Restos de Colecção

22 de fevereiro de 2015

Bombeiros Voluntários Lisbonenses

O corpo de “Bombeiros Voluntários Lisbonenses” foi fundado em 12 de Dezembro de 1910, resultado duma dissidência no corpo de “Bombeiros Voluntários de Lisboa”, tendo como seu primeiro Presidente da Direcção foi Carlos Vasques, e primeiro Presidente da Assembleia Geral, Eduardo Ferreira Pinto Basto.

O primeiro quartel da nova associação foi instalado na Rua das Flores, nº 95, numa casa em que antes, haviam estado os “Bombeiros Voluntários de Lisboa”, fundados em 1868. O corpo activo dos “Bombeiros Voluntários Lisbonenses” era constituído por 39 voluntários que dispunham apenas de um carrinho de mangueiras e uma bomba de caldeira, ambos manuais. Após o falecimento precoce do seu 1º Comandante, Eduardo Augusto Macieira, a Associação teve um novo impulso pela mão de Guilherme Saraiva Maia, que lhe sucedeu no comando.

1º Quartel na Rua das Flores em 1911, e o 1º Comandante Eduardo Augusto Macieira

 

Primeiros bombeiros e corpos dirigentes

2º Quartel na Av. Duque de Loulé, em 1914

3º e último Quartel, na Rua Camilo Castelo Branco em 1925

Na data da sua fundação a “Associação dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses”,  já dispunha do seguinte material: bomba automóvel; 450 metros de mangueira nova, para a mesma; 1 bomba de caldeira; 1 carro de pronto socorro braçal; 1 manga de salvação; 4 escadas de ganchos; 2 lances de escadas de molas; 10 agulhetas; 1.150 metros de mangueira estreita; 1 maca braçal, coberta; 6 macas padiolas.

Os “Bombeiros Voluntários Lisbonenses” foram pioneiros, em Portugal na utilização do meio automóvel no serviço de incêndios. Assim, em 12 de Dezembro de 1910, entrou ao serviço a primeira “bomba automóvel”, um veículo da marca “Ferbeck”.

       1ª Auto-Bomba em Portugal uma “Ferbeck”, de 1910                                               Ambulância

 

Posteriormente este corpo de bombeiros compram em Paris um veículo da marca “Delahaye”, cujo custo na altura foi de 33.375$00 - foi o primeiro carro em Portugal, que continha um depósito de água (400 litros), e era provido de 40 metros de mangueira de borracha rígida  sistema adoptado pela primeira vez no país. Trabalhava com 2 ou 4 agulhetas e tinha o débito normal de 60.000 litros hora, aspirando com haste de 7 metros. O dos “Bombeiros Voluntários Lisbonenses”, encontra-se no “Museu Automóvel do Caramulo” em óptimo estado de conservação.

Veículo “Delahaye”

Vou transcrever, em itálico, passagens do texto publicado no livro: “Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses - 100 Anos”, por ocasião do seu 1º aniversário em 2010.

«O Corpo Activo ficou composto por 24 bombeiros, previamente examinados pelo Comando do Corpo de Bombeiros Municipais, sendo 3 de 1.ª classe, 3 de 2.ª, 11 de 3.ª e 7 maquinistas. O Comando pertencia a John B. Jauncey (então Chefe da Divisão Auxiliar), Eduardo Augusto Macieira (Chefe de Secção) e Horatio Jauncey (Chefe da Secção, adido).
O material era pintado a cinzento, com traços vermelhos e letras doiradas.
Permitimo-nos chamar a atenção do leitor para o facto de, pela primeira vez em Portugal, entrar uma viatura automóvel para o serviço de incêndios. Tratava-se de uma potente bomba, marca "Ferbeck", adquirida por Eduardo Augusto Macieira a José da Fonseca Cruz, representante da marca que havia feito inúmeras tentativas para a vender aos serviços oficiais.
São, por isso e indiscutivelmente, os Bombeiros Voluntários Lisbonenses a quem cabe a honra de ter introduzido em Portugal o sistema automóvel no serviço de incêndios, facto que realçam com justificado orgulho.
E é calcular a sensação que o facto produziu na opinião pública de então, tanto mais que a Corporação oficial se encontrava à míngua de material…

Pouco tempo depois surgia, também por iniciativa desta Associação, a primeira viatura automóvel para serviço de socorro a feridos em Portugal.

Primeira viatura de socorros a feridos em Portugal

 

Dois exemplos de Intervenções dos “Bombeiros Voluntários Lisbonenses”, em incêndios

Incêndio da “Companhia do Gaz” (R. da Boavista), em 1914 e do “Theatro do Gimnasio”, (Rua da Trindade) em 1921

 

Ambulância “Decauville”, de 1915

 

Notícia da aquisição desta ambulância, na revista “Illustração Portugueza” de 22 de Janeiro de 1917

Artigo na revista “Illustração Portugueza” de 24 de Dezembro de 1917

Era uma ambulância que além de um pequeno arsenal cirúrgico e todo o material para pensos e tratamentos de urgência, transportava macas braçais para condução de feridos, uma tenda em lona, enfim um pequeno hospital de sangue, volante, que tantos e tão valiosos serviços prestou numa época em que eram bem escassos os meios de proporcionar socorros urgentes às vítimas de graves desastres.

Para se fazer uma ideia do espírito de sacrifício e da férrea vontade dos componentes do Corpo Activo, basta dizer que não havia camarata para piquetes, pernoitando os Voluntários nas macas existentes e até por vezes no chão. Para lavagem do pessoal, quando este regressava, completamente sujo dos fogos, ou quando, de manhã, necessitava de fazer os rudimentares cuidados higiénicos, utilizava-se uma grande selha de madeira, que servia de lavatório comum…

1927

Num anexo instalado nos baixos de uma propriedade pertencente à Casa Palmela, fez-se uma camarata onde pernoitava um grupo de condutores escolhidos entre os mais destemidos e categorizados "galegos da bomba" que então existiam, também, é claro, deficientemente instalados. Convém acentuar que nessa altura o material era todo de tracção manual ou a gado.

 Moto-Maca de 1926

Com vista ao tratado de Aliança que estava em preparação com a Benemérita Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha, é solicitada ao Comando dos Bombeiros Municipais, em 19 de Dezembro de 1911, autorização para a organização de um quadro de pessoal de ambulância, nas seguintes bases: 4 médicos, 4 farmacêuticos hospitalares, 4 enfermeiros hospitalares e 20 enfermeiros auxiliares.

O material de saúde então existente era: 1 carro ambulância automóvel; 1 maca rodada; 2 macas braçais; 6 macas padiolas.Concedida essa autorização, foi firmado o Tratado de Aliança em 8 de Janeiro de 1912.

               Pronto-Socorro Delahye de 1921                                                     Outro Pronto-Socorro

 

Exercícios ds “Bombeiros Voluntários Lisbonenses” no quartel do RSB na Avenida D. Carlos I

  

No dia 22 de Dezembro de 1946 foram inaugurados os melhoramentos na sua sede e quartel, na Rua Camilo Castelo Branco, com o aumento de 2 andares ao seu edifício original, com a presença do Chefe do Estado General Óscar Carmona.

«No primeiro andar, há um novo salão, a que foi dado o nome do falecido presidente, Carlos Vasques, e que tem um palco para festas e pequenos concertos. No segundo andar, a que foi dado o nome do benemérito Manuel Frasão, encontra-se um salão de jogos e o bar e, finalmente, no terceiro andar que tem o nome do comendador Alvaro Vilena, ficam instalados um amplo ginásio e os balneários.
Todas as novas salas da sede dos Bombeiros Voluntários Lisboneneses, na Rua Camilo Castelo Branco, foram construídas com vista a serem utilizadas, em caso de emergência, como hospital.»

Cerimónia da inauguração dos melhoramentos no quartel da Rua Camilo Castelo Branco

 

Pronto-Socorro de 1957

Viaturas para inauguração em 1960 e a mesma ambulância, em 1961

 


Almoço da Direcção dos BVL no restaurante "Vera Cruz", em 1952. À esquerda na foto: Frederico Pereira Jardim (1893-1970) , Joaquim dos Santos Pimenta (1892-1955) , do lado direito, mesa ao fundo, Dr. Acácio Gouveia (1900-1974)



Estas três ultimas fotos foram gentilmente cedidas pela D. Maria João Dias

Algumas das viaturas adquiridas nos últimos 54 anos

Durante os últimos 50 anos, foram  84 veículos que entraram  ao serviço  do Corpo de Bombeiros, sendo 22 do serviço de incêndios, 43 do serviço de saúde. 16 de apoio e auxiliares e 3 de comando.»

De referir que, a cidade de Lisboa possui neste momento 57 corporações de Bombeiros Voluntários, 1 Corporação Privativa e o Regimento de Sapadores Bombeiros”.

Em Portugal Continental e Ilhas, existem um total de 435 Corporações e Associações de Bombeiros Voluntários, 21 Municipais, 10 Privativas, 1 Batalhão de Sapadores Bombeiros (Porto), 4 Companhias de Sapadores Bombeiros (Braga, Coimbra, Porto e Setúbal) e 1 Regimento de Sapadores Bombeiros (Lisboa).

Imagem actual do Quartel dos “Bombeiros Voluntários Lisbonenses”, na Rua Camilo Castelo Branco

fotos in: Fogo e História,  Sobre os Bombeiros Voluntários Lisbonenses, Arquivo Municipal de LisboaHemeroteca Digital

20 de fevereiro de 2015

Porto de Lisboa (21)

Sede da “AGPL - Administração Geral do Porto de Lisboa”, no Cais do Sodré

Doca da “Ribeira”

Lancha com passageiros, em 1930

Rebocador da “S.G. - Sociedade Geral” , em 1930

Fotos in: Arquivo Municipal de LisboaBiblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

19 de fevereiro de 2015

Cine-Rex e Teatro Laura Alves

O "Cine-Rex" foi inaugurado em 23 de Novembro de 1936, na Rua da Palma, em Lisboa, com uma lotação para 541 espectadores. A exploração deste espaço foi entregue aos empresários Eduardo Rosa, industrial, e Eduardo Ferreira, técnico cinematográfico.

“Cine-Rex” em fotos de 1960 e de 1967

  

Página do “Diario de Lisbôa” de 20 de Novembro de 1936

O “Cine-Rex” veio ocupar o edifício onde, desde 1929, tinha funcionado a “Federação Espírita Portugueza” fundada em 1925, e que após a Constituição de 1933, tinha sido perseguida e obrigada a cessar as suas actividades.  Ficava ao lado do "Real Coliseu de Lisboa", onde mais tarde seria edificada a "Garagem Auto-Lys", junto ao “Chafariz do Desterro”. A propriedade continuou a ser da "Federação Espírita Portugueza" mas a exploração, foi entregue aos dois empresários atrás mencionados.

“Federação Espírita Portugueza” e “Garagem Auto-Lys” em primeiro plano

No piso superior á sala de cinema, existia um grande salão onde se celebravam festas de Carnaval e Réveillons. Mas para mais pormenores decidi publicar uma página do “Diario de Lisbôa” onde poderá ler em pormenor a história e características desta cinema.

   

Entretanto, em 1937, no salão de festas do “Cine-Rex” …

O “Cine-Rex” encerraria em 7 de Janeiro de 1968, dia em que exibiu pela última vez o filme “Piratas em Biquini”

Em 29 de Dezembro de 1968 reabriria como “Teatro Laura Alves”, estreando a peça “O Jovem Mentiroso”, de Keith Waterhouse e Willis Hall, tradução de Botelho da Silva, interpretada por grandes nomes da cena da época: Rui de Carvalho, Brunilde Júdice, Manuela Maria, Guida Maria, Fernanda Figueiredo, Célia de Sousa, e na estreia em palco, Vasco Morgado Júnior, numa encenação de Jacinto Ramos. O antigo “Cine-Rex” tinha sido transformado, em sala de Teatro, pelo empresário Vasco Morgado, marido da actriz Laura Alves, e que em sua homenagem atribuiu o seu nome á nova casa de espectáculos.

                                   Laura Alves (1921-1986)                                         Vasco Morgado (1924-1978)

                      

“Teatro Laura Alves”

   

Programa da peça de inauguração do “Teatro Laura Alves”

    

A propósito da abertura deste novo Teatro , o empresário Vasco Morgado descrevia assim os seu sentimento:

«Para mim, actor que acabei por não ser, empresário em que me tornei por dedicação ao Teatro, este é um momento de alegria ou, se me permitem, de ternura.
Mais um teatro a funcionar em Lisboa. Isto é maravilhoso para quem pertence ao Teatro e até para quem vive do Teatro.
O Teatro Laura Alves, homenagem justa a uma grande actriz, não está pronto e não está porque o dinheiro não chegou. Será acabado, tenho esperança, com a ajuda do público e é de toda a justiça dizer-se que o que está feito se deve ao espírito de sacrifício e competência dos meus colaboradores e à amizade e compreensão de alguns credores.»

       Estreada em 6 de Dezembro de 1969                                    Estreada em 8 de Fevereiro de 1972

 

O “Teatro Laura Alves”, viria a encerrar definitivamente em 8 de Dezembro de 1987, com a última exibição da peça “Socorro … Sou Uma Mulher de Sucesso”, de Carlos Paulo e Io Apolloni.

O que restou do primitivo “Cine-Rex”  transformou-se em Residencial Local “Noite Cristalina” de qualidade e utilização duvidosas. Mais tarde o edifício quase desapareceu no incêndio em 26 de Maio de 2012, restando a fachada.

   

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital, Opsis, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Publisite