24 de junho de 2018

J. C. Alvarez - Fotografia e Cinema

A loja especializada em artigos para fotografia e cinema “J. C. Alvarez, Lda.” foi fundada na Rua Augusta esquina com a Rua da Assunção, pelos fotógrafos J.C. Alvarez, Amadeu Ferrari e José Rego. Amadeu Ferrari possuía, igualmente, um laboratório fotográfico junto ao elevador de Santa Justa, para o qual J.C. Alvarez também trabalhava.

Fotografias em 9 de Agosto de 1938

 

Esta casa foi das mais famosas, no seu ramo, da cidade de Lisboa tendo estado no início de brilhantes carreiras profissionais de fotógrafos famosos, como Artur Pastor (1922-1999) e Eduardo Gageiro (1935 - ).

Quanto a Artur Pastor:
« A Casa J. C. Alvarez, Lda. proporcionou-lhe,  em outubro de 1949, uma exposição de  fotografias de aspetos da praia de Sesimbra,  nas suas montras na rua Augusta, em  Lisboa, a qual teve a visita do presidente  da Câmara Municipal de Sesimbra que  lhe enviou uma carta, em 25 de outubro, felicitando-o pela qualidade da exposição.  Embora noutra dimensão, também esta  exposição se revelara um êxito, conforme J. C. Alvarez diz na carta que lhe enviou em 26 de outubro, na qual reiterava a informação  do sucesso da exposição nas montras da sua loja, dizendo que foram “forçados a ceder 5  das suas fotografias a um senhor americano  que esteve de passagem por Lisboa somente  durante algumas horas, (…)”.
A Casa J.C. Alvarez tinha consciência  do valor do trabalho de Artur Pastor e do  que beneficiaria ao permitir a sua mostra nas respetivas montras por isso, em agosto  de 1950, voltaram a ser exibidas grandes  ampliações de fotografias de Artur Pastor  com motivos da vila e praia de Albufeira. » in:
“A vida do «franco-atirador»: Artur Pastor, seis décadas de fotografia
Contributo para uma biografia”,
de Ana Saraiva.

No “Concurso de Montras” promovido pelo “S.P.N.”, em Dezembro de 1942

 

1941

                               1942                                                                                        1946

       

                                          1947                                                                                          1947

 

Quanto a Eduardo Gageiro, numa entrevista ao jornal “Expresso”, em 29 de Julho de 2017, recordava:
«Primeiro fui ver os preços ao J.C. Alvarez, que era o sítio onde costumava comprar os rolos fotográficos. Mostraram-me duas: Uma Rolleyflex e uma Rolleycord. O senhor Amadeu Ferrari, um dos donos, disse-me que a Rolleycord era metade do preço da outra. A diferença é que uma tinha uma objetiva um bocadinho melhor e célula fotoelétrica. Mas ele disse-me que não precisava daquilo. E desenhou-me uma escala em papel com a fórmula das velocidades e das aberturas de acordo com a luz e o rolo. E assim pude prescindir da célula fotoelétrica. E ainda me disse: “Levas a máquina e pergunta ao teu pai como é que quer pagar isto.” E eu espantado: “Mas eu posso levar já a máquina?” Ainda agora me comovo com a atitude dele. Tinha 15 anos na altura e eles já tinham confiança em mim e deram-me a máquina antes de a ter pago.»

“J. C. Alvarez, Lda.” nos finais dos anos 60 do século XX

 

Esta loja encerraria definitivamente em Fevereiro de 2009 e a firma proprietária “J. C. Alvarez, Lda.” dissolvida e liquidada em Janeiro 2014.

fotos in: Delcampe.net, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Municipal de LisboaArquivo Nacional da Torre do Tombo

21 de junho de 2018

Pousada de S. Gonçalo no Marão

A “Pousada de S. Gonçalo”, na Serra do Marão e a cerca de 20 kms de Amarante e projectada pelo arquitecto portuense Rogério de Azevedo (1898-1983), foi a segunda de uma série de “Pousadas de Turismo” a ser inaugurada, em 29 de Agosto de 1942.

Relembro o que escrevi no artigo intituladoPrimeiras Pousadas de Portugal publicado em 9 de Janeiro de 2012:

«Na sequência da Nota Oficiosa de Março de 1938, em que o Presidente do Conselho Dr. Oliveira Salazar, incluía no elenco de obras a realizar a tempo das celebrações centenárias de 1940, o estabelecimento de certo número de pousadas em recantos provincianos, o “Ministério das Obras Públicas e Comunicações” (MOPC) encarregava os arquitectos Rogério de Azevedo e Miguel Jacobetty Rosa do estudo desta nova tipologia, ficando desde logo estabelecida a distribuição geográfica dos equipamentos. Rogério de Azevedo ficaria encarregue das propostas para a Serra do Marão e Santo António do Serém, ficando Jacobetty Rosa encarregue dos estudos de Elvas e São Brás de Alportel. Entre estudo, projecto e construção, nenhuma destas pousadas seria concluída a tempo das celebrações.

Estas pousadas, inseriram-se no projecto de criação de uma rede nacional de pousadas regionais, com o fim de dinamizar a oferta turística nacional. Tratava-se de «criar em cada pousada, com a sua originalidade e as características próprias de cada região, uma atmosfera caseira e sem luxos, um ambiente calmo, familiar e português». Esta iniciativa sob a direcção de António Ferro, do “Secretariado da Propaganda Nacional” (SPN), criado em 25 de Setembro de 1933, que a partir de 1945 mudou de designação para Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), incluiu também a criação da revista "Panorama", em 1941, na qual se iam promovendo a edição de vários roteiros e guias turísticos em diversas línguas.

As pousadas depois de construídas pelo “Ministério das Obras Públicas e Comunicações” (MOPC) eram entregues ao “Secretariado da Propaganda Nacional” (SPN), que seria substituído a partir de 1945 pelo SNI».

A primeira a ser construída foi a Pousada de Santa Luzia”, em Elvas localidade conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques em 1166. Inaugurada em 19 de Abril de 1942, é o que agora se chama uma pousada regional. O projecto desta pousada foi da responsabilidade do arquitecto Miguel Jacobetty Rosa.

A “Pousada de S. Gonçalo” , inicialmente com 5 quartos, decorada por José Luis Brandão de Carvalho, e móveis fornecidos pala casa “Souza Braga, Filho & C.ª”, foi construída junto à apelidada «curva da morte» em pedra de xisto integrando-se perfeitamente no seu ambiente natural a 880 metros de altitude. O seu primeiro concessionário foi Alcino Reis.

 

         

 

A propósito da inauguração da “Pousada de S. Gonçalo” a revista “Panorama” escrevia:

«A pousada de S. Gonçalo, para se enquadrar bem na grandeza e majestade do Marão, requeria exteriormente aquelas linhas duras, os blocos de granito, a nudez da pedra rija, o ar amuralhado das suas paredes para enfrentar o oceano agitado e alteroso de montanhas que se ergue em sua volta, a perder de vista.
A larga varanda que acompanha a curva da estrada domina um profundo vale, e um dos mais grandiosos panoramas do marão, onde a vista se perde maravilhada.
A completar a bela obra do arquitecto portuense Rogério de Azevedo, cuidaram primorosamente os interiores desta pousada o artista decorador José Luiz Brandão de Carvalho e o industrial-artista Manuel de Sosa Braga.
Da competência técnica e profissional e do bom gôsto dêstes artistas resultou um novo modêlo, um novo argumento, valioso e cocludente, de como se pode e deve fazer turismo em Portugal.»

 

“Pousadas do S.P.N.” em Julho de 1943

Preços das “Pousadas do S.N.I.” em 1948

 

 

A “Pousada de S. Gonçalo”, seria ampliada em 1961,e depois de ter pertencido ao “Grupo Pestana Pousadas”, foi adquirida em 2007 por António Ribeiro Pereira que também é o proprietário da empresa “Água do Marão”.

“Pousada de S. Gonçalo”, actualmente

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa

19 de junho de 2018

Restaurante Alvalade

O restaurante “Alvalade”, projectado pelo arquitecto Francisco Keil do Amaral (1910-1975), abriu as suas portas no primeiro trimestre de 1948, junto ao novo “Lago do Campo Grande”, em Lisboa, também por ele projectado.

Em 1944, o Ministro das Obras Públicas engenheiro Duarte Pacheco manda remodelar profundamente o “Lago do Campo Grande” e sua zona envolvente, em estilo modernista. Para tal encomendou o projecto ao arquitecto Francisco Keil do Amaral, e a obra decorreu entre 1944 e 1948. Lembro que este arquitecto já tinha sido o responsável do pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Paris em 1937, e do “Pavilhão de Chá” de Montes Claros, inaugurado em 9 de Julho de 1942, e que mais tarde viria a tornar-se no Restaurante “Montes Claros”.

 

 

A revista “Panorama” nº 35, de 1948, escrevia, a propósito:

«Agora, já dá gosto passear no «Campo Grande», tanto à luz do sol, que o arvoredo amàvelmente encobre, como de noite e ate sem lua. Mas existia nele - recordam-se? - um velho restaurante. Mesmo muito velho. E tambem muito feio, valha a verdade. E até sujo ... Aos domingos, então, era já repulsivo, com uma tropa fandanga que invadia o recinto e se espraiava pelo relvado, a merenda, como nas «hortas». Por isso a Câmara Municipal de Lisboa se resolveu a deitar a baixo o vetusto barracão, encomendando a um bom arquitecto o projecto de construção de um restaurante decente, bonito e agradável. Foi encarregado desse trabalho Francisco Keil do Amaral, que se desembrulhou da missão com a perícia, o talento e o sentido do «lugar-onde» que lhe são peculiares.
Depois, foi à praça a adjudicação, e aprovada a mais conveniente proposta, ficando concessionário o sr. Francisco Silvano, antigo proprietário do Hotel de Itália do Monte Estoril. Consciente da função turística que a empresa também poderia - e deveria - desempenhar, não se poupou a sacrifícios para acrescentar, por sua conta e risco, valiosos melhoramentos na obra camarária, principalmente no que diz respeito às decorações, a cargo da excelente artista Maria Keil. Assim nasceu e vai crescendo no bom conceito do público elegante o «Restaurante Alvalade», na gerência do qual colabora o sr. Giulio Alfieri.»

Escultura de António Duarte à entrada e janela do restaurante sobre o Lago

 

30 de Novembro de 1950

Interior do bar e salão do restaurante decorados por Maria Keil (1914-2012)

 

21 de Dezembro de 1950

31 de Dezembro de 1953

Mais tarde, e depois deste pavilhão restaurante ter sido demolido, foi inaugurado, em Novembro de 1972, um novo edifício de 2 pisos, projetado em 1971 pelo arquitecto Nuno San Payo integrando um painel de cerâmica em relevo de autoria da ceramista Maria Emília Silva Araújo, e que albergaria um restaurante e bar de luxo, além de outras salas, mantendo praticamente a mesma designação: “Alvalade restaurants”.

“Alvalade restaurants”

 

           

Em 1974 e após encerramento deste restaurante, o edifício foi remodelado e transformado no seu interior, para ser o Centro Comercial e cinema “Caleidoscópio” inaugurado em 1 de Novembro de 1974.

Centro Comercial “Caleidoscópio” aquando da sua abertura

Depois de encerrado e devoluto por uns anos, em 2011, o edifício “Caleidoscópio” foi cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, à Universidade de Lisboa para instalação de um Centro Académico.

Em Outubro de 2016, o espaço é inaugurado como uma sala de estudo, um centro de exposições, uma loja e um centro de documentação, à disposição da cidade de Lisboa. Aberto 24h por dia, todos os dias, o “Caleidoscópio”, dispõe duma sala de estudo com 175 lugares, uma área de exposições de 140m2 e um Anfiteatro com capacidade de 72 lugares, rede wi-fi  bem como equipamentos de impressão.

 

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa