Restos de Colecção

1 de abril de 2025

Hotel Diplomático

O "Hotel Diplomático", foi inaugurado na Rua Castilho, em Lisboa, no dia 29 de Maio de 1969. Foi sua promotora e proprietária a empresa "Organitel - Organizações Hoteleiras, S.A.R.L.". Com um capital social de 14.400 contos, tinha como acionistas e assento no conselho de administração: Luis Augusto Ribeiro da Silva, Luis Carlos Ribeiro da Silva e Carlos José Ribeiro da Silva. 



Dentro da área delimitada a vermelho onde foi construído o "Hotel Diplomático"

O "Hotel Diplomático", cujo custo ascendeu a 40 mil contos foi classificado com 4 estrelas. Encimado por um terraço panorâmico, oferecia 90 quartos e 17 suítes, tinha salas de leitura, conferências, banquetes, além de galeria, bar e parque de estacionamento. O mobiliário foi fornecido pela "Altamira", as alcatifas pela "Fábrica de Tapetes Vitória" e colchões "Ó-Ó" da "Molaflex"


Em 1978 é constituído o "Grupo VIP Hotels", cadeia hoteleira portuguesa e que em 2000 já contaria com 16 hotéis. Seria entregue a este Grupo a exploração do "Hotel Diplomático" nos anos 90 do século XX, tendo alterado a denominação para "VIP Excutive Diplomático Hotel", tendo procedido a uma profunda remodelação e redecoração.









Em 22 de Dezembro de 2001 a "Organitel - Organizações Hoteleiras, S.A." é adquirida por Asharaf Aly, Munir Asharaf Aly e Erik Asharaf Aly Kurgy, tendo o primeiro ficado como presidente do conselho de administração e os restantes como vogais, a partir de 11 de Fevereiro de 2002.


Cartaz em 2015

Depois de encerrado em finais de 2019, o "Hotel Diplomático" viria ser comprado, em Agosto de 2021 por 14,75 milhões de euros, pela "Catlyst Capital", uma sociedade europeia de investimento e desenvolvimento imobiliário e gestora de fundos fundada em 1996, que iniciava uma estratégia de investimento de cerca de 250 milhões de euros no sector hoteleiro com a aquisiçao deste hotel, em Lisboa, através da "Catalyst Core Plus European Property Fund". 

Na altura, esta empresa emitiu uma nota à imprensa em que declarava o seguinte: «A Catalyst irá investir cerca de nove milhões de euros numa remodelação alargada do hotel, para o dotar de 95 quartos e tranformá-lo num 'boutique' hotel de quatro estrelas» e «o hotel será gerido pela Staycity, um gestor de 'aparthotéis', através da sua insígnia 'premium' Wilde Aparthotels. A empresa assinou um contrato de aluguer de 25 anos, com atualizações anuais de renda indexadas à taxa de inflação. A Catalyst espera iniciar a remodelação no próximo ano e completá-la em 2023».

Mas … segundo o "Diário Imobiliário":

«O ‘Wilde Aparthotels Lisbon’  vai abrir portas em 2025. Surge da reconversão do antigo hotel Diplomático na rua Castilho, um projecto em desenvolvimento da responsabilidade do Staycity Groupe e do Catalyst Capital (fundo do Reino Unido), uma empresa de investimento e desenvolvimento sediada em Londres. 
A marca Wilde foi lançada em 2018 com toques de design lúdicos e espirituosos inspirados no dramaturgo e poeta irlandês Oscar Wilde, tornando-a um pouco diferente. Todos os estúdios e apartamentos com um quarto têm cozinhas/kitchenette totalmente equipadas e áreas de jantar e de estar. Os hóspedes também têm um confortável e elegante salão para trabalhar, comer ou reunir-se, juntamente com um bar, café e sala de fitness. Há também uma lavandaria, limpeza semanal, recepção 24 horas e a opção de check-in/check-out remoto.»


Imagem de Julho de 2024 (via Google Maps)



27 de março de 2025

J. Maury - Relojoeiro

A relojoaria "J. Maury", foi fundada em 1859 na Rua Aurea, 204, em Lisboa, pelo relojoeiro francês Jules Maury (? - 1902). Mais tarde ampliaria a sua loja ao nº 202. Em 1963 já era fornecedor do "Observatório Astronomico da Marinha".




1863


1881

Em 1945, o livro "Praça de Lisboa" organizado por Carlos Bastos descrevia esta casa com a seguinte passagem:

«A sua fundação deve-se ao súbdito francês J. Maury, que viera para Portugal empregar-se na extinta firma do mesmo ramo Girod & Gandy, onde deu sobejas provas de competência, firmando-se entre nós como técnico de raro merecimento. Montando em 1859, na mesma rua e local onde ainda funciona, uma loja para venda e reparação de relógios, J. Maury, que iniciou a sua carreira em proporções modestas, conseguiu rapidamente grande destaque no comércio da Capital, graças à enorme afluência do público que acolheu o nóvel negociante com lisonjeiras demonstrações de preferência. Profissionalmente sabedor e comerciante de rigorosa probidade, J. Maury viu-se rodeado de um carinho pouco vulgar e, para satisfazer o desenvolvimento das encomendas com que o distinguiram, teve de aumentar as instalações primitivas de molde a que elas pudessem comportar o progresso atingido.

Sucedeu-lhe na propriedade e administração da casa seu filho Hyppolite Maury, o qual, educado no bom exemplo do pai, não só manteve brilhantemente o prestígio da firma como ainda lhe imprimiu novo e intensivo incremento. Trabalhando com todas as marcas de reputação internacional e dotando as oficinas com os requisitos exigidos pela indústria, Hyppolite Maury acompanhou criteriosamente a evolução do mercado, merecendo por isso a estima e consideração daqueles que recorriam ao seu préstimo e lhe reconheciam como primacial qualidade o desejo permanente de bem servir, objectivo que sempre conseguiu ver realizado em virtude da capacidade directiva de que dispunha e dos valiosos elementos técnicos com que soube colaborar.


Habilitação de herdeiros no "Diario do Governo" de 10 de Janeiro de 1902



1902

De facto desde cêrca de 1904 que esta firma, não poupando sacrifícios, contratara directamente um dos mais distintos profissionais da indústria suíça, Paul Émile Funk, o qual veio directamente do seu país de origem a fim de proporcionar aos operários nacionais da Casa Maury os valiosos ensinamentos colhidos nos centros industriais mais  conceituados da república helvética, cuja produção em tal ramo caminha na vanguarda do fabrico europeu.

Por morte de Hyppolite Maury, em 1930, sua viúva e filhas, assumindo a propriedade do estabelecimento, confiaram a gerência à dedicação e competência de Paul Émile Funk, que no exercício de tão dedicadas funções se tem comportado com a superioridade de orientação que era de esperar em quem anteriormente exercera com apreciável brilho um cargo bem difícil. 

J. Maury, Sucr. H. Maury enfileira assim entre as casas mais antigas do ramo que explora e a sua actividade, manifestada em oitenta e seis anos de honesto e constante labor, torna-se digna da homenagem que neste lugar lhe prestamos com sincera satisfação.»


1914


Dezembro de 1934


Maio de 1936

 




10 de Agosto de 1944


28 de Abril de 1974

Jules Maury mandava, como outros, gravar o seu nome nos mostradores dos relógios que vendia. A "J. Maury" manteve-se nas mãos da família até quase ao final do século XX, até ser adquirida, em 1986, pela prestigiada cadeia de lojas "Torres Joalheiros", que teve origem em 1910 quando Anselmo Torres e seu filho Carlos Torres iniciaram, em Torres Vedras, um pequeno negócio na área do comércio de joalharia, vindo a instala-se em Lisboa em 1940 , quando adquiram a "Ourivesaria Pimenta" na Rua da Palma, no local onde hoje se encontra o "Hotel Mundial".

Legenda da foto anterior: «É um relógio de parede com caixa de estilo neoclássico, concebida pelo escultor Anatole Calmels, em 1866, mecanismo produzido pelo relojoeiro Reusot, em 1868, e comercializado por Jules Maury. Esta peça encontra-se no entablamento da antiga Sala da Câmara dos Dignos Pares do Reino (designada por Sala do Senado), e está posicionado de frente para a Mesa da Presidência.» in: "Parlamento.pt"

A relojoaria "J. Maury", já sob a designação de "Torres Joalheiros", viria a encerrar definitivamente em 2013.


2013

A seguir, no edifício e loja lá se instalou mais um ... adivinhem ... hotel!. O "Moon & Sun".


23 de março de 2025

Restaurant Paris

O "Restaurant Paris", abriu, pela primeira vez, as suas portas em finais de 1899 na Rua S. Pedro de Alcântara, em Lisboa, sendo propriedade de José Fernandes. Inicialmente, e até 1902, o restaurant só ocupava o rés-do-chão do edifício, ano em que sofreu grandes obras de remodelação e passou, também, a ocupar o 1º andar , onde foram incluídos cinco gabinetes. Tornava-se assim, num dos mais luxuosos, importantes e conhecidos restaurants de Lisboa.

"Restaurant Paris" dentro do rectângulo a vermelho (rés-do-chão e 1º andar)


24 de Dezembro de 1899


30 de Setembro de 1900


1900

A remodelação do "Restaurant Paris", seria inaugurada em 11 de Janeiro de 1902,  e a propósito na notícia intitulada "O José do Paris", o jornal "A Vanguarda" noticiava:

«Está um encanto o restaurante do José, em S. Pedro de Alcantara: a sala do rez do chão, em estylo século XVI, até meio, almofadada em carvalho; o tecto na mesma madeira com as traves a descoberto; o abobadado da cosinha mostrando os tijolos taes como são; o chão a mosaico; a metade superior das paredes azulejadas, com um tom verde e amarello; as traves que assentam sobre o grande pilar com espelhos emmoldurados egualmente a carvalho, revestidas a azulejo, semelhando mosaico; as cadeiras e todo o restante mobiliario, muito typico e caracteristico; os cinco gabinetes e a vasta sala do primeiro andar no mesmo gosto; um encanto, repetimos, a casa do conhecido José, do Restaurant Paris, que hoje as suas portas ao público.
José Fernandes em festa intima, reuniu hontem os seus melhores amigos: commerciantes, industriaes, professores, officiaes do exercito, empregados superiores do commercio, escriptores e representantes de jornaes. O primeiro levantou-o Eduardo Coelho. Seguiram-se-lhe Moraes Carvalho, Gregorio Fernandes, Albino Sarmento, major João José de Figueiredo, Taborda, Castanheira de Moura, emprezario Gouveia, Carlos Mello, Constantino Fernandes, Xavier Lobato, Carlos Trilho, França Borges, Duarte, Julio de Novaees, o photographo Fernandes, Alfredo Feiner, Baptista e muitos outros de que é impossível tomar nota. 
Um encanto a casa; uma festa deliciosa!»


Uma cozinha de restaurant, no início do século XX


12 de Janeiro de 1902

Publico, de seguida, um excerto de um artigo escrito pelo próprio José Fernandes no jornal "A Folha de Lisboa", de 20 de Fevereiro de 1902 e intitulado "Manifesto ao povo alfacinha, sem exclusão de edades ou sexos»:

«(...) Quereis saber mais? Ministros d'Estado, conselheiros pares do reino, deputados, todos, todos veem aqui, ao Restaurant Paris, ao estabelecimento que eu acabei de reformar, e que desde 1899 tira o ventre de miseria a muita gente boa, e n'estes dias de pó de amido que nos emporcalha, de ché-chés que nos nauseiam, nada mais agradavel do que darmos ao queixo, e por isso vos chamo até mim.
Olhae para o annuncio adiante publico, ponde os olhos n'aquella belleza de hortaliça de vinhos e licores, e se não vieres é porque sois o povo mais sem paladar que o sol cobre, a terra sustenta e a chuva molha.»


20 de Fevereiro de 1902


1 de Outubro de 1903


1903

Pelo que me apercebi, e deduzo, o "Restaurant Paris" terá interrompido a sua actividade entre 1904 e início de 1906. Isto porque foi interrompida a sua contínua publicidade e o seu proprietário mudava. Falecimento de José Fernandes ou simples trespasse? Não consegui saber. Apareceria de novo publicidade ao "Restaurant Paris", em 24 de Dezembro de 1906. Em publicidade de 1907 já aparecia M. Domingues Rodrigues como novo proprietário. 


 24 de Dezembro de 1906


16 de Setembro de 1907


1908

E em 1914, os últimos anúncios publicitários do "Restaurant Paris", que encerraria, definitivamente, neste final de ano de 1914.


1 de Maio de 1914


24 de Dezembro de 1914


31 de Dezembro de 1914


"Alfaiataria Smart"  nas antigas instalações do "Restaurant Paris" em foto de 1956


"Alfaiataria Smart" nas antigas instalações do "Restaurant Paris" em foto de 1963

fotos in: Hemeroteca DigitalBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Bilblioteca Nacional Digital