2 de maio de 2011

Epopeia do Patrulha “Augusto de Castilho”

O comando do primeiro cruzador-submarino alemão, o U-139, de 1930, com 2.483 toneladas, foi atribuído ao maior ás da respectiva arma, o capitão de corveta Lothar von Arnauld de La Priére que trouxe consigo o seu inseparável e experiente comandante de artilharia, o capitão-tenente Kurt von Piotr. Foi, talvez, o último dos submarinos alemães a travar combate com os inimigos do Império Alemão até ao dia 24 de Outubro de 1918 em que recebeu a mensagem rádio para cessar toda a actividade bélica e regressar à base. As três unidades desta classe foram, sem dúvida, os submarinos mais poderosos da marinha alemã, equipados como estavam com duas peças de 150 mm e um telémetro retractável, exemplar único em submarinos, além dos 6 tubos para a dotação de 19 torpedos.

                                                                        Submarino alemão U-139

                              

Foi este U-139 que enfrentou, na madrugada de 14 de Outubro de 1918, o pequeno navio patrulha português “Augusto de Castilho”, apetrechado com duas minúsculas peças, uma de 65 mm à vante e outra de 47 mm, à ré. A denominação de navio patrulha revela bem a natureza da unidade enquanto navio de guerra.

Originalmente a embarcação era o arrastão de pesca “Elite”, pertencente à empresa Parceria Geral de Pescarias, Lda. mandado construir em Inglaterra.. Lançado em 1909, foi o primeiro arrastão português para a pesca do bacalhau. Como arrastão não provou bem por variados factores; máquina apesar de grande, era fraca para puxar as redes; elevado consumo de carvão, a técnica da pesca com a rede estava na mão do mestre de redes, um Francês contratado que não colaborava com o capitão do arrastão, o pessoal não estava preparado para este tipo de pesca, pelo que o navio foi retirado do bacalhau, experimentou pescar no Cabo Branco, com sucesso, mas acabou por ser substituído por navios mais pequenos.

A 13 de junho de 1916, devido à Primeira Guerra Mundial, o “Elite” foi requisitado pela Marinha Portuguesa para ser usado em missões de patrulha e escolta oceânica, entre o Continente a Madeira e Açores. Com cerca de 315 toneladas de deslocamento, accionado por uma máquina a vapor de tríplice expansão atingia a velocidade de 10 nós, sendo classificado como navio-patrulha de alto mar, o navio recebeu uma peça de artilharia de 65 mm à vante e outra, de 47 mm à ré. O navio foi rebatizado em homenagem ao almirante Augusto Vidal de Castilho Barreto e Noronha.

                                                                 Navio patrulha “Augusto Castilho”

                                      
 
Antes do combate que lhe provocou o afundamento, o “Augusto Castilho” já, por duas vezes tinha enfrentado submarinos inimigos. A 23 de Março de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Augusto de Almeida Teixeira, escoltando o vapor Loanda entre Lisboa e o Funchal, atacou a tiro um submarino inimigo que, imediatamente, mergulhou. A 21 de Agosto de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Fernando de Oliveira Pinto, ao largo do cabo Raso, bombardeou um submarino inimigo de grandes dimensões que rapidamente desapareceu.

Naquele dia fatídico, o navio português escoltava o paquete “San Miguel”  (da Empresa Insulana de Navegação) que seguia da Madeira para os Açores com 206 passageiros e 54 tripulantes, entre os quais mulheres e crianças. Este navio patrulha tinha já escoltado de Lisboa para o Funchal o paquete Beira e, como a autoridade marítima da ilha não permitiu o desembarque da guarnição antes do período de quarentena, dado que em Lisboa grassava a peste, o 1º tenente José Botelho de Carvalho Araújo ofereceu-se para fazer a escolta ao “San Miguel” e assim aproveitar de uma forma útil os "dez dias da tabela" em que os seus homens teriam de ficar encerrados no vapor bélico. Depois, voltariam ao Funchal com direito a deambularem pelo morro da cidade. A canhoneira “Mandovi”, escalada para a protecção do paquete, ficou de guarda ao Funchal, cidade que tinha sido bombardeada a 12 de Dezembro do ano anterior pelo também cruzador-submarino U-156.

                                 Navio vapor “San Miguel” (1905-1930), da Companhia Insulana de Navegação                                            

                                      

O encontro com o gigantesco submarino-cruzador deu-se pelas duas da madrugada, como escreveu Kurt von Piotr no seu relatório do combate artilheiro: "Estava de guarda no quarto do meio e havia um luar claro quando às 2.00 da madrugada avistei duas embarcações, uma maior e um vapor mais pequeno que o comandante, entretanto chegado à torre, resolveu atacar a tiro de canhão. Levámos três horas a aproximarmo-nos dos dois navios que tentavam escapulir-se com quanta força tinham as suas máquinas. Pelas 5.00 da madrugada, o comandante deu-me licença para abrir fogo, o que fiz com a peça de 15 cm de vante, apontando-a para o vapor mais pequeno, por tomá-lo como o navio escolta".

Carvalho Araújo já tinha tomado a decisão de enfrentar o inimigo para permitir a fuga do “San Miguel”, apesar de o U-139 estar a disparar a uma distância totalmente fora do alcance das pequenas peças do “Augusto de Castilho”. Toda a guarnição correu para os seus postos de combate. Fogueiros e chegadores esforçavam-se até às últimas consequências para atingir os 10 nós, enquanto os marinheiros levam mais cunhetes para as peças e caixas de fumo para atirar à água e fazer fumo de encobrimento, caso seja necessário retirar, ajudados nessa tarefa pelos três passageiros militares e outros quatro civis, todos impedidos de desembarcarem no Funchal pela leis da quarentena.

            1º tenente Carvalho Araújo                                    Guarnição do “Augusto Castilho”

 Augusto Castilho.13

O imediato, o jovem guarda-marinha Manuel Armando Ferraz, dirige o tiro, correndo da peça da proa para a da ré. Ambas eram disparadas a olho, pois o pequeno “Augusto de Castilho” não possuía telémetro. Enquanto isto, o U-139 disparou um primeiro tiro contra o escoltador português que não acertou e um segundo contra o paquete que cai a 10 metros da proa do S. Miguel. Os dois tecnocratas da guerra alemães, De La Priére e Von Piotr, estavam no seu meio. Ambos tinham uma predilecção pelo combate artilheiro e sabiam estar em condições de superioridade, pelo que podiam poupar os torpedos que restavam. Julgavam mesmo que o problema seria resolvido em instantes; até trouxeram para a torre uma máquina de filmar. Queriam fixar no celulóide a morte daqueles portugueses perdidos e praticamente indefesos em pleno Atlântico para a glória posterior de um "Reich" que pouco mais teria afinal do que umas parcas semanas de existência.

                           Guarnição das peças de artilharia de 65 mm à vante, e de 47 mm a ré

                            

A terceira granada do U-139 rebenta na amura de estibordo do “Augusto de Castilho”, como relatou o sargento-ajudante Luís Simões em artigos publicados posteriormente no Diário de Notícias e reproduzidos pelo escritor e director da Biblioteca Nacional, João Palma Ferreira, na sua obra memorialista "Viagens, Fantasias & Batalhas".

Vendo o S. Miguel prestes a ser atingido, o bravo Carvalho Araújo ordena ao seu timoneiro que aproe directamente ao submarino, o que levou La Priére a mandar fazer marcha à ré, enquanto dispara salva sobre salva contra o pequeno pesqueiro a vapor. As granadas germânicas começam a rebentar dentro do navio, fazendo numerosas vítimas mortais, a primeira das quais foi o aspirante Eloy de Freitas. A cabine do telegrafista desfez-se quase ao mesmo tempo que a peça de vante é posta fora de acção. Ficou só o pequeno canhão de 47 mm da popa a fazer fogo com grande dificuldade. Entretanto, o S. Miguel vai-se afastando mais, daí a pouco estará fora do alcance dos canhões do U-139. Mesmo assim, os artilheiros do caça-minas não desarmam; continuam a disparar e o seu navio a receber granada sobre granada. Ao fim de duas horas de combate estavam praticamente esgotadas as munições e parte da guarnição do “Augusto de Castilho” morta ou ferida. Do S. Miguel já nada se via. Por ordem de Carvalho Araújo, o sargento Simões ainda vai disparar o último cunhete sobre o submarino alemão que se encontrava a curta distância. Esgotado o último cartucho, o U-139 ainda dispara contra o caça-minas que, por ordem do comandante, tinha içado a bandeira verde rubra da sua querida República.

                                                Exemplo dum rombo provocado por torpedo      

                               

Carvalho Araújo não quis ir para o fundo com uma bandeira branca, por isso foi atingido por uma das últimas granadas que explodiu junto ao local em que se encontrava na cabine de comando. O herói cai no convés, morto, enquanto o imediato fica gravemente ferido.

Terminado o fogo pelas 08.30, os sobreviventes lançam a custo o escaler salva-vidas ao mar, fazendo-se a ele cheio de gente. O resto do pessoal, sob o comando do guarda-marinha Ferraz muito ferido, totalizando vinte homens tentava, quase sem o conseguir, pôr a baleeira na água. Os do salva-vidas ainda tentaram ajudar, mas receberam ordens com armas apontadas do submarino alemão para se afastarem imediatamente do local. Os sobreviventes desesperavam; não conseguiam mover a baleeira, pelo que aproveitaram um bote que estava dentro do picadeiro, mas também sem o conseguir. Por fim, 12 dos sobreviventes lançaram-se ao mar numa jangada de salvamento e em coletes de cortiço.

                                                             Página da revista Ilustração Portuguesa, em 1923

                                   

fotos anteriores in: Hemeroteca Digital

Os artilheiros alemães observavam sorridentes as dificuldades dos portugueses e, depois, resolveram fazer sinal aos portugueses para subirem para o seu tombadilho, ajudando-os com cordas e bóias lançadas ao mar. O enfermeiro ou médico de bordo apareceu e, ajudado por uns camaradas, começou a fazer uns pensos aos mais feridos, enquanto Von Piostr filmava a cena em todos os seus detalhes. "Também deram uns refrescos em copos de alumínio", escreveu o sargento Simões. O guarda-marinha Ferraz falou em francês com Von Piotr, conseguindo convencê-lo a deixar ir a bordo do caça-minas buscar o bote e os feridos que lá ficaram.

                                               “Augusto de Castilho” junto ao submarino U-139

                                                

Tiveram o consentimento dos alemães, mas não permitiram que os náufragos portugueses levassem um sextante e uma bússola. Obviamente, temiam que aparecesse algum navio das esquadrilhas aliadas de S. Miguel, entretanto avisadas pelo paquete português e não queriam o local e o rumo do submarino devidamente assinalado. Os alemães limitaram-se a apontar a direcção da ilha de S. Miguel, iniciando os náufragos portugueses a odisseia de navegarem a remos até à ponta do Arnel na Ilha de S. Miguel. O bote comandado pelo guarda-marinha Ferraz metia água, pelo que foram precisos os sobretudos e luvas para colmatar as brechas. Foi um autêntico martírio e esforço inaudito, a viagem por mais de duzentas milhas em seis dias quase sem água nem mantimentos. Eram 12 náufragos, dos quais 8 estavam feridos, sendo que um morreu na viagem. Seis cadáveres foram para o fundo no Augusto Castilho, entre eles, o do bravo comandante Carvalho Araújo que quando soube que as munições estavam no fim disse ao imediato: -"Deixá-lo! Morro como português". O artilheiro Von Piotr ainda escreveu no seu relatório: "Foi com grande pesar que deixámos a valente guarnição à sorte incerta num barco prejudicado pelos estilhaços de granada e mediocremente calafetado".

- Texto anterior baseado em excerto do livro “Um Século de Guerra no Mar” de Dieter Dellinger

                                                     

A marinha portuguesa perdeu durante a 1ª Guerra Mundial 89 embarcações (registados), entre navios vapor, iates, barcas, lugres, traineiras e escunas. O primeiro a ser afundado foi o vapor “Mira” de 1.633 tons, em 24 de Novembro de 1914 e pertencente aos ‘Transportes Marítimos do Estado’ . O último navio vapor a ser afundado foi o “Cazengo”, de 2.889 tons, torpedeado em 8 de Outubro de 1918, e pertencente à ‘Companhia Nacional de Navegação’, em águas francesas durante a viagem de Liverpool para Lisboa. Morreram 4 homens da tripulação.

                           Navio vapor “Cazengo” (1899-1918), da ‘Companhia Nacional de Navegação’

                               

A última embarcação afundada, cujo incidente haja registo, foi o lugre “Maria Emília”, navegando à vista das ilhas Bermudas, em 5 de Novembro de 1918. Pertencia à praça da cidade do Porto.

- Dados estatísticos retirados do livro: “Ao Serviço da Pátria” de Costa Júnior

O nome de “Augusto Castilho” foi dado de novo a um navio da Marinha de Guerra, em 1970, a uma corveta ‘Classe João Coutinho’

                                                      Corveta  “Augusto Castilho”  (1970-2003)

                                

O nome do tenente Carvalho Araújo, foi posteriormente também dado a um Aviso de 2ª Classe (1915-1964), a um Paquete (1930-1972) da ‘Empresa Insulana de Navegação’, ao Navio Hidrográfico (1959-1975)  e finalmente a um cargueiro (1972-1986) da ‘Empresa Insulana de Navegação’ .

                            Paquete “Carvalho Araújo” (1930-1972) da Empresa Insulana de Navegação

                                 

4 comentários:

LUIS MIGUEL CORREIA disse...

O NRP AUGUSTO DE CASTILHO é referido erradamente em diversas fontes com a classificação de Caça-minas quando de facto era um Patrulha. Não existiu nenhuma Companhia Insulana de Navegação, mas sim, de 1871 a 1974 a Empresa Insulana de Navegação.
Sugiro algum cuidado no uso do termo EMBARCAÇÃO que só deve ser utilizada para referir barcos pequenos, chamando-se aos maiores NAVIOS: assim o AUGUSTO DE CASTILHO era um navio; já as suas baleeiras eram embarcações.

Cumprimentos do

KUÍS MIGUEL CORREIA

José Leite disse...

Caro Luís Miguel Correia

Quanto à Companhia em vez de Empresa o erro foi meu, ao elaborar o texto, e não por falta de conhecimento. Aliás se consultar o post "Paquete João Belo e CCN" de 01 de Abril de 2011, encontrará no texto a "Empresa Insulana de Navegação" referida e não Companhia ....
O termo de "embarcação", utilizo quando acho um pouco indefinido pelas dimensões e como aprendi, quando tirei a carta de Patrão de Costa, que nestas situações dúbias se utiliza sempre o termo embarcação ...
Quanto a ser navio patrulha em vez de caça-minas, tambem acho mais correcto a primeira designação pois de caça-minas pouco ou nada tem. Mas como em algumas publicações o classificavam como caça-minas, optei por essa.
De qualquer modo já procedi às correcções devidas.
Muito agradeço as suas rectificações que só valorizam estes trabalhos.

Cumprimentos

José Leite

João Luís Pena disse...

Existe uma base de dados dos navios torpedeados por submarinos alemães:

http://www.uboat.net/wwi/ships_hit/search.php

João Pena

José Leite disse...

Caro João Pena

Grato pela sua preciosa informação

Cumprimentos

José Leite