Restos de Colecção

7 de julho de 2019

"Fábrica Âncora" de Licores

A "Fabrica Ancora" especializada em licores, xaropes, aperitivos e cognacs foi fundada em 1882, no Largo do Marquez de Niza, em Xabregas - Lisboa, pelo médico Dr. Carlos Félix de Lima Mayer (1846-1910), tendo sido adquirida por Leopoldo Manillius Wagner em 1894.

Depósito e escritórios da "Fábrica Âncora" na Rua do Alecrim 32-42 (à esquerda na foto)


1907


Dr. Carlos Félix de Lima Mayer (1846-1910)


Anuncio no "Annuario Commercial de Lisboa" de 1886


5 de Maio de 1894


Anúncio num Programa do "Theatro D. Amelia" em Novembro de 1899


Leopoldo Manillius Wagner nasceu por volta de 1850 em Lisboa e faleceu por volta de 1926/1927. Primeiro filho de oito, de Ernesto Victor Wagner (músico e 1º fabricante de pianos em Portugal) e de Leopoldina Carolina Neuparth. Fez o curso do "Instituto Industrial e Comercial de Lisboa". Após o serviço militar, cumprido em Viana do Castelo, torna-se contabilista da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal, tendo chegado a Diretor-Gerente.

Em 1882 fixa-se em Lisboa com um escritório de agências e comissões.

A 23 de Agosto de 1883 casa com Virgínia de Oliveira Basto. Virgínia compôs de peças para canto, piano, violoncelo, órgão e orquestra, peças estas que só perto dos setenta anos se resolveu a publicar.

Deste casamento nasceram três filhos, Olinda (1884-c.1954), Mário (1885-1935) e Vitor Manuel (1887-1955). Os dois primeiros filhos ainda nasceram na cidade do Porto. Todos os filhos de Leopoldo Wagner seguiram o sucesso do pai. Olinda casou com João António Ribeiro, um empreendedor que viveu em S. Tomé, o qual trabalhou e foi sócio da Casa Morais, e na Companhia Agrícola das Neves, de que foi diretor. Em Portugal fez parte da direção da Fábrica de Licores Âncora e mais tarde foi seu proprietário, com o seu filho. Mário foi um físico e cientista de renome, o qual pertenceu à Sociedade Química Portuguesa. Victor sempre trabalhou com o pai na fábrica.

Leopoldo Wagner e a sua família habitaram o prédio seiscentista conhecido por palácio "Bichinho de Conta", adquirido à família dos Condes de Alva.

Leopoldo Wagner tinha-se estabelecido em Lisboa com um escritório de agências e comissões, na Rua dos Fanqueiros, 62-1º, em 1887, vindo a mudar de instalações em 1890 para a Rua do Alecrim (antiga "Casa Hoffman & Cruz"), altura em que junta ao seu negócio outro de vinhos e bebidas alcoólicas.

Instalações na Rua do Alecrim 32-42, em 1917


1904


Posters de 1908



Em 1890, a "Fabrica Ancora" ganha a sua segunda medalha numa exposição internacional: "Medalha d'ouro Paris 1890", depois de a ter ganho no ano anterior e no mesmo certame.

Anúncio em 16 de Janeiro de 1897


Em 1894, Leopoldo Wagner adquire ao Dr. Carlos Lima Mayer a "Fabrica Ancora", que tinha a sua sede e fábrica em Xabregas, e monta o escritório e depósito nestas instalações na Rua do Alecrim 34. Em 1897 já mantinha uma sucursal na Rua do Ouro, 72, e no início do século XX abriria outra na Rua do Corpo Santo,7 ambas em Lisboa.

Largo Marquês de Niza em Xabregas


Na revista "Illustração Portugueza" em 1914


«Effectivamente, graças a uma direcção intelligente, a um precioso receituario (resultado de incessantes e penosos trabalhos de muitos annos no aperfeiçoamento dos seus productos), a um escrupulosos cuidado na sua confecção, cujos processos seguidos são exactamente os mesmos adoptados nas grandes fabricas estrangeiras d'este ramo, e graças tambem ao emprego de materias primas das mais superfinas qualidades e a sua invariavel divisa de não fornecer senão artigos perfeitíssimos, a Fabrica Ancora conseguiu attingir a mais elevada cotação porque todos os seus productos, sem excepção, não teme confronto com os similares das mais afamadas marcas francezas e holandezas. Em todas as exposições a que tem concorrido teem sido conferidas á Fabrica Ancora as maiores distinções, entre as quaes dois Grands-Prix nas Exposições Universaes de S. Louis (1904) e Rio de Janeiro (1908).

Aquando da "Exposição Internacional do Rio de Janeiro" em 1923


1926


Além dos seus magnificos e afamados xaropes (fabricados a vapor com assucar puro de cana e succos de fructos ou plantas e que em todo o paiz e colonias teem a preferencia dos consumidores) e dos seus extrafinos licores de fructos de Portugal, entre os quaes sobresahem os Tangerina de Lisboa, Ginja de Portugal, Laranja de Setubal, Morango de Cintra, Ananas de S.Miguel e Banana da Madeira, merecem especial menção os seus execellentes licores nos typos estrangeiros, taes como: Triplice Ancora (Triplice sec cointreau), Licor do Convento (Chartreuse), Fradictine (Benedictine), Licor do Ermita (Kermann), Marasquin de Zara, Anizette e Curaçao de Hollande, Kummel  de Riga, Peppermint e Menthe Glacial, Anizado refinado e Aniz Crystal, cremes de Cacau, de Rosas, de Baunilha, etc., os quaes são indistinguiveis dos similares de origem estrangeira.» in: jornal "A Capital" de 27 de Março de 1917.

Gama de alguns produtos da "Fábrica Âncora" nos anos 40 do século XX



De referir que além destas bebidas atrás mencionadas a "Fábrica Âncora", produzia, cognacs da marca "Ancora" «que são realmente uma especialidade muito apreciada pelos entendedores que os classificam a par das marcas Martell e Hennessy» e aperitivos.


Outros licores eram fabricados por esta fábrica «que teem geralmente largo consumo, como sejam: Granito Ancora, Creme de Ovos, Elixir de Cintra, Luso Africano, Vasco da Gama, Ponche Ancora, Casador, Cyclista e Grande Ancora-Tutti Frutti e que todos os seus productos são elegantemente apresentados e adornados com artisticas etiquetas.»


Rótulos

 


Nos anos 40 do século XX o prédio Largo do Marquez de Niza, em Xabregas, onde estava instalada a fábrica já tinha sido demolido, e a fábrica já tinha sido transferida para a Rua de S. Cyro, 23.

Entretanto, a empresa "Leopoldo Wagner (Sucrs.), Lda.", proprietária da "Fábrica Âncora", não resistiu às novas regras de distribuição implementadas nos anos 80 do século XX e fechou. Seria vendida, posteriormente, a um grupo indiano. Em 1990, as suas instalações form convertidas num antiquário, por João Trindade, que manteria muitos pormenores da fábrica, como as tabuletas, vendendo parte do espólio de onde se destacaram os rótulos.

           



Sabe-se que o último Wagner com ligações à "Fábrica Âncora", António Augusto Wagner Ribeiro, faleceu em 1996. Era filho de Olinda Wagner (1884-1954) filha de Leopoldo Wagner.

Publicidade na "Gazeta dos Caminhos de Ferro" em 1 de Janeiro de 1966


Postais





fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Digital de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital

3 de julho de 2019

Antigamente (149)

Automóvel "Dodge" Luxury Liner  publicitário do Cine-Teatro Eden, em 1939



Lota e lavagem de peixe na Ribeira, em 1940


Restaurante "Caravela d’Ouro" em Algés, em 1961



Fila para a abertura do supermercado "Pão de Açúcar" do Lumiar, em Lisboa


1 de julho de 2019

Cinema Lumiar

O “Cinema Lumiar”, propriedade da firma “Cruz & Cruz, Lda.”, foi inaugurado na Calçada de Carriche, em Lisboa, a 31 de Outubro de 1968. No noite da sua inauguração, foi projectado o filme japonês “O Reino de Buda”, rodado em 70 m/m e realizado, em 1961, por Kenji Misumi (1921-1975), inspirado na vida de Buda.


Anúncios ao filme para a sua inauguração e fachada do "Cinema Lumiar" no mesmo dia

28 de Outubro de 1968


31 de Outubro de 1968



O projecto desta sala de cinema foi entregue ao arquitecto José Croft de Moura e encomendado pela firma “Cruz & Cruz, Lda.”, - a mesma que tinha promovido a urbanização daquela zona conhecida pela Quinta da Nazaré - com a intenção de dar “vida” aquela área, e que não se focasse exclusivamente na projecção de filmes. Em resultado, foi construído um edifício que albergou uma sala de espectáculos com palco e capacidade para 800 espectadores, distribuídos pela plateia e balcão, complementados por 2 foyers e um bar. No exterior foi construído um parque automóvel privativo do Cinema.

"Cinema Lumiar" em fase de construção em foto de Outubro de 1967


A seguir uma série de fotogramas retirados dum documentário da RTP acerca da inauguração do "Cinema Lumiar"








Artigo de Lauro António acerca da inauguração, no jornal "Diario de Lisbôa" de 1 de Novembro de 1968


O “Cinema Lumiar” não teve grande sucesso, prova disso é que como cinema de estreia durou muito pouco tempo, pois em Dezembro de 1969 passaria a cinema de reprise com sessões duplas, como se pode observar no anuncio que publico a seguir.



Programa e bilhete gentilmente cedidos por Carlos Caria

Foi no "Cinema Lumiar" que em 28 e 29 de Outubro de 1978, na sua Assembleia Constituinte, foi constituída a "UGT - União Geral de Trabalhadores", e que seria confirmada com o seu I Congresso, entre 27 e 29 de Janeiro, no "Cinema Vale-Formoso", no Porto.

Encerraria definitivamente em 1 de Junho de 1982, “para férias”, conforme anúncio a seguir no jornal “Diario de Lisbôa”, tendo exibido o seu último filme, na véspera, e intitulado “Sublime Sacrifício”

Depois de adquirido pela “RTP-Radiotelevisão Portuguesa” o edifício foi arrendado, em 2011, à “Assembleia de Deus Ministério da Missão”, que viria a ser despejada em 2016 por atrasos no pagamento das rendas. Actualmente o edifício encontra-se para venda, conforme a última fotografia.



O "Cinema Lumiar" seria o último edifício a ser construído em Lisboa com a finalidade exclusiva de Cinema. O “Cinema Berna" inaugurado em 21 de Outubro de 1970, na Avenida Marquês de Tomar, junto à Igreja de Nossa Senhora de Fátima, não seria o último, já que o seu objecto inicial foi de Salão Paroquial com uma sala de cinema e que por razões de ordem financeira o Patriarcado de Lisboa viria a converter o edifício para Cinema exclusivamente.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, RTP - Radiotelevisão Portuguesa