21 de outubro de 2014

Porto de Lisboa (18)

Descarga de carvão em 1907

 

Hidroavião «Fairey III D» da Aeronáutica Militar a ser içado para bordo do navio “Bagé” em 1922

Junto a história associada à foto do embarque do «Fairey», que o leitor Pedro Ferreira fez o favor de a enviar, via comentário, e que mais uma vez agradeço a sua disponibilidade:

«Junto mais alguma informação à foto do Fairey (n.º 17) na sua partida para o último voo.
O “Bagé” foi um navio mercante brasileiro. Estava em Lisboa quando se soube que Sacadura Cabral e Gago Coutinho tinham amarado “em desgraça” junto aos penedos de São Pedro e São Paulo.
Sacadura Cabral sabia que apenas tinha combustível para chegar a estes rochedos no avião inicial – Fairey III D especial F-400 “Lusitânia”. Gago Coutinho queria provar que podia “navegar” direito a estes rochedos (têm 200 metros de comprimento e poucos metros de altura) e conseguiu.
O nosso cruzador “República”, que os aguardava junto aos rochedos, tinha derramado óleo para facilitar a amaragem (crime ambiental, dir-se-ia hoje) mas a gasolina faltou a poucos metros do local e a mareta arrancou um dos flutuadores do hidroavião.
O Hidro ficou a flutuar afocinhado mas o cruzador não tinha meios para o içar para bordo e assim se perdeu.
Telegrafado o acontecimento para Lisboa, logo (imagino a trabalheira administrativa e militar) se providenciou o acondicionamento de outro Fairey, o da foto aqui reproduzida, para ser transportado pelo Bagé até à ilha de Fernando Noronha onde o aguardavam os dois aviadores.
Chegado o avião, estes decidiram que a travessia era para completar e partiram em direção aos rochedos de São Pedro e São Paulo (627 quilómetros para o interior do Atlântico) para voltarem de novo e continuarem até terra firme no Brasil.
Contudo, as horas passavam e o hidro não aparecia. Havia, no entanto, uma certeza:
- Ao fim de um certo número de horas, o avião deixaria de estar no ar …
E, assim, lá partiu o cruzador “República” navegando em ziguezague com os holofotes a varrer o mar na esperança de encontrar o hidroavião pousado na água. Dizia-se que a navegação de Gago Coutinho era tão segura que o encontrariam de certeza.
Mas antes, o hidroavião foi encontrado pelo navio mercante “Paris City”, comandado pelo capitão inglês Tamlyn, que os recolheu a bordo e rebocou o hidroavião ao encontro do “República”. Neste cruzador, a tripulação tinha improvisado um pau de carga para recuperar o avião mas este não aguentou e o segundo Fairey perdeu-se também.
De novo na ilha de Fernando Noronha, os aviadores esperaram pelo terceiro Fairey que os iria levar em triunfo até ao Brasil.
Assim, a travessia do atlântico sul em 1922 foi feita em 60 horas de voo mas demorou quase três meses e consumiu dois aviões. O terceiro, depois de uma longa estadia no centro de aviação naval de Macau, voltou “empacotado” para Lisboa e está hoje no Museu da Marinha.
Para quem se interessar pelo tema, o Museu da Marinha vende um fac-simile do relatório oficial dos aviadores e a reprodução das comunicações do telegrafista do cruzador “República”.
Numa leitura combinada dos dois documentos revemos o que se planeou e como foram dadas as instruções por telégrafo. Muito interessante.»

Entreposto de Alcântara em 1930

Partida do paquete “Pátria” (1947-1973) da “CCN - Companhia Colonial de Navegação”

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa

2 comentários:

Unknown disse...

Caro José Leite

Junto mais alguma informação à foto do Fairey (n.º 17) na sua partida para o último voo.

O “Bagé” foi um navio mercante brasileiro. Estava em Lisboa quando se soube que Sacadura Cabral e Gago Coutinho tinham amarado “em desgraça” junto aos penedos de São Pedro e São Paulo.
Sacadura Cabral sabia que apenas tinha combustível para chegar a estes rochedos no avião inicial – Fairey III D especial F-400 “Lusitânia”. Gago Coutinho queria provar que podia “navegar” direito a estes rochedos (têm 200 metros de comprimento e poucos metros de altura) e conseguiu.
O nosso cruzador “República”, que os aguardava junto aos rochedos, tinha derramado óleo para facilitar a amaragem (crime ambiental, dir-se-ia hoje) mas a gasolina faltou a poucos metros do local e a mareta arrancou um dos flutuadores do hidroavião.
O Hidro ficou a flutuar afocinhado mas o cruzador não tinha meios para o içar para bordo e assim se perdeu.
Telegrafado o acontecimento para Lisboa, logo (imagino a trabalheira administrativa e militar) se providenciou o acondicionamento de outro Fairey, o da foto aqui reproduzida, para ser transportado pelo Bagé até à ilha de Fernando Noronha onde o aguardavam os dois aviadores.
Chegado o avião, estes decidiram que a travessia era para completar e partiram em direção aos rochedos de São Pedro e São Paulo (627 quilómetros para o interior do Atlântico) para voltarem de novo e continuarem até terra firme no Brasil.
Contudo, as horas passavam e o hidro não aparecia. Havia, no entanto, uma certeza:
- Ao fim de um certo número de horas, o avião deixaria de estar no ar …
E, assim, lá partiu o cruzador “República” navegando em ziguezague com os holofotes a varrer o mar na esperança de encontrar o hidroavião pousado na água. Dizia-se que a navegação de Gago Coutinho era tão segura que o encontrariam de certeza.
Mas antes, o hidroavião foi encontrado pelo navio mercante “Paris City”, comandado pelo capitão inglês Tamlyn, que os recolheu a bordo e rebocou o hidroavião ao encontro do “República”. Neste cruzador, a tripulação tinha improvisado um pau de carga para recuperar o avião mas este não aguentou e o segundo Fairey perdeu-se também.
De novo na ilha de Fernando Noronha, os aviadores esperaram pelo terceiro Fairey que os iria levar em triunfo até ao Brasil.
Assim, a travessia do atlântico sul em 1922 foi feita em 60 horas de voo mas demorou quase três meses e consumiu dois aviões. O terceiro, depois de uma longa estadia no centro de aviação naval de Macau, voltou “empacotado” para Lisboa e está hoje no Museu da Marinha.
Para quem se interessar pelo tema, o Museu da Marinha vende um fac-simile do relatório oficial dos aviadores e a reprodução das comunicações do telegrafista do cruzador “República”.
Numa leitura combinada dos dois documentos revemos o que se planeou e como foram dadas as instruções por telégrafo. Muito interessante.
Abraço,
Pedro Ferreira

José Leite disse...

Caro Pedro Ferreira

Muito obrigado por partilhar a história, atribulada, da travessia do Atlântico Sul.

Abraço

José Leite