A "Taberna Ingleza" terá sido fundada por volta de 1850, como "Café Price" - também apelidado de "Taberna Ingleza" - na esquina do Caes do Sodré, 76 com a Travessa dos Remolares, 2-6 em Lisboa. Lembro que «N'esse tempo não havia sombra de Aterro. O molhe do Caes do Sodré prolongava-se até á esquina da Taberna Ingleza, distanciado da porta apenas uns dois metros; desciam-se tres degráos de pedra carcomidos e entrava-se em plena Ribeira Nova.». E também que «O sitio que hoje occupa o cáes do Sodré e Corpo-Santo era tudo praia, onde se reunia a gente do mar, nacionaes e estrangeiros, e d'estes muitos, porque o commercio então era grande, por causa dos generos do Brasil, que se fazia todo pelo porto de Lisboa.» in: "Archivo Pittoresco" nº 1, de 1860.
Dentro do rectangulo a vermelho onde existiu o "Café Price - Taberna Ingleza"
Antes de mais, no "Archivo Pittoresco" de 9 de Maio de 1844 ...
E em 1853, na "Nova Descripção de Lisboa e seus Arredores" ...
Já em 1877, na 1ª edição do "O Primo Basílio" de Eça de Queiroz (1845-1900) se podia ler:
- De modo que estás sem mulher...
Basílio teve um sorriso resignado. E, depois de um silêncio, dando um forte raspão no chão com a bengala:
- Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine! E foram tomar xerez à Taverna Inglesa.»
Bulhão Pato (1828-1912) no livro "Memorias - Homens Politicos" publicado em 1894
Ao jantar vinho e agua; ao café, nem sombras de cognac; mas bom conviva, sempre egual, acompanhava-nos aos nossos ágapes, por vezes ruidosos, no Matta, no José Manuel, no Simão, na Taberna Ingleza.
Foi, talvez, esta ultima a casa de pasto mais frequentada em Lisboa, por todas as classes. E a propósito d'ella ainda um rápido episodio, n'esta minha conversação com o leitor, que já vae no segundo volume, e que, se elle continuar a ter equanimidade bastante para aturar-me, dará seguidamente para terceiro e quarto.
O marechal Saldanha, nos primeiros annos da Regeneração, resolveu — um dia — fazer economias, começando a cortar pela mesa, e decidindo-se a ir jantar á Taberna Ingleza, muito resumidamente — apenas com quatro ajudantes de ordens, cinco sobrinhos, dois deputados, e dois pares do reino, seus capitães inimigos nas Camarás, e mais o seu medico homoeopatha — nada homoeopatha á mesa — medico e collega, porque o marechal também professava a sciencia de Hahnemann I Foram para a sala interior, que era a maior, n'aquella modestissima convivência.
Pois, senhores — d'alli a três dias não havia, litteralmente, quem podesse agarrar um bife em semelhante casa! Todas as mesas estavam atulhadas de amigos políticos e admiradores do grande general! O seu mordomo punha as mãos na cabeça, e o próprio duque achou que lhe saía mais barato o seu banquete de todos os dias em Santo Ambrósio!»
O mesmo Antonio de Serpa Pimentel que numa carta enviada a Bulhão Pato, e publicada no mesmo livro ...
«(...) No segundo dia da crise ministerial, e estando o duque da Terceira encarregado da formação do novo gabinete, fui jantar com alguns deputados e um outro amigo a um restaurant, que havia, e não sei se ainda ha, no Caes do Sodré, que então se chamava a Taberna Ingleza, e que era muito bem frequentado. Foi lá que me foram avisar, de que o duque da Terceira me convidava para ir, n'aquella noite, a sua casa, d'onde saí ministro das obras publicas. Isto constou, e d'alli a poucos dias dizia um jornal da opposição, que eu era um ministro de tal ordem, que, para entrar no ministério, me foram chamar a uma taberna! (...)»
Bulhão Pato no capítulo "A Minha Oração da Corôa" de 1896 no livro "Memorais" ...
Os jantares, de quinze em quinze dias, tinham como pretexto uma perna de carneiro inglez, que vinha pela intervenção do Price, e uma salada temperada por Kugenio Mazoni. Chamava-lhe Salada Russa como lhe podia chamar das Quatro partidas do mundo. Entravam n'ella camarões da nossa barra, enxovas do cabo de S. Vicente, amêijoas de Alvor, azeite de Itália, vinagre de estragão, conservas de Londres, azeitonas de Sevilha, caril da índia, beterrabas, variedade de hervas finas, alface de Lisboa e de Romal Custava uma libra esterlina a salada. (...)
Um dia fui eu incumbido das ostras. A salada preparava-se antes do jantar e levava uma hora larga! N'esse tempo não havia sombra de Aterro. O molhe do Caes do Sodré prolongava-se até á esquina da Taberna Ingleza, distanciado da porta apenas uns dois metros; desciam-se três degráos de pedra carcomidos e entrava-se em plena Ribeira Nova.»
Em 25 de Julho de 1890 é decretada a falência da firma "Covello & Vianna", na altura proprietária da "Taberna Ingleza", no Cais do Sodré, 76 com a Travessa de Romulres, sendo seus sócios Estevão Francisco Covello y Otero e João Antonio Rodrigues Vianna. A arrematação dos bens em hasta publica verificou-se em 21 de Agosto de 1893.
Entretanto alguem deve ter adquirido esta "Taberna Ingleza" e seus bens, pois a partir de Maio de 1894 já aparecia de novo anunciada, conforme publicidade que publico de seguida. Viria a encerrar pouco tempo depois, e restaria a "Taberna Ingleza" da Travessa do Corpo Santo.
31 de Março de 1896
25 de Abril de 1896
Na loja de esquina funcionou o "Café Price - Taberna Ingleza" (via "Google Maps")
Com o encerramento desta "Taberna Ingleza" no Caes do Sodré, 76, abria, em 1908, uma nova "Taberna Ingleza" na Rua Jardim do Regedor, 33 que se descrevia como «um elegante restaurant que tomou o título da celebre e bem conhecida Taberna Ingleza, que há anos existiu no Caes do Sodré”.
E, pormenor importante ... «aceita às suas mesas todas as classes da sociedade quando elas se apresentem com decência e ordem».
Entretanto outros restaurantes, além de cafés, existiam pelas «bandas do Caes do Sodré»", como por exemplo ...
Rectângulo a vermelho "Taberna Ingleza" ex-"Café Price"; a azul "Taberna Ingleza" futuro "British Bar"; a amarelo "English Bar"; a roxo "Café-Restaurant Gibraltar"
Entretanto, e no início da segunda década do século XX, nas portas 42 e 44 da Travessa do Corpo Santo abre o "English Bar". Em 1919 em virtude da saída do seu gerente José Tavares para fundar o "British Bar", este encerra, e dará lugar a restaurante e bar "Paraizo". Em escritura de 1 de Junho de 1936 é constituída a nova firma proprietária do espaço, a "Nova Inglesa, Lda." com Carlos Gomes Cardoso Pereira e Gaspar Octávio Passos de Almeida, como sócios. Em 3 de Otubro do mesmo ano a denominação da firma á alterada para "English Bar, Lda.", ao mesmo tempo que se verifica a entrada do novo sócio Aurélio Fernades Palha, além dos já existentes. Passa a ser de novo o "English Bar". Viria a encerrar definitivamente nos anos 60 ou 70 do século XX.
O "English Bar" viria a encerrar por muitos anos, e viria a reabrir como "English Bar 42" ...
Quanto ao "British Bar", como disse anteriormente, foi fundado por José Tavares e Amadeu Prazeres em 18 de Fevereiro de 1919, na Travessa do Corpo Santo (actual Rua Bernardino Costa), 52-54. Anteriromente nesta loja, e depois da "Taberna Ingleza", funcionou a ourivesaria e relojoaria "Lino Marques d'0liveira", pelo menos desde 1904, e visível na foto seguinte e no primeiro toldo.
Ourivesaria e relojoaria "Lino Marques d'0liveira", futuro "British Bar"
Em 11 de Agosto de 1982, e por escritura pública a sociedade "British Bar, Lda." passa a ter os seguintes sócios: Manuel Bergaña Cuntin, José Dominguez Castillo, Manuel Gomez Cuntin, Eduardo Rosa do carmo Coelho e Artur Rodrigues Barbosa. Em 12 de Dezembro de 1988 Manuel Bargaña Cuntin deixa a sociedade, e passa a ter como sócios os seguintes: Nuno Manuel Nobre Ribeiro, Luis Manuel Bergaña Ribeiro, Manuel Gomez Cuntin, Artur Rodrigues Barbosa e António da Silva Luis.
Actualmente o "British Bar, Lda" é composta apenas por dois sócios: Artur Rodrigues Barbosa e Luis Manuel Bergaña Ribeiro.
fotos in: Hemeroteca Digital de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Municipal de Lisboa, Garfadas on line, Dote Cervejaria Moderna, British Bar

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