5 de dezembro de 2018

Cinema “Promotora”

O Cinema “Promotora”, localizado no Largo do Calvário, em Lisboa, e propriedade da “Sociedade Promotora de Educação Popular”, terá aberto as suas portas pela primeira vez, em 1912, ainda como “Salão da Promotora” ou “Animatographo Promotora”.

A “Sociedade Promotora de Educação Popular”, tinha sido fundada em 30 de Setembro de 1904, no nº 125 da Rua d’Alcântara, por um grupo de entusiastas republicanos da instrução e educação do povo, transferindo-se pouco depois para a Rua de Alcântara, nº 6. Tinha como objectivo, promover a assistência e a formação de crianças e adultos, tendo criado, para o efeito, cursos diurnos e nocturnos, para, assim … «assistir ao nosso operariado dissipando as trevas do analfabetismo, lançando sem telhas de luz no espírito da classe trabalhadora».

Iniciou a sua actividade em 1905, funcionando com uma escola nocturna para o sexo masculino, adoptando o “Método João de Deus”. No ano lectivo 1907/1908 o ensino seria alargado ao sexo feminino, passando a ser diurno, constando nos seus programas aulas primárias elementares Língua Portuguesa, Francês, Aritmética, Desenho, Escrituração e Contabilidade, História e Geografia de Portugal e Música. No ano lectivo 1912/13 iniciam-se as lições de Inglês, Ginástica os cursos nocturnos para senhoras (proibidos em 1926 e reabertos 1953) e as sessões de Biblioteca com programa de Leitura conduzida.

Primeiro número do jornal “A Educação Popular”

Festa anual presidida por Machado Santos em 30 de Setembro de 1911

Quanto ao edifício onde se instalou, em definitvo, a “Sociedade Promotora de Educação Popular” e o seu Animatographo, pode-se ler no site da “Videoteca Municipal de Lisboa”:

«A Videoteca Municipal de Lisboa está instalada no que resta do Palácio Real de Alcântara (as cocheiras), actualmente conhecido por edifício da Promotora (a velha e benemérita Sociedade Promotora de Educação Popular, fundada em 1904, neste local desde 1911). Originariamente construído na segunda metade do século XVI, o imóvel teve como primeiro proprietário João Baptista Rovelásco, gentil-homem milanês, a quem, D. Felipe II de Espanha o viria a confiscar em 1580.
O antigo solar, mais tarde Palácio Real de Alcântara ou simplesmente Palácio do Calvário, serviu, até 1662, para veraneio de D. João IV e família. Aí residiram também D. Pedro II (que nesse local veio a falecer em 1706), seu irmão D. Afonso VI e o infante D. António (4º filho de D. Pedro II) que nele habitava quando o terramoto de 1755 quase o destruía por completo. Passados dez anos, o Palácio Real de Alcântara já estava de novo de pé; perdera a sua grandiosidade mas, ainda assim, continuava a ser uma agradável residência para condes e outros aristocratas que aí viveram até 1878, altura em que foi adquirido à Casa de Bragança pelo industrial Eduardo Conceição e Silva que, por sua vez, o viria a deixar por herança a Augusto Serra e Costa.
Para além dos ilustres residentes que se sucederam ao longo dos séculos, o edifício teve também uma utilização cultural. Em 1903 instalou-se aí o Clube de Lisboa (também conhecido por Clube do Calvário), depois passou a Centro Marques Leitão, vindo, finalmente, a acolher em 1911 a Sociedade Promotora de Educação Popular. (…) Em 1912, para fazer face aos encargos, a Promotora instalou no primeiro andar do edifício um cinema. »

                               1 de Abril de 1915                                                                       23 de Janeiro de 1916

         

Apesar de historicamente ser apontado o ano de 1912, para a instalação do Animatographo “Promotora”, só em 1915 é que aparecem as primeiras referências a esta sala nas publicações periódicas da época. Caso do jornal “A Capital” que, em 31 de Março de 1915 escrevia:
«O Animatographo da Promotora, no Calvario, 6, é um salão recommendavel não só pela escolha dos seus programmas, que são compostos sempre com os melhores 'films' que veem a Portugal, como pelo socego e segurança, predicados estes de bastante valia para os espectadores.
A Promotora organisa a sessão da moda, amanhã, quinta feira, 1 de Abril, com o seguinte programa: Eclair journal 43, assumptos da guerra, Escravo do seu passado, Bidoni fuma, Honradez que mata, O cão de Seraphim.»

Em 1930, a “Sociedade Promotora de Educação Popular”, então presidida por Manuel Nunes Salvador, promoveu a construção de um novo cinema no próprio edifício-sede e no sector correspondente à parte posterior do mesmo, com entrada para o Largo do Calvário. Viria a ser inaugurado em 5 de Junho de 1931, possuindo uma sala ampla com uma plateia, 1º e 2º Balcão, tendo como lotação 480 lugares. A sua gerência foi entregue a Jaime da Cunha Rosa, que já geria os cinemas "Olympia", "Salão Portugal", "Salão Lisboa" e "Paris Cinema". De referir que o cinema Palatino tinha sido inaugurado na véspera na Rua Filinto Elísio e com a gerência também a cargo do mesmo.

5 de Junho de 1931

 

6 de Dezembro de 1934

1953

Neste ano de 1931, a 20 de Outubro, é atribuído à “Sociedade Promotora de Educação Popular” o alvará de licença de ensino, passando a funcionar, na sua actual morada, como uma escola de Primeiro Ciclo do Ensino Básico, prevendo a lotação máxima de 200 alunos e possuindo paralelismo pedagógico. 

Poucos anos depois, este Cinema viria a ser equipado com aparelhagem sonora da empresa americana “Western Electric Company”, e representada em Portugal pela “Caster Iberica” tornando-se assim num dos primeiros cinemas de bairro a oferecer ao público o filme sonoro.

18 de Novembro de 1940

  Bilhetes gentilmente cedidos por Carlos Caria

Ao longo das décadas a sala foi sofrendo algumas alterações, acabando por encerrar em definitivo em meados dos anos 80 do século XX.

Cinema Promotora ( 1912)

Entretanto, a “Sociedade Promotora de Educação Popular”, continua a desenvolver a  actividade educativa funcionando no primeiro andar um externato. No rés-do-chão, está instalada, desde 1992, a “Videoteca Municipal de Lisboa”, um pequeno auditório, uma ludoteca e uma biblioteca, especializadas em meios audiovisuais.

fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital

1 comentário:

João Santos disse...

Excelente, como sempre. Muito obrigado. Recordou-me ter há uns anos lido sobre esta sala de cinema (aqui: http://cinemasparaiso.blogspot.com/2013/05/na-segunda-decada-do-sec.html) pela qual passei em miúdo - não jurando, creio ter visto por lá uns westerns e uns filmes da Disney. No artigo de "A Capital" que cita, adorei a referência ao "socego e segurança" - qualidades de que a zona do Calvário não se poderia propriamente abonar em meados de 80! Um abraço, João Prado Santos