, durante o qual foram trocados calorosos brindes.»



O projeto original do "Transpraia" previa um trajeto superior a 20 km, prolongando-se para sul a partir da Fonte da Telha, passando a barra da Lagoa de Albufeira, e chegando às praias próximas do Cabo Espichel. Mas este prolongamento já fora posto de parte aquando da inauguração do segundo troço, Praia da Riviera-Fonte da Telha, em 20 de Julho de 1963. O primeiro troço do "Transpraia" tinha apenas 3,8 km, com início na Avenida Salazar, na Costa da Caparica até ao local conhecido por Foz do Rego, onde se situavam as oficinas da empresa.

Este pequeno comboio era constituído são três as máquinas a diesel "Mercedes-Benz" - adquiridas á empresa "Cristopher Schoter" - que puxam composições constituídas por quatro carruagens do tipo Imperial, de acesso aberto pelos estribos laterais a sete bancos de quatro lugares corridos. O sistema "Decauville", que este comboio usa, com 60 cm de bitola, e com carris adquiridos na empresa  luxemburguesa "Columeta" torna-o uma raridade singular apreciada pelos amantes de comboios, mas não só.

Publico, de seguida, um artigo histórico acerca deste «curioso caminho de ferro recreativo», publicado pela revista "Boletim da CP" de Setembro de 1963.






As viagens deste comboio chegaram a ser animadas por artistas como Paulo de Carvalho, Helena Isabel, Herman José, Vítor de Sousa que apareciam e cantavam.

Durante mais de 40 anos, esta ligação manteve-se inalterada, correspondendo ao percurso mais extenso realizado pelo "Transpraia", representando uma distância de cerca de nove quilómetros de extensão, servindo 20 paragens, das quais quatro podem considerar-se estações pois permitem a realização de cruzamentos e manobras, uma vez que dispõe de duas vias. Operava durante a época balnear, entre Junho e Setembro, habitualmente entre as 9 e as 20 horas, com uma frequência de 30 minutos. Nos primeiros anos o horário de Verão era das 8:00 às 21:00 horas, com intervalos de meia hora.



bilhetes gentilmente cedidos por Carlos Caria

Segundo o jornal "Almadense" ...

«O terminal norte, à Rua dos Pescadores, no centro da Costa de Caparica - “Praia do Barbas” - foi eliminado do trajecto em 2007, na sequência das obras do Programa Polis  que levaram à demolição de cerca de um quilómetro de linha; a esta deslocação seguiu-se a redução do número de passageiros em 60% no Verão de 2007 e à perda dos contratos publicitários sobre reclames na libré do material circulante - levando a administração da "Transpraia" a considerar a suspensão do serviço para 2008, o que acabou por não se verificar apesar de o troço demolido não ter sido reposto. No final da época balnear de 2012, em vista de um total de menos de 30 mil passageiros (comparado com uma média de 150 mil apenas em agosto, no período anterior a 2007), a "Transpraia", na pessoa de António Pinto da Silva, administrador e filho de Casimiro Pinto, co-fundador e primeiro administrador da empresa, voltou a considerar o encerramento do serviço no Verão do ano seguinte.

(...) No ano em que assinala os 60 anos, o veículo turístico que faz a ligação entre as praias da Caparica e a Fonte da Telha, está parado. “Este ano era impossível colocar o comboio a circular. Precisa de pelo menos quatro meses de preparação e de uma manutenção que não foi feita”, admite ao ALMADENSE António Pinto da Silva, proprietário da empresa Transpraia, que opera o comboio.






Último percurso do "Transpraia"

Na base da paragem está, por um lado, a pandemia de Covid-19 e o confinamento a que obrigou. Mas também o impasse nas negociações entre o proprietário e a Câmara Municipal de Almada (CMA), que se “arrastam há dois anos”, explicam a paralisação. De acordo com Pinto da Silva, a autarquia mostrou-se interessada em adquirir o Transpraia numa operação feita através da WeMob, a empresa municipal de mobilidade que assegura a fiscalização do estacionamento em Almada. No entanto, as dificuldades financeiras que vive a antiga Ecalma, depois de acumular vários meses sem receitas, impossibilitaram a solução. “Se a Câmara não avançar, terei que fechar definitivamente”, admite o empresário.». E fechou....


Fotografias cedidas por Carlos Caria


E não se esqueça ...


Já agora, e como "estamos perto" - é só dobrar o Cabo Espichel - deixo aqui um artigo acerca do malogrado projecto de construção duma linha de caminho de ferro entre Cacilhas e Sesimbra, publicado na mesma revista "Boletim da CP" ...

fotos in: Delcampe.net, Transpraia.pt, Almada Virtual

7 de julho de 2021

Café-Restaurante Santa Cruz em Coimbra

O “Café-Restaurante Santa Cruz”, localizado na Praça 8 de Maio, em Coimbra, e junto à igreja de Santa Cruz - do antigo Mosteiro de Santa Cruz, fundado em 1131 pela Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho -  foi inaugurado em 8 de Maio de 1923, e por iniciativa dos empresários Adriano Ferreira da Cunha, Adriano Viegas da Cunha Lucas e Mário Pais. Com uma nova fachada em estilo neo-manuelino, o projeto foi assinado pelo arquitecto Jaime Inácio dos Santos.

1933


Na "Gazeta de Coimbra" de 8 de Maio de 1923

Foto nos anos 50 do século XX

O edifício do "Café-Restaurante Santa Cruz" veio substituir um outro pequeno edifício de três andares que desde 1834, com a extinção das ordens religiosas em 1834, e com a igreja S. João Baptista de Santa Cruz a assumir, de novo, a função de igreja paroquial, estava ao cuidado da Junta de Freguesia de Santa Cruz, que o tinha arrendado como fonte de receita.


Desde 1866 que o edifício se encontrava inscrito nos arquivos da direcção de Finanças «sob o numero de ordem quarenta e seis, (…) uma morada de casas que consta de três andares e lojas, um andar e loja». Numa outra descrição refere-se a sua divisão em «quatro compartimentos». Em 1892, por exemplo, foi registado um arrendamento a favor de Jorge da Silveira Morais, (cuja loja se pode ver na foto seguinte) o qual se atrasou no pagamento das rendas…



1869

Em breve os jornais recordaram as diversas funções a que esteve sujeita a igreja, após a sua dessacralização: «um armazém de ferragens, uma esquadra de polícia, armazém de canalizações, casa funerária, uma estação de bombeiros, uma relojoaria, e não sabemos se mais alguma coisa», segundo a “Gazeta de Coimbra”, ou noutra versão: «A tasca do Jurianta, a esquadra da polícia, uma estação de bombeiros com o seu teatro, um estabeleci­mento de canalizações, uma agência funerária».

 

Em breve os jornais recordariam as diversas funções a que esteve sujeita a igreja, após a sua dessacralização: «um armazém de ferragens, uma esquadra de polícia, armazém de canalizações, casa funerária, uma estação de bombeiros, uma relojoaria, e não sabemos se mais alguma coisa», segundo a “Gazeta de Coimbra”, ou noutra versão: «A tasca do Jurianta, a esquadra da polícia, uma estação de bombeiros com o seu teatro, um estabeleci­mento de canalizações, uma agência funerária». 

Entretanto, em 2 de Março de 1921 o jornal conimbricense "A Notícia" noticiava: «Deu ontem entrada na repartição de obras da Câmara Municipal o projecto da fachada do novo café a instalar na casa da Junta de Santa Cruz, à Praça 8 de Maio. O projecto, em estilo manuelino, é mais um magnífico trabalho do distinto arquitecto, Sr. Jaime Inacio dos Santos»


Primeiro projecto para a fachada


Segundo projecto para a fachada

Este projecto não esteve livre de gerar grande polémica, iniciada pelo jornal monárquico "Restauração" ao criticar o projecto nos seguintes termos: «se de facto a câmara consentir nesse atentado - propomos que, sem perda de tempo, se construa em frente do café chic – um mictório renascença.». Tudo seria resolvido com a alteração do projecto da fachada. A contento de todas as partes, esta é despida dos to­ques decorativos «manuelinos», adoptando um tom de revivalismo entre a renascença e mesmo um certo romanicismo. E lá se inaugurou o “Café-Restaurante Santa Cruz” em 8 de Maio de 1923.



6 de Março de 1928

A respeito da sua abertura, o jornal “A Notícia” de 24 de Maio de 1923 escrevia:

«Continua a marcar no nosso meio a valiosa iniciativa de Mario Pais, Adriano Ferreira da Cunha e Adriano Lucas, da construção do café-restaurante junto da egreja de Santa Cruz. (...)
Parecendo que não, a abertura desse café-restaurante, que em nada veio prejudicar a arte do monumento de Santa Cruz nem desrespeitar os sentimentos religiosos de cada um, deu um novo e superior aspecto ao nosso meio.
Pressente-se na sua frequência, um aspecto da vida da capital.
Vão ali as mais distintas senhoras desta terra, fazer o seu almoço ou jantar, notando-se ali tambem uma superior distinção.
A instalação, é na verdade, digna de apreço. Augusto Monteiro e seu filho José, emprestaram-lhe todo o seu inteligente saber de construtores; os irmãos Almeidas da Cerâmica, e Afonso Pessoa, realizaram aquela linda obra dos vitrais que tanto distinguem, artisticamente a frontaria. Ainda a empreza proprietaria adquiriu um serviço de mesa e café bastante interessante.
A coroar tudo isto, o proprio interior com as suas abobadas postas carinhosamente a descoberto.
A's quintas-feiras e domingos, parece que vão ali inaugurar-se jantares concertos com um quinteto dirigido pelo maestro Magliano.»

       

                                                1935                                                                                   1936



 1939

Entre 1974 e 1985, Alexandre Marques explora sozinho o “Café-Restaurante Santa Cruz”, sendo a sua clientela variada, com predomínio para estudantes.


Em 17 de Maio de 2000, é aprovado, condicionalmente, e por despacho superior, o projecto de reabilitação do “Café-Restaurante Santa Cruz”. Em 2002,  com Vítor Marques, Nuno Miranda, Paulo Gonçalves e José Cruz como sócios, teve lugar uma renovação do espaço, com projeto dos arquitetos Luísa Marques e Miguel Pedreiro. A intervenção potenciou a utilização do espaço, de qualidades arquitectónicas invulgares, como pólo cultural privilegiado da cidade de Coimbra, pelo que se tornou num local muito procurado para iniciativas culturais: lançamento de livros, espectáculos variados - passagem de modelos, concertos musicais, ballet, teatro, etc.






22 de Novembro de 2017



fotos in: Delcampe.net, A´Cerca de Coimbra