16 de janeiro de 2012

Leprosaria Nacional Rovisco Pais

A “Hospital - Colónia Rovisco Pais”, mais conhecido por “Leprosaria Nacional Rovisco Pais”, nasceu a partir de um decreto/lei criado a 15 de Novembro de 1938 para controlar o alastramento da lepra em Portugal, nas ex-colónias e nas ilhas. Alguns meses depois, a 7 de Fevereiro do ano seguinte, era confiada a uma comissão a missão de estudar, tendo como base o inquérito feito em território nacional, o programa de obras e a abrangência das medidas a tomar para o controle da doença.

José de Rovisco Pais tinha deixado em testamento 10 mil contos (50.000 €), que era uma fortuna na época, aos hospitais civis para assistência aos necessitados, não indicando uma área específica. O prof. Fernando Bissaya Barreto, médico cirurgião da Universidade de Coimbra,  demonstrou com números aterradores a posição de Portugal, perante os outros países europeus em matéria de lepra aparecendo os leprosos em situação desfavorável perante as outras doenças. Convencera o Presidente do Concelho o Dr. Oliveira Salazar a decretar que todos os leprosos fossem encerrados no mesmo sítio e o mais longe dos olhares.

                                                      Projecto da Leprosaria, do arquitecto Carlos Ramos

                               

A região preferida e escolhida foi a da Tocha entre Cantanhede e a Figueira da Foz, para construir uma das mais modernas leprosarias que a Europa: 140 hectares com todas as condições. dado o número elevado de leprosos nessa zona, o isolamento em face de aglomerados populacionais e as condições do clima e do solo, consideradas fundamentais, quer para a terapêutica da lepra, quer para o desenvolvimento de atividades agrícolas.

As obras de construção deste estabelecimento de saúde tiveram início em 1940, respeitando o projecto do arquitecto Carlos Ramos, (que se destacou como director da Escola Superior de Belas-Artes do Porto, na época o especialista português em arquitectura hospitalar) naquele que foi considerado o maior projecto assistencial do país na altura. O modelo deste projecto pressupunha uma divisão estruturante entre sexos que, a partir de um eixo central composto pelo hospital central, capela e antigo Convento dos Frades Crúzios de Santa Cruz de Coimbra, opunha numa disposição simétrica, os vários edifícios ocupados pelas mulheres e pelos homens.

                                                                 Vista aérea de todo o complexo hospitalar

                                 

O regime decretou e o prof. Bissaya Barreto defendeu que era a única forma de oferecer alguma dignidade a pessoas vítimas do ostracismo da comunidade. Por isso, as rádios oficiais pediam aos cidadãos para denunciarem os sítios onde viviam leprosos. Dezenas de brigadas médicas, acompanhadas por polícias, passaram o país a pente fino e internaram centenas de portugueses. Após identificados e colocados na carrinha, os seus bens eram queimados. Se tivessem filhos saudáveis, estes deveriam ser entregues a instituições sociais ou ficar em casa de familiares.

                                                                                   Brigada médica

                                       

O Ministério do Interior organizou os procedimentos e comunicou ao país que, finalmente, aqueles cidadãos teriam também direito a uma vida «digna e prazenteira». Como disse o Prof. Bissaya Barreto, num dos relatórios: «Vamos travar uma luta contra a lepra e não contra o leproso» e «Queremos que os doentes fujam para o Leprosário, não queremos que os doentes fujam do Leprosário».

                                                                                            Asilo

                                 

                                             Hospital                                                             Casa de educação e trabalho

         

Foi a 7 de Setembro de 1947 que foi inaugurado o então “Hospital - Colónia Rovisco Pais”, com vários edifícios de tratamento e apoio de onde se destacavam as oficinas destinadas ao exercício das profissões desempenhadas sobretudo por homens jovens e que ajudavam no equilíbrio financeiro da leprosaria que, recorde-se, prestavam cuidados de saúde gratuitamente.

                                                                                 Oficina de sapateiros

                                      

A propriedade, conhecida como a Quinta da Fonte Quente, era completamente autónoma, «um mundo dentro de outro mundo» como afirmava Maria Madalena, a assistente social que durante décadas partilhou as dores e as alegrias com os internados neste hospital. Era um espaço dividido por uma estrada que separava homens e mulheres vítimas da mesma doença. De tal forma que chegou a integrar, na década de 50, uma área destinada a acolher famílias cujos membros estavam afectados pela doença, o designado núcleo familiar que chegou a integrar 85 moradias reunidas em cinco grupos de construção.

                                                                                   Núcleos familiares

         

         

Para além dos serviços centrais e da administração, o hospital integrava ainda um bloco operatório e uma ala totalmente dedicada ao laboratório onde eram efectuadas as análises do continente e das ilhas, quatro serviços de internamento, asilos para ambos os sexos, casas de trabalhadores e até uma propriedade agrícola com criação de animais .

                                                                              Áreas de lazer e refeições

          

          

A “Leprosaria Nacional Rovisco Pais” foi formada por por um conjunto de edificações, cada um com a sua função definida. O antigo Convento dos Frades Crúzios, no centro da quinta, foi adaptado e destinou-se às residências do director e sub-director, capelão e aos serviços administrativos. Os restantes departamentos estavam assim distribuídos:

Hospital para 86 doentes
2 Asilos para 198 doentes
6 Habitações para trabalhadores
5 grupos de moradias com 85 casas, podendo albergar 300 doentes
Cozinha
Lavandaria
Capela
2 edifícios para os filhos sãos dos leprosos
Infantário para 24 crianças até 3 anos de idade
Casa para educação e trabalho para 24 crianças dos 3 aos 7 anos de idade
10 moradias para o pessoal superior
2 pavilhões para 100 doentes cada um
Pavilhão para doentes de infecto-contagiosas, tuberculosos, loucos e delinquentes

                                                                                         Cozinha

                                      

                                                                          Exterior e interior da creche

        

Em 1947, quando os leprosos ultrapassavam o portão do Hospital Rovisco Pais sabiam que a sua vida terminara. Deixavam de poder perguntar pelos filhos e o passado era reduzido a cinzas. Logo à entrada os homens eram separados das mulheres. O prof.Bissaya Barreto, naqueles primeiros meses, explicava pessoalmente a todos os leprosos o manual de procedimentos e o código de disciplina. Dentro do hospital estava instalado um posto da GNR onde trabalhavam 17 guardas-civis armados com paus. Desde o primeiro dia, os doentes apelidaram-nos de «guardas de pau».

                  Edifício da cozinha, lavandaria e armazém                                                  Lavandaria

        

                                                                           Exterior e interior da Capela

      

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

Em Dezembro do mesmo ano estavam internados 368 doentes, um sinal claro da necessidade da leprosaria, que em 1950 chegava aos mil internados e cerca de 1300 em sistema de tratamento.

Após três décadas de verdadeira luta contra a «Doença de Hansen», ou lepra como vulgarmente é conhecida, o “Hospital Rovisco Pais” conseguiu, através de um subsídio de reintegração social, que os doentes de longa data se mantivessem sob a protecção da entidade. 

                                                                                   Equipa de futebol

                                        

Cumprida que estava a função de controlar a lepra, o projecto da unidade passa a ser repensado e finalmente, em 1996, é extinto o hospital colónia e criado o “Centro Medicina de Reabilitação da Região Centro Rovisco Pais” que exerce atividade de interesse público nas áreas de cuidados de saúde, ensino e investigação na saúde, nos cuidados diferenciados de reabilitação, doentes com lesões neurológicas cerebrais e medulares, lesões músculo-esqueléticas, amputados, grandes politraumatizados, reumáticos, queimados e com lesões cardiovasculares, entre outros.

                                                   Aspectos do actual “Centro de Medicina de Reabilitação”

                                       

                                       

4 comentários:

Carlos Henriques disse...

Pena que o equipamento fosse à Sporting!!! :))

Um abraço,

Carlos

José Leite disse...

Caro Carlos Henriques

Veja pelo lado positivo ...
Só vem contrariar a tese de que o S.L.B. (Benfica) era o clube de futebol do regime do Estado Novo.

Pelos vistos não era o único ...

Um abraço

José Leite

Anónimo disse...

Passaram-se anos e o hospital (pertenca do MSaude), tornou-se num espaco agradavel onde numa parte a appacdm faz colonias e nas outras casas o proprio ministerio fez a sua colonia.
Tive o prazer de as inaugurar e de lidar com os q la ficaram e q contam suas historias.
Hoje todos.podem la pernoitar e ouvir os Bafos
Helena Nunes

Fernando Caldeira Jorge disse...

Uma preciosa peça de informação!

Obrigado e parabéns!