Restos de Colecção

17 de março de 2018

Depósito de Carruagens Anastacio Fernandes & C.ª

O "Deposito de Carruagens de Anastacio Fernandes & C.ª", propriedade de Anastacio Fernandes e Guilherme Augusto d'Almeida, abriu as suas portas em 1891, no Palacio do Conde de Burnay (ex-Palacio do Conde de Povolide), na Rua de Santo Antão, em Lisboa.

Portões do "Deposito de Carruagens de Anastacio Fernandes & C.ª " e o “Atheneu Comercial de Lisboa” no piso superior

«Pela gravura que hoje damos, tiram aquelles dos nossos leitores que ainda não tiveram occasião d'apreciar os productos expostos no estabelecimento dos srs. Anastacio Fernandes & C.ª uma idéa da importancia désse mesmo estabelecimento.»

Este palácio onde se instalou este estabelecimento, e quatro anos mais tarde o  “Atheneu Comercial de Lisboa”, foi mandado edificar pelo I Conde de Povolide (8º Senhor de Povolide), Tristão da Cunha Ataíde (1955-1722), que era filho de Luís da Cunha e Ataíde, 7.º Senhor de Povolide, e comendador de S. Cosme de Gundar na Ordem de Cristo, e de sua mulher D. Guiomar de Abranches de Lencastre.  Quanto ao Conde de Povolide publico o seguinte excerto retirado do livro cuja capa se encontra igualmente publicada a seu lado.

1745

 

Tendo resistido ao terramoto de 1755, seria adquirido pelo banqueiro e industrial Henry Burnay, Conde de Burnay, que não chegou a fazer dele sua residência, além de ter acrescentado um piso aos corpos laterais, e acrescentar motivos decorativos na sua fachada, promoveu alterações de monta e a sua restauração completa, entre 1886 e 1887. Henry Burnay tentou adquirir os terrenos onde se instalaria o "Colyseu dos Recreios", com o intuito de ampliar o palácio, o que não conseguiu, pelo que desistiu de habitar nesta Rua e optou pela Junqueira, construindo, aí um sumptuoso palácio. Por essa razão aluga, em 1895, o palácio ao “Atheneu Comercial de Lisboa”, fundado em 10 de Junho de 1880, mantendo-se no piso térreo "Deposito de Carruagens de Anastacio Fernandes & C.ª", que já lá estava desde 1891.

Entrada para o “Atheneu Comercial de Lisboa” e à direita da mesma (na foto) o placard do depósito de carruagens

 

«Não é o espirito do reclamo que nos obriga a traçar estas linhas; é tão sómente o espirito da justiça, por vermos que tudo quanto digamos em favor d'esta casa é bem deficiente ainda para a elevar á altura que merece.
De Anastacio Fernandes é muito o que temos a dizer. Este incansavel industrial que apenas conta hoje 40 annos de edade tem a sua vida juncada de virtudes. Como trabalhador, poucos, tanto como elle, teem comprehendido a sua dificil missão. (...)
Depois, Anastacio Fernandes uniu-se logo de principio a um cavalheiro tambem um extremo trabalhador e emprehendedor, o sr. Guilherme Augusto d'Almeida.(...)
Assim é que o deposito de carruagens de Anastacio Fernandes e C.ª deve o credito de que hoje gosa á sua boa administração, o que tem conseguido augmentar nélle a procura de todos os que desejam ser bem servidos.» in:
jornal “Folha de Lisboa” de 14 de Outubro de 1894.

                                                     1897                                                                                          1900

 

Com um grande número de trabalhadores ao seu serviço, esta casa importava directamente dos principai fabricantes franceses muitos dos melhores produtos como: lanternas, pingalins, arreios, etc. «não querendo isto dizer que não tenha sido o estabelecimento de que tratamos o primeiro a dar impulso á industria nacional do seu genero, que muito lhe deve.»

Nos seus armazéns podiam-se encontrar os melhores coupés, landaus, breacks, victorias, etc. bem como também boas parelhas de animais, escolhidas e bem tratadas, uniformes completos para cocheiros particulares, arreios personalizados, ou seja tudo referente ao seu negócio.

1894

 

1898

1900

«É o deposito de carruagens de Anastacio Fernandes & C.ª que fornece as principaes casas do paiz, Africa e Brazil, sendo importantes as transacções que constantemente ali se fazem, todas ellas contribuindo cada vez mais para a boa reputação do referido estabelecimento.» in: jornal “Folha de Lisboa” de 14 de Outubro de 1894.

Outros concorrentes de Anastacio Fernandes

 

O “Deposito de Carruagens de Anastacio Fernandes & C.ª” terá fechado definitivamente durante a segunda década do século XX. Anastacio Fernandes ainda chegou a constituir a firma “Sociedade Hoteleira, Lda.” com o fim de transformar o palácio num hotel, mas não teve sequência. As suas instalações viriam a ser ocupadas, em 1929, pelo stand da firma  “Alexandre de Mendonça Alves, Lda.”, representante em Portugal da marca de automóveis e camionetas “Chevrolet”. Depois desta firma, seria a vez do famoso Bar Dancing “Arcadia”, inaugurado em 5 de Fevereiro de 1932, seguida do Restaurante-Cervejaria “Solmar”, cujas respectivas histórias podem ser consultadas neste blog, bastando clicar nos nomes anteriores, em dourado.

18 de Novembro de 1919

Inquilino seguinte das instalações: a firma “Alexandre de Mendonça Alves, Lda.”,a partir de 1929

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital

14 de março de 2018

Grand Hotel Continental

O “Grand Hotel Continental”, instalou-se, em 1891, no antigo “Palácio da Regaleira” (nesta altura, propriedade da viscondessa de Benavente), localizado no Largo de S. Domingos, em Lisboa, sendo propriedade de Manuel Gonçalves.

 

Gravura no jornal “Diario Illustrado” em 1891

O seu proprietário, Manuel Gonçalves, já tinha longa carreira e curriculum nesta área pois tinha sido dono do "Hotel de Veneza", no Largo do Corpo Santo e do "Hotel Brazil", na Rua Aurea, donde saiu para fundar o “Grand Hotel Continental”. Iniciou a sua vida como empregado da casa dos condes de Camaride, Penamacor, e Banohuellos, ministro de Espanha (equivalente a embaixador) e gerente dos hotéis Alliança, Victor e Matta. Além de que, em 1875 tinha estado empregado em Paris nos hotéis Vizon e S. Jorge, tendo passado pelo Rio de Janeiro nos hotéis New-York, Aurora, Tijuca e outros.

10 de Março de 1891

                                      13 de Agosto de 1891                                                  1 de Dezembro de 1892

       

11 de Outubro de 1892

Ou seja ... «Em todos, o sr. Manuel Gonçalves mostrou ser, não só um excelente empregado, como um homem trabalhador e honesto, o que representa uma boa garantia para o serviço do hotel de que é proprietário. O Hotel Continental mereceu pois a franca recommendação, e póde muito bem ser considerado como um dos primeiros de Lisboa.» in: jornal “Diario Illustrado”.

Quanto ao “Palácio da Regaleira” viria a albergar o famoso  “Regaleira Club” entre 1917 e 1922, após o que o edifício viria a ser vendido à “Companhia dos Tabacos de Portugal”.

Interior do Palácio da Regaleira já com “Regaleira-Club” a funcionar, em 1922

 

A “Ordem dos Advogados”, criada em 11 de Junho de 1926 e inicialmente instalada na sede da “Associação dos Advogados de Lisboa”, na Rua da Emenda, arrendou, em 1936, à “Companhia dos Tabacos de Portugal”, o 1.º andar do “Palácio da Regaleira”. Três anos mais tarde, a 24 de Maio de 1939, aí seria inaugurada, em cerimónia solene, a nova “Casa dos Advogados Portugueses”, com a presença do Chefe de Estado, General Óscar Carmona.

“Casa dos Advogados Portugueses” da “Ordem dos Advogados” a partir de 1936

 

O “Grand Hotel Continental”, neste edifício, terá encerrado em 1901, já que em 1902 se instalaria no seu lugar o “Liceu Nacional de Lisboa” (depois “Escola Secundária de Camões”, e antigo “Liceu Camões”), fundado nesse mesmo ano em 24 de Maio, tendo-se mudado posteriormente para a Praça D. Pedro IV (Rossio), com a designação de “Hotel Continental” e ocupando dois prédios, exceptuando as lojas, e com entrada pelo nº 93, este esquina com a Rua do Amparo. Em 1913 este Hotel já era propriedade de seu filho Francisco F. Gonçalves.

“Liceu Nacional de Lisboa” instalado no Palácio da Regaleira em foto de 1908

O edifício já desocupado e com “escritos”

Em 28 de Julho de 1901 inaugura as suas novas instalações na Praça D. Pedro IV (Rossio)

“Hotel Continental” ocupando os dois edifícios mais escuros, à esquerda na foto, e já no Rossio

 

 

Entrada para o “Hotel Continental” e respectiva publicidade no edifício de esquina com a Rua do Amparo

 

“Hotel Continental” referenciado nos livros “Spain and Portugal - Handbook for Travelers” de 1908 e 1913

 

Publicidade no “Guia Official dos Caminhos de Ferro de Portugal” de 1913

1914

Quanto ao encerramento definitivo do “Hotel Continental”, cheguei à conclusão depois de analisadas fotos da época que terá ocorrido entre 1915 e 1918. Foto seguinte já sem o “Hotel Continental”

Fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)

13 de março de 2018

Nota aos Leitores

Caros leitores, seguidores e amigos

Desde ontem, o blog "Restos de Colecção" está presente na rede social "Instagram", no seguinte link:

https://www.instagram.com/restosdecoleccao

Este link está disponível, a par da presença no "Facebook", na barra lateral deste blog na caixa intitulada: "Blog nas Redes Sociais".

Na minha opinião, o "Instagram" não é o mais indicado para este caso, já que tem muitas limitações, mas para não deixar de acompanhar o progresso e novas tendências, manterei por lá uma presença regular, a par com este espaço.

Os meus cumprimentos
José Leite

11 de março de 2018

Café “Martinho da Arcada”

O Café Restaurante “Martinho da Arcada”, localizado do Terreiro do Paço, em Lisboa, começou por ser uma loja de bebidas da Arcada do Terreiro do Paço, chamada “Café da Neve” que abriu em 1778. Em 1782 já era o botequim “Arcada do Anselmo”, pelo facto de estar instalado no quarteirão apelidado do "Quarteirão do Anselmo da Cruz Sobral". Em 1784 muda de nome para "Casa de Cafe Italiana", sendo seu proprietário Domingos Mignani.

Em 1795, o mesmo Domingos Magnani, muda de novo o nome deste estabelecimento para "Café do Commercio". Por denúncia efectuada por carta à Polícia em 1809, sabia-se que neste botequim reuniam-se muitos libertinos e muitos jacobinos. Por esta razão, nesta altura, era vulgarmente designado por "Café dos Jacobinos". Noutra denúncia de 1810, o botequim da Arcada era referido na lista de casas clandestinas de jogo de banca e dados.

Localização do “Martinho da Arcada”, no final do século XIX, dentro do quadrado desenhado

Em 1820, passou a chamava-se “Casa da Neve", pertença de Simão Fernandes que recebia a sociedade elegante de Lisboa, que lá se deslocava para deliciar-se com os sorvetes muito apreciados. Em 1823 este estabelecimento passa para as mãos de um tal Anselmo, mudando mais uma vez de dono no ano seguinte.

«Na parte da policia secreta de 14 de novembro de 1823 afirma-se que o botequim da Arcada do Anselmo era um dos silios em que havia mais conversações e mofas á Gazeta «na parle que tratava a respeito da Hespanha.». Em 1824 era dono d'esse cafe um José de Mello. Em 1823 appareceu um annuncio na Gazeta, dizendo que na porta n.° 7 da Arcada se forneciam almoços a tostão, e jantares e ceias para fora. Quer-nos parecer que ainda se tratava d'esta mesma casa. Em 1829 annunciava-se o trespasse da loja de bebidas com bilhar, debaixo da Arcada do Terreiro do Paço, e que se tratava com o arrendatário na mesma loja. Finalmente, em 25 de Maio de 1829 abria, completamente reformado, o botequim da Arcada.»

O já "Café da Arcada" viria, mais tarde, em 1829, a pertencer a Martinho Bartholomeu Rodrigues - o Martinho da Neve - fundador do "Café Martinho", em 1845 no, então, Largo de Camões actual Praça Dom João da Câmara. Martinho promove profundas obras de renovação que o transforma num dos melhores café-restaurante de Lisboa. Mais tarde o “Café da Arcada” viria a mudar definitivamente de nome para Café “Martinho da Arcada”

Os cafés de Lisboa no “Guide to Lisbon and its Environs”, de 1874 e da autoria de Joaquim António de Macedo

“Martinho da Arcada” em 1942

Da esquerda para a direita: desconhecido, Raúl Leal, António Botto, Augusto Ferreira Gomes e Fernando Pessoa, em 1928

«Martinho Rodrigues era o contractador da neve que se consumia na capital era 1810. Tirava-a da serra do Coentral Grande, d’ahi vinha em carros até á Barquinha, e em barcos d'agua-acima até Lisboa. Em 21 de Novembro de 1832 foi mandado que as lojas de bebidas fechassem ás Ave Marias, e as outras lojas às 8 horas da noite, exceptuando as boticas que podiam fechar ás 9 horas, embora o ministro da Justiça dissesse n'ura aviso que os boticários, pela maior, parte, não possuíam bons sentimentos políticos. O Martinho pediu para fechar ás 9 horas.» citações anteriores in: “Lisboa d’Outros Tempos” de Pinto de Carvalho (Tinop).

Porta na Rua da Prata e o “Martinho da Neve” na lista dos Botequins e Cafés de Lisboa no “Novo Guia do Viajante” de 1880

 

Martinho Bartolomeu Rodrigues, homem altamente operoso e bom negociante, arranjou também outra solução com vista a obter gelo em abundância para o fabrico dos seus sorvetes, chegando a manter cinco ou seis poços de gelo, não já na Serra de Montejunto, mas na Serra da Lousã, em Santo António das Neves. Foi ele que deixou em testamento os dois cafés ao escrivão do Tribunal do Comércio, Julião Bartholomeu Rodrigues, que era o dono deles em 1899.

Sob as Arcadas do Terreiro do Paço estiveram instalados vários estabelecimentos A loja da “Gazeta” era na arcada do Ministério do Reino (até onde se prolongava o Senado); o livreiro Nogueira estava na arcada da “Junta do Commercio”, onde se viria a instalar a “Junta do Credito Publico”, mas cujo edifício pertencia ao Senado; a loja das cartas de jogar estava na “Arcada do Anselmo”, porta n.° 0. Junto à Guarda Principal - instituída pelo Marquês de Pombal em 27 de Abril de 1775 na porta da Alfandega, havia uma loja de livros. Antes do terramoto já havia alguns livreiros no Terreiro do Paço. Isto alem dos papelistas que o frequentavam, como frequentavam a porta da Misericórdia.

                                27 de Julho de 1944                                                                  28 de Outubro de 1944                   

      

No princípio do século XX, o dono do “Martinho da Arcada” era já José Isidoro Pereira, que por escritura de 28 de Dezembro de 1925 trespassou a casa à firma “Mourão & Simões, Lda.” Em 1928, o “Martinho da Arcada” passou à posse do sócio dessa firma, Alfredo de Araújo Mourão, e em 1960, por sua morte, tornou-se dona desta casa sua filha, D. Albertina de Sá Mourão.

Durante anos, o “Martinho da Arcada”, foi um sítio de culto para as elites da cidade. Era frequentado por maçons, pelos políticos da Primeira República, e foi a «segunda casa» de escritores como Cesário Verde, Amadeo de Souza Cardoso, Bocage, António Botto, ou Fernando Pessoa. Foi aqui que Fernando Pessoa escreveu parte dos seus poemas e, entre eles, os que constituem o único livro que publicou em vida  “Mensagem”, tendo ainda hoje uma mesa permanentemente reservada, a mesma onde bebeu um café três dias antes de morrer, a 27 de Novembro de 1935.

Poeta Fernando Pessoa

Martinho da Arcada.1.1    

Poeta António Botto

Vista nocturna do “Martinho da Arcada”


Engraxador

Este café foi classificado imóvel de interesse público, pelo IIPC, em 1984, graças aos esforços da professora Carmo Vieira e dos seus alunos da “Escola Secundária do Marquês de Pombal”. Em 1988, foi aberto concurso para a remodelação do Café, sendo atribuída a obra ao arquitecto Hestnes Ferreira. Essa obra, financiada pelo “Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações”, orçou em 42 mil contos. O Café “Martinho da Arcada” reabriria com nova gerência, em 22 de Fevereiro de 1990, com uma luxuosa sala de jantar.

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Actualmente, o “Martinho da Arcada”, é o Café Restaurante mais antigo de Lisboa, ainda em funcionamento, e propriedade da firma “Martinho da Arcada, Lda.” constituída por António de Sousa, António Marcos de Sousa e Maria Adília de Sousa.

Exterior e interiores do “Martinho da Arcada” e a mesa “reservada” de Fernando Pessoa

 

 

 

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Municipal de Lisboa