2 de dezembro de 2015

Retiro da Severa

O “Retiro da Severa” foi fundado em 1933 por Jorge Soriano, inicialmente no “Luna Parque” do Parque Mayer”, em Lisboa e dirigido por Alberto Costa. Em 26 de Outubro de 1935 muda-se para a Rua António Maria Cardoso, ocupando as antigas instalações do "Salão Jansen", da “Cervejaria Jansen” pertença da fábrica de cerveja “Jansen” que tinha a suas instalações no mesmo local.

10 de Junho de 1935

Instalações da fábrica de cerveja “Jansen” e o respectivo carro de distribuição

As traseiras da esplanada da “Cervejaria Jansen” na Rua do Alecrim

 

Em 31 de Dezembro de 1927 é inaugurado o “Salão Jansen”

 
gentilmente cedido por Carlos Caria

30 de Dezembro de 1932

Em Outubro de 1935 o “Diario de Lisbôa” anunciava:

«Uma boa noticia para os lisboetas: o "Retiro da Severa", tão apreciado pela nossa melhor sociedade, não fechará este ano: limitar-se-á a mudar do Luna Parque para o antigo Salão Jansen, na rua António Maria Cardoso, nº 5 - esplendida instalação com todas as condições necessárias de tamanho e de conforto.
Dada a frequência do seu Retiro do Luna Parque não quiz a empresa interromper o seu contacto com a escolhida clientela que arranjou, nem privar esta das boas refeições e das interessantes sessões de fado que tanto apreciam nacionais e estrangeiros.
A título de réclame, serão fornecidos almoços e jantares de mesa redonda a um preço barato relativamente aos respectivos menus. (…)
(...) Organizar-se-ão os programas artísticos com o melhor espírito de selecção, sendo ampliados conforme a frequência o aconselhar. Mas desde já podemos informar que em diversos dias se exibirá o Grupo Tipico de Guitarras sob a direcção do distinto guitarrista "Armandinho" nome que todo o Portugal apreciador de música e de fado conhece e admira.
Serão aceitas encomendas para banquetes e copos de agua, dentro e fóra do estabelecimento. (…)
(...) O serviço de cozinha está a cargo do conhecido tecnico Manuel Costa, do Parque Mayer.»

Este “novo” “Retiro da Severa” era composto pelo salão de fados localizado na Rua António Maria Cardoso e pela esplanada ao ar livre ocupando a Esplanada de Bragança ou do Marquês de Valença - antiga “Esplanada Jansen”  «botequim da “Fábrica de Cerveja Jansen” » - esta com entradas tanto pela Rua António Maria Cardoso como pela Rua do Alecrim.

Esplanada do “Retiro da Severa”

 

 

           

Quanto ao seu funcionamento era descrito neste excerto retirado de um artigo publicitário do “Diario de Lisbôa”:

«De manhã proporciona-lhes os melhores almoços de Lisboa, de mais requintados menús, de dezenas de hors-d'oeuvres, de acepipes cativantes, tudo numa primorosa confecção, que satisfaria as maiores exigencias de um Brillat-Savarin ...
Á noite, ali prossegue o serviço de restaurante, sempre modelarmente mantido sob a direcção do reputado mestre do genero, que é o Costa, bem conhecido de toda a população indigena que sabe comer e sabe inebriar-se.
(...) Depois de afagados a encalmada ansia da entranha e os desejos sofregos do paladar, o espirito do cliente delicia-se com a audição de um formoso reportorio de fados exibido por cantadeiras e cantadores notabilissimos como Maria do Carmo, Maria do Carmo Torres, Alcidia Rodrigues, Rosa Maria, Margarida Pereira, Leonor Fialho, Alfredo Duarte, Felipe Pinto, Alberto Costa, José Porfírio, Julio Proença, Manuel Calixto e outros mais de cujos nomes não nos recordamos agora.
Por vezes surgem tambem no tablado do magnifico "Retiro" outras figuras de grande realce no mais querido ramo do folclore português - como Adelina Fernandes, Maria Albertina, Herminia Silva e Maria Emilia Ferreira. E a exibição nesse local tem-se ilustrado ainda com artistas grandes entre os quais o excelso divo que é Tomás Alcaide, o celebre bailarino que é Francis e o laureado actor que é Amarante.»

25 de Outubro de 1935

7 de Novembro de 1935

Interior do salão de fados do “Retiro da Severa”, por ocasião duma festa da “Legião Portuguesa” em 3 de Julho de 1938

 

                                             1935                                                                                       1936

         

                                              1938                                                                                        1940

   

Recordo que a Severa, de seu nome completo Maria Severa Onofriana, nasceu em 26 de Julho de 1820 na Rua da Madragoa (actual Rua Vicente Borga,33, freguesia dos Anjos), onde sua mãe tinha uma taberna, tendo passado por vários locais da cidade até se fixar na Mouraria, onde faleceu em 30 de Novembro de 1846.

Conta-se que percorria os bairros populares de Lisboa, e a sua voz animou as noites de muitas tertúlias bairristas, tabernas ficaram famosa só pela sua presença. Teve vários amantes conhecidos, entre eles o Conde de Vimioso (Dom Francisco de Paula Portugal e Castro) que, segundo a lenda, era enfeitiçado pela forma como cantava e tocava guitarra, levando-a frequentemente à tourada. Proporcionou-lhe grande celebridade e naturalmente permitiu a Severa um maior prestígio e número de oportunidades para se exibir para um público de jovens oriundos da elite social e intelectual portuguesa.

Morreu de tuberculose e apoplética a 30 de Novembro de 1846, num miserável bordel da Rua do Capelão, na Mouraria (freguesia do Socorro), tendo sido sepultada no Cemitério do Alto de São João, numa vala comum, sem caixão. Consta que as suas últimas palavras terão sido - «Morro, sem nunca ter vivido» - tinha apenas 26 anos.

A história da Severa e a sua fama ficou a dever-se em grande parte ao escritor Júlio Dantas cuja novela "A Severa" viria a originar uma peça levada à cena em 1901, bem como ao primeiro fonofilme português realizado por Leitão de Barros “A Severa”  em 1930 e estreado no “Teatro São Luiz” em 18 de Junho de 1931.

  

O auge do “Retiro da Severa” foi desde 1937 até 1940. O regime político do “Estado Novo” não gostava do fado, porque o considerava deprimente, fatalista e doente, demonstrando que era deprimente ser português. Tal caso foi vincado nos microfones da Emissora Nacional, quando em 1934 o palestrante Luís Motta leu palestras sobre o fado neste posto radiofónico, afirmando que o fado era a canção decadente da Raça. 

Mas a Emissora Nacional considerava que devia haver um programa de fados para as gentes do povo, pelo que rapidamente a estação decidiu fazer um contrato com o “Retiro da Severa”, cujo contrato implicava a transmissão de uma sessão de fados para o seu programa “Fados e Guitarradas”  duas vezes por semana, em que seriam apresentados os fadistas mais conceituados da época e os novos fadistas, cuja apresentação ficou a cargo do locutor Fernando Pessa.

As transmissões começaram em 1937, na estação de Ondas Médias de Barcarena e na estação de Ondas Curtas CSW, e geralmente eram transmitidas à noite, em horário nobre. Neste programa, cantavam em directo grandes lendas do fado como Alfredo Marceneiro, Berta Cardoso, Maria Alice, Ercília Costa ou Manuel Calisto, e foi onde Amália Rodrigues se estreou em 1939.

1939

   

29 de Agosto de 1940

O programa foi um sucesso, mas com a chegada de António Ferro à Presidência da Direção da Emissora Nacional em 1941 o programa foi cancelado. A partir daí, a “Emissora Nacional” passou a impor critérios limitativos à transmissão de fados, proibindo os que fossem fatalistas ou doentios, para não transparecer uma imagem de depressão na rádio.

O “Retiro da Severa” encerraria, definitivamente, em 1 de Setembro de 1940, apesar do anúncio que publico a seguir não o prever na altura.

1 de Setembro de 1940

Em 19 de Maio de 1952, por ocasião da abertura de mais uma temporada da Feira Popular de Lisboa no Parque da Palhavã, seria inaugurado, neste local, outro “Retiro da Severa” conforme os dois anúncios publicitários seguintes, no jornal “Diario de Lisbôa”.

19 de Maio de 1952

20 de Maio de 1952

Este “Retiro da Severa”, julgo ter tido uma existência curta já que, nos anos seguintes a 1953, não encontrei mais nenhuma referência publicitária a este estabelecimento da “Feira Popular de Lisboa”.

Em 24 de Outubro de 1955, seria inaugurado na Rua das Gáveas, no Bairro Alto, outro restaurante e casa de fados com o nome de “A Severa”. Foram seus fundadores Maria José e Júlio de Barros Evangelista. Casa de fados que ainda hoje existe, como sendo a mais antiga de Lisboa que permanece na mesma família.

“A Severa” na Rua das Gáveas

 

Por altura da sua inauguração

 A Severa.1

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa, Fadocravo

1 comentário:

Anónimo disse...

Adoro uma das primeiras fotografias em que há quem esconda a cara!...
Cumprimentos