19 de julho de 2018

Lambertini - Pianos, Música, Instrumentos

Nomes como Driesel, Francisco Manuel Ferreira, Ziegler, Haupt, Thibeau, Neuparth, Lambertini e Sassetti, faziam já parte da história, quer da produção, quer da comercialização de instrumentos musicais, na primeira metade do século XIX.  A segunda metade do século XIX, assim como o início do século XX, daria continuação a alguns e daria à iniciação no ramo e a implantação de muitos outros, caso da “Custódio Cardoso Pereira & C.ª”, fundada em 1 de janeiro e de 1860 no Porto.

A casa “Lambertini” foi fundada por Luiz Joaquim Lambertini (1790-1864), italiano, fabricante de pianos, pianista e afinador de pianos. Ao chegar a Portugal, em 1836, instalou a sua fábrica de pianos no palacete do Largo de São Roque esquina com a Travessa da Queimada. Além de quatro operários italianos, incorporaram-se nessa fábrica diversos oficiais e aprendizes portugueses. Em 1838 teve uma presença brilhante na exposição da "Sociedade Promotora da Industria Nacional".

Mas o hábil industrial era mau administrador e além disso a indústria estrangeira fazia-lhe uma feroz concorrência, e a fábrica não conseguiu sustentar-se na situação em que estava. Pelo que, em 1840, mudou-se para um estabelecimento mais modesto na Rua Jardim do Regedor, mudando-se, em 1844 para a Rua da Trindade, voltando depois para a Rua do Chiado, para finalmente se instalar no Largo do Passeio (actual Praça dos Restauradores), mas já sem a especialidade de construção de pianos, apenas venda e aluguer.

“Casa Lambertini” por volta de 1906

                                         Abril de 1911                                                                         Março de 1912

 

A “Casa Lambertini”, com a licença nº 454 registada e paga para o ano inteiro em 12 de Janeiro de 1861, localizava-se na rua oriental do Passeio (Público), no nº 2, em Lisboa, como armazém de pianos e instrumentos musicais. No ano seguinte à morte de Luiz Joaquim Lambertini, em 1864, os filhos Evaristo Lambertini e Ermete Lambertini, já gerentes desta casa que tinha prosperado e ganho prestígio a nível nacional e internacional, renomeiam a designação comercial da casa, passando a chamar-se “Lambertini & Irmão” localizada no, então, Largo do Passeio nº 8 a 26, (futura Praça dos Restauradores). A anterior loja tinha estado instalada na Rua do Chiado, 83-85. Recordo que na época, a Rua do Chiado era o troço que ia da confluência da, então Rua das Portas de Santa Catarina (actual Rua Garrett) com a Rua Ivens, até ao “Palácio dos Barcelinhos”, futuro edifício dos “Grandes Armazéns do Chiado”.

  

No limiar do séc. XX a “Casa Lambertini”, na Praça. dos Restauradores, 43 - 49, já era propriedade de um dos netos do bolonhês Luiz Lambertini, Michel’angelo Lambertini (1862-1920), declarando uma renda anual de 400$000 réis, sintomática da prosperidade económica da casa e da sua implantação no mercado, não atingindo, no entanto, os 600$000 réis declarados, no mesmo ano, pela casa “Sassetti & C.ª” fundada na Rua do Carmo, 56 em 1848.

                                                                                         1896                                                                                           

 

Como se pode observar pelas facturas publicadas de seguida, a designação de “Lambertini & Irmão” cessaria em 1894 e em 1895 já funcionava sob a nova “Lambertini”, vulgo “Casa Lambertini”.

                                  1892                                                                1894                                                   1895

  

1899

1907

                                           1903                                                                                          1908

 

Capas de partituras de música editadas pela “Lambertini”

  

                            Pianista Elisa de Souza Pedroso                                                Meninas com viola e piano

 

Michel'angelo Lambertini nasceu na cidade do Porto mas cedo se mudou para Lisboa, onde efectuou estudos musicais no “Conservatório Real de Lisboa”. A sua visão interdisciplinar da música levou-o a exercer funções tão diversas como as de pianista, maestro, compositor, musicógrafo e organólogo, para além de editor e comerciante. Foi o autor da primeira síntese da história da música portuguesa, publicada na "Encyclopédie de la Musique et Dictionaire du Conservatoire". Em 1920, fundou a “Sociedade de Música de Câmara”, a “Grande Orquestra Portuguesa” (1906-1908) e a “Caixa de Socorro a Músicos Pobres”. Promoveu a representação portuguesa na Exposição Musical de Milão em 1881, editou o "Diccionario Biographico de Musicos Portugueses", de Ernesto Vieira (2 vols., Lisboa, 1900) - ainda hoje uma obra fundamental. Foi um dos fundadores, director e redactor da revista "A Arte Musical" cujo primeiro número foi publicado em 15 de Janeiro de 1899.

Michel'angelo Lambertini (1862-1920)

  

“Sociedade de Música de Câmara”

 

Num âmbito cultural mais alargado, há ainda que referir a sua actividade como organizador e animador de eventos musicais e literários. A ele se deve, por exemplo, a primeira actuação em Portugal, em 1901, da Filarmónica de Berlim. Teve igualmente um papel decisivo na reforma do ensino da música em Portugal e era, também, um ávido coleccionador de pintura (possuindo telas de Columbano, Malhoa ou Machado de Castro), porcelanas, bronzes, pratas, e outros objectos, para além dos, já referidos, instrumentos musicais.

Livros editados pela “Lambertini”

 

O seu palacete na Avenida da Liberdade - actual “Wall Street Institute” - junto ao Victoria Hotel”, foi projectado, em 1901, pelo arquitecto veneziano Nicola Bigaglia (1841-1908), e mereceu uma menção honrosa doPrémio Valmor de Arquitectura de 1904. Posteriormente seria objecto de duas alterações importantes, a primeira em 1927 segundo projecto do arquitecto Carlos Chambers Ramos (1897-1969), e a segunda, em 1939, com projecto do arquitecto Raúl Tojal (1900-1969) com a construção de mais um piso. Era um pequeno museu, para além de centro de reuniões artísticas e intelectuais, onde ao longo de um espaço onde se reunia uma selecção criteriosa de objectos, registos e testemunhos de alguma forma associados à sua vida e obra, se desvendavam as múltiplas facetas que compuseram a sua personalidade e intervenção.

Casa de Michel’Angelo Lambertini

Artigo acerca da casa na revista “Illustração Portugueza” em 11 de Junho de 1906

Depois de acrescentado um piso

Michel’angelo Lambertini esteve na génese da criação do “Museu da Música”, quando, em 1911, consegue fazer-se nomear pelo governo para iniciar a recolha de instrumentos musicais, partituras e peças de iconografia musical dispersos em edíficios públicos e religiosos.

O objectivo era a criação de um museu, projecto a que Lambertini se dedica com todo o entusiasmo. Contudo, rapidamente o musicólogo se depara com a falta de vontade da classe governante, o que o leva a re-equacionar o projecto do museu, procurando a ajuda de particulares. Recorre então a António Augusto de Carvalho Monteiro (1848-1920) - “Monteiro dos Milhões” - também coleccionador, para que adquirisse a colecção de Alfredo Keil, em perigo de sair para o estrangeiro. Vende-lhe a sua própria colecção e propõe-lhe avançarem com o projecto em conjunto. Carvalho Monteiro aceita e cede um espaço para acomodação dos espécimes organológicos no seu palacete no Largo Barão de Quintela (antiga residência do Conde de Farrobo), onde se reúnem o conjunto das colecções Lambertini, Alfredo Keil e Carvalho Monteiro. A recolha continuaria até à morte de Carvalho Monteiro em 24 de Outubro de 1920, logo seguida da morte de Lambertini em 21 de Dezembro de 1920, altura em que a colecção perfaz um número superior a 500 espécimes. De fora ficaria a colecção Lamas (leiloada pelos herdeiros, em 1916), da qual algumas peças terão possivelmente sido adquiridas.

Carta de autorização de entrega

Quanto à loja “Lambertini”, esta encerraria em 1922, dois anos após a morte do seu proprietário, Michel’angelo Lambertini. No seu lugar instalar-se-ia a loja “Arameiro”, especializada em artigos em arame, e não só, e no início dos anos 60 do século XX já era o “Restaurante Arameiro”.

Loja “Arameiro” por altura da inauguração da “Estação dos CTT nos Restauradores”, em 10 de Julho de 1939

 

Restaurante “Arameiro” no início dos anos 60 do século XX

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Hemeroteca Municipal de LisboaArquivo Municipal de Lisboa, Do Porto e Não Só, Biblioteca Municipal de Alpiarça

17 de julho de 2018

“Casa da Laura” em Cascais

O restaurante, casa-de-chá e pastelaria, “Casa da Laura - Pastelaria Almeida” localizada nas Avenida da República e Rua Tenente Valadim, em Cascais, terá aberto as suas portas em 1924, segundo o jornal “O Século” de 30 de Setembro de 1934.

                                               1943                                                                                            1945

      

Propriedade de Hermenegildo Cândido de Almeida, a “Casa da Laura” viria a ocupar um chalet que pertencera à família Marcondes, e que terá sido construído durante a primeira década do século XX, mesmo ao lado do chalet de Joaquim da Silva Leitão, também conhecido por “Chalet Leitão” cuja construção tinha sido concluída em 1902 e que ainda existe. Na altura o “Chalet Marcondes” ocupava o último terreno entre a, então, Avenida D. Carlos I e a rua paralela a Norte, de seu nome Rua Tenente Valadim, na qual tinha a entrada principal. Mais tarde, seria o chalet do Conde de Monte Real a fechar a série de chalets na Avenida D. Carlos I, que após a implantação da República viria a chamar-se Avenida da República, voltando décadas mais tarde á sua toponímia original que ainda hoje mantém.

Na elipse desenhada o “Chalet” Marcondes” onde se instalaria o restaurante “Casa da Laura”. A seu lado o “Chalet Leitão”

Publicidade em 1933

                  

                                            1934                                                                                             1935

        

“Casa da Laura” na revista “Século Ilustrado”

A “Casa da Laura” foi um restaurante e casa-de-chá de elevado prestígio durante décadas que, em 1943, a revista “Panorama” sucintamente descrevia juntamente com a sua envolvente paisagística:

«Lá fora, na grande avenida que acompanha os paredões escuros da Cidadela, há sol. Na baía, barcos e gaivotas que trazem nas azas o ar salgado do mar. Em frente, manchas verdes de pinhais e pinceladas vermelhas de telhados, nesgas coloridas de vivendas, espreitando.
Sabe bem parar aqui, nesta avenida debruçada sôbre a baía. Tomemos chá na Casa da Laura, onde nos aguarda um interior cuidado e claro, arranjo ornamental «signé» S.P.N.: - uma chaminé acolhedora a desfiar-nos para o inverno, candeeiros de ferro forjado, flores frágeis e, na parede, uma graciosa pintura de Manuel Lapa.»

“Casa da Laura” na revista “Panorama”, em 1942

 

Não sei que ano encerrou, mas terá sido nos finais dos anos 70 do século XX. No início dos anos 80 do século XX já tinha sido construído um novo edifício no lugar do anterior, e nele se tinha instalado o bar e restaurante de luxo “Baluarte”, que ocuparam o rés-do-chão e loja respectivamente. Depois deste, vários restaurantes já ocuparam as mesmas instalações.

“Casa da Laura” durante o desfile em honra da “Senhora dos Navegantes”, em 1974

fotos in: Arquivo Municipal de Cascais, Rua dos Dias que Voam, Hemeroteca Municipal de Lisboa