A firma “J. Castello Branco”, foi fundada por José Castello Branco em 1903 na Rua do Socorro, 12 em Lisboa. A exemplo da "Casa Favorita" de "F. Santos Diniz", - fundada nos anos 90 do séc. XIX na Praça dos Resturadores, 50 e 52 - a casa "J. Castello Branco" iniciou a sua actividade, a vender bicicletas, da marca holandesa "Simplex". Estas bicicletas eram fabricadas pela "Simplex Automatic Machine Company" fundada em Utrecht, na Holanda, em 1887 pelo inglês Charles Bigham.
Rua do Socorro. A 1ª loja da "J. Castello Branco", nº 12, a seguir ao nº 10 à direita
Em 1904, José Castello Branco abre a sua segunda loja, na Rua de Santo Antão, 82 também em Lisboa, exclusivamente para a venda de discos e machinas fallantes alemães, os grandophones "Odeon". A partir de 1905 a "J. Castello Branco" cria a sua própria marca de discos double face "Simplex" da firma recém criada “Disco Simplex”: «marca registada, propriedade exclusiva de J. Castello Branco» que editariam discos pelo menos até 1915.
1905
Entretanto, e em 1906, a loja de "J. Castello Branco" onde comercializava as bicyclette "Simplex", "BSA", "Humber" e outras, na Rua do Socorro, já tinha mudado do nº 12 para o nº 48.
15 de Junho de 1906
15 de Julho de 1906
Para melhor entender a actividade comercial de José Castello Branco vou transcrever o seguinte texto, depois de traduzido para português, e cuja origem informo na bibliografia:
«No início do século XX, foi estabelecida em Lisboa a Sociedade Fabricante de Discos – Disco Simplex C. B., uma empresa de gravação que criou um catálogo contendo um número significativo de discos. Este esforço empreendedor foi impulsionado pelo empresário local José Castello Branco e começou como uma loja na Rua de Santo Antão. Este espaço comercial importava originalmente bicicletas holandesas, artigos que a empresa publicitava regularmente nos periódicos da época. Na altura, as bicicletas estavam a ser introduzidas em vários países como uma mercadoria moderna e de moda, um processo que corre em paralelo com a criação de um mercado para produtos fonográficos.
Em 1905, a Simplex começou a anunciar, juntamente com as bicicletas, discos e máquinas falantes. Isto evidencia uma expansão do negócio da empresa para outras mercadorias e tecnologias. De acordo com uma fotografia tirada por Joshua Benoliel no início do século XX, a loja Simplex comercializava produtos fonográficos (o cartaz mencionava discos de dupla face) do seu próprio catálogo e da marca alemã Odeon. Isto alarga o espetro geográfico da discussão sobre as companhias de gravação internacionais ativas em Portugal que, até este momento, estavam sediadas ou em França (como a Pathé) ou na Grã-Bretanha (como a The Gramophone Company, cuja fábrica de prensagem se situava em Hanôver – embora a construção de uma nova instalação em Hayes tivesse começado em 1907). Leonor Losa e Susana Belchior enfatizam o papel que as marcas alemãs desempenharam neste período ao afirmarem que “durante as primeiras décadas do século XX, a atividade das marcas alemãs foi o motor que tornou possível o estabelecimento de um mercado de fonogramas em Portugal.” Além disso, atribuem este facto à “falta de investimento por parte das companhias internacionais e ao deficiente sistema de agenciamento e distribuição de fonogramas” neste país durante este período.
Ao analisar os periódicos da época, é possível datar a publicidade da Simplex a fonogramas e máquinas falantes em 1905; em agosto do ano seguinte, o Boletim da propriedade industrial (mencionado acima) incluiu o registo de uma marca de discos pela empresa. De acordo com os discos sobreviventes, a produção da Simplex espelha a oferta das outras companhias de gravação em Portugal, concentrando-se em canções teatrais (principalmente extraídas da revista) interpretadas por figuras como Duarte Silva, Eduardo Barreiros, Isabel Costa, Júlia Mendes ou Reinaldo Varela. Isto reforça a ideia de que a indústria discográfica em Portugal dependia de um pequeno número de artistas que gravavam regularmente e cujos contratos não contemplavam exclusividade (quer de artista, quer de repertório). Losa e Belchior notaram ainda a dependência dos agentes portugueses em relação a bens e técnicos importados, o que motivou uma relação simbiótica entre comerciantes locais e empresas estrangeiras. Portanto, em resultado da ausência de equipamento de gravação e de engenheiros em Portugal (facto que impedia os editores discográficos locais de produzirem o seu próprio catálogo), estabeleceu-se uma relação mutuamente benéfica entre empresas estrangeiras e pequenos editores de discos portugueses.
Devido a esta dependência, José Castello Branco teve de confiar em empresas estrangeiras para gravar e lançar o repertório da Simplex. Isto resultou no que Leonor Losa e Susana Belchior designaram por uma “série mista” de gravações. Neste contexto, empresas como a Beka, Odeon ou Homophon utilizavam prefixos específicos para identificar gravações portuguesas nos seus catálogos. Inversamente, os números de catálogo ou de matriz de algumas etiquetas portuguesas conformavam-se às séries numéricas dos catálogos das companhias transnacionais. Isto significava que as gravações portuguesas eram disponibilizadas tanto por marcas de lojas locais como por companhias internacionais. Losa e Belchior dão o exemplo de um grupo de discos da Simplex e da Homophon de 1905 que apresentam uma correspondência entre os números estampados no espelho do disco, apontando para a sua gravação por um engenheiro da Homophon (identificado por Gronow como Hermann Eisner, então gerente/proprietário e diretor técnico da empresa) numa única expedição que teve lugar em maio de 1905. Além disso, tanto os fonogramas da Simplex como os da Homophon gravados em 1905 começavam com um anúncio (uma prática comum na época, publicitando a empresa/retalhista e identificando a gravação) dizendo “Disco Simplex”, facto que indica a intenção de lançar estas gravações pela primeira empresa referida. Acresce que esta ocorrência e o facto de as gravações terem sido feitas pelo mesmo técnico reforçam a hipótese de os discos lançados por ambas as empresas terem sido fabricados na mesma unidade de prensagem. Portanto, os discos Simplex seguiram um modelo de negócio diferente das companhias de gravação transnacionais (como a Pathé ou a The Gramophone Company), criando uma parceria com empresas estrangeiras com o objetivo de gravar e publicar os seus discos. Além disso, o mercado português correu em paralelo com outros mercados periféricos no que diz respeito à relação entre empresas locais e multinacionais. Neste contexto, o crescimento de um mercado discográfico dependeu da atividade de um pequeno número de empresários locais que estabeleceram uma relação estreita com empresas sediadas na Alemanha, principalmente associadas ao grupo Carl Lindström. Esta dinâmica internacional, na qual os interesses comerciais eram partilhados e negociados entre empresas locais e estrangeiras, foi a estratégia adotada por estes agentes, revelando uma relação de proximidade entre eles que difere marcadamente da posição “mais distante e imponente” adotada tanto pelas companhias francesas como pelas inglesas.» (1)
Os últimos anúncios publicitários da "J. Castello Branco", a que tive acesso, datam de Maio de 1911, em que o título dos mesmos eram "Automóveis", e que publico de seguida. Pelo que, deduzo que a sua atividade comercial terá terminado por esta altura. Nesta altura a loja da rua do Socorro, já funcionava no nº 23-B.
Bibliografia:
(1) - "Music, theatre and the nation: The entertainment market in Lisbon (1865-1908)" de João Luís Meireles Santos Leitão da Silva - Submitted in fulfilment of the degree of Doctor of Philosophy - Newcastle University School of Arts and Cultures - September 2011.
fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa, Fotold
.jpg)




.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)

.jpg)



.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário