Restos de Colecção

6 de outubro de 2024

A. M. da Rocha Brito, Lda.

A firma de comércio de automóveis "A. M. da Rocha Brito, Lda." foi fundada por Arnaldo Moreira da Rocha Brito em 1924, na Rua de Santa Catharina, nº 255 na cidade do Porto. Era na altura concessionária dos automóveis "Citröen" no Porto.

Stand na Rua Sá da Bandeira, 112. Farmácia "Estácio" (filial no Porto) à esquerda na foto


Caricatura a Rocha Brito da autoria de António Cruz Caldas, em 1925


6 de Junho de 1928

Arnaldo Moreira da Rocha Brito (1880-1969), casado com Magdalena Luizello, iniciou a sua actividade comercial e industrial em 1891, tendo sido um grande empreendedor da cidade do Porto que não só se destacou no comércio de automóveis da americana "General Motors" e co-proprietário "Garagem Passos Manuel",  como se destacou, igualmente, na campo das Artes tendo sido empresário do "Coliseu do Porto" entre 1940 e 1949, empresário do "Teatro Sá da Bandeira" entre 1909 e 1969, bem como do Cine-Teatro "Águia de Ouro" - arrendatário desde finais de 1913. Foi ainda membro do Ateneu Comercial do Porto e Presidente da Associação Comercial do Porto.

Arnaldo Moreira da Rocha Brito (1880-1969)


"O Rei dos Pó-pós" em 18 de Novembro de 1933

No início dos anos 30 do século XX a "A. M. da Rocha Brito, Lda.", já instalada na Rua Sá da Bandeira, nº 112, era nomeada concessionária da "General Motors" para o distrito do Porto, passando a comercializar marcas como a "Chrysler", "Dodge", "Oldsmobile", "Cadillac", "Plymouth", "Pontiac", "Willys", "Opel", "Chevrolet", "Vauxhall", etc. Ainda, os camiões "Chevrolet", "Bedford", "Hanomag", "Hino",  etc.


28 de Dezembro de 1933


Escritório do stand


16 de Junho de 1934





22 de Maio de 1935






Arnaldo Rocha Brito à direita na foto

Em 18 de Março de 1939 Arnaldo Rocha Brito, juntamente com António Sardinha, inauguram a "Garagem Passos Manuel",, na Rua Passos Manuel, no Porto, propriedade da firma "Amorim, Brito & Sardinha, Lda." (arrendatária do edifício). O edifício tinha sido projectado pelo arquitecto Mário Ferreira de Abreu (1908-1996), em estilo Art-Déco, e por encomenda de  D. Eliza Chambers Marques e D. Maria Amelia Chambers de Sousa.


Garagem Passos Manuel e stand da "A.M. da Rocha Brito, Lda." na loja do edifício ("Dodge" exposto)


Almoço no restaurante do Palácio Cristal em 1940 

Nota: A meio da foto acima é possível observar o comendador Arnaldo Moreira da Rocha Brito e seu filho, Arnaldo Rocha Brito Júnior (à sua direita de laço).

Personalidade com uma intervenção acentuada na vida da cidade nas vertentes empresarial e do espectáculo, cinco anos antes da sua morte, tinha sido alvo de uma proposta de um vereador da Câmara do Porto para ser agraciado pela cidade. A intervenção, então, teve o seguinte teor e ficou exarada em acta da sessão realizada em 18 de Fevereiro de 1964:  

«O Vereador Senhor Abrantes Jorge, pedindo a palavra, diz:

« (…) É Arnaldo Moreira Rocha Brito ou simplesmente Rocha Brito que toda a cidade estima e admira.
Nascido em mil oitocentos e oitenta, nesta cidade, no seio de uma numerosa família burguesa, de origem duriense, não se expatriou para o Brasil, na adolescência, como o fizeram os restantes seus irmãos.
Aqui no Porto, iniciou ainda muito criança a sua dura vida de trabalho, como então a iniciavam, os que nada tinham a não ser a indomável vontade de triunfar: como marçano.
De marçano subiu a caixeiro e de caixeiro a comerciante de uma pequena loja de panos brancos.
Depois abalançou-se e fundou a que ainda hoje é uma das mais elegantes alfaiatarias desta cidade: «Londres no Porto» que durante muito tempo ostentou de direito e com orgulho a divisa de «Fornecedor da Casa Real».
Seguidamente passou a ser, como toda a gente sabe, o maior negociante de automóveis do Norte de Portugal.
Mas onde a actividade de Rocha Brito mais se notabilizou e com a qual prestou os mais assinalados serviços à cidade do Porto, foi como empresário teatral.
Pelo Teatro Águia D’Ouro, celebrizado por Júlio Dinis, no seu belo romance da vida portuense «Uma Família Inglesa», Rocha Brito fez passar, em espectáculos maravilhosos, as mais afamadas companhias de ópera, opereta e zarzuela.
Depois, no Teatro Sá da Bandeira, de que é arrendatário desde mil novecentos e nove, Rocha Brito ofereceu à cidade do Porto tudo o que de melhor tem havido na cena portuguesa e na estrangeira, através das idades. (…)
Construído o Coliseu do Porto, logo Rocha Brito foi seu empresário, e dizer das noites gloriosas de ópera com as maiores figuras da cena lírica mundial, dos concertos sinfónicos com as mais afamadas orquestras do mundo, entre as quais é justo destacar a Orquestra Filarmónica de Berlim e de outros espectáculos de grande nível artístico e cultural, é fazer história, que por ser recente, está na memória de todos, ainda dos muito novos. (…)» in: blog  "Um Sentimento do Porto".

A medalha de ouro e de Mérito da cidade do Porto, ser-lhe-ia atribuída em cerimónia ocorrida em 27 de Fevereiro de 1964.


Cerimónia da entrega da medalha de ouro e de Mérito da cidade do Porto

Em 25 de Abril de 1949, Arnaldo da Rocha Brito forma a sociedade "Garagem S. Salvador, Lda." com sede na Rua Roberto Ivens, 92 em Matosinhos, com os sócios Emanuel Antônio Luiselo da Rocha Brito, Armando Luiselo da Rocha Brito, Arnaldo Martins Fleming e Artur Augusto Macedo. O seu objecto era «a exploração de garagem, estação de serviço, oficinas e qualquer ramo de comércio ou indústria que julgarem conveniente.»

Em 1951 a concessão da GM, para o distrito do Porto é atribuída, também, à firma "António Sardinha, Lda.", de António Sardinha que já era co-proprietário da "Garagem Passos Manuel", com stand na Rua de Santa Catarina, 255 no Porto (antigo e primeiro stand de "A.M. da Rocha Brito") e oficinas em Vila Nova de Gaia, inauguradas em 7 de Julho de 1951. Esta empresa viria ser comprada pela "Salvador Caetano, S.A." em 2008. Em 1968 é atribuída a um terceiro concessionário: "Normotores - Sociedade de Automóveis, S.A.R.L.", com sede em Vila Nova de Gaia, com oficinas em Santo Ovídio e na Avenida de Camilo. Eram administradores desta empresa: Amadeu Lobo da Costa, Armando Jorge Henrique dos Santos e José Teixeira Marinho.


Instalações da "António Sardinha, Lda." em Vila Nova de Gaia

Em Fevereiro de 1955, era anunciado que 10 mil visitantes tinham ocorrido ao stand da "A.M. da Rocha Brito, Lda.", na Rua Sá da Bandeira para ver o novo automóvel da marca "IFA" F9, carro a dois tempos, com motor de 910 cc, 3 cilindros em linha, 30 cv. - derivado do "DKW" F9 - e  fabricado entre 1950 e 1956 na Alemanha de Leste na "Automobilwerk Zwickau"  antiga fábrica "Auto Union".




23 de Junho de 1956

Em 1964 a sociedade "A.M. da Rocha Brito, lda." era constituída da seguinte forma: Arnaldo Moreira da Rocha Brito (65%); Arnaldo Luizello da Rocha Brito (35%). «A gerėncia, dispensada de caução, compete ao socio Arnaldo Moreira da Rocha Brito, que será o orientador supremo da sociedade, e aos que para tanto tenham sido ou venham a ser eleitos em assembleia geral.».

30 de Julho de 1964

Já em 15 de Fevereiro de 1968 é lavrada escritura de aumento de capital de 300.00$00 para 1.200.000$00 « tendo contribuido para o respectivo reforço de 900.000$ : Emanuel António Luizello da Rocha Brito, com 69.000$; Arnaldo Luizello da Rocha Brito, com 69.000$; D. Maria Madalena da Conceição Luizello da Rocha Brito, com 45.000$; D. Maria Fernanda de Melo Brou Rocha Brito Lopes Mateus, com 45.000$; Lobo de Andrade & C.a, L.da, com 504.000$; Luis Vigoco Nunes, com 84.000$, e Dr. Emanuel Alegria Luizello de Rocha Brito, com 84.000$, ficando estes três ultimos admitidos na sociedade como seus novos sócios».


Janeiro de 1967

Em 1968, é nomeado mais um concessionário da "General Motors" para o distrito do Porto: a nova empresa "Normotores - Sociedade de Automóveis, S.A.R.L". Ao apresentar o relatório e contas referente ao seu primeiro exercício (1968) queixava-se … « A apreciação comercial deve ser condicionada ao facto de atualmente a área de concessão G. M. estar dividida por três concessionários, quando já pertenceu a um apenas. Não obstante, o numero de unidades vendidas pela nossa empresa foi o segundo de sempre, sendo o primeiro obtido exactamente naquela altura de monopólio.»

Mas apesar das queixas … «O valor de venda dessas unidades foi, porém, o mais elevado até à data, se nos referirmos apenas à linha Opel e Bedford.
Culminando o sucesso atrás referido, é-nos grato assinalar que a nossa empresa conquistou o 1.° lugar na 'Operação Rekord', organizada pela G. M.»

Arnaldo Moreira da Rocha Brito faleceu em 18 de Julho de 1969, e o jornal “Diário do Norte”, no dia seguinte anunciava:

«Morreu no Porto, ontem, o empresário Arnaldo Moreira da Rocha Brito, comerciante, industrial nascido em Cedofeita em 1 de Fevereiro de 1880, fundador da Alfaiataria do Bolhão aos 21 anos, explorador do Sá da Bandeira, do Águia de Ouro e do Coliseu, etc.».

Stand da "A.M. da Rocha Brito, Lda." na Rua Sá da Bandeira, em 1977. A farmácia "Estácio" (filial) à esquerda na foto

Em 1982 a empresa "A.M. da Rocha Brito, Lda.", na altura importadora dos camions "Hino", e que se encontrava em situação de falência, foi adquirida pela "Salvador Caetano, S.A.". A empresa foi convertida e transformada na "Baviera, S.A." importadora da marca "BMW".

Por outro lado em 14 de Novembro de 2002, quanto à firma proprietária da "Garagem Passos Manuel" a "Amorim, Brito & Sardinha, Lda." teria novo gerente, Salvador Acácio Martins Caetano (filho de Salvador Caetano), em substituição dos anteriores: José Reis da Silva Ramos e Joaquim Pereira da Silva, que tinham renunciado ao cargo.

fotos in: Hemeroteca Digital de LisboaArquivo Municipal do PortoArquivo Nacional da Torre do TomboArquivo Municipal Sophia de Mello BreynerBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais) 

4 de outubro de 2024

Casa Leonel

A "Casa Leonel" abriu as suas portas pela primeira vez em 1941, na Rua do Carmo, 71 em Lisboa. Era propriedade, inicialmente, apenas do seu fundador Leonel António da Silva, mas passou para a firma "Leonel António da Silva, Limitada", por escritura de 23 de Maio de 1946. 



Loja que a "Casa Leonel" veio substituir (por debaixo dos 3 paus de bandeira)

24 de Dezembro de 1941


1943

A firma "Leonel António da Silva, Limitada" era constituída por Leonel António da Silva como uma quota de 280.000$00 e D. Maria Fernanda de Carvalho Silva França com uma quota de 20.000$00, perfazendo um capital social de 300.000$00. O seu objecto era o comércio de louças, vidros, metais, quinquilharias e representações. A sede da empresa era no 2º andar esquerdo, do mesmo edifício do estabelecimento.


1948

"Casa Leonel" ao lado dos dois peões e à direita do «sr. guarda»

1958


1963

Esta importante loja, no seu ramo, da baixa lisboeta funcionou até 2009, dado que não tinha sido atingida grande incêndio no Chiado em 25 de Agosto de 1988.O edifíco que foi posteriormente reedificado e denominado "Edifício Leonel".


1973


Finais dos anos 70 do século XX

2 de outubro de 2024

"Tabopan" - Fábrica de Madeira Aglomerada

A "Tabopan  - Laminados de Madeira, S.A." teve origem na "Abreu & Companhia, Lda.", criada em 1929 em Amarante. Agostinho Gonçalves de Abreu, industrial amarantino, e mais dois sócios, estabeleceram a empresa "Abreu & Companhia, Lda.", que já produzia mobiliário de madeira maciça desde 1923 e produziria mais tarde, em 1941, artigos funerários, basicamente urnas ou caixões. A 18 de Julho do mesmo ano, as indústrias iniciavam a sua atividade fabril, numa pequena unidade fabril situada perto da linha de comboio, na Rua Cândido dos Reis. Oito anos depois, um incêndio deflagrou numa serralharia vizinha, e atingiu a pequena unidade fabril, destruindo-a por completo.


Por consequência, era necessário construir uma nova e maior unidade fabril, implantada no lugar de Ramos, na freguesia de Telões, concelho de Amarante. Enquanto esta era construída foram improvisadas instalações temporárias no antigo Quartel de Artilharia (actualmente designado como antigo Hospital de São Gonçalo). A nova unidade fabril da "Abreu & Companhia, Lda." começa a sua produção poucos meses depois, mesmo sem estar terminada, entre os anos de 1945 e 1946, unindo toda a família Abreu num grande empenhamento, ao qual se juntaram fornecedores e clientes.

Com o crescimento desta empresa surgem novos postos de trabalho, numa cidade onde a maior parte da população estava empregada na actividade agrícola; o desemprego não fazia parte da realidade do povo desta região do Tâmega: «Falta de trabalho, era coisa que não havia nestas paragens do Tâmega, onde se ergueu o maior complexo fabril da indústria madeireira deste pequeno país, onde bate o coração da terra portuguesa. Se não era o filho era o pai, um irmão, um primo, alguém da família, (...) fosse lá de onde fosse, andava aqui uma multidão de familiares que se ajudavam mutuamente (..)». José Gonçalves de Abreu in: "Na Incerteza dos Meus Passos".


"Fábrica Tâmega" de José Joaquim Abreu, filho de Agostinho Gonçalves de Abreu, fundador da "Abreu & Companhia"

José de Abreu entraria na política, e em 1950 assume o cargo de Vereador do Munícipio de Amarante, cargo este que ocuparia durante vinte e quatro anos. Durante o seu mandato, dotou a vila de Amarante com um liceu, uma escola técnica, um ciclo preparatório, a nova ponte sobre o Tâmega, a electrificação, total ou parcial, de vinte e três freguesias mais afastadas do centro, a expansão da rede de saneamento e abastecimento de água, e a reparação de estradas dentro do perímetro municipal. Foram também instalados os posto da Polícia de Segurança Pública e da Guarda Nacional Republicana; assim como o "Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso". 


Comendador José Joaquim Gonçalves de Abreu (1914-2002)

Em 1954, os negócios floresciam com o aumento de operários a trabalhar nas fábricas de serração e mobiliário, atingindo um patamar estável no seu desenvolvimento. Neste tempo, a indústria de madeira de aglomerados começa a ser explorada em países da Europa Ocidental, e a empresa procura a oportunidade de explorar as florestas da vila de forma mais sustentável e rentável, graças a esta nova indústria. Enquanto isto, numa viagem à Alemanha ... 

«Estávamos (...) em viagem pela Alemanha e num dos comboios que do Sarre se dirigiam para Kaiserslautern, e despertou-nos uma carruagem, lindíssima, toda ela forrada a Pau-santo (...). E, era tão perfeita, tão isenta de manchas, de efeitos, que nem parecia ser verdade. (...) Mas a força de comparar uma decoração, com a outra sentíamos que ali havia qualquer coisa de fantástico, de irreal, porque a natureza não se repete. E, a decoração era toda, toda igual. (...).
E, como um exame à procura da paternidade que se busca, vimos que não, que era a fingir! Mas era tão perfeito o fingimento que dava para acreditar. Começou aí uma nova página da história que estamos a contar.» José Gonçalves de Abreu in: "Na Incerteza dos Meus Passos".


Aglomerado de madeira

Após o primeiro contacto de José Abreu com o painel aglomerado, este comprometeu-se a trazer esta indústria para território português, e, conjuntamente com os seus irmãos, cria as Indústrias "Tabopan": «Tabopan era a designação de “Tábuas Prensadas Nacionais” nome então registado, pelo mundo, nos seus cinco continentes, e foi, e é, dos nomes mais prestigiados da Indústria Transformadora do material lenhoso»

A 18 de Março de 1958, foi inaugurada a produção da primeira fábrica de painéis aglomerados da Península Ibérica: a "Tabopan - Fábrica de Madeira Aglomerada" de "Abreu & Companhia, Lda.". A alta qualidade das madeiras provenientes da Serra do Marão era o segredo para o êxito dos painéis aglomerados desta empresa. Poucos meses depois de iniciar a sua actividade, já a produção desta fábrica era insuficiente para as encomendas recebidas. Por consequência é forçado o projecto de construção de uma nova unidade fabril: a "Tabopan II", com maior capacidade de produção que a anterior, construída dois anos mais tarde, bem perto da primeira.

1 de Janeiro de 1949


"Tabopan - Fábrica de Madeira Aglomerada" inauguarada em 18 de Março de 1958


"Tabopan II" em construção


Inauguração da "Tabopan II" (foto repetida)

A "Tabopan" não era apenas um complexo de edifícios fabris: era também um local de aprendizagem. Após concluírem a escolaridade obrigatória, a juventude de Amarante já tinha emprego garantido nas fábricas: «Primeiro aprendiam a profissão e só depois já preparados, ajudavam os artistas na montagem dos mobiliários ou fosse no que fosse, da profissão, que em caso algum representasse perigo ou esforço de natureza física que estivesse para além dos rapazinhos que eram e nos tinham sido confiados pela mãe, ou pelo pai, normalmente com esta despedida: Senhor José de Abreu, faça de conta que é seu filho. O recado ficava ali, latente, ouvido e tresouvido, a martelar a gente. Faça de conta que é seu filho!»

O passo seguinte na expansão da empresa deu-se em 1967, com o projecto para uma nova fábrica de portas de 12.000 m2, que fabricaria 10.000 portas por dia. Até esta data, a "Tabopan" contava com 2.300 funcionários a trabalhar em sete fábricas: três fábricas de aglomerados de madeira, uma fábrica de móveis, uma fábrica de portas, uma fábrica de artigos funerários, uma fábrica de laminados de madeira e duas secções de serração de madeira, todas concentradas à saída da vila, na estrada para o Porto.

"Tabopan III"

No ano de 1971, José Abreu descrevia orgulhosamente: «O complexo fabril da “Tabopan” ocupa hoje cerca de 660.000 m2 de superfície, dos quais, mais de 120.000 m2 de área coberta. Tem ao seu serviço mais de 1.500 empregados e operários e serve uma clientela exigente e dedicada em 56 países do mundo nos seus cinco continentes! Para a “Tabopan” trabalha, cada dia, uma frota de cerca de 100 camiões para abastecimento de matéria prima e escoamento do produto fabricado. Milhares de trabalhadores, pelo mundo, vendem e distribuem os seus produtos. Cerca de cinquenta mil toneladas de carga são confiadas, anualmente, às diversas companhias de navegação, e o abastecimento de matérias primas subsidiárias dão ocupação a milhares de trabalhadores. Mais de 12 milhões de kilowatts de energia eléctrica são consumidas anualmente na força motora das suas unidades produtivas.» 


1 de Janeiro de 1966



A empresa dispunha de transporte colectivo para levar os trabalhadores, todas as manhãs, até à fábrica. A quantidade de madeira utilizada aumentou de tal maneira que o abastecimento ultrapassava os limites do concelho, um raio de 150 km, em particular nas serras do Norte. As indústrias atingiram neste ano o seu auge de produtividade, marcando a cidade como nenhuma outra indústria o fizera antes. Para apoiar a vida das famílias que trabalhavam no complexo, José de Abreu proporcionava actividades de lazer, tais como o grupo de teatro, orquestra, grupo folclórico, equipa de futebol e corridas de rally, etc.


Orquestra


"LP" do Grupo Folclórico Tabopan


Equipe de futebol


Prova de Rally

José Joaquim Gonçalves de Abreu, ao herdar o espírito empreendedor do pai, pensa em todas as potencialidades da fábrica para atingir maior produção e qualidade, sem comprometer o bem-estar dos seus funcionários durante o dia de trabalho. O seu espírito ambicioso levou-o a outros cargos de grande importância, entre eles a presidência da "Câmara Municipal de Amarante" e a presidência do "Grémio Nacional das Indústrias de Madeira", entre 1971 e 1988.

No início dos anos 70 do século XX, o Governo português incentiva José de Abreu a expandir as indústrias "Tabopan" para Trás-os-Montes, de modo a promover a economia da região do Alto Tâmega, que resultaria na criação de empregos para o povo transmontano e na utilização das madeiras à disposição nas suas serras. A localização escolhida para o novo complexo fabril foi Vila Pouca de Aguiar. Os equipamentos mecânicos para a linha de produção das placas de aglomerado provinham da mesma origem do que os do complexo de Amarante, sendo os únicos elementos exportados utilizados na construção de qualquer uma das fábricas da empresa.


"Tabopan" em Vila Pouca de Aguiar em fase de construção


1973





Interiores da fábrica

Este novo complexo era composto por cerca de 20.000 m2 para a actividade fabril, mais 14.000 m2 para implantação de serviços, como um posto médico, escritórios e habitações. Entrou em funcionamento em Janeiro de 1974. Com a construção deste novo complexo, avizinhava-se o declínio da empresa "Abreu & Companhia". Com o novo regime pós 25 de Abril de 1974, José de Abreu descreve as suas consequências perante as suas indústrias:

«O fracasso desta iniciática, deve-se, exclusivamente aos governantes que assumiram o poder a partir da mudança de Regime, que não respeitaram os compromissos assumidos pelos governantes que os antecederam. Não podem, os governantes de agora, quaisquer dos governantes destes últimos vinte e cinco anos, negar à empresa o direito de receber os incentivos que o Estado lhe prometeu para ela, a Tabopan levar esta indústria para Trás-os-Montes. A indústria está lá, desmantelada, sim, por culpa do Estado que não lhe pagou os incentivos que prometeu e levou, a empresa, por dificuldades de tesouraria a cobrir custos que eram de conta do Estado a esvair-se de meios financeiros, para prosseguir. Laborou catorze anos, sem receber um cêntimo, a pagar custos que não eram da sua responsabilidade». José Gonçalves de Abreu in: "Na Incerteza dos Meus Passos".


Folha final de um comunicado "Falemos um pouco de uma provocação patronal"

Nota: "L.C.I. - Liga Comunista Internacionalista", fundada por João Cabral Fernandes, em 1973. Dissolvida em 1978 e transformada em "PSR - Partido Socialista Revolucionário" de Francisco Louçã. Juntamente com a "UDP" e "Política XXI " deram origem, em 1999, ao actual "Bloco de Esquerda".

Nos anos de 1979, 1984 e 1985, foram feitas tentativas para que fossem pagos os incentivos necessários para o funcionamento do complexo transmontano, sem sucesso. As graves dificuldades financeiras apareceram,  e a empresa foi incapaz de manter a actividade industrial, e interrompe a sua produção em 1986. Em 1997 seria declarada a falência da "Abreu & Companhia, Lda."

Em Agosto de 2001, emerge no processo a sociedade "GeralCaxinas - Compra e Venda e Exploração de Imóveis, SA", liderada por Arlindo de Carvalho (ex-ministro da Saúde de Cavaco Silva) que se transforma em "Parques do Entre-Douro e Tâmega" (EDT), após a adjudicação pelo juiz da comarca de Amarante à "ADREDT" de todo o património da "Abreu & Companhia, Lda.".

Instalações fabris de Vila Pouca de Aguiar abandonadas em 2011


Instalações fabris iniciais da "Tabopan" em Ramos-Telões abandonadas

Em 2006, o Parque Empresarial de Vila Pouca de Aguiar reabilitou a fábrica abandonada da "Tabopan", para oferecer o seu espaço a novas empresas de forma rápida e competitiva, de modo a incentivar os investimentos na empresas daquela região. Foi aplicado o mesmo conceito numa parte do complexo "Tabopan" em Amarante, servindo com sucesso as empresas de Amarante. Actualmente tem a denominação de "Instituto Empresarial do Tâmega". Os restantes edifícios permanecem como fantasmas sobre a EN15, abandonados e em estado de ruína.

"Instituto Empresarial do Tâmega" em foto de 2020

E para terminar o final de uma entrevista dada por um antigo funcionário da "Tabopan", sr. Vieira Pinto, à autora do trabalho que a seguir menciono na bibliografia:

« (...) Portanto há aqui uma questão social, uma questão humana que deve ser preservada. E isso também não esteve em conta nas indústrias Tabopan, até pelo aspecto humano e social, julgo que o poder central e o poder local, no domínio político, se teriam empenhado se os familiares, os donos legítimos das indústrias TABOPAN, que eram capazes mas não se entendiam, alguém se havia de entender e pôr-se à frente e não deixar cair as indústrias Tabopan … »

Bibliografia: foram retirados ou adaptados alguns textos, assim como algumas fotos da Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura - "Indústrias Tabopan o que acontece quando uma fábrica em ruínas renasce?" da autoria de Ana Luísa Cardoso Dinis de Mesquita (2017).

fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Amarante Magazine, Amarante Antiga (Facebook)