Restos de Colecção

7 de março de 2021

João Garrido e a "Auto-Palace do Porto"

João Garrido, foi pioneiro na indústria automóvel em Portugal e principalmente na cidade do Porto, tendo sido um dos primeiros importadores de automóveis para o nosso país. Iniciou a sua actividade, em 1891, com o seu estabelecimento de motociclos e triciclos a motor na Rua de Passos Manuel, 16,18 e 20 na cidade do Porto.


"Auto-Palace" de João Garrido em foto de 1914, com um "Charron Torpedo" e um "Charron Limousine"


10 de Dezembro de 1899


4 de Novembro de 1904


João Garrido na capa da revista "Guiauto Ilustrado", de 31 de Agosto de 1929


29 de Abril de 1899 - anúncio e carta gentilmente cedidos pelo blog "Rodas de Viriato"

O jornal «O Velocipedista», de 1 de Agosto de 1895 anunciava:

«O conhecido industrial e comerciante portuense, o nosso amigo João Garrido, despachou no dia 29 do mês findo, na alfândega de Lisboa, uma bicicleta com motor a petróleo e que chegou ao Porto no dia seguinte, anteontem.
O Sr. Garrido vai fazer uma experiência pública deste aparelho em um dos velódromos do Porto.
A bicicleta em questão tem estado exposta no estabelecimento que o Sr. João Garrido possuiu à rua Passos Manuel.»

João Garrido desenvolveu infra-estruturas próprias, para dar assistência aos automóveis vendidos no seu estabelecimento e também os que eram importados directamente pelos clientes. Para tal, no início de 1904 inaugura a “Auto-Palace do Porto” localizada na confluência das ruas Duque de Saldanha e S. Lázaro, sendo anunciado como um «edifício expressamente construído para este fim.»


1907

Essas instalações mantiveram-se como o núcleo central da actividade dos "Estabelecimentos João Garrido" enquanto o sector administrativo mantinha-se na Rua Passos Manuel. As oficinas eram chefiadas por Benedicto Ferreirinha, que foi um dos técnicos mais importantes de motores no princípio do século XX em Portugal. 


1903

João Garrido e Benedicto Ferreirinha chegaram a construir um protótipo, com motor da marca francesa "Aster", em 1899. Veio a servir como publicidade à sua garagem e possívelmente teria sido o seu sucesso comercial, senão aparecessem marcas estrangeiras feitas em série. Uma delas, a "Charron (C.G.V. - Charron, Girardot et Voigt)", viria a ser representada no Porto por este estabelecimento, a partir de 1901.

Porém, Benedicto Ferreirinha, em finais de 1904 resolve criar a sua própria empresa de representação, denominada “Empreza Automobilista do Porto”, e para tal adquiriu a agência da "Empreza Automobilistica Portugueza" (sedeada em Lisboa) na Rua de S. Lázaro, 199 que já ali existia desde 1903, continuando a garantir as representações da “Mercedes”, “Richard-Brazier” e “Darracq”, bem como das motos FN, que foi, aliás, a marca onde mais investiu.


1903


Benedicto Ferreirinha na capa da revista "Guiauto Ilustrado" de 31 de Outubro de 1929


Já agora, quanto aos seus seguidores e na mesma revista ...



1929

Entretanto, João Garrido mantem uma determinada importância no panorama automóvel português, devido à sua representada "Charron", conseguindo uma quota de mercado de 5%, mas não mostra um volume significativo sobre os seus concorrentes, talvez devido à saída de Benedito Ferreirinha da sua organização.


24 de Novembro de 1904


1908



Catálogo de 1907 (preços em francos franceses) - gentilmente cedido por Pedro Ferreira

Outra iniciativa pioneira de João Garrido aparece em 1906, havendo referências sobre a existência de uma viatura de aluguer, um "Decauville", fruto da iniciativa da sua empresa que, em 1910, disponibiliza um "Charron" de 12 cv equipado com taxímetro, ano em que em Lisboa também deverão ter sido adoptados.



Catálogo de 1909 (preços em francos franceses)


Artigo na revista "Illustração Portugueza" em 1914

Houve uma discussão acerca da primeira viatura motorizada a entrar em Portugal, se o "Panhard et Levassor" importado pelo Conde de Avilez - marca que viria ser importada e comercializada pela "Garage Panhard-Palace", em Lisboa -  ou uma "bicicleta com motor" importada por João Garrido em Julho de 1895. pelo que vou transcrever o seguinte texto elucidativo acerca do assunto:

«Embora seja interessante perceber se este veículo foi importado antes do Panhard et Levassor do Conde de Avilez, é fundamental integrá-lo, desde já, na história do automobilismo nacional. Uma conhecida intelectual de Viana do Castelo, Maria Emília Sena de Vasconcelos, publicou um pequeno trabalho sobre o automobilismo naquela cidade e embora aborde a actividade de Sebastião das Neves na área dos transportes não se refere nunca ao tipo de viaturas por ele utilizadas. Pouco se sabe sobre este automóvel a vapor que ter-se-á instalado em Viana do Castelo, pelo que até prova em contrário, o primeiro veículo motorizado que entrou no nosso país foi a motocicleta importada por João Garrido em 1895, ainda antes do Panhard et Levassor do Conde de Avilez.


"Garage Panhard-Palace", na Avenida da Liberdade, em Lisboa

Um "Panhard et Levassor" na Estrada da Circunvalação, no Porto

Os Estabelecimentos João Garrido terão induzido involuntariamente nesta história alguma “névoa” pois no seu famoso catálogo de 1903 escreveram que esta ”bicicleta com motor” tinha sido importada em 1894. Mas o filho de João Garrido, em 1929, consultando os seus arquivos, esclarece em definitivo a data de importação desse veículo histórico: Julho de 1895. A imprensa desportiva do Porto deu alguma cobertura a este veículo e a notícia da sua importação pode ser confirmada pelo periódico “O Velocipedista” que se referiu assim à “bicicleta com motor a petróleo”:

«O conhecido industrial e comerciante portuense, o nosso amigo João Garrido, despachou no dia 29 do mês findo, na Alfândega de Lisboa, uma bicicleta com motor a petróleo e que chegou ao Porto no dia seguinte, anteontem. O Sr. Garrido vai fazer uma experiência pública deste aparelho em um dos velódromos do Porto. A bicicleta em questão tem estado exposta no estabelecimento que o Sr. João Garrido possui à rua Passos Manuel.

A dita demonstração pública foi efectivamente efectuada,189 mas de acordo com as afirmações de João Garrido Filho, a bicicleta a motor nunca chegou a ser vendida. Há igualmente registo de que a empresa Santos Beirão & Henriques, Lda, conhecida como Casa Memória, também terá importado veículos com motor ainda no século XIX, o primeiro dos quais terá chegado pouco tempo depois do Panhard do Conde de Avilez. 


1910

Em 1895, na imprensa lisboeta divulgava-se a seguinte notícia, sob o título “Bicicleta a vapor”: 

«Chegou ontem de tarde a biciclete movida a petróleo para o nosso amigo Santos Beirão. É uma magnífica máquina de 1,5 metros de comprimento, tendo o motor, lâmpadas, válvula de segurança, tubos de respiração, registo, travões, etc., colocados na frente do selim. Tem a força de 2 e meio cavalos, sendo de grande vantagem para os velocipedistas pois que vence quase todas as subidas. Acha-se em exposição na Casa Memória, ao Rossio, da qual é proprietário o conhecido comerciante Sr. Santos Beirão. Brevemente far-se-ão experiências.» texto retirado da fonte indicada em Nota, no fim do artigo.

Em 1908, João Garrido já «Depositários em Portugal» dos pneus franceses "Michelin". Não sei quando esta casa cessou as suas actividades, em definito, mas em 1929 ainda existia, como "João Garrido & Irmão, Lda." como atesta o seguinte anúncio publicitário publicado revista portuense "Guiauto".


21 de Dezembro de 1908

Não sei, ao certo, quando esta casa cessou as suas actividades em definitivo, mas em 1929 ainda existia, como "João Garrido & Irmão, Lda.", como atesta o seguinte anúncio publicitário publicado revista portuense "Guiauto".


31 de Agosto de 1929


Homenagem a João Garrido na revista "Guiauto" de 31 de Agosto de 1929


1933 (firma de José Garrido, filho de João Garrido)

O irmão de João Garrido (já falecido) , José Garrido, teria (ou ainda era por esta altura) sido sócio da firma "José Garrido & Salazar" e que funcionava nas mesmas instalações da Rua Passos Manuel 16-20, no Porto. Esta firma era representante das motocicletas "Readind", "Standard" e "Wanderer", como se pode verificar no anúncio publicitário seguinte.


A última designação da "Garagem Auto-Palace" de João Garrido, foi "Garagem Garrido", com bombas de combustíveis, na já Avenida Rodrigues de Freitas (ex- Rua de São Lázaro). Hoje essas instalações são propriedade dos Salesianos do Porto.

Bibliografia: Dissertação para obtenção do Grau de Doutor em História, Filosofia e Património da Ciência e da Tecnologia "A Implantação do Automovel em Portugal (1850-1910)" - José Carlos Barros Rodrigues - 2012 UNL, e donde foram retirados os últimos excertos de textos (em itálico).

fotos in: Foto-PortoHemeroteca Digital de Lisboa, Rodas de Viriato

2 de março de 2021

Companhia Nacional Editora

A "Companhia Nacional Editora" teve a sua origem na "Tipografia Guedes", fundada em 1873 por Justino Roque Gameiro Guedes (1852-1924), irmão do pintor e desenhador Alfredo Roque Gameiro (1864-1935) - filho do primeiro casamento de seu pai com Quitéria de Jesus Guedes.


"Companhia Nacional Editora" à esquerda na foto e os famosos "Americanos"


Justino Guedes (1852-1934)

Acerca do percurso profissional de Justino Roque Gameiro Guedes...



Alfredo Roque Gameiro (1864-1935)

A actividade da "Tipografia Guedes" é conhecida a partir de 1873, na antiga Rua Vasco da Gama, 9, em Lisboa, ano em que começou a imprimir "O António Maria", a revista ilustrada de Rafael Bordallo Pinheiro. Era uma empresa especializada na impressão litográfica, e por isso, muito requisitada para trabalhos gráficos com grande exigência, em que o papel de Alfredo Roque Gameiro poderia ser relevante. Em 1880, a tipografia já se tinha mudado para novas instalações na Rua da Oliveira ao Carmo, 12. Cerca de 1883, Alfredo Roque Gameiro começa a trabalhar como desenhador na "Tipografia Guedes".



Publicações da "Tipografia Guedes"

Acerca desta tipografia e litografia o jornal "Diario de Noticias" de 30 de Abril de 1887 relatava:

«As machinas que funccionam já são: duas de lithographar modernas, uma franceza, outra allemã, de Marinoni e Offenbac; uma de dourar, uma de envernisar, uma de gauffrer ou granitar o papel para as aguarellas, uma calandra mechanica de assetinar, de um trabalho novo, rapido, e de uma perfeição a que até agora se não havia chegado cá.»

Alfredo Roque Gameiro em 1887 regressa a Portugal - após  ter completado um estágio de 3 anos em na Academia de Desenho, Pintura e Arquitectura de Leipzig - e assume a direcção de oficinas na "Tipografia Guedes". Para além do desenvolvimento das artes gráficas da tipografia, Alfredo Roque Gameiro iniciou um curso de desenho aplicado à tipografia, contribuindo assim para um grande aperfeiçoamento desta profissão no país.

Litografia de Rafael Bordallo Pinheiro pela Litografia Guedes

Em finais de 1888, a "Tipografia Guedes" inicia nova etapa ao adquirir a "Editora David Corazzi". Um dos últimos trabalhos desta editora foi o "Álbum Costumes Portugueses", em que Alfredo Roque Gameiro também colaborou com cinco ilustrações. Com esta aquisição, em Dezembro de 1888, surge com novo nome: "Companhia Nacional Editora", com instalações ainda na Rua da Oliveira ao Carmo, passando pouco tempo depois, para o Largo do Conde Barão, 50 e oficinas na Rua da Rosa. Teve em Justino Guedes o seu sócio principal e administrador. Neste período Alfredo Roque Gameiro fica como responsável pela concepção e orientação gráfica da "Companhia Nacional Editora".




1888



Jornal "A Parodia" impresso na "Companhia Nacional Editora"


1901

Em 1907, a "Companhia Nacional Editora" já tinha dado origem a uma nova designação, "A Editora, Limitada", e composição societária cujos sócios eram: Justino Guedes, fundador e sócio principal, Clarimundo Emilio, Henrique Pereira e Rafael Bordallo Pinheiro.

Jornal "A Parodia" composto e impresso pela "A Editora"

Capa de partitura em 1907

Em 30 de Outubro de 1913 e por ocasião da "Exposição Nacional de Artes Gráficas", a revista "Occidente" fez uma reportagem da visita à empresa "A Editora, Limitada", da qual retirei algumas passagens que ilustram as instalações e funcionamento desta tipografia:

«Acham-se as oficinas da Editora Limitada instaladas num vastissimo salão, construido de ferro e vidro, ocupando a area de 1:200 metros quadrados. É neste enorme espaço que funcionam, em secções, as oficinas de fundição, stereotipia, composição, impressão, litografia e encadernação, tendo ainda um anexo com o atelier de desenho. Todas estas secções com suas maquinas funcionam perfeitamente. á vontade e nelas se empregam mais de 200 operarios de ambos os sexos. (...)




Fotos retiradas da revista "Occidente" de 30 de Outubro de 1913

Justino Guedes - introdutôr da litografia em Portugal - assentou, de concerto com David Corazzi, os alicerces da Companhia Nacional Editôra que exerceu um poderoso ascendente na industria grafica portuguêsa.(...)

Mais tarde, essa sociedade remodelou-se na organisação da Editora que arcou valentemente com o compromisso de honra de continuar sem desdouro a obra iniciada. E a prova surge insofismavel dos seus belissimos trabalhos que o publico conhece e admira com enlevo: - As Pupillas do Senhor Reitor, de Julio Diniz e Tojos e Rosmaninhos, de Alfredo Keil.»


1907


Postal de 1908


1909


1910

Com o objectivo de absorver a Imprensa Nacional, a "Companhia Nacional Editora" tornou-se a maior tipografia privada em Portugal.

A 4 de Abril de 1931 a "Companhia Nacional Editora" lança o número 1 do jornal "Diário da Manhã", sua propriedade e orgão oficial da "União Nacional", com sede, redacção e oficinas, na Rua do Mundo, 95 - antigas instalações do jornal "O Mundo" - em Lisboa.

Exemplar nº 3 do "Diário da Manhã", em 6 de Abril de 1931

O seu último número sai no dia 30 de janeiro de 1971, vindo a ser substituído pelo jornal “Época” resultado da fusão entre os jornais "A Voz" e o "Diário da Manhã", surgindo o seu 1º número em 1 de Fevereiro de 1971, tendo como director A. Fialho Rico. Também este jornal era um órgão oficioso da renomeada "Acção Nacional Popular", e propriedade da "Companhia Nacional Editora" tendo sido publicado até Maio de 1974. 


6 de Abril de 1973

Pelo atrás exposto, calculo que a "Companhia Nacional Editora" tenha terminado as suas actividades, em definitivo, após Maio de 1974.

fotos in: Arquivo Municipal de LisboaHemeroteca Digital de Lisboa