Restos de Colecção

14 de maio de 2023

Hotel Embaixador

O "Hotel Embaixador", situado na Avenida Duque de Loulé, em Lisboa, foi inaugurado em 21 de Junho de 1956. Propriedade de José Teodoro dos Santos - proprietário do "Casino Estoril" a partir de 1 de Julho de 1958 - foi projectado pelo arquitecto Raúl Tojal (que viria a projectar o "Hotel Estoril-Sol" para o mesmo proprietário) com a colaboração do arquitecto Manuel Coutinho de Carvalho.




José Teodoro dos Santos (1906-1971)


Cerimónia da inauguração

Com a construção do edifício da responsabilidade do construtor Manuel Gaspar, a decoração do Hotel e dos seus 100 quartos ficou a cargo do decorador José Espinho, tendo todo o seu mobiliário sido fornecido pela empresa "Móveis Olaio".


«Constituiu um verdadeiro acontecimento citadino e mundano a inauguração do novo Hotel Embaixador, situado na Avenida Duque de Loulé, propriedade do sr. José Teodoro dos Santos e que constituiu um grande serviço ao desenvolvimento turístico em Portugal.
O autor do projecto foi o arquitecto Raul Tojal, com a colaboração do seu colega Manuel Coutinho de Carvalho, do decorador José Espinho, do construtor Manuel Gaspar e da Casa Olaio, que forneceu todo o mobiliário.
O novo hotel dispõe de cem quartos, com todo o conforto moderno, estando a sala de jantar e as cozinhas instaladas no 9º andar  e a "boite" e a pastelaria no 10º.
Deve-se o ter realizado esta obra em tão pouco tempo ás grandes facilidades dos serviços de Turismo do S.N.I. e da Cãmara Municipal.
à cerimónia inaugural, no decorrer da qual foi servido um excelente almoço volante, assistiram centenas de pessoas, entres as quais representantes e membros do governo, dr. António Gonçalves da Roda, pelo chefe do distrito, Saphera da Costa, pelo Município, engº Sá e Melo, director-geral dos Serviços de Urbanização, engº Duarte Ferreira, administrador da C.G.D.C.P., dr. Jorge Felner da Costa, chefe dos serviços de Turismo do S.N.I., dr. Afonso Marchueta, director-geral do Comércio, o industrial hoteleiro Alexandre de Almeida, etc.» in jornal "Diario de Lisbôa".


Programa de Setembro de 1968






     





«O majestoso edifício compõe-se de dois pisos subterrâneos e de loja e dez andares, no ultimo dos quais se encontram instaladas a "boite" e a pastelaria, rodeadas por um enorme terraço, de onde se desfruta uma soberba vista sobre Lisboa.
Os cem quartos do hotel, classificados de luxo, situam-se do primeiro ao oitavo andares, estando a acas de jantar e a cozinha instaladas no nono andar. Na cave e subcave, ficam a engomadoria, economato e máquinas de ar condicionado.» in jornal “Diário Popular”.


1957
                                                                                

  23 de Dezembro de 1961


Decoração antes da remodelação efectuada em 2012

 

 

 

Com Manuel Madeira Teles, bisneto do fundador Teodoro dos Santos, como Administrador do renomeado “Embaixador Hotel” , este foi totalmente renovado em 2012 «para um conceito minimal-chique, com design moderno e criativo, desde as áreas de alojamento - onde os quartos combinam mobiliário de autor com linhas de design contemporâneas e peças vintage; às áreas públicas, contando com o novo Sun Lounge 360º (brevemente) e um Restaurante com vista panorâmica sobre o Rio Tejo e o Castelo de S. Jorge.»

 

A nova imagem do “Embaixador Hotel” baseia-se na sua origem, em 1959, e, por isso, as peças dessa época que conseguiram aproveitar são orgulhosamente assumidas. “O seu design é realmente extraordinário e as pessoas reconhecem-nas imediatamente, quer seja pelo desing ou pela beleza das peças”, salienta Manuel Madeira Teles. A decoração do interior do hotel ficou a cargo do Atelier Filipa Lacerda que integrou peças em mobília desenhadas expressamente para o hotel, que lhe dá uma atmosfera moderna e urbana. “Creio que se identifica um pouco de Lisboa e daquela fusão tão especial entre o moderno e o antigo, que enobrece a cidade», adianta Manuel Madeira Teles in revista “Briefing - Os Negócios do Marketing”.

Interiores do actual “Embaixador Hotel”

 

 

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste GulbenkianDelcampe.net, Hemeroteca Digital, Embaixador Hotel

2 de maio de 2023

"A Revolução de Maio"

O filme português "A Revolução de Maio", foi realizado por António Lopes Ribeiro (1908-1995) e estreado em 6 de Junho de 1937, no "Cine-Teatro Tivoli", em Lisboa. A rodagem do filme tinha sido iniciada em 25 de Março de 1936, no Forte da Almada. A sua produção foi do "SPN - Secretariado da Propaganda Nacional", que tinha sido criado em 26 de Outubro de 1933, e dirigido por António Ferro (1895-1956).


O argumento do filme foi escrito por Jorge Afonso e Baltazar Fernandes, que não eram mais que os pseudónimos de António Ferro e de António Lopes Ribeiro respectivamente.

Sinopse:

César Valente, membro da resistência clandestina ao regime de Salazar, regressa do exílio para desencadear uma revolução em 28 de Maio de 1936, o dia exato em que a ditadura celebraria o seu décimo aniversário. No entanto, através do contato direto com a "Obra do Estado Novo" e depois de se apaixonar por Maria Clara, uma enfermeira da "Maternidade Dr. Alfredo da Costa", Valente irá pouco a pouco converter-se à ideologia do regime - quando contempla, extático, a bandeira nacional no alto do Castelo de São Jorge, chega mesmo a amarrotar a sua bandeira vermelha. No final do filme, a polícia política que vigiara todos os movimentos dos «agitadores bolcheviques», já nem sequer considera necessário prendê-lo: o regime conta agora com mais um fervoroso adepto.


Os actores Maria Clara (Maria Clara) e César Valente (António Martinez)

O realizador, António Lopes Ribeiro:

Realizador, crítico, jornalista e produtor de cinema, António Lopes Ribeiro (1908-1995) foi um nome central na história do cinema português na primeira metade do século XX. Pioneiro da crítica de cinema em Portugal, desde meados dos anos 1920, defendeu as vanguardas cinematográficas europeias e a renovação estética e técnica do cinema português. Realizou o seu primeiro filme, "Bailando ao Sol", em 1928, e participou nas rodagens dos filmes de José Leitão de Barros (1896-1967) "Nazaré, Praia de Pescadores" de 1929, "Lisboa, Crónica Anedótica" de 1930 e "Maria do Mar" de 1930.


António Lopes Ribeiro e Isy Goldberger durante a rodagem de "A Revolução de Maio"

Antes disso, faz uma célebre viagem pelos grandes estúdios de cinema de Paris, Berlim e Moscovo, onde atualizou conhecimentos, reuniu influências e conheceu Clair, Renoir, Lang, Pabst, Eisenstein e Vertov. O seu primeiro filme sonoro foi "Gado Bravo" em 1934, que reuniu vários técnicos e atores judeus fugidos da Alemanha de Hitler. Assinou o primeiro grande filme de propaganda do Estado Novo em 1937, "A Revolução de Maio", escrevendo o argumento com António Ferro, fundador e diretor do "Secretariado da Propaganda Nacional" - SPN. Acerca deste grande cineasta consultar neste blog o seguinte link: António Lopes Ribeiro


Olavo d'Eça Leal, Isy Golberger e António Lopes Ribeiro


Artigos no "Cine-Jornal"  de 17 de Fevereiro e 24 de Março de 1936


Na revista "Animatógrafo" de Outubro de 1941


Anúncio da exibição do filme no "Teatro Nacional São João", no Porto

Imagens da rodagem do filme "A Revolução de Maio"


«Primeira volta da manivela», no Forte de Almada













E, finalmente, a estreia em 6 de Junho de 1937, no "Cine-Teatro Tivoli", em Lisboa.


«Num permanente ambiente de ovação e delírio!» ...


Quanto à estreia do filme, à qual assistiram o Chefe de Estado General Óscar Carmona e o Presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar, deixo aqui o recorte da notícia e crítica à mesma, no jornal "Diario de Lisbôa", publicada no dia 7 de Junho de 1937.


O suplemento semanal de "O Século", Cinéfilo de 5 de Junho de 1937, considera que quatro pontos cardeais nortearam o filme:

«"servir o cinema português", "servir o público português" ("o público português, de Portugal, do Brasil, das Possessões Ultramarinas, da Europa, da América e da África", que "reclama filmes falados em língua portuguesa"), "servir a propaganda de Portugal" (filmando o "espectáculo formidável" que desfilou perante os "aparelhos de filmar": "as mais lindas paisagens, os nossos mais belos trajos, grandes artistas nossos, a obra formidável do Estado Novo, o nosso Exército, a nossa Marinha, a nossa Esquadra, a nossa Aviação") e, finalmente, "servir a política de Salazar" ("o exemplo singular do que pode fazer o cérebro aliado ao braço, o braço aliado ao coração").»

Segundo João Bénard da Costa (Cinemateca 1995):

« (...) Mas a concepção dessas cenas, segundo Lopes Ribeiro sempre disse, pertenceram ao outro pseudónimo da ficha técnica: Baltazar Fernandes = António Lopes Ribeiro. Do primeiro, terá ficado, talvez, a divisa do duque de Guise que tanto gostava de invocar: “Tudo o que é nacional é nosso.” Do segundo, a divisa implícita, no que aprendera e vira, de que tudo quanto era alheio (alemão, russo, ou americano, pois que muito dos filmes de gangsters foi igualmente incorporado) podia também ser feito nosso, desde que convertido em nacional. E Salazar, que assistiu à estreia, o que é que achou? Lopes Ribeiro contava que António Ferro lho perguntou no dia seguinte: “Então, Senhor Presidente, gostou?” E Salazar respondeu-lhe: “Gostei, gostei muito. Mas aquilo acabou muito tarde e, esta noite, dormi muito mal. Olhe, não me leve mais a ver essas fitas.” E foi a partir daí que passou a dizer que o cinema era uma indústria horrivelmente cara.»

Na opinião de José Régio, numa crítica publicada na revista "Presença":

«O filme tem belos enquadramentos e belos ângulos, interessa tanto quanto possível o espectador, conta a anedota (sobretudo na parte digamos policial) com um à-vontade que mesmo relativo não encontramos muitas vezes, é regularmente representado..."


Elenco:

Maria Clara (Maria Clara)
Emília de Oliveira (A Mãe)
António Martinez (César Valente)
Francisco Ribeiro/"Ribeirinho" (Barata)
Alexandre de Azevedo (Chefe Moreira)
Clemente Pinto (Marques)
José Gamboa (O Silva Tipógrafo)
Luís de Campos (Agente Sobral)
Elieser Kamenesky (Dimoff)
Ricardo Malheiro (O motorista)

Imagens do filme "A Revolução de Outubro" por ordem cronológica das cenas


Abertura

No final dos genéricos do filme, uma nota da produção:

«As imagens documentárias incluidas nêste filme são autênticas reportagens cinematograficas, filmadas sem qualquer artifício de encenação. (Documentos filmados especialmente, fornecidos pelo Secretariado da Propaganda Nacional e pelo Ministério da Agricultura).»


















Ficha Técnica:

Realização, diálogos, planificação e montagem:

António Lopes Ribeiro

Argumento:

Jorge Afonso e Baltazar Fernandes

Assistente do realizador:

Olavo d’Eça Leal

Assistente técnico:

F. Bernaldez y Eder

Assistente geral:

Pereira de Carvalho

Imagem e Fotografia:

Isy Golberger

Colaboração:

Octávio Bobone, Manuel Luís Vieira, José Nunes das Neves

Direção musical:

Pedro de Freitas Branco

Musica:

Wenceslau Pinto

Decorações:

António Soares

Registo sonoro:

Engº Paulo de Brito Aranha

Assistente de produção:

Augusto Soares

Produção:

Secretariado da Propaganda Nacional - SPN

Laboratório de imagem:

Lisboa Filme - Película Kodak

Estúdios:

Tobis Portuguesa - Sistema Tobis Klangfilm

Imagens de arquivo:

Secretariado da Propaganda Nacional e Ministério da Agricultura

Duração:

138 minutos

Estreia:

Cine-Teatro Tivoli (Lisboa) em 6 de Junho de 1937

Distribuição:

Sonoro Filme

Outro filme se seguiria: "O Feitiço do Império" realizado, também, por António Lopes Ribeiro em 1940, e que seria a apologia da colonização portuguesa e do nacionalismo no tempo da II Guerra Mundial (1939-1945). Trata-se de um filme de que apenas se pode ver a imagem e ler o guião, graças à sua publicação por José Matos-Cruz, dado que se perdeu a banda sonora do mesmo.

fotos in: Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Horácio Novais), Hemeroteca Municipal de Lisboa