Restos de Colecção

10 de março de 2024

"Floresta Egypcia" em Lisboa

A "Floresta Egypcia" foi inaugurada em 1 de Junho de 1854, nos jardins do palácio dos Morgados de Alagoa (edificado entre 1757 e 1762), na, então, Rua Direita da Fabrica das Sedas (actual Rua da Escola Politécnica), logo a seguir ao edifício da "Real Fábrica das Sedas". Era constituída por grandes jardins onde existia toda a espécie de divertimentos, salas para bailes, concertos, fogos de artifício, montanhas russas, jogos de toda a espécie, carroussel, balanças para pesar, balouços, etc. A entrada custava 160 réis e tudo lá dentro se pagava. Tinha restaurant e café. O empresário do recinto era Jose Osti, com a sua firma "Jose Osti & Companhia", o «pyrothecnico da epocha», que tinha, alegadamente, introduzido a indústria dos fósforos em Portugal, e que já tinha sido empresário do "Jardim Mytologico", inaugurado em 11 de Junho de 1851 na, então, Rua Direita do Calvario, e que tinha encerrado em finais de Setembro de 1854.


Antiga entrada para a "Floresta Egypcia"


Onde esteve instalada a "Floresta Egypcia" (área delimitada a vermelho), nesta carta topográfica de 1857, ano em que ainda funcionava. Está desenhada a possível "Sala de Crystal"

17 de Junho de 1854


Um ideia aproximada de como seria a "Floresta Egypcia". Aqui em Paris, numa pintura de Jean  Béraud 

«O Topo da rua Nova de Santo Antonio para o lado do Rato, é ocupado por um lanço de muro onde se abre um portão. Para dentro ha umas dependencias utilisadas, de ha muito, para cavalariças e cocheiras. Separa-a da quinta, que foi pertença do palacio dos Cruzes Alagoas e que hoje é da viuva Vaz Monteiro, um tosco tapume de madeira. Esse portão e esses terrenos teem a sua historia.» in: "Occidente" (1909).

«Foi a seguir à montagem de uma fábrica de foguetes, ali na praia de Santos em 1849, onde hoje corre a Rua de Vasco da Gama, que o divertissement da Floresta Egipcia começou a funcionar, chamando os saudoso frequentadores do Jardim Chinés e do Tivoli da Flor da Murta que, em 1841, acabara vendendo em leilão todos os seus móveis e utensílios.» 


"Jardim Chinez", Floresta Egypcia" e "Jardim Mythologico" coexistindo neste anúncio de 12 de Agosto de 1854

«O jornal Theatros e Assembléas fallava assim dos bailes do entrudo: "Desde a Floresta Egypcia até aos salões da Assembléa Portugueza, desde as primorosas salas do marquez de Vianna até ao Paço, o baile impera e estrepita." No Baile Nacional, à Guia, polkavam as grisettas e os valentões, na Floresta Egypcia mazurkava a caixeirada, divertia-se a burguezia. Esta ultima diversão tinha jardim, salas de baile, salão a que chamavam de crystal, pavilhões dos jogos e dos balouços, montanha russa, cavallinhos como outr'ora no Tivoli da Flôr da Murta, jogos chinezes como no antigo Jardim Chinez, tiros de pistola e de espingarda como no antigo Jardim Mythologico, tudo, tudo desapparecido ha muito, porque, como as rosas de Malherbe, as mais bellas coisas d'este mundo teem o peor destino ...» in: "Lisboa d'Outrora" de Pinto de Carvalho. (1909)

10 de Junho de 1851

A "Floresta Egípcia" situava-se, do ponto de vista conceptual, entre feira popular e recinto de espectáculos. Era um espaço de diversão tão imaginativo como a actividade profissional do seu criador Jose Osti , um pirotécnico italiano, detentor de excelente reputação, o qual soube proporcionar espectáculos coloridos e um animado ambiente de lazer. «Os lisboetas adoravam pavonear-se por ali, a beber capilés e outros refrescos, tentando um namorico ou passeando com a família atrás». Nos dias de semana, a partir das oito da noite, exibiam-se comédias e operetas, ou mesmo óperas, que eram repetidas às quatro horas da tarde aos Domingos.


Mais duas ideias aproximadas de como seria a "Floresta Egypcia". Aqui em Paris, "Le Bal Élysée-Menilmontant " e "Le Bal Public Élysée-Menilmontant " , pinturas de Jean  Béraud 



Onde esteve instalada a "Floresta Egypcia", no que restava do jardim, à direita na foto

Do livro "Depois do Terramoto" Subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, Vol II, de Gustavo de Matos Sequeira (1917), onde é descrito pormenorizadamente e primorosamente este recinto, transcrevi alguns textos:

«Nunca ouviu o leitor falar da Floresta Egípcia? Pois foi exactamente ai a entrada e o sítio desse popular  divertimento, que recreou a Lisboa de há cinquenta anos.
O famoso pirotécnico José Osti era o empresário desse recinto predilecto da burguesia lisboeta. Vejamos quem era José Osti.
José Osti era um italiano engenhoso e cheio de iniciativa, popularíssimo na capital que festejava e aplaudia sempre as suas habilidades pirotécnicas. Foi o primeiro que introduziu em Portugal a indústria dos fósforos, montando uma fábrica desses utilíssimos cooperadores das delícias do fumar, no sítio da Cruz de Pau.
Um dia, em julho de 1842, pegou fogo na fábrica, e os fósforos, cumprindo o seu dever, arderam todos.
Não desanimou José Osti com o desastre, e logo ligou o seu nome a novas emprezas. O Jardim Mitológico de Alcântara fez furor; as iluminações e fogos de artifício no Passeio Público deram brado.
Foi a seguir à montagem de uma fábrica de foguetes, ali na praia de Santos em 1849, onde hoje corre a rua de Vasco da Gama, que o 'divertissement' da Floresta Egípcia começou a funcionar, chamando os saudosos frequentadores do Jardim Chinês e do Tivoli da Flor da Murta que, em 1841, acabara vendendo em leilão todos os seus móveis e utensílios.
Aí por 1851 já funcionava esta espécie de feira vedada a oito vinténs por cabeça, pagos ali ao portão que mostrei ao leitor. Lá dentro novas tentações arrancavam aos visitantes variadíssimas quantias.
O carroussel a montanha russa, o pim-pam-pum, o tiro ao alvo, os jogos chineses e outras diversões, acarretavam novas sobretaxas. 
Em 1855 inaugurou-se o teatro, no dia 31 de agosto, por sinal. A casa de espectáculos, a que chamavam sala de cristal, por ser toda envidraçada, tinha junto o respectivo café-restaurante e a sala de baile, onde a caixeirada aos domingos polkava e mazurkava desenfreadamente.
A primeira companhia que representou neste teatro tinha como emprezário Francisco Fernandes, actor aderecista que veio a falecer no Brasil. Dela fazia parte o velho actor Pinto de Campos.
Depois seguiu-se-lhe a Companhia Portuguesa Lirico-Dramatica, que não teve mais prosperidades do que a primeira.
Os preços dos lugares no teatro eram os seguintes: camarotes, 1$600 réis; frisas, 1$400 réis; plateia, 240 réis (quês de refrescos, e a orquestra habitual deliciava os ouvidos dos habitues executando, como diziam os cartazes, la 'Marca de Meyerber aux Flanbau', ou outra qualquer, convenientemente estropeada na execução e na ortografia.


Ideia aproximada de como seria um espectáculo na "Floresta Egypcia". Aqui em Paris, "Le Spectacle et l'orchestre à l'Alcazar d’été",  pintura de Jean  Béraud 

Em 1855 inaugurou-se na Floresta um outro atractivo. Nada mais nada menos do que o perigoso 'Looping the Loup' que não há muito ainda constituiu uma excelente fonte de receita para a empreza do Coliseu dos Recreios, sendo aceito como absoluta novidade. Pois, já há cinquenta anos, fez esse mesmo acrobatismo scientífico as delícias dos alfacinhas, Tinha-se executado pela primeira vez, nove anos antes, em setembro de 1846, no Havre, nos jardins de Mr. Frascati, com a assistência do Ministro dos Trabalhos Públicos, Mr. Dumou. A 'Ilustração Francesa' desse mês e ano traz do caso minuciosa descripção.
Nenhum desastre que eu saiba ocasionou o arrojado divertimento. Já a montanha russa se não pode gabar do mesmo, porque uma vez um desgraçado rapaz, descendo-a no clássico carrinho, partiu ambas as pernas. A tradição oral conservou também memória de outro desastre que custou a vida a um pobre moço, que linha ido passear à Floresta. Uma caixa de fósforos (dos tais fósforos do Osti) incendiou-se-lhe no bolso; houve certo pânico, e um amigo, destes perigosos amigos que o demo inspira, vendo-lhe o fato a arder, pegou nele e atirou-o a um dos lagos. O incêndio extinguiu-se logo, mas o rapaz morreu afogado.
Hoje que resta disso tudo? Nem o menor vestígio; Nem sombra dos lagos, dos pavilhões e do teatro! O terreno, em vez de macadamizado e arruado para o rodopiar dos foliões, acha-se bravio e revolto e entrou de criar couves e alfaces. Deixou de divertir e passou a alimentar.
José Osti morreu há bastantes anos. A casa número 61 da rua nova de Santo António, construiu-a êle para sua   habitação. Possue-a agora a sra. D. Maria Augusta Delié Nunes.
Acabado esse divertimento, outro lhe sucedeu na voga. Foi o Jardim de Itália na rua de São Bento que, em 1874 deu festas estrondosas à moda do Minho, e onde os artistas e costureiras bailavam ao ar livre.»


"Floresta Egípcia" e alguns outros divertimentos populares em 1855


30 de Agosto de 1856


11 de Setembro de 1856

Como foi atrás referido, em 31 de Agosto de 1855 era inaugurado na "Sala de Crystal", que existia nos jardins da "Floresta Egípcia", o Teatro. Foi também seu empresário José Osti. A companhia era dirigida por Francisco Fernandes, que foi actor, empresário de província, maquinista e excelente aderecista e como tal viria a estabelecer-se no Brasil. Da companhia faziam parte a «velha» Ludovina, Maria Jose Fernandes, Amelia, Guilhermina, J. Ramos, Costa (marreco), João Ferreira Sá, Pinto de Campos (tio), Maldonado. A tarefa de "ponto", estava entregue a Costa Braga.

Em 1887 esta Companhia foi substituída pela "Companhia portugueza lyrico-dramatica", assim constituída: Andrade Ferreira, Eduardo Roque, Luiz Lassance, Antonio Apparicio e Carolina d'Oliveira.

O Teatro era todo envidraçado e, como já foi atrás referido, os preços praticados eram os seguintes: camarotes, 1$600 réis; frisas, 1$400 réis; plateia, 240 réis.

Mais uma ideia aproximada de como seria a "Floresta Egypcia". "Diner aux Ambassadeurs", pintura de Jean  Béraud 

Quanto aos espectáculos exibidos neste Teatro, e continuando a socorrer-me do atrás mencionado livro "Depois do Terramoto" ...

«A Revista dos Espectáculos, jornal teatral que se publicou em Lisboa de 1850 a 1855, dá-nos algumas notícias teatrais deste recinto de folguedos populares.. 
«Em 1S54 deram-se aí concertos de accordeon pelo professor Gasparini e representaram-se comédias e operetas, como 'Antes ceder que morrer', 'Dois Augustos', 'Lord Spleen' e 'A assinatura em branco' estas duas últimas com música do maestro Casimiro. Um tal Spira (em agosto e setembro desse ano) executava, com aplauso dos frequentadores da Floresta, várias peças de música, num instrumento de pau e palha que não sei o que fosse.
O 'Pirata', outro jornal teatral de 1856, nos seus números 1 e 2, anuncia terem principiado os bailes de máscaras na Floresta, com notável sensaboria e ausência absoluta de espírito. No domingo anterior a 6 de janeiro houve mosquitos por cordas na sala de cristal, tendo o público, por lhe desagradar a peça, obrigado os actores a cessar a representação.
Do ano de 1860 tenho nota de alguns espectáculos aí realizados, pelos anúncios nos jornais do tempo.
Em 20 de junho realizou-se no teatro um grande festival pela companhia dos zuavos franceses, em benefício do zuavo Lucien. Representou-se a comédia, num acto. 'Une filie terrible' em que entrava o beneficiado, 'Les quatres ages de Coeur' melodia por Mr. Frederic, e 'Les Deux Aveugles', opereta-bufa.
A abertura do jardim era às 8 horas, e o espectáculo principiava às 9.
Em 28 de julho estreou-se, na sala de cristal, uma companhia ginástica dirigida por Salvador Siciliani, em que se apresentavam quadros vivos e em que se exihia Emília Siciliani como clarividente. Abria, então, o jardim às quatro horas da tarde. Esta companhia, que se compunha de 16 pessoas, ainda dava espectáculos na Floresta em meados de agosto. Depois passou para o Salitre.
Uma das companhias de declamação e canto que aqui funcionou levou à scena a mágica de Joaquim Augusto de Oliveira 'A pedra de toque' que, em 1863, se representou no teatro do Salitre com o título de O magico das Minas No ano de 1861, a actriz mais cotada do teatro da Floresta era a irrequieta Maria Joana, que representou com agrado as comédias 'Marido, mulher e tio', 'O soldado da guerra peninsular' e 'Uma hora no Cacem'. Tinha uma voz bonita e numerosos admiradores.»


13 de Julho de 1857

«Para os que não assistiram ás festas do Tivoli a Floresta Egypcia é o melhor divertimento de verão que Lisboa tem possuído; não só a sociedade que o frequenta é de ordinário escolhida e da melhor esphera, mas tudo parece reunir-se para que sejam agradáveis as noites passadas n'aquelle grande jardim illuminado a giorno abundante em jogos, enriquecido pela já histórica montanha egypcia, espécie de caminhos de ferro mais vagarosos talvez, mas que sairam mais baratos ao povo.
Pelo carnaval as salas de baile preparadas ad hoc recebem uma quantidade infinita de mascaras e de visitadores. São ao todo nove salas, a maior parte d'ellas pequenas, onde n'essas noites é quasi impossível transitar, quanto mais dar rendez-vous a alguém. Os rendez-vous de ordinário teem legar nas salas do rez-de-chaussée, n'algum dos gabinetes do botequim, ou no salão térreo, que precede a sala de crystal que não é mais nem menos do que um prédio de vidro, que serve de theatro, de sala, de tudo que se precise!» in: "A Vida em Lisboa" de Julio Cesar Machado, Vol I de 1901.


Mais uma ideia aproximada de como seria a "Floresta Egypcia". "Le Jardin de Paris sur les Champs-Élysées en 1898", pintura de Jean  Béraud 

Após a morte de José Osti a sua viúva, juntou-se com um sócio, continuou a explorar a mesma empresa "Jose Osti & Companhia". A falta do antigo empresário apressou a decadência do estabelecimento. Mais tarde, no teatro só representavam amadores e depois de prévio aluguer. A novidade do "Caffé-Concerto", inaugurado em 26 de Dezembro de 1857, no Largo da Abegoaria (actual Largo Rafael Bordallo Pinheiro), ao Chiado, vibrou-lhe o golpe de misericórdia, vindo a encerrar, falido, em 1859.


Último anúncio publicitário da "Floresta Egypcia" em 15 de Janeiro de 1859


No edifício à direita, onde está o transeunte, funcionou o "Caffé Concerto", seguido do famoso "Casino Lisbonense" a partir de 6 de Novembro de 1864

Em 12 de Junho de 1874, abriria o "Jardim d'Italia", na Rua de S. Bento, nº 222. Mais modesto e em quase tudo bem diferente e menos espectacular. Como anunciavam, basicamente serviço de restaurant e "Bailes Campestres" aos Sábados e Domingos, mas fica aqui a referência com foto da entrada e respectiva publicidade.


12 de Junho de 1874


Entrada para o "Jardim d'Italia", no nº 222 entre a "Ourivesaria e Relojoraia Oliveira"  e o "Deposito da Drogaria Teixeira"


20 de Junho de 1874

6 de março de 2024

Hotel de Francfort no Porto

O "Hotel de Francfort" funcionou, a partir dos anos 60 do século XIX, num edifício que foi construído, em 1851, na Rua de D. Pedro, nº 21 no Bairro do Laranjal, actual Praça da Liberdade, na cidade do Porto. Este edifício foi mandado construir pelo abastado negociante portuense, Luis Domingos da Silva Araújo.




Publicidade na revista "Vida Gallega" de Agosto de 1909


"Hotel de Francfort" à esquerda na foto a seguir aos Paços do Concelho

O terreno onde se ergueu o imóvel tinha má fama, pois tinha siso usado para cemitério de cães, já que a cidade do Porto foi uma das primeiras cidades da Europa a ter um terreno para o exclusivo enterramento de cães. Era um pedaço de terra em forma de cunha pois fazia gaveto entre duas das mais movimentadas artérias do Porto do século XIX: a rua do Laranjal que tomou o nome de uma quinta com esse nome, e a rua de D. Pedro (D.Pedro IV) que primitivamente se chamara rua do Bispo, por ter sido aberta em terrenos que eram da Mitra, ou seja, da diocese, e à qual, após a implantação da República em 1910, deram o nome do jornalista, político e engenheiro do exército, republicano Elias Garcia, José (1830-1891).

Por altura da exposição inaugural do "Palácio de Crystal Portuense", aque ocorreu a 18 de Setembro de 1865 abria o "Hotel do Louvre", que era considerado o de maior classe da cidade. Foi fundado por D. Henriqueta Alvellos, e instalado no edifício da Rua do Rosario, hoje ocupado pela sede do "Cinceclube do Porto", tendo acolhido o imperador do Brasil D. Pedro II, em 1872.


Hotéis no Porto segundo o "Handbook for Travellers in Portugal" de 1855

Também no "Handbook for Travellers in Portugal", mas de 1864, já o "Hotel Frankfort"

Os dois hotéis mais famosos do Porto eram o "Hotel Inglez", na Rua da Reboleira e propriedade de Mary Castro, tendo-se mudado mais tarde para a Travessa de Sá da Bandeira (actual Rua de Sampaio Bruno). Foi neste hotel que esteve hospedado o arquiitecto inglês Barry Parker, responsável pelo projecto da Avenida das Nações Aliadas. Quanto ao "Hotel de Francfort" era considerado « ... ser o hotel prferido pelos estrangeiros, pelas celebridades de todos os géneros e pelos endinheirados. Frequentar o Francfort dava o tem ...» in: "O Tripeiro" por António Lança.


Lista de Hotéis no "Guia do Viajante na Cidade do Porto" de 1877

Na loja no topo do edifício, fazendo bifurcação com as duas ruas e D. Pedro e do Laranjal., estava instalado o conhecido "Café do Chaves", que foi inaugurado em 10 de Março de 1900, sendo propriedade de Aníbal Chaves, e que tinha vindo do Jardim da Cordoaria, onde tinha aberto com o nome de "Novo Café Portuense".

«Após uma permanência de dezassete anos neste local e por motivos relacionados com a abertura da Avenida dos Aliados - que obrigou à demolição do edifício onde estava instalado -, acaba por ser transferido, em 24 de Dezembro de 1917, para o Chalet do Jardim da Cordoaria. Os seus clientes eram dos mais “selectos” da cidade. Segundo Armando Gomes Ferreira “a um lado agrupavam-se, em acalorada polémica, Pádua Correia, Duarte Solano, Simões de Castro, Vaz Passos, Atosto Silva, Adriano Pimenta, Júlio Vitória, Queirós Magalhães, Ribeiro Seixas, Virgílio Ferreira,  assim  como Leonardo Coimbra. Noutra extremidade era certo encontrarem-se os artistas José Maria Soares Lopes, Armando de Basto, João Peralta, Manuel Martins, Carlos de Sousa, Virgílio Angelo, José Cassagne e os drs. Jaime de Almeida e Neto Cabral. Durante o período em que esteve sediado na Praça de D. Pedro, este café alcançou grande notoriedade devido, fundamentalmente, ao facto de ter sido frequentado, assiduamente, por filósofos, artistas e poetas boémios.



Interior do "Café do Chaves"

E na mesma rua ...

Em 6 de Agosto de 1904 abriu, na antiga Rua do Laranjal, o Café Recreio, inicialmente com o nome de República. O seu proprietário era o Senhor José Luís do Couto Querido. Este café foi um dos primeiros estabelecimentos que se notabilizaram, no âmbito de uma característica particular, que alcançou grande popularidade naquela época, o café-concerto, com espectáculos de música e dança, que se realizavam frequentemente. O café tinha nas suas instalações mesas para tomar café ou beber vinho a copo ou à caneca e um espaço para espectáculos de música e/ou dança. Aqui actuaram, durante sensivelmente treze anos, diversas bailarinas espanholas e músicos variados. Acabou por encerrar em 1917, face às obras realizadas para abertura da Avenida dos Aliados.» in: blog "Aprender Porto".

Regressemos ao "Hotel de Francfort" e que melhor descrição, senão transcrever uma passagem do livro "Le Portugal Á Vol d'Oiseau" de Maria Rattazzi, traduzido como "Portugal de Relançe", e publicado pela "Livraria Editora de Henrique Zeferino", em 1882: 

«... Cançada do uma longa espectativa infructifera, encaminhei-me para o Hotel de Francfort, acêrca do qual me fallara com louvor o conde de Paraty. Ordenei que conduzissem para ahi a minha bagagem, resolvida a não dar nem mais um passo. A primeira impressão foi atroz! Imagine-se uma rua descalcetada, invadida por uma nuvem do operários esfarrapados e sujos, portas enegrecidas, casas aglomeradas; em vez de aposentos espaçosos uns simples quartos de collegial; emfim, a apparencia de uma hospedaria de província do terceira ordem.
Resolvi partir no dia immediato, persuadida que a cozinha corresponderia ao resto e que o habito e o monje eram dignos um do outro.
Tomando posso do meu modesto quarto, cujo principal ornamento consistia em um pequeno leito de ferro embrulhado em uma cortina de paninho de pregas angulosas, disse a mim mesma: Demoremo nos o tempo indispensável para examinarmos a cidade e banhar-mo-nos n'este ambiente fluido que assemelha o eco a uma saphira diluida, e partamos era seguida!


Oito dias depois ainda eu estava no Porto!

(...) Adormecera decidida a abandonar, logo no dia subsequente, esse tecto que soppunha pouco hospitaleiro. Quem teria esperado um acordar tào delicioso como o que me favoreccu !.. (...) 
O convite era verdadeiramente irresistivel. Deixei-me convencer, fascinada não só pela amabilidade da natureza como pelo bom acolhimento dos portuenses. Manda a verdade que se diga que o Hotel de Francfort valia mais do que a primeira vista apparentava. (...)
Em quanto o Hotel Gibraltar frustrara as suas promessas, o Hotel de Francfort, que não promettera cousa alguma, reservava-me bastantes surprezas agradáveis. Uma vez habituada ao vestuário dos creados com a barba por fazer, ao lustre da casa de jantar estranho aos mais elementares processos da limpesa, á excellente proprietária de camisola de banho, mourejando no meio dos seus três cães, ás gravuras ingénuas representando o rapto de Dejanira, sob o aspecto mais pittoresco do que clássico de um hussard francez conduzindo a váo uma fresca aldeã normanda, nào foi pequena a minha admiração descobrindo que se as janellas eram acanhadas e malconstruidas, emmolduravam em compensação um céo magnifíco e descobriam um panorama que me deteve no Porto, a despeito do meu itinerario. Nào era destituida de encanto esta habitação primitiva, dotada de uma cozinha excellente, sem iguarias exquisitas, mas composta de bons pratos burguezes, succulentos, ondo o prazer dos olhos era sacrificado ao conforto do paladar e do estômago. 
Brillat-Savarin, de pantagruolica memoria, o poeta das gallinhas gordas e tenras, dos rostbeefs apropositadamente crus, nào duvidaria approvar estes menus simples o hiygienicos. A minha surpreza diminuiu sensivelmente quando soube que o marido da nossa hospedeira ora um antigo director dos Irmãos Provençaes.


O meu quarto, cuja mobilia desmantelada me produzira uma impressão repulsiva, appareceu-me sob outro aspecto. Entrei então n'um período de descobertas. Reparei que o papel que o forrava era de um azul claro delicado e bonito. Notei que as minhas três janellas, sobre as quaes os pardaes vinham pipilar e chupar as flores, prestavam-se em virtude da ampla cimalha e dos caixilhos portáteis ás minhas velleidades de jardins suspensos. Não tardou que tudo se  transfigurasse!
A casa, em resumo, parecia mais um cottage inglez do que uma hospedaria, e merecia a muitos respeitos a sua boa fama e numerosa freguezia. Nào irei nunca, se voltar ao Porto, senão para o Hotel de Francfort. A senhora Hardy deixou-me em definitivo uma boa impressão indelével, idêntica á que me produziu a segunda capital do reino, proveniente da physionomia original e nitida dos habitantes, que reflecte nas suas construcçoes, no seu espirito e na sua organisação social.

Mas é preciso que lhes apresente a minha hospedeira, a senhora Hardy. Na sua mocidade a senhora Hardy foi creada de quarto da princeza OronzofF, uma d'essas grandes dames russas que emprehenderam privar-nos da possibilidade de alcançar uma creada de quarto, triplicando-lhe os ordenados, permittindo-lhe usar vestidos de folhos e plumas e dando-lhe substitutas que sob a designação de raparigas de quarto desempenham todo o serviço. (...)
A senhora Hardy conta approximadamente sessenta annos; é uma mulher baixa, gorda, ágil, esperta, trabalhadora infatigável, o typo característico da sua espécie. Antigos locatários habitam a sua casa ha quinze annos. Todos os quartos andam alugados com antecedência. A excellente hospedeira conhece a cidade em peso, e parece que um telegrapho invisível lhe leva instantaneamente toda as noticias dos quatro cantos do Porto. O nome da senhora Hardy acorda sempre uma idéa ou uma lembrança. Ou se esteve em casa d'ella ou se tenciona estar. Assim, dedico-lhe gostosamente estas linhas e concluo repetindo que ou por influencia da sua boa estrella ou das liberalidades da princeza Oronzoff, a senhora Hardy soube juntar uma pequena fortuna, demonstrando assim a sua atilada penetração e provando que a sorte favorece mais facilmente os pacientes do que os audaciosos.»

"Hotel de Francfort" que era até então propriedade de François Babel, a partir de 20 de Setembro de 1910, e por escritura pública passa a ser propriedade da firma "François Babel e C.ª ", constituída por François Babel e Rodolfo Schneebeli, e com sede já na renomeada Rua Elias Garcia (antiga Rua de D. Pedro).

O hotel era procurado, especialmente, por gente ligada ao Teatro: atores e músicos, na sua maioria. Uma das celebridades que por lá passou foi a atriz Elise Hensler (1836-1929) - Condessa de Edla - que veio a casar com o rei D. Fernando II (1816-1885). Mas foi procurado, também, por políticos daquele tempo,  como o Dr. António José de Almeida (1866-1929), muito assíduo, e por brasileiros de torna viagem. No regresso do Brasil era lá que se hospedavam antes de rumarem à terra natal. Um deles, foi o conde de Alves Machado ficou no "Hotel de Francfort" durante mais de quarenta anos, tendo feito dele sua residência permanente, na cidade do Porto.


1899

Era neste hotel que, em 1900, vivia o cônsul de Hespanha no Porto, D. Mariano Bruzola Tellez. Por sua vez o consulado no Porto funcionava na Rua Cancella Velha, 70 -2º. Já agora, o vice-cônsul, por sua vez, D. José Tarouji Español, vivia no "Grande Hotel de Paris", na Rua da Fábrica.

Foram vários os suicídios que tiveram lugar nos seus quartos. O mais célebre foi o da namorada de um filho do célebre Urbino de Freitas, lente da Escola Medico Cirúrgica do Porto que a Justiça condenou ao degredo, por envenenamento de um sobrinho, supostamente para que a mulher fosse a única herdeira da grande fortuna dos sogros, ricos comerciantes da Rua das Flores.

O último falecido que saiu do "Hotel de Francfort" foi o do médico e político Dr. Teixeira de Sousa (1857-1917), chefe do Partido Regenerador e chefe do último Governo (desde Julho de 1910) da monarquia. Não cometeu suicídio mas morreu amargurado pelos acontecimentos do 5 de Outubro de 1910 ...

A morte deste e a morte do proprietário François Babel, aliadas à deslocação da classe política para o "Grande Hotel do Porto", na Rua de Santa Catharina, aceleraram o processo de decadência deste estabelecimento, que culminaria com a sua demolição para a abertura da Avenida das Nações Aliadas.

O Hotel já estaria em "condenado" ao encerramento (mas ainda em funcionamento) em 1913, visto já não aparecer anunciado no "Guia Official dos Caminhos de Ferro de Portugal" desse ano, onde estavam representados todos os outros. Ainda tinha hóspedes quandoa sua demolição teve início. Ao noticiar a demolição, um jornalista da época escreveu que «algo de saudoso lhe custava a desprender-se do sítio onde estava».


Início das demolições

O "Hotel de Francfort" viria ser demolido em 1916. O local do antigo hotel, é mesmo à entrada da, então, Avenida das Nações Aliadas, onde agora se encontra a estátua da menina nua, uma das obras primas do escultor Henrique Moreira, Foi demolido para possibilitar a abertura da avenida que começou por se chamar das Nações Aliadas, já que, quando aquele espaço começou a ser urbanizado a primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918) tinha terminado e o nome dado à nova artéria constituiu uma homenagem às nações vencedoras.

A abertura desta Avenida e as demolições necessárias ao alargamento da parte da Rua do Bonjardim, que viria a ser incorporada na Rua de Sá da Bandeira, forçaram ao encerramento, a partir de 1916 dos cafés Lisbonense, Madrid, Moreira, Chaves, Camanho, República e Primavera.

Bibliografia:

- "O Hotel Francfort" - "Histórias Portuenses" da autoria de Germano Silva, para a revista "Visão" em 8 de Dezembro de 2018.

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaBiblioteca Nacional Digital, Arquivo Municipal do Porto, Aprender.Porto, Monumentos Desaparecidos

3 de março de 2024

Estação da "Parceria dos Vapores Lisbonenses"

A primeira estação (em madeira) da "Parceria dos Vapores Lisbonenses" foi implantada, em 1899, entre o Cais do Sodré e o Arsenal da Marinha, a meio caminho da Ribeira das Naus, em Lisboa e era designada por "Chalet da Parceria" ou por "Ponte dos Vapores do Caes do Sodre". Foi nesse ano que a esta empresa, com sede no Cais do Sodré, nº 8 - 2º andar foi constituída em 14 de Agosto de 1899, entre a "Francisco Burnay, Sucessores" e a "H. Hersent", concessionária do Porto de Lisboa.


"Chalet da Parceria" construído em madeira em 1899


 Frederico Guilherme Beaupin Burnay (1815-1888)


"Chalet da Parceria" à direita na foto


No "Diario do Govêrno" de 12 de Junho de 1903

Primitiva ponte dos vapores e barcas no Cais do Sodré

A escritura começava assim:

«TITULO I

Denominação,  objecto,  séde, duração

Artigo l.°  A  parceria  denominar-se-ha  «parceria  dos  vapores lisbonenses».
Art. 2.°  O  objecto  da  parceria  é :
1.° O  estabelecimento  e  exploração  de serviços  marítimos  para transportes  de  passageiros  e bagagens  e  reboques  no  Tejo  e portos adjacentes  da  costa;
2.° A  exploração  de  quaesquer  emprezas  ou  trabalhos  que digam respeito á  navegação  fluvial  ou  marítima;
3.° Em  geral  todas  e  quaesquer  operações  commerciaes,  industriaes, marítimas  e financeiras,  que  se  liguem  aos  objectos  aeima indicados;
4.° Especialmente  também  para  a  aequisição  dos  navios  e  seus aprestos  e  apparelhos  que pertencem  á  sociedade  Frederico  Burnay,  Successores,  e  exploração  nos  mesmos  serviços  marítimos a que  eram  destinados.
Art. 3.°  A  séde  da parceria  será n’esta  cidade  de  Lisboa.
Art. 4.°  A  duração  será por  tempo  indeterminado.»


1904

Esta estação fluvial do Cais do Sodré era para uso exclusivo da 'Parceria dos Vapores Lisbonense', sociedade de exploração de transportes de passageiros no Tejo, especificamente entre o Cais do Sodré e Alcântara, Belém, Pedrouços e, a partir de 1903, Cacilhas.

Lembro que o primeiro barco "vapor lisbonense" foi construído em Alcântara, nos estaleiros Hugh Parry, em 1860 denominado "Alcântara". Propriedade de Frederico Guilherme Beaupin Burnay (1815-1888), destinava-se à carreira fluvial entre Cais do Sodré e Pedrouços, carreira que foi inaugurada em Janeiro de 1861 e tinha escalas em Alcântara e Belém. O segundo foi o "Progresso", construído, igualmente por Hugh Parry mas no aterro da Boa Vista, lançado à água em 14 de Dezembro de 1861, e tendo feito a sua viagem inaugural em 12 de Fevereiro de 1862.


1875

Já em 1827, o movimento de vapores no Rio Tejo ...



26 de Março de 1827


4 de Junho de 1827


3 de Agosto de 1827

Em 1903 a "Parceria dos Vapores Lisbonenses", inaugurou o serviço de transporte de veículos entre as duas margens do Tejo.

A nova Estação Fluvial da "Parceria dos Vapores Lisbonenses" seria construída também em madeira, em finais de 1904, mas já de maiores dimensões e já frente à Praça Duque de Terceira e ao lado da estação, ainda improvisada, da linha de caminho-de-ferro que ligava o Cais do Sodré a Cascais, desde 4 de Julho de 1897.



Local onde viria a ser erguida a nova Estação Fluvial da "Parceria dos Vapores Lisbonenses"






1904


3 de Setembro de 1904


1908


Um violento temporal ocorrido em 28 de Janeiro de 1937, destruiria a ponte de acesso aos vapores, que viria a ser reconstruída. Esta estação esteve em funcionamento até finais dos anos 40 do século XX, altura em que foi demolida. 


28 de Janeiro de 1937




1924


1941


Temporal em 1941


1943


1943

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal de LisboaBiblioteca Nacional DigitalArquivo Nacional da Torre do Tombo