Definição de «Pousada» por Clifford & Kirshenblatt-Gimblet: « ... lugares de performance cultural e de representação de mensagens hegemónicas do Estado, veiculando ideias de como devem ser as infraestruturas de acolhimento turístico, ...»
Na sequência da Nota Oficiosa de Março de 1938, em que o Presidente do Conselho Dr. Oliveira Salazar, incluía no elenco de obras a realizar a tempo das celebrações centenárias de 1940, o estabelecimento de certo número de pousadas em recantos provincianos, o “Ministério das Obras Públicas e Comunicações” (MOPC) encarregava os arquitectos Rogério de Azevedo e Miguel Jacobetty Rosa do estudo desta nova tipologia, ficando desde logo estabelecida a distribuição geográfica dos equipamentos. Rogério de Azevedo ficaria encarregue das propostas para a Serra do Marão e Santo António do Serém, ficando Jacobetty Rosa encarregue dos estudos de Elvas e São Brás de Alportel. Entre estudo, projecto e construção, nenhuma destas pousadas seria concluída a tempo das celebrações.
Cartaz do S.N.I.
Estas pousadas, inseriram-se no projecto de criação de uma rede nacional de pousadas regionais, com o fim de dinamizar a oferta turística nacional. Tratava-se de «criar em cada pousada, com a sua originalidade e as características próprias de cada região, uma atmosfera caseira e sem luxos, um ambiente calmo, familiar e português». Esta iniciativa sob a direcção de António Ferro, do “Secretariado da Propaganda Nacional” (SPN), criado em 25 de Setembro de 1933, que a partir de 1945 mudou de designação para Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), incluiu também a criação da revista "Panorama", em 1941, na qual se iam promovendo a edição de vários roteiros e guias turísticos em diversas línguas.
António Ferro
Revista de Arte e Turismo “Panorama”
As pousadas depois de construídas pelo “Ministério das Obras Públicas e Comunicações” (MOPC) eram entregues ao “Secretariado da Propaganda Nacional” (SPN)
A primeira pousada, a ser construída foi a “Pousada de Santa Luzia”, em Elvas localidade conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques em 1166. Inaugurada em 19 de Abril de 1942, é o que agora se chama uma pousada regional. O projecto desta pousada foi da responsabilidade do arquitecto Miguel Jacobetty Rosa. Oferecia 6 quartos duplos aos viajantes e visitantes de Elvas. Os arranjos interiores iniciais estiveram a cargo dos Serviços de Turismo e Serviços Técnicos do Secretariado da Propaganda Nacional. Nesta data a concessão foi entregue ao poeta alentejano Joaquim Azinhal Abelho.
Fotos da “Pousada de Santa Luzia”, em Elvas
Em Agosto de 1964, foi elaborado o projecto de ampliação da Pousada, da autoria de Miguel Jacobetty Rosa, sendo introduzida uma a sala de estar, no prolongamento para Este. da fachada principal, um pequeno bar de apoio e o aumento dos seis quartos iniciais para onze. A “Pousada de Santa Luzia” já com 25 quartos, faz parte actualmente, do universo das "Pousadas de Portugal".
A “Pousada de S. Gonçalo” na Serra do Marão, a cerca de 20 kms de Amarante foi a segunda a ser inaugurada, a 29 de Agosto de 1942. Com 5 quartos, foi construída junto à apelidada «curva da morte» em pedra de xisto integrando-se perfeitamente no seu ambiente natural a 880 metros de altitude. Das suas janelas e varandas avista-se o esplendoroso vale, imenso e profundo da Serra do Marão. Foi ampliada em 1961.
Foto da “Pousada de São Gonçalo”, em 1942 no Marão …
“Pousada de São Gonçalo”, após obras de ampliação em 1961
O primeiro concessionário desta pousada foi Alcino Reis. Depois de ter pertencido ao “Grupo Pestana Pousadas”, foi adquirido em 2007 por António Ribeiro Pereira que também é o proprietário da empresa “Água do Marão”.
A “Pousada de Santo António do Serém” em Serém, em Macinhata do Vouga, no distrito de Águeda, foi inaugurada em 24 de Setembro de 1942 e a terceira a entrar em funcionamento. Também projectada pelo arquitecto Rogério de Azevedo a decoração dos seus interiores ficou a cargo ao pintor e decorador Carlos Botelho. Em 1957 sofreu obras de ampliação.
Já não pertence à rede das “Pousadas de Portugal” e encontra-se encerrada.
Fotos da “Pousada de Santo António”, em Serém
«As pousadas do SPN são consideradas como verdadeiros cartões postais das diversas regiões do país e da sociedade portuguesa do Estado Novo»: Heloísa Paulo.
A “Pousada de S. Martinho”, em S. Martinho do Porto seria a quarta a ser inaugurada, em 25 de Agosto de 1943 e projectada pelo arquitecto Veloso Reis Camelo.
“Pousada de S. Martinho”, em Alfeizerão - São Martinho do Porto, inaugurada em 25 de Agosto de 1943
A “Pousada de São Brás de Alportel” seria a quinta a ser inaugurada, em 11 de Abril de 1944. Situada em São Brás de Alportel, no Algarve na Serra do Caldeirão, e a 19 kms de Faro, e projectada pelo arquitecto Miguel Jacobetty Rosa, possuía apenas 4 quartos à data da sua inauguração. A decoração de interiores ficou a cargo de Ane-Marie Jauss, Vera Leroy. A direcção desta pousada foi entregue a Margarida Freire Pacheco e seu marido Joaquim Pacheco. Nos anos 50 do século XX esta pousada sofreu obras de ampliação passando a oferecer 30 quartos duplos. Depois de pertencer às "Pousadas de Portugal" e posteriormente ao “Grupo Pestana Pousadas” foi encerrada, por inviabilidade financeira, em 2010.
“Pousada de São Brás de Alportel”, em 1944
Fotos da “Pousada de São Brás de Alportel”, nos finais dos anos 50 do séc. XX após obras de ampliação
«O seu grande cartaz de turismo é a paisagem de sonho que a rodeia, onde avultam cordilheiras cercadas por neblinas, desfiladeiros e vales profundos, castelos de nuvens e campos infindáveis onde florescem amendoeiras…». António Santos in “Revista Turismo”, de 1940 acerca de São Brás de Alportel.
fotos in: Hemeroteca Digital, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian
Foram inauguradas posteriormente as seguintes 2 pousadas completando o plano inicial das 7 pousadas regionais oficiais do turismo:
Pousada de Santiago, em Santiago do Cacém, inaugurada em 10 de Fevereiro de 1945
Pousada de São Lourenço, em Manteigas na Serra da Estrela, inaugurada em 14 Março de 1948
Estas pousadas eram acompanhadas regularmente pelas «Brigadas Hoteleiras» que aconselhavam, solucionavam problemas de decoração, vistoriavam hotéis, pensões e pousadas e que regulavam localmente a instalação de equipamentos turísticos.
Em 1952 contavam-se 8 pousadas e 10 estalagens. Em 1956 10 pousadas e 21 estalagens. Em 2001 contavam-se já 44 pousadas, das quais 18 estavam instaladas em edifícios históricos.
«Quando um hóspede deixar de ser tratado pelo nome para ser conhecido pelo número do quarto que ocupa, estaremos completamente desviados do espírito das pousadas»: António Ferro