Restos de Colecção

7 de dezembro de 2017

Freire Gravador

A famosa casa de carimbos e chapas esmaltadas, litografia, tipografia, etc. “Freire Gravador”, localizada na Rua do Ouro com a Rua da Victória, abriu as suas portas em 1882. Era seu proprietário Aires Lourenço Costa Freire, natural de Penela, distrito de Coimbra.

 

Aires Lourenço da Costa Freire

1887

Em 8 de Abril de 1894, o jornal “A Folha de Lisboa” escrevia acerca deste estabelecimento:

«Conhecidissimo em todo o paiz, ultramar e estrangeiro - nomeadamente Africa e Brazil - preferidos em todas as adjudicações a que se teem apresentado, teem sido falados em toda a parte e elogiados, em differentes epocas, pelos primeiros jornaes portuguezes, que lhes dedicam os maiores encomios pelo mundo como estão montados e pela perfeição dos seus trabalhos.
Podem citar-se, entre outros muitos, o Diario de Notícias, o Século, Diario Popular, a Folha do Povo, as Novidades, o Primeiro de Janeiro, o Conimbricense, o Covilhanense, o Districto de Faro, o Progresso do Algarve que teem espalhado pelo mundo inteiro a fama dos Grandes ateliers Freire-Gravador.»
Os grandes ateliers de gravura, typographia e estampagem de luxo Freire-Gravador, que acabamos de visitar, deixaram-nos maravilhados, porque são indubitavelmente os primeiros e unicos d'este genero no nosso paiz.
São dignas de verem-se as secções de gravuras de armas e brazões e de sellos em branco para tinta, papel e lacre; a secção de trabalhos para o commercio, chancellas com assignaturas, carimbos de metal em todos os generos; a secção de carimbos de borracha com todos os desenhos, que diariamente fabricam em grande quantidade; a secção typographica, em que se faz toda a qualidade de trabalhos, desde as impressões commerciaes, como bilhetes, facturas, memoranduns, até ás mais superiores como impressões de luxo, chromo-typographicas, etc. para o que tem as melhores machinas e material; a secção de gravura em madeira, onde se executam todos os trabalhos n'este genero; a secção de gravuras e estampagem de brazões e monogrammas a côres, oiro e prata, trabalhos estes de grande merecimento e luxo, para o que teem os papeis das melhores qualidades, exclusivamente destinados a estes trabalhos.
Estes ateliers estabelecidos ha poucos annos ainda, teem ja um pessoal, composto dos melhores artistas nacionaes e estrangeiros, em numero superior ao de todos os gravadores da capital.»

1932

Apesar do seu apelido Freire ser o mesmo de outro gravador famoso de Lisboa, Francisco de Borja Freire (1790-1869) que trabalhou para a Casa da Moeda, muitos anos e que foi responsável pelas gravuras de muitos selos da época, ao que se saiba não era de sua família. Borja Freire, solteiro, possuidor de apreciável fortuna, por sua morte em 12 de Janeiro de 1869,deixou parte dela a parentes e amigos e o restante a estabelecimentos de caridade e assistência.

1891

                                             1898                                                                                          1900

 

A casa “Freire Gravador”, rapidamente se tornou famosa a nível nacional, tendo além da sua loja na Rua do Ouro, um armazém na Calçada de S. Vicente e uma fábrica no Beco dos Clérigos, no bairro de Alfama em Lisboa. Mais tarde, muda a sua fábrica para estrada Paço de Arcos-Cacém.

Fotos da loja e fábrica de “Freire Gravador”, em 3 de Março de 1932

 

Aires Costa Freire detentor de grande fortuna, foi benemérito tendo construído um bairro para os seus trabalhadores no Dafundo, Algés, e cujas habitações ao fim de uns anos reverteriam para os próprios.

                                     1905                                                                                        1911

 

1923

 

1924

No anúncio seguinte, de 1934, consegue-se vislumbrar o seguinte texto:

«Casa fundada à 52 anos, pelo proprietario, mestre dos gravadores, o qual nunca teve uma mancha na sua vida honrada, tendo estudado, e seus filhos, nas 1as. cidades da Europa, as artes e comércio da sua casa, unica em Portugal, premiada com 3 medalhas de ouro, empregando nos seus fabricos, 5, Calçada de S. Vicente e Rua do Ouro 158-160, 16 máquinas a trabalhar a electricidade entre estas uma que vale 40.000$00»

1934

1947

Não consegui apurar quando o “Freire Gravador”, já pertença da firma “A. L. Freire & Filhos, Lda.” (desde os anos 40 do século XX) encerrou definitivamente, mas creio nos finais dos anos 60 do século XX. Em 1998 o seu espaço era ocupado pela firma “Fétal - Confecções” que tinha substituído a livraria “Centro do Livro Brasileiro”. Actualmente é ocupado pela rede de lojas “Maria Maxlote”.

Em 1932 a firma “E.E. de Sousa & Silva” afirma ser a primeira casa de carimbos em Portugal e fundada em 1819

Em Penela, terra natal de Aires Lourenço Costa Freire, fundador da casa “Freire Cravador”, foi construído um imóvel onde foi criada a “Casa de Chá Freire Gravador”, após aprovação camarária de 4 de janeiro de 2010, em memória deste benemérito e ilustre da terra.

Cartaz de um evento na “Casa de Chá Freire Gravador”, em 2016

Entretanto, em 1929, Aníbal Freire, filho de Aires Costa Freire, abriria uma loja de vão-de-escada, na Rua Nova do Almada, de seu nome “Aníbal Gravador”, empregando Acácio Alves. Em 1972 Aníbal Freire passa esta loja a Acácio Alves, que por sua vez a passa a sua filha, Maria Manuela Pinto, em 1983, a actual proprietária. Nos últimos anos, desde que o prédio integrou um Hostel, a lojista tem mais movimento como companhia.

Onde estão as três pessoas , a entrada do edifício onde se instalou a loja de vão-de-escada “Aníbal Gravador”

Loja “Aníbal Gravador”, na actualidade

 

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Arquivo Nacional da Torre do Tombo

5 de dezembro de 2017

Hotel Netto em Sintra

O “Hotel Netto”, localizado na Vila de Sintra, junto ao “Palácio da Vila” ou “Palácio Nacional de Sintra”, na rua do Arrasario (actual Conselheiro Segurado), e propriedade de José Maria Netto, abriu as suas portas em 28 de Maio de 1879.

Anúncio da abertura do “Hotel Netto” de 28 de Maio de 1879

«É realmente excellente o serviço do novo hotel Netto em Cintra. Á boa vontade dos donos da casa, reune a magnifica salla de jantar, e os quartos que são todos alcatifados e mobilados com o maior gosto. O serviço de cosinha é dos melhores que conhecemos e por isso recommendamos aquelle novo hotel aos nossos leitores.» in: “Diario Illustrado”

No jornal “Diario Illustrado”, em 9 de Julho de 1884

O edifício onde se instalou o “Hotel Netto”, tinha pertencido a António Lopes Ferreira dos Anjos, que tinha a concessão da água do “Tanque do Touro”, desde 6 de Agosto de 1875, e que servia, também este hotel. Por sua vez, esta casa terá pertencido ao antigo almoxarife do Palácio da Villa, o capitão-mor Maximo José dos Reis, e que depois foi de uma filha do mesmo, casada com Frederico da Silva Pereira, irmão do Conde das Antas.

Apesar de ser escassa a informação acerca das actividades do “Hotel Netto”, nos seus primeiros anos, uma notícia publicada no jornal “Correio de Cintra”, em 3 de Setembro de 1898 informava que ali teria ocorrido um incêndio, devido ao descuido de uma criada enquanto engomava roupa. O incêndio foi extinto pelo pessoal e com a ajuda dos bombeiros. «Notou-se a falta de água em todas as bocas de incêndio...»

  

E o guia turístico “Spain and Portugal - Handbook for Travellers” para 1898, informava:

Cintra. - Hotels. Hotel Lawrence, at the W. end of the village, English landlady; Hotel Netto with a small garden, R.500, R.200  déj. with wine 700, D. with wine 8OO, pens. 1600-2000 rs. (prices posted up in the rooms); Hotel Nunes, adjoining the Palacio- Real, pens. 1600-2000 rs. - Private Lodgings for a long stay, easily obtained.

Já no início do século XX, o “Hotel Netto”, já está na posse de dois galegos de seus nomes Romão Garcia Vinhas e José Lopes Alves, tendo este último tomado posse do imóvel por falecimento do primeiro. Este Hotel era por esta altura, juntamente com o Lawrence's Hotel”, “Hotel Nunes”, “Hotel Victor”, um dos mais frequentados pela aristocracia e burguesia lisboetas.

1907

1913

Nota: no anúncio publicitário anterior está indicado, erradamente, como proprietário José Lopes Alves. O proprietário do “Hotel Netto” era o galego José Lopez Alvarez, a que lhe sucederia Manuel Lopez Alvarez, como veremos a seguir.

1933

O "Jornal de Sintra", de 1 de Agosto de 1937, publicava sobre o “Hotel Netto”, um simpático artigo, aquando da mudança de gerência para Manuel Lopez Alvarez, do qual transcrevo o seguinte excerto:

«Sabíamos que a nova gerência deste acreditadíssimo hotel o transformara quási radicalmente. Assim e gostosos de apreciar os progressos da nossa terra, dirigimos nós  ali a título de tudo e de nada, mas na mira sincera de podermos ver o que era essa transformação.
Manuel Lopez Alvarez, dedicado amigo deste jornal com todo o prazer nos recebeu e nos levou a percorrer as dependências do acreditado hotel, que sofreu de facto, transformações quais radicais, desde a entrada até aos confins do amplo e confortável prédio, de cujos quartos todos mobilados de novo e com instalações de água quente e fria, se disfrutam paisagens de terra e mar verdadeiramente deslumbrantes.
Nesses melhoramentos andou o fino gosto do grande arquitecto, nosso amigo sr. Norte Júnior, que mais uma vez não quis deixar os seus honrosos créditos por mão alheias.
Tanto no confortável escritório, onde as coisas estão preparadas para se prestar quaisquer esclarecimentos ao turista, português ou estrangeiro, até aos amplos salões onde se serve a comida e desde estes até aos aposentos de hospedes tudo é decência e comodidade, tudo é aceio e higiene, tudo é, em suma, um hotel digno das tradições do Neto e da Vila de Sintra.
A par das dezenas e dezenas de quartos e dos chics «appartmens» de janelas rasgadas olhando a luxuriante Serra de Sintra, os prados e os vergéis, o mar e a mancha bizarra das povoações limítrofes e por aí fora até ao vetusto Convento de Mafra, tudo no Hotel Neto constitui o que se chama uma ducificante paragem do bem-estar e da saúde que muitos sanatórios portugueses invejariam. (…)»

 

Grupo de refugiados judeus que ficaram hospedados no “Hotel Netto”, em 1941

“Hotel Netto” dentro da elipse desenhada, em 1940

Um dos hóspedes mais ilustres, do “Hotel Netto”, foi o escritor José Maria Ferreira de Castro (1898 - 1974), que chegou a residir no hotel durante 12 anos.

O “Hotel Netto” encerraria definitivamente nos anos 70 do século XX., e ficaria ao abandono até 2016.

    

Depois de décadas ao abandono, o edifício foi vendido em hasta pública, em 10 de Março de 2016, à empresa “Restelo Azul - Exploração Turística, S.A.” - ligada ao empresário Carlos Saraiva - por um milhão de euros. O imóvel está, desde Setembro de 2016, a ser reabilitado e transformado num hotel de charme. A nova unidade hoteleira, de quatro estrelas, terá 34 quartos e três suítes, num total de 68 camas.

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa

3 de dezembro de 2017

Ferro de Engomar

O “Retiro Ferro de Engommar” teve a sua origem numa horta da “Quinta da Rabicha”, junto a Campolide junto ao arco grande do “Aqueduto das Águas Livres”, em Lisboa.

«(...) Tomando outro rumo, havia os restaurantes da Rabicha, nomeadamente o Ferro de Engomar, que depois se mudou para a estrada de Benfica, onde se encontravam Os Charquinhos, o José Bacalhau, e mais adiante o Caliça.» in: “Almanach Palharaes” para 1918.

“Quinta da Rabicha” e o “Retiro Ferro de Engommar” na casa ao centro do postal

«A Quinta da Rabicha era pequena e em forma de triângulo. Toda colmada de um odorífero e viçoso pomar, que dava primorosas laranjas. Água abundante e corrente. A menidade do sítio contrastava com os rochedos escalvados, que diziam para o poente. Nos arredores de Campolide muitas casas em ruínas, esburacadas de balas de fuzil e artilharia, dos assaltos dos realistas à cidade , nos dias nefastos da grande guerra de D. Pedro e D. Miguel.
A afamada Rabicha, de nossos avós e de nossos pães, foi durante muitos annos, ás portas de Lisboa, o mais dilecto recinto da mocidade, fornecendo-lhe, por um cruzado (480), magníficos jantares, servidos sob extenso parreiral, á beira de espaçoso tanque, sendo ementa obrigada o pão de Bellas, o peixe frito, a legitima alface aloirada, a fructa de primeiríssima
qualidade e o vinho chamado de fora barreiras, magnifico Torres sem mistura, recebido junto ás pipas em tijelas vidradas a branco.»
in: "Livres das Férias", de Augusto Forjaz em 1915

A mesma perspectiva da “Quinta da Rabicha” do postal anterior, mas já sem o Retiro “Ferro de Engommar”

Outro Retiro na “Quinta da Rabicha”

O costume dos lisboetas irem para as hortas da Rabicha teria começado quando o aqueduto estava em construção, e nos domingos as gentes da cidade acorriam junto à ribeira para admirar as obras.

Além da “Quinta da Rabicha”, havia outros retiros, como o “Ferro de Engommar”, o mais antigo com esse nome. Foi aí que se tomou célebre um dos primeiros cantadores de fado, de nome José Norberto e por alcunha o «Saloio de Campolide».
É muito provável que os retiros e hortas de Campolide tivessem sido mesmo dos primeiros sítios onde surgiu o fado e o seu antecessor “lundum”. Assim se deduz de uma notícia datada de 1780-1785 referente à “Quinta de S. João dos Bem Casados”. Residia ali D. Joana Perpétua, irmã do Duque de Lafões, quando, devido aos bons ares do lugar, vieram os «reais meninos» tratar-se da tosse convulsa. Para os distrair, «ela mandou vir os pretos da Rabicha que cantaram modinhas à viola e dançaram o “lundum”».

Na “Chorographia Moderna do Reino de Portugal” de João Maria Baptista em 1874, já incluía a “Ferro de Engommar, Q.” na sua lista.

1874

“História do Fado” de Pinto de Carvalho (Tinop), em 1903

O retiro “Ferro de Engommar” seria transferido para Benfica, para a “Quinta Ferro de Engommar” ainda no século XIX, onde se cantava o fado, ainda, fora de portas.

“Ferro de Engomar” já em Benfica

Anúncio no jornal"A Capital" de 31 de Maio de 1913

Maria do Carmo Fontes Páscoa Bernardo, que se acompanhava à guitarra, que aprendera a tocar com um tio, foi aprendiz de costureira na casa Ramiro Leão e mais tarde costureira com atelier próprio. Teófilo Braga (que morava na casa em frente à sua), estimulou-a a cantar canções populares. Com apenas 11 anos foi uma das primeiras fadistas a cantar fora de portas. Era conhecida por Maria do Carmo Alta , alcunha que lhe foi dada devido à sua elevada estatura, e para a distinguir de outra importante cantadeira da altura, Maria do Carmo Torres.

Entretanto em 26 de Junho de 1927

                                 18 de Junho de 1928                                                                 7 de Julho de 1928

 

Mas com concorrência de peso, e bem perto …

                                      7 de Julho de 1928                                                    30 de Novembro de 1933

        

Maria Alice, que iniciou a sua carreira no retiro “Ferro de Engomar”, era o nome artístico de Glória Mendes, mais tarde Glória Mendes Leal de Carvalho, por ter casado com Valentim de Carvalho, dono da editora discográfica com o mesmo nome. Faleceu em Lisboa em 1997, tendo sido dado o seu nome a uma rua de Lisboa.

 

Maria do Carmo Alta, que fez várias digressões ao Brasil, além do seu prestígio como cantadeira, era muito organizada e empreendedora, o que a levou a fundar o “novo” retiro “Ferro de Engomar”, cerca de 1918 e que geriu em conjunto com Alberto Costa, outro grande fadista.

Foi o primeiro restaurante/retiro com elenco privativo, onde se cantava o fado às segundas , quartas e sábados e onde acorriam figuras importantes de Lisboa. Mais tarde Maria do Carmo convidou Maria Alice para sócia do “Ferro de Engomar”. Assim, as duas sócias Maria do Carmo Fontes Páscoa Bernardo e Glória Mendes , formaram a firma “Mendes & Bernardo, Lda.” sociedade esta que foi adquirida por Manuel Bernardo em 1938. Manuel Bernardo casou em 1953 com D. Lourdes Amélia Mendes Flora Bernardo.

 

Demolido em 1953, o antigo Retiro “Ferro de Engomar”  foi substituído por prédios novos. Mas o restaurante subsistiu, no mesmo local (ocupando o andar térreo de dois edifícios), reabrindo em 16 de Maio de 1956, conservando o seu espírito e as suas especialidades gastronómicas, mas ampliando o seu negócio a pastelaria e cervejaria.

16 de Maio de 1956

E como «quem fala verdade não merece castigo» … em 24 de Maio de 1956

1958

Após a morte de seu marido, D. Lourdes Amélia Mendes Flora Bernardo geriu, com a mesma firma, o “Restaurante Ferro de Engomar”, até ao seu encerramento em 31 de Outubro de 2013.

 

Última ementa do Restaurante “Ferro de Engomar”, de 31 de Outubro de 2013

                                                                      gentilmente cedida pelo blog “IÉ-IÉ

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital