Restos de Colecção

7 de agosto de 2023

Stand e Garage Rios d'Oliveira

O stand e garage de recolha de automóveis "Rios d'Oliveira", foi inaugurado em 6 de Março de 1930 na Avenida da Liberdade, 227 em Lisboa. Era propriedade de Agostinho Rios d'Oliveira (1876 -?), representante, na altura, dos automóveis e camionetas "Hupmobile" e "White", e foi projectado pelo arquitecto Cassiano Branco (1871-1969) em estilo Art-Déco. Era o primeiro projeto onde o arquitecto evidenciou um programa modernista: uma garagem para a recolha de automóveis de praças (Táxis) e particulares, já demolido depois de encerrado definitivamente em 1966.



Localização do stand "Rios d'Oliveira" (dentro do rectângulo a amarelo)


Agostinho Rios d'Oliveira iniciou a sua actividade, em 1921, na Rua do Crucifixo, 41-1º - e garagem na R. João Crisóstomo, 72 - com a representação da marca italiana de automóveis, camions e omnibus "S.P.A. - Società Piemontese Automobili)", (1906-1926). Depois de encerrada esta fábrica em 1926, outras duas marcas seriam representadas por Agostinho d'Oliveira: automóveis "Hupmobile" (1909-1940 USA)  e camionetas "White" (1900-1980 USA).


26 de Fevereiro de 1921


1929


Representante anterior da "Hupmobile" em anúncio de 1913

«(...) A primeira obra construída de Cassiano Branco na capital data porém de 1928 e diz respeito a uma garagem de recolha de automóveis de "praça e particulares" que mais tarde seria conhecido como Stand Rios de Oliveira, na Avenida da Liberdade (já demolido). A garagem desenhada por Cassiano integrava o terreno anexo a um edifício que existia no gaveto entre a Avenida da Liberdade e a Rua Rosa Araújo.


Primeiro projecto de Junho de 1928

Este inovador edifício, construído na principal avenida da cidade, pressupunha um progama de dois pisos ligados internamente por um ascensor, permitindo estender a recolha de veículos ao piso superior. O elevador de veículos situava-se ao fundo do edifício, ladeado por uma escada de aceso de utentes e por instalações sanitárias.(...)



Vista aérea das instalações (dentro da área delimitada a amarelo)

A versão inicial do projecto entrou na Câmara de Lisboa em Junho de 1928. Em dezembro do mesmo ano entra um pedido de alteração à fachada com o objectivo de aumentar a zona de entrada, de modo a facilitar as manobras de entrada e saída do edifício. Estas alterações foram também prtexto para reforçar a expressão art-déco do alçado que nesta última versão adquiriria maior transparência através de envidraçados no piso térreo e de um vitral de grande dimensão no piso superior. Na versão final emergiam da volumetria duas pilastras decorativas, evocando o universo déco. Ao centro da composição ressaltava em inglês a designação de "The Modern Stand".



Ambos de 1938

A gramática art-déco será após este projecto recorrente na produção de Cassiano Branco, ajustando-se ao conjunto de programas habitacionais e de equipamentos que desenvolverá durante a década de 1930.»  in: Livro "Cassiano Branco 1897-1970. Arquitectura e artifício" de Paulo Tormenta Pinto

«... o Stand de automóveis Rios de Oliveira na Avenida da Liberdade (1928) lembro-me do fascínio que aquele ediflcio me causou, encurralado entre dois prédios antigos com uma enorme cobertura de vidro com triângulos invertidos. ( ... ) Analisando a proposta inicial e a construçao final, há um afastamento classizante e uma meio abertura ao "moderno" no tratamento do "lettering" e no abandono da cornija.» in: Carvalho, Manuel Rio, Cassiano Branco ou as intermitências de gosto, "Cassiano Branco - Uma obra para o futuro".

Após a firma proprietária ter mudado a sua designação para "Agostinho Rios d'Oliveira & C.ª (Filho)" a partir de 1935, passou a representar outros fabricantes: "De Soto" (1928-1961 USA), "Lancia" (1906-  Itália), "Wolseley" (1901-1975 GB) e "Adler" (1900-1957 Alemanha). Viria a encerrar definitivamente em 1966 e o seu edifício demolido.

Entretanto em 2 de Março de 1946 a firma Joaquim Rios de Oliveira, Lda.", (filho de Agostinho Rios d'Oliveira), tinha inaugurado um «stand de automóveis e de aviões» na Rua Rodrigo da Fonseca, em Lisboa:

«Com a assistência de varias individualidades de destaque nos meios automobilisticos e aeronauticos, inaugurou-se ontem a tarde o novo astand» da firma Joaquim Rios de Oliveira, Lda na Rua Rodrigo da Fonseca, 82-A a 82-D.
A nova casa, que se encontra instalada nas melhores condiçõcs c de que são sócios os nossos amigos srs. Manuel Martins da Hora e Joaquim Rios de Oliveira, esta dividida em duas secções: uma, que se destina ao negócio de automoveis, aviões e respectivas peças soltas; e outra, para venda de todo o material indispensavel para a montagem de estações de serviço.»

1935


11 de Janeiro de 1939



21 de Janeiro de 1939

22 de Julho de 1939

Entretanto do mesmo lado da Avenida da Liberdade e no primeiro quarteirão, no nº 253, um concorrente também com umas belas instalações: "Motor Palace FIAT" (mais tarde "Palácio da Avenida")  inaugurado no ano anterior, em 20 de Junho de 1929. Acerca deste stand consultar neste blog o seguinte link"Motor Palace FIAT"


"Motor Palace FIAT"

Com o desaparecimento da "Agostinho Rios d'Oliveira & C.ª (Filho)" a representação da marca americana de automóveis "De Soto", passaria para a "Sociedade Portuguesa de Automóveis, Lda.".


Stand da "Sociedade Portuguesa de Automóveis, Lda.". na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa

1 de agosto de 2023

Grande Hotel de Vidago

O "Grande Hotel de Vidago", classificado de 2ª classe, foi inaugurado em 1874 junto à Estrada Real (Rua Estrada após 1910), na localidade termal de Vidago no concelho de Chaves, em Trás-os-Montes. Foi mandado construir pela "Empreza das Aguas de Vidago", fundada em 1873, e cuja exploração viria a ser sempre entregue a entidades privadas. Funcionava entre 1 de Junho e 30 de Setembro. A estância termal abria a 25 de Maio.



1883


"Grande Hotel de Vidago" em 1893


Estrada Real lados poente e nascente com o hotel em fundo



Vista panorâmica do "Grande Hotel de Vidago" em 1893

No livro "As Aguas Mineraes de Vidago em Portugal" de Alfredo Luiz Lopes e editado em 1893 pode-se ler:

«(...) Contém 24 quartos de primeira classe, amplos e confortaveis, situados no pavimento inferior e no primeiro andar, e 30 outros de segunda classe, mas tambem bons e alegres. Todos elles são independentes, meticulosamente asseados, e teem uma, duas ou mais janellas. Nos quartos de primeira classe, em todos os quaes cabem perfeitamente e á larga duas camas, o preço diário da hospedagem varia de 1$800 a 2$500 réis por pessoa, ou 1$500 a 2$000 réis quando duas ou mais pessoas occupam o mesmo compartimento. Nos de segunda classe ha uma só cama, e seus preços são de 1$200, 1$300 e 1$500 réis por dia, incluindo-se, como para os de primeira classe, comida e todo o serviço.


1 de Junho 1875


No "Diario Illustrado" de 28 de Junho de 1876



7 de Julho de 1877

No pavimento inferior, para o qual dá accesso a porta principal por meio de uma facil escada de seis degraus, encontra-se a sala de reuniões, salão de leitura, com os principaes jornaes do paiz e uma pequena bibliotheca, o escriptorio do gerente e o vasto salão de jantar, de que a gravura dá fiel, ainda que incompleta idéa. (...) N'ella já teem jantado na mesma occasião, e sem se incommodarem, mais de cem pessoas.


Sala de estar

Para condizer com as excepcionaes condições materiaes d'esta salla, os frequentadores encontram sempre um aprimorado serviço culinario, em harmonia com as exigencias do tratamento hydro-mineral, mas variado e excellentemente preparado por um dos nossos mais competentes cozinheiros. No almoço - ás 9 horas -, no jantar - ás 4 -, e na ceia - ás 9 -, nota-se sempre abundancia, havendo n'aquellas duas refeições vinho á descripção e uma garrafa de quarto de litro cheia de agua mineral de Vidago para cada pessoa. O preço avulso do almoço é de 600 réis e o jantar 800.


Sala de jantar

Os hospedes que prefiram ser servidos particularmente teem uma outra boa sala de jantar reservada, devendo n'este caso pagar um excesso de 200 réis por pessoa sobre o preço estabelecido. O uso exclusivo d'esta sala é tambem permittido, mediante ajuste especial, para aquelles cuja diaria não seja inferior a 2$000 rs.

Nos salões do Grande Hotel, a par da leitura, encontram-se as alegres reuniões, as sessões da musica, os jogos de vasa, xadrez, damas, bilhar, etc.
Nos dias sanctificados, em frente do mesmo hotel, toca geralmente durante a tarde e primeiras horas da noite a orchestra composta pelos amadores da localidade, e em taes occasiões fazem-se danças, descantes e divertimentos populares, promovidos pela Empreza das aguas, constituindo na verdade uma scena simples mas encantadora. 

Junto e por detraz do Grande Hotel encontra-se um vasto parque elegantemente ajardinado, em cujas ruas se podem fazer agradaveis passeios gozando o bello panorama da visinha montanha. Dispersos n'elle se encontram, além de commodos bancos e caramancheis, o jogo do croquet installado por debaixo do salão de jantar, de forma a proteger os jogadores da acção do sol, a alameda dos baloiços e apparelhos do telegrapho, e um pouco mais distante, a carreira de tiro, o pequeno gymnasio, etc.


Estes hoteis e seus annexos acham-se abertos ao publico desde I de junho a 30 de setembro de cada anno, e para se calcular a concorrencia e o uso que das aguas de Vidago n'esta epocha se faz, basta dizer que durante ella são empregados nos diversos serviços mais de quarenta pessoas de ambos os sexos.»

Só faltou mencionar, que todo o serviço deste hotel era assegurado por cerca de 40 empregados.

A primeira Estação Termal de Vidago abriu aquando da inauguração do "Grande Hotel de Vidago", em 1874na  qual funcionava o "Pequeno Hotel", instalado no andar superior do Estabelecimento Hidrotherapico, Este hotel pertencia também à "Empreza das Aguas de Vidago" e funcionava na esfera do "Grande Hotel de Vidago". 

«O Pequeno Hotel, que a gravura em frente reproduz, acha-se installado no edificio do Estabelecimento hydrotherapico, occupando todo o andar superior. Contém bellos e alegres quartos independentes e com janella, cujos preços são eguaes aos de segunda classe do Grande Hotel. O serviço de mesa é feito simultaneamente com o do Grande Hotel no salão de jantar acima descripto, A differença de preço para os hospedes da Empreza nunca influe sobre a alimentação e mais serviço, porque unica e simplesmente depende do luxo e vastidão dos aposentos occupados.» in: mesmo livro  anterior "As Aguas Mineraes de Vidago em Portugal".


"Pequeno Hotel"

A acrescentar a esta pormenorizada descrição, de referir que a partir do início do século XX, junto ao hotel foi instalado um pequeno posto de abastecimento de combustível da "Vaccum Oil Company, Inc.", futura "Mobil Oil Portuguesa", a partir de 1955. Foi durante anos o único na estância de Vidago. Nessa altura, a concessão e gerência do hotel estava entregue à D. Ambrozina Oliveira Cruz, esposa do falecido Sr. Antonio Allípio Alves Teixeira Fraga.


Antes e depois da instalação do posto de combustível

Já, no ano anterior, em 1 de Agosto de 1882, a revista "Occidente" informava:

«O grande hotel do Vidago ha sido, n'estes ultimos annos, o ponto de reunião de numerosa sociedade, que na bondade das águas tem achado cura e allivio aos seus padecimentos.
Tem o edificio grande numeros de quartos para hospedes, salas de recepção, jantar, bilhar, quartos para banhos, differentes outras casas, agua em todos os andares e todas as necessarias officinas.
As condições de edificação e de serviço do grande hotel proporcionam todas as commodidades exigidas pela boa hygiene em estabelecimentos d'esta ordem.
Tem hoje uma estação telegrapho postal de 5ª classe e proximo do hotel está a estação da mala-posta.
No 1º de Junho abre o grande hotel e fecha no ultimo de setembro.
Junto ao grande hotel ha outros estabelecimentos em condições apropriadas para hospedes e para uso de banhos thermaes alcalinos.»


1883


1888


O "Grande Hotel de Vidago" foi o primeiro edifício de vulto em Vidago correspondendo às necessidades de alojamento para as pessoas que acorriam à estância termal,. A sua construção ficou concluída, em 1874, tendo sido inaugurada nesse mesmo ano pelo ministro do reino António Cardoso Avellino (1822-1889), do 34º Governo da Monarquia Constitucional, liderado Antonio Maria de Fontes Pereira de Mello (1819-1887) . 

No ano seguinte, em 1875, o rei D. Luiz I (1838-1889) instalar-se-ia no hotel para usufruir dos tratamentos das águas medicinais de Vidago. Impressionado com os resultados voltaria durante três anos, de 1875 a 1877 hospedando-se, sempre, no "Grande Hotel de Vidago". Em 1884 também seu pai, o velho rei-consorte D. Fernando (1819-1885), aí se hospedaria, na companhia da sua segunda esposa, Elise Hemsler - "Condessa de Edla", (1836-1929). 




16 de Junho de 1905


No início do século XX, este hotel já se revelava exíguo dada afluência de aquistas que queriam comprovar as virtudes e os milagres das águas de Vidago. Em virtude deste facto, a "Empreza das Aguas de Vidago", em Março de 1908, inicia a construção de um dos mais emblemáticos edifícios do norte de Portugal: o "Vidago-Palace Hotel", que viria a ser inaugurado em 6 de Outubro de 1910. A sua  história poderá consultar neste blog, no seguinte link:  "Vidago Palace Hotel".

O primeiro comboio da companhia "Caminho de Ferro da Regoa a Chaves", chegou a Vidago em 20 de Março de 1910, pela, então, designada "Linha do Valle do Corgo" que tinha sido inaugurada em 12 de Maio de 1906, com a chegada do comboio a Vila Real. Foi concluída a 28 de Agosto de 1921, com a chegada a Chaves, com um total de 96,2 Kms. De referir que a distância entre a Régua e Vidago era de 76,5 Kms. Nesse ano, iniciaram-se os serviços de ambulâncias postais nesta linha, que permaneceriam até 1972.




Estação de caminhos-de-ferro e "Hotel Avenida" 

Antes da "Linha do Valle do Corgo", tinha sido fundada em 1875 a "Companhia Transmontana" - Caminho de Ferro Americano entre a Regoa e Villa Real, para o transporte de passageiros utilizando o "Americano" - carruagem puxada por cavalos e que rolavam sobre carris. Aqui fica um título dessa Companhia


31 de Dezembro de 1875


1913

Em 1939 o roteiro "Hoteis e Pensões de Portugal" informava aceca do "Grande Hotel de Vidago": categoria:  3ª classe - 44 quartos - almoço: 13$50; jantar: 15$00 - Diária entre 25$00 a 60$00.


1934


1944

Em 1990, esta estação termal foi desativada e já nessa altura a procura por curas terapêuticas era consideravelmente mais reduzida, o que fez com que o turismo em Vidago decrescesse de tal forma que levou ao encerramento e abandono de diversos hotéis e pensões, do qual o "Grande Hotel de Vidago" já propriedade da "Unicer, S.A.". não escapou. Foi votado ao abandono, condição em que ainda hoje se encontra ...





"Grande Hotel de Vidago" no actual estado de abandono, em fotos de André Ramalho (in blog "Abandonados")