Restos de Colecção: Café “Martinho da Arcada”

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11 de março de 2018

Café “Martinho da Arcada”

O Café Restaurante “Martinho da Arcada”, localizado do Terreiro do Paço, em Lisboa, começou por ser uma loja de bebidas da Arcada do Terreiro do Paço, chamada “Café da Neve” que abriu em 1778. Em 1782 já era o botequim “Arcada do Anselmo”, pelo facto de estar instalado no quarteirão apelidado do "Quarteirão do Anselmo da Cruz Sobral". Em 1784 muda de nome para "Casa de Cafe Italiana", sendo seu proprietário Domingos Mignani.

Em 1795, o mesmo Domingos Magnani, muda de novo o nome deste estabelecimento para "Café do Commercio". Por denúncia efectuada por carta à Polícia em 1809, sabia-se que neste botequim reuniam-se muitos libertinos e muitos jacobinos. Por esta razão, nesta altura, era vulgarmente designado por "Café dos Jacobinos". Noutra denúncia de 1810, o botequim da Arcada era referido na lista de casas clandestinas de jogo de banca e dados.

Localização do “Martinho da Arcada”, no final do século XIX, dentro do quadrado desenhado

Em 1820, passou a chamava-se “Casa da Neve", pertença de Simão Fernandes que recebia a sociedade elegante de Lisboa, que lá se deslocava para deliciar-se com os sorvetes muito apreciados. Em 1823 este estabelecimento passa para as mãos de um tal Anselmo, mudando mais uma vez de dono no ano seguinte.

«Na parte da policia secreta de 14 de novembro de 1823 afirma-se que o botequim da Arcada do Anselmo era um dos silios em que havia mais conversações e mofas á Gazeta «na parle que tratava a respeito da Hespanha.». Em 1824 era dono d'esse cafe um José de Mello. Em 1823 appareceu um annuncio na Gazeta, dizendo que na porta n.° 7 da Arcada se forneciam almoços a tostão, e jantares e ceias para fora. Quer-nos parecer que ainda se tratava d'esta mesma casa. Em 1829 annunciava-se o trespasse da loja de bebidas com bilhar, debaixo da Arcada do Terreiro do Paço, e que se tratava com o arrendatário na mesma loja. Finalmente, em 25 de Maio de 1829 abria, completamente reformado, o botequim da Arcada.»

O já "Café da Arcada" viria, mais tarde, em 1829, a pertencer a Martinho Bartholomeu Rodrigues - o Martinho da Neve - fundador do "Café Martinho", em 1845 no, então, Largo de Camões actual Praça Dom João da Câmara. Martinho promove profundas obras de renovação que o transforma num dos melhores café-restaurante de Lisboa. Mais tarde o “Café da Arcada” viria a mudar definitivamente de nome para Café “Martinho da Arcada”

Os cafés de Lisboa no “Guide to Lisbon and its Environs”, de 1874 e da autoria de Joaquim António de Macedo

“Martinho da Arcada” em 1942

Da esquerda para a direita: desconhecido, Raúl Leal, António Botto, Augusto Ferreira Gomes e Fernando Pessoa, em 1928

«Martinho Rodrigues era o contractador da neve que se consumia na capital era 1810. Tirava-a da serra do Coentral Grande, d’ahi vinha em carros até á Barquinha, e em barcos d'agua-acima até Lisboa. Em 21 de Novembro de 1832 foi mandado que as lojas de bebidas fechassem ás Ave Marias, e as outras lojas às 8 horas da noite, exceptuando as boticas que podiam fechar ás 9 horas, embora o ministro da Justiça dissesse n'ura aviso que os boticários, pela maior, parte, não possuíam bons sentimentos políticos. O Martinho pediu para fechar ás 9 horas.» citações anteriores in: “Lisboa d’Outros Tempos” de Pinto de Carvalho (Tinop).

Porta na Rua da Prata e o “Martinho da Neve” na lista dos Botequins e Cafés de Lisboa no “Novo Guia do Viajante” de 1880

 

Martinho Bartolomeu Rodrigues, homem altamente operoso e bom negociante, arranjou também outra solução com vista a obter gelo em abundância para o fabrico dos seus sorvetes, chegando a manter cinco ou seis poços de gelo, não já na Serra de Montejunto, mas na Serra da Lousã, em Santo António das Neves. Foi ele que deixou em testamento os dois cafés ao escrivão do Tribunal do Comércio, Julião Bartholomeu Rodrigues, que era o dono deles em 1899.

Sob as Arcadas do Terreiro do Paço estiveram instalados vários estabelecimentos A loja da “Gazeta” era na arcada do Ministério do Reino (até onde se prolongava o Senado); o livreiro Nogueira estava na arcada da “Junta do Commercio”, onde se viria a instalar a “Junta do Credito Publico”, mas cujo edifício pertencia ao Senado; a loja das cartas de jogar estava na “Arcada do Anselmo”, porta n.° 0. Junto à Guarda Principal - instituída pelo Marquês de Pombal em 27 de Abril de 1775 na porta da Alfandega, havia uma loja de livros. Antes do terramoto já havia alguns livreiros no Terreiro do Paço. Isto alem dos papelistas que o frequentavam, como frequentavam a porta da Misericórdia.

                                27 de Julho de 1944                                                                  28 de Outubro de 1944                   

      

No princípio do século XX, o dono do “Martinho da Arcada” era já José Isidoro Pereira, que por escritura de 28 de Dezembro de 1925 trespassou a casa à firma “Mourão & Simões, Lda.” Em 1928, o “Martinho da Arcada” passou à posse do sócio dessa firma, Alfredo de Araújo Mourão, e em 1960, por sua morte, tornou-se dona desta casa sua filha, D. Albertina de Sá Mourão.

Durante anos, o “Martinho da Arcada”, foi um sítio de culto para as elites da cidade. Era frequentado por maçons, pelos políticos da Primeira República, e foi a «segunda casa» de escritores como Cesário Verde, Amadeo de Souza Cardoso, Bocage, António Botto, ou Fernando Pessoa. Foi aqui que Fernando Pessoa escreveu parte dos seus poemas e, entre eles, os que constituem o único livro que publicou em vida  “Mensagem”, tendo ainda hoje uma mesa permanentemente reservada, a mesma onde bebeu um café três dias antes de morrer, a 27 de Novembro de 1935.

Poeta Fernando Pessoa

Martinho da Arcada.1.1    

Poeta António Botto

Vista nocturna do “Martinho da Arcada”

Engraxador

Este café foi classificado imóvel de interesse público, pelo IIPC, em 1984, graças aos esforços da professora Carmo Vieira e dos seus alunos da “Escola Secundária do Marquês de Pombal”. Em 1988, foi aberto concurso para a remodelação do Café, sendo atribuída a obra ao arquitecto Hestnes Ferreira. Essa obra, financiada pelo “Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações”, orçou em 42 mil contos. O Café “Martinho da Arcada” reabriria com nova gerência, em 22 de Fevereiro de 1990, com uma luxuosa sala de jantar.

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Actualmente, o “Martinho da Arcada”, é o Café Restaurante mais antigo de Lisboa, ainda em funcionamento, e propriedade da firma “Martinho da Arcada, Lda.” constituída por António de Sousa, António Marcos de Sousa e Maria Adília de Sousa.

Exterior e interiores do “Martinho da Arcada” e a mesa “reservada” de Fernando Pessoa

 

 

 

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Municipal de Lisboa

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