Restos de Colecção: “His Master’s Voice” e o Grande Bazar do Porto

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2 de janeiro de 2019

“His Master’s Voice” e o Grande Bazar do Porto

O "Grande Bazar do Porto", localizado na Rua de Santa Catarina, 160 no Porto, e propriedade da firma “Grande Bazar do Porto, Lda.” de Luiz Soares, abriu as suas portas na segunda década do do século XX, e foi um dos estabelecimentos mais frequentados pela burguesia da cidade. Instalado num edifício em frente ao "Grande Hotel do Porto", dedicava-se ao comércio de bijouterias, brinquedos, artigos desportivos, perfumes, artigos de viagem, autopianos, gramofones e discos.

Interior da loja “His Master’s Voice” na Rua Augusta, em Lisboa e sucursal do “Grande Bazar do Porto”

No Porto …

Vista actual do edifício onde este instalado o “Grande Bazar do Porto, Lda.”

 

«Um dos mais célebres estabelecimentos do Porto dos começos do século XX era o Grande Bazar do Porto, frequentado sobretudo pela alta burguesia portuense. Fazia parte, por exemplo, do roteiro natalício da família Andresen, como nos deixou escrito o Rúben A. em "O Mundo à minha procura" " Da confeitaria (Oliveira) ao Bazar do Porto era ainda uma viagem de atravessar a cidade, até Santa Catarina, com o Daimler a brilhar a grande altura… No Bazar do Porto, acabava a nossa epopeia. Ali suava-se até fechar, muitas vezes ficámos por lá, com o privilégio de mexer nos objectos expostos, até perto das oito horas. Escolhia-se então o melhor. Era ali que eu me requintava em brinquedos, sobretudo nos automóveis de corrida Bugatti que, com tanto êxito, haviam sido lançados no mercado daquele ano. O dinheiro ia-se todo. As tias reparavam no que eu gostava mais, mandavam reservar, era surpresa, sem me dizerem abertamente a sua escolha. Eu olhava para aquele milagre de brinquedos, apetecia-me comprar a loja para a minha consoada, colocá-la mesmo ao lado da árvore de Natal do Campo Alegre» in:Grande Porto - O Grande Bazar de Santa Catarina” no JN em 3 de Janeiro de 2006.

Em 12 de Março de 1926, a produtora de filmes portuense Invicta Film Limitada (1910-1928) produz um pequeno filme publicitário (mudo), intitulado “Grande Bazar do Porto”, no qual foram utilizadas as seguintes matrizes em papel vegetal dos intertítulos do mesmo.

  

No primeiro semestre de 1927, o “Grande Bazar do Porto”, e depois de se tornar agente geral para o nosso país da marca de gramofones e discos britânica “His Master’s Voice”, abre uma sucursal em Lisboa, na Rua Augusta, 150 a 152, para venda, exclusivamente, dos produtos desta marca. Estas lojas tinham sido ocupadas, até 2 de Novembro de 1908, pela alfaiataria “Ribeiro & Silva” que por sua vez tinha substituído a Casa Africana que ali tivera as suas primeiras instalações desde 1872. A alfaiataria, entretanto passaria a ocupar as lojas com os nos. 154 e 156.O restante edifício era ocupado pelo “Grande Hotel Duas Nações”, inaugurado em 23 de Fevereiro de 1879, e que ainda funciona. Este Hotel é o mais antigo de Lisboa em funcionamento e o segundo do país  - depois do “Lawrence’s Hotel” em Sintra que abriu as suas portas em 1764. A história destes dois hotéis pode ser consultada neste blog, bastando para tal clicar nos títulos anteriores a dourado.

Pintura original de Francis Barraud com o cão “Nipper” (1884-1895) junto a um fonógrafo, dando origem à marca registada “His Master’s Voice” em 1899 e propriedade da “Victor Talking Machine Company”

    

       Etiqueta num disco de 78 r.p.m.                                Agulha de gramofone e rádio “His Master’s Voice”

  

 

5 de Maio de 1927

Esta sucursal do “Grande Bazar do Porto”, comercializava, rádios, discos e gramofones, da marca inglesa “His Master’s Voice”, e da qual era agente exclusivo para Portugal. Em 1930, participaria na “III Exposição de TSF ”, inaugurada em 13 de Dezembro desse ano, na “Sociedade Nacional de Belas Artes”, em Lisboa. A propósito desta participação, o jornal “Diario de Lisbôa” relatava:

«Stand Bazar do Porto apresenta no seu stand 3 novos modelos da Victor Talking C.ª que são 3 maravilhas da sciencia moderna, pela originalidade dos seus circuitos, e construção.
Estes 3 modelos, Micro-Sinchronicos, apresentam um total de 8 valvulas, sendo 4 de grelha blindada.
Duma selectividade maxima aliada ao maximo de sensibilidade, consegue-se com estes novos modelos captar o quadruplo das estações, que até ha pouco se conseguia com qualquer aparelho tipo americano.
Um dos 3 modelos apresentados é um aparelho de combinação, Radio Gramofone que aliando as excelentes qualidades de Radio, é o melhor que se pode conceber como reprodutor electrico de discos, trazendo alem disto um dispositivo especial para a gravação de discos, para o que vêm equipados com um pequeno microfone.
Absolutamente novidade que só a Victor consegue aos preços que expõe.»

Exterior da loja “His Master’s Voice”, sucursal do “Grande Bazar do Porto” na Rua Augusta (duas lojas à direita na foto), em 1933. Pode-se observar o reclame à “His Master’s Voice” colocado a meio do alpendre

                                23 de Agosto de 1927                                                             16 de Dezembro de 1927

 

                                  1 de Julho de 1928                                                                  1 de Setembro de 1928

 

                                           1929                                                                                          1930

 

O “Grande Bazar do Porto”, além de ter estado presente no “I Salão de Outono da Elegância Feminina & Artes Decorativas Voga”, entre 3 e 23 de Novembro de 1928, também estaria presente na “III Exposição de T.S.F.” que decorreu na “Sociedade Nacional de Belas Artes”, em Lisboa entre 13 e 29 de Dezembro e de 1930.

                     Stand no Salão “Voga”, em 1928                                        Stand na “III Exposição de T.S.F.” , em 1930  

 

Esta filial lisboeta do “Grande Bazar do Porto”, viria a encerrar na segunda metade da década de 30 do século XX, já depois de ter perdido, em 1935, a representação exclusiva da sua representada “His Master’s Voice” (tornando-se apenas distribuidora), para a firma “Estabelecimentos Valentim de Carvalho”, com sede na Rua Nova do Almada, em Lisboa.

15 de Dezembro de 1931

                                     15 de Dezembro de 1933                                                                           1941

 

Junho de 1941

Em 1972, é reinaugurado o modernizado "Grande Bazar do Porto", no Porto, sendo já propriedade dos sócios Ricardo de Lemos e Manuel Recarei. Depois deste estabelecimento ter encerrado, a sua firma proprietária “Grande Bazar do Porto, Lda.” seria liquidada e dissolvida, em Dezembro de 2008.

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Municipal de LisboaArquivo Municipal de Lisboa, Cinemateca PortuguesaA Vida em Fotos

2 comentários:

Anónimo disse...

SR. José Leite
Interessante artigo sobre esta marca de discos e o Grande Bazar do Porto.
Permita-me todavia uma pequena correcção:

Quando o Sr. se refere à "pintura de Francis Barraud com o cão "Nipper" junto a um fonógrafo de cilindro Edison Bell", o fonógrafo pintado no quadro mostra já um disco e não um cilindro.

O aparecimento do disco foi um grande passo na qualidade e duração do registo sonoro e daí a atenção do cão... por lhe parecer a voz do próprio dono!

Meus cumprimentos e os melhores votos de um Bom Ano de 2019.

Manuel Alves

José Leite disse...

Caro Sr. Manuel Alves

Grato pelo seu comentário e pela sua correcção.

Um Bom Ano de 2019, também para si.

Os meus cumprimentos

José Leite