9 de dezembro de 2018

Leitão & Irmão - Ourives da Casa Real

Em 6 de Abril de 1877, era inaugurada a joalharia e ourivesaria “Leitão & Irmão”, no, então, Largo do Loreto ou Largo das Duas Egrejas - hoje Largo do Chiado, em Lisboa.

Na sua edição de 7 de Abril de 1877, o jornal “Diario de Noticias”, relatava:
«O Largo das Duas Igrejas vae tornar-se um centro dos mais luxuosos de commercio. Aos esplendores da Casa Havaneza, vasto e hospitaleiro estabelecimento, (…) vem agora disputar primazias a ourivesaria dos Srs Leitão & Irmão, do Porto, ante a qual hontem parava embasbacada e cobiçosa a multidão, deslumbrada pela magnificiencia d’aquelle estabelecimento. O seu aspecto é deslumbrante. (…) um jogo de riquíssimos espelhos reflete e reproduz ao infinito a variada colecção de baixellas e joias qua adornam as vidraças, de dia à luz do sol, de noite à claridade do gaz derramado de dois vistosos candelabros e de muitas serpentinas”.

A casa “Leitão & Irmão” tem origem no ano de 1822, quando José Pinto Leitão (1798-1866) se submeteu, com êxito, ao exame de ourives do ouro, na “Confraria de Santo Elói”, da cidade do Porto, dando continuação ao negócio de seu sogro, José Teixeira da Trindade, a quem D. Pedro, Duque de Bragança, teria prometido o título de ourives da Casa Real como recompensa por um empréstimo concedido à causa liberal.

José Pinto Leitão abria então, na Rua das Flores, a primeira loja-oficina. Esta Rua tinha sido aberta a partir de 1521, no final do reinado de D. Manuel I, típico arruamento dos ourives do ouro, herdeiro das antigas corporações e mestres. Passou a ser uma das principais ruas da cidade, escolhida por nobres e abastados que aí construíram luxuosos palacetes, sendo considerada a zona mais rica da cidade. Albergava imensos ourives e comerciantes de ouro e joias, além de cirurgiões, sapateiros, serralheiros e ferreiros, entre outros ofícios.
José Pinto Leitão registava o punção (marca pessoal de fabrico) “JPL”. Quanto à loja-oficina …
«…O typo do estabelecimento d’aquella época era a loja-officina, em que o oficial trabalhava à vista do freguez, junto do “caixão”, o balcão de venda ao lado. O artigo typico produzido era o “coração”, a arrecada, o cordão, as peças que no norte se levavam à festa, à missa cantada, ao arraial…» trabalhava-se o ouro vindo do Brasil. José Pinto Leitão era já um promissor joalheiro, mas é o casamento com Maria Delfina, filha de José Teixeira da Trindade, distinto comerciante do Norte, que lança a família Leitão nesta aventura.

José Pinto Leitão e sua mulher Maria Delfina

Em 1862 sucederam-lhe os filhos: Narcizo Thomaz Pinto Leitão e Olindo Jose Trindade Pinto Leitão, que constituiram a firma “Leitão & Irmão”.

Em 1872 a “Leitão & Irmão” recebe o título de “Ourives da Casa Imperial do Brasil” das mãos do imperador Pedro II, «sem nunca (ninguém da casa) ter ido ao Brasil», e cinco anos depois muda-se para o Largo do Loreto (actual Largo do Chiado), em Lisboa, o centro cosmopolita do reino. Nesse mesmo ano, sucederam-lhe os filhos: Narcizo Tomás Pinto Leitão e Olindo José Trindade Pinto Leitão, que formam a firma “Leitão & Irmão”. Em 1887, a “Leitão & Irmão“ com estabelecimento de Ourivesaria na rua das Flores da Cidade do Porto, alega que «tendo fornecido a Vossa Majestade diversos objectos do seu estabelecimento pretendem por isso que Vossa Majestade haja por bem de lhe conceder a graça de serem considerados fornecedores da Sua Real Casa, a fim de poderem assim usar em sua factura». Este pedido foi despachado favoravelmente a 21 de Setembro, sendo passado alvará de ourives honorários da Casa Real, a 19 de Outubro do mesmo ano. Por esta altura são nomeados “Joalheiros da Coroa”, reconhecimento dado pelo rei D. Luís ,I como forma de agradecer a produção da peça que Portugal deu ao Vaticano por ocasião do jubileu do papa Leão XIII. «O cálice do jubileu, com uma patena, está exposto no Tesouro do Vaticano, dizendo que é um presente do rei D. Luís. Seremos das raras empresas do mundo com obra exposta no Museu do Vaticano desde 1877.» E há peças da “Leitão & Irmão” espalhadas por vários museus, incluindo a águia em ouro oferecida em 1976 pelo Estado português ao então presidente dos EUA Jimmy Carter no âmbito das comemorações do Bicentenário dos EUA.

Projecto da fachada da loja “Leitão & Irmão” na Praça de D. Pedro (actual Praça da Liberdade) no Porto, em 1877

No jornal “O Illustrado da Tarde” de 28 de Agosto de 1880             No jornal “Pontos nos ii” de 29 de Janeiro de 1891

         

1908

                                                    

Pavilhão de Portugal e Anexo das “Bellas Artes”na “Exposição Nacional do Rio de Janeiro”, em 1908

 

              

Na vasta lista de obras produzidas pelas oficinas encontramos peças memoráveis que marcaram a prataria e a joalharia nacionais, como a famosa “Baixella Barahona”, encomendada pelo Dr. Francisco Eduardo de Barahona Fragoso, advogado e benemérito de Évora, e assinada em 1900 por Columbano Bordalo Pinheiro.

Conjunto de “Baixella Barahona” e as duas “Serpentinas”

1902 Baixela Barahona 1902 Baixela Barahona.1

Notícia no jornal “A Paródia” em 9 de Maio de 1900

1900 A Paródia (09-05)

No livro "Notas d'Arte” de António de Lemos e editado em 1906, a propósito deste conjunto baixela e duas serpentinas (actualmente designados por candelabros) podia-se ler:
«A casa Leitão & Irmão, innegavelmente os primeiros joalheiros e ourives portuguezes, levaram a cabo a execução da obra mais monumental e mais artistica no seu genero, que se tem feito em Portugal ha cem annos para cá. E estou bem certo que será preciso passar um incalculavel numero de annos para que se faça uma outra assim.»

“Leitão & Irmão” no Largo do Chiado em Lisboa

 

Suas oficinas na Rua das Gáveas

Ainda a destacar: o cálice oferecido por D. Luís ao Papa Leão XIII e com que este celebrou a missa do seu jubileu, em 1888, que hoje pertence ao Vaticano; o faqueiro Belle Époque desenhado em parceria com René Lalique, que ainda hoje se produz; ou a coroa de Nossa Senhora de Fátima feita em ouro e pedras preciosas, onde durante meses 12 artesãos moldaram a joia que seria oferecida ao Santuário de Fátima em agradecimento pelo facto de Portugal ter sido poupado à II Guerra Mundial. Nesta obra, considerada o maior ex-líbris da “Leitão & Irmão”, aloja-se a bala que atingiu João Paulo II a 13 de Maio de 1981 e que foi oferecida a Fátima pelo Papa. Por último, relembre-se que a centenária casa joalheira foi também pioneira em matéria de direitos dos trabalhadores, tendo criado, em 1903, uma caixa de previdência para a salvaguarda de toda e qualquer despesa de saúde dos seus trabalhadores.

1973

Em 1979 a firma de instrumentos musicais, “Custódio Cardoso & Cª., Lda.” instala-se na loja centenária da “Leitão & Irmão”, no Largo do Chiado, mantendo o interior e exterior da mesma.. Esta por sua vez, restrutura-se a partir da sua origem industrial e manterá as oficinas no Bairro Alto, até hoje. Nesta loja viria instalar-se a “Vista Alegre”, que já ocupava outra ao lado, desde os anos 40 do século XX. Como o inquilino anterior, esta firma aproveitou o mobiliário deixado, pela anterior (que por sua vez tinha aproveitado o legado da “Joalharia Leitão & Irmão”).

Aqui ficam umas fotos para se ter uma ideia do rico mobiliário e madeiras que decorava a “Custódio Cardoso Pereira & Companhia, S.A.”, herdado da sua antecessora.

 

Em 2005, a “Leitão & Irmão”, sob a gerência do seu sócio Jorge Van Zeller Leitão, inaugura a sua nova loja, e de novo no Largo do Chiado.

Loja no Largo do Chiado e o sócio-gerente Jorge Leitão

 

 

Loja do Bairro Alto na Travessa da Espera

 

                                    Loja no “Hotel Ritz”                                                 Loja nas Arcadas do Parque do Estoril

 

Publicidade institucional e na revista “The Portugal News” em 8 de Maio de 2010

 

Aspectos das suas oficinas no Bairro Alto

 

 

fotos in: Hemeroteca Municipal de LisboaArquivo Municipal de Lisboa, Lojas com História, Leitão & Irmão

5 de dezembro de 2018

Cinema “Promotora”

O Cinema “Promotora”, localizado no Largo do Calvário, em Lisboa, e propriedade da “Sociedade Promotora de Educação Popular”, terá aberto as suas portas pela primeira vez, em 1912, ainda como “Salão da Promotora” ou “Animatographo Promotora”.

A “Sociedade Promotora de Educação Popular”, tinha sido fundada em 30 de Setembro de 1904, no nº 125 da Rua d’Alcântara, por um grupo de entusiastas republicanos da instrução e educação do povo, transferindo-se pouco depois para a Rua de Alcântara, nº 6. Tinha como objectivo, promover a assistência e a formação de crianças e adultos, tendo criado, para o efeito, cursos diurnos e nocturnos, para, assim … «assistir ao nosso operariado dissipando as trevas do analfabetismo, lançando sem telhas de luz no espírito da classe trabalhadora».

Iniciou a sua actividade em 1905, funcionando com uma escola nocturna para o sexo masculino, adoptando o “Método João de Deus”. No ano lectivo 1907/1908 o ensino seria alargado ao sexo feminino, passando a ser diurno, constando nos seus programas aulas primárias elementares Língua Portuguesa, Francês, Aritmética, Desenho, Escrituração e Contabilidade, História e Geografia de Portugal e Música. No ano lectivo 1912/13 iniciam-se as lições de Inglês, Ginástica os cursos nocturnos para senhoras (proibidos em 1926 e reabertos 1953) e as sessões de Biblioteca com programa de Leitura conduzida.

Primeiro número do jornal “A Educação Popular”

Festa anual presidida por Machado Santos em 30 de Setembro de 1911

Quanto ao edifício onde se instalou, em definitvo, a “Sociedade Promotora de Educação Popular” e o seu Animatographo, pode-se ler no site da “Videoteca Municipal de Lisboa”:

«A Videoteca Municipal de Lisboa está instalada no que resta do Palácio Real de Alcântara (as cocheiras), actualmente conhecido por edifício da Promotora (a velha e benemérita Sociedade Promotora de Educação Popular, fundada em 1904, neste local desde 1911). Originariamente construído na segunda metade do século XVI, o imóvel teve como primeiro proprietário João Baptista Rovelásco, gentil-homem milanês, a quem, D. Felipe II de Espanha o viria a confiscar em 1580.
O antigo solar, mais tarde Palácio Real de Alcântara ou simplesmente Palácio do Calvário, serviu, até 1662, para veraneio de D. João IV e família. Aí residiram também D. Pedro II (que nesse local veio a falecer em 1706), seu irmão D. Afonso VI e o infante D. António (4º filho de D. Pedro II) que nele habitava quando o terramoto de 1755 quase o destruía por completo. Passados dez anos, o Palácio Real de Alcântara já estava de novo de pé; perdera a sua grandiosidade mas, ainda assim, continuava a ser uma agradável residência para condes e outros aristocratas que aí viveram até 1878, altura em que foi adquirido à Casa de Bragança pelo industrial Eduardo Conceição e Silva que, por sua vez, o viria a deixar por herança a Augusto Serra e Costa.
Para além dos ilustres residentes que se sucederam ao longo dos séculos, o edifício teve também uma utilização cultural. Em 1903 instalou-se aí o Clube de Lisboa (também conhecido por Clube do Calvário), depois passou a Centro Marques Leitão, vindo, finalmente, a acolher em 1911 a Sociedade Promotora de Educação Popular. (…) Em 1912, para fazer face aos encargos, a Promotora instalou no primeiro andar do edifício um cinema. »

                               1 de Abril de 1915                                                                       23 de Janeiro de 1916

         

Apesar de historicamente ser apontado o ano de 1912, para a instalação do Animatographo “Promotora”, só em 1915 é que aparecem as primeiras referências a esta sala nas publicações periódicas da época. Caso do jornal “A Capital” que, em 31 de Março de 1915 escrevia:
«O Animatographo da Promotora, no Calvario, 6, é um salão recommendavel não só pela escolha dos seus programmas, que são compostos sempre com os melhores 'films' que veem a Portugal, como pelo socego e segurança, predicados estes de bastante valia para os espectadores.
A Promotora organisa a sessão da moda, amanhã, quinta feira, 1 de Abril, com o seguinte programa: Eclair journal 43, assumptos da guerra, Escravo do seu passado, Bidoni fuma, Honradez que mata, O cão de Seraphim.»

Em 1930, a “Sociedade Promotora de Educação Popular”, então presidida por Manuel Nunes Salvador, promoveu a construção de um novo cinema no próprio edifício-sede e no sector correspondente à parte posterior do mesmo, com entrada para o Largo do Calvário. Viria a ser inaugurado em 5 de Junho de 1931, possuindo uma sala ampla com uma plateia, 1º e 2º Balcão, tendo como lotação 480 lugares. A sua gerência foi entregue a Jaime da Cunha Rosa, que já geria os cinemas "Olympia", "Salão Portugal", "Salão Lisboa" e "Paris Cinema". De referir que o cinema Palatino tinha sido inaugurado na véspera na Rua Filinto Elísio e com a gerência também a cargo do mesmo.

5 de Junho de 1931

 

6 de Dezembro de 1934

1953

Neste ano de 1931, a 20 de Outubro, é atribuído à “Sociedade Promotora de Educação Popular” o alvará de licença de ensino, passando a funcionar, na sua actual morada, como uma escola de Primeiro Ciclo do Ensino Básico, prevendo a lotação máxima de 200 alunos e possuindo paralelismo pedagógico. 

Poucos anos depois, este Cinema viria a ser equipado com aparelhagem sonora da empresa americana “Western Electric Company”, e representada em Portugal pela “Caster Iberica” tornando-se assim num dos primeiros cinemas de bairro a oferecer ao público o filme sonoro.

18 de Novembro de 1940

  Bilhetes gentilmente cedidos por Carlos Caria

Ao longo das décadas a sala foi sofrendo algumas alterações, acabando por encerrar em definitivo em meados dos anos 80 do século XX.

Cinema Promotora ( 1912)

Entretanto, a “Sociedade Promotora de Educação Popular”, continua a desenvolver a  actividade educativa funcionando no primeiro andar um externato. No rés-do-chão, está instalada, desde 1992, a “Videoteca Municipal de Lisboa”, um pequeno auditório, uma ludoteca e uma biblioteca, especializadas em meios audiovisuais.

fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital