Restos de Colecção

4 de outubro de 2016

Empresa de Viação Eduardo Jorge

A “Empresa de Viação Eduardo Jorge, Lda.” foi fundada na Amadora,  por Eduardo Jorge, em 1928, sendo constituída oficialmente em 13 de Março de 1939. Mas, Eduardo Jorge já tinha iniciado o seu percurso de empresário nos transportes de passageiros em 1888.

«Na Lisboa dos nossos avós a deslocação por via motorizada era um verdadeiro sonho. Em meados do século XIX começaram a circular os primeiros transportes colectivos de tracção animal.
Por volta de 1835, foram os “omnibus” (em latim, transporte para todos) os primeiros transportes colectivos que começaram a circular dentro da cidade. Eram carros grandes e desajeitados, com janelas de cada lado e porta nas traseiras, com lotação para 15 pessoas sentadas em bancos corridos, puxados por duas parelhas de animais.
Em 17 de Novembro de 1873 foi inaugurada a primeira linha de “Americanos” (comprados a uma firma de Nova Iorque), que ia desde a Estação da Linha Férrea do Norte e Leste (Sta. Apolónia) e o extremo Oeste do aterro da Boa Vista (Santos).
Em 1878, Eduardo Jorge, então com 18 anos, vindo, como tantos, do interior pobre, empregou-se como moço de cavalariça nos “Americanos” ».

Carro do “Eduardo Jorge” na Praça do Comércio

Anúncio da “CARRIS” em 11 de Novembro de 1874 e tabela da “Companhia de Carruagens Omnibus” em 1888

 

Carruagem “Omnibus” junto à Estação de Santa Apolónia

Em 1888, Eduardo Jorge depois de se desfazer de uma pequena taberna, criou a sua pequena empresa de transportes, que fazia a carreira entre o Intendente e Belém, com tarifas económicas. Era o carro do “Chora” que veio a ser o mais famoso dos “Americanos”  - «carruagens de Nova Iorque, puxadas por mulas brasileiras» na feliz descrição de Ramalho (in: Revista Municipal). “Chora” foi a alcunha que lhe puseram os colegas por frequentemente se lamentar (“chorar”) de ao fim de cada dia considerar os seus ganhos serem sempre poucos. Em 1892, foram eliminados os ”omnibus” e iniciou-se a monopolização progressiva da rede dos transportes públicos por parte da “Companhia Carris de Ferro de Lisboa”.

Em 1900, Eduardo Jorge tinha já 24 carros, de sua alcunha “Chora”, em Lisboa. Chegaram a circular em simultâneo os “Americanos”, do “Jacinto”, do “Salazar”, do “Joaquim Simplício”, da ”Eduardo Jorge” e da “Companhia Carris de Ferro de Lisboa”.

Carruagem “Omnibus” na Praça do Comércio

Carros da “Eduardo Jorge” no Largo do Pelourinho e no Largo do Intendente

 

Carro da “Eduardo Jorge” durante a greve dos eléctricos em 1912, na Avenida 24 de Julho

Capa de partitura de música da revista “Lisbia Amada”, estreada em Novembro de 1917 no “Teatro da República”


Gentilmente cedido por Carlos Caria

Carros das companhias “Jacinto” , “Salazar” e “Joaquim Simplicio”

 

Em 1901, apareceriam os eléctricos, os “Amarelos”, da poderosa “Companhia Carris de Ferro de Lisboa”  e todos se lhe juntaram menos a “Eduardo Jorge” e o “Jacinto”, que preferiram continuar sozinhos. Eduardo Jorge colocou nos seus carros um letreiro “Esta Empresa Não Se Vende”.

“Americano” e carro eléctrico da “Companhia de Carris de Ferro de Lisboa”, na Praça D. João da Câmara

A partir de 1905 toda a rede estava electrificada, pelo que os “Americanos” desapareciam de Lisboa, mas o “Chora” resistia. Em 1910, a “Eduardo Jorge” tinha 38 carros e o Governo da República, reconhecendo o seu contributo para o desenvolvimento da cidade, reduziu os impostos à sua empresa. Eduardo Jorge resolveu, então, fazer uma distribuição pelos seus colaboradores, correspondente a 50% do que poupava com essa redução.

Bilhetes dos “Chora” da “Eduardo Jorge”

   
Bilhetes gentilmente cedidos por Carlos Caria

Veio a “ I Grande Guerra Mundial” em 1914, e vieram as dificuldades, contudo, a “Eduardo Jorge” só renunciou aos seus carros em 1917. Vendeu os cavalos e as mulas, pagou ao pessoal e incendiou todos os carros, para não irem parar à “Companhia Carris de Ferro de Lisboa”, sua eterna rival. De todos os concessionários de carreiras urbanas, somente Eduardo Jorge -  o “Chora” - conseguiu, à força de persistência e luta, circular os seus carros de tração animal, durante três décadas, sem nunca ter aumentado os bilhetes, ficando os seus carros tão conhecidos, que ainda hoje são lembrados.

Aos 69 anos de idade, Eduardo Jorge foi viver para a Amadora, onde fundou a “Empresa de Viação Eduardo Jorge, Lda.”, mas somente com camionetas, todas iguais, amarelas, tal e qual como os carros eléctricos da “Companhia Carris de Ferro de Lisboa” aos quais não perdoava a sua derrota. Em 1929, inaugurou a primeira carreira entre as Portas de Benfica e Amadora, que depois se prolongou até Queluz. Em 1937, entrou com as suas carreiras em Lisboa, de onde, contra sua vontade, havia saído.

Dos primeiros autocarros da “Empresa de Viação Eduardo Jorge, Lda.”, um “Fargo” de 1938

 

Vai fixar-se em 1939 na Amadora,  agora como empresa de camionagem.  Com serviço regular de autocarros entre freguesias de Amadora, Queluz, Algés, Queijas, Oeiras, Cacem etc. De relatar uma história curiosa com a camioneta que ia Queluz para Oeiras via Fabrica da Pólvora: quando subia a rampa/calçada para Leceia, os passageiros por vezes tinham de sair da mesma subir a pé para esta galgar a referida calçada esperando posteriormente pelos passageiros, isto ainda pleno anos 50 do século XX.

Paragem na Praça dos Restauradores em Lisboa

 

Autocarro  “Borgward” de 13 lugares e de 1957

1956 Eduardo Jorge

Paragem na Praça dos Restauradores  nos anos 60 do século XX

Emblema de boné

Eduardo Jorge viria a falecer em 1940, mas a sua “Empresa de Viação Eduardo Jorge, Lda.”  permaneceria por muitos e bons anos.

Autocarros da “Eduardo Jorge” estacionadas junto à “Gare Marítima de Alcântara

Excursão e Autocarros da “Eduardo Jorge” estacionadas junto à “Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos

 

1952

Autocarros da Eduardo Jorge subindo a Avenida da Liberdade, em Lisboa e outra na Venda Nova-Amadora

 

Em Agosto de 1967, a “Empresa de Viação Eduardo Jorge,Lda.” adquire a “Companhia Sintra-Atlântico, S.A.R.L.” na operação de aumento de capital social desta. Por esta altura a a frota da Companhia era constituída por 15 autocarros: dois “Vulcan” de 1951, cinco “DAF” de 1952, dois “Maudslay” de 1953, um “Atkinson” de 1955 e três “AEC” de 1956, uma “AEC” de 1961 - tendo este autocarro sido o primeiro equipado com portas automáticas a trabalhar na área dos concelhos de Sintra-Cascais-Oeiras - e uma “Leyland” de 1966. E na mesma altura adquire a “Empresa de Viação Gaspar, Lda.” da Ericeira.

“Maudsley” da “Companhia Sintra-Atlântico”, em Colares  e uma “AEC” da “Empresa de Viação Gaspar, Lda.” em Mafra

 

Igualmente nos anos 60 do século XX é criada a ”TURIJORGE - Agência de Turismo Eduardo Jorge, Lda.”, com loja na Praça de Londres, em Lisboa. A participação financeira da “Rodoviária Nacional, E.P.” no capital social desta agência de viagens, ao abrigo da alínea d) do nº 1 do artigo 7º do Decreto-Lei nº 662/76, seria transferida para a titularidade e gestão directa da “Enatur - Empresa Nacional de Turismo, E.P.”  em 1976.


gentilmente cedido por Carlos Caria

Em 1968 , a “Empresa de Viação Eduardo Jorge,Lda.” associa-se á “UTIC - União de Transportadores para Importação e Comércio”. Lembro que a “UTIC” foi fundada em 1944, em Lisboa, tendo sido formada pelas principais empresas rodoviárias de transporte de passageiros com o objectivo de obter peças a preços competitivos para os seus autocarros, principalmente pneus, atendendo ao período conturbado que o país e o resto do mundo. Após a “II Grande Guerra Mundial”, a “UTIC” passou a importar chassis directamente aos fabricantes, sendo as carroçarias construídas pelos seus membros. A primeira grande série de chassis importados foram “Mack” de origem americana, entre 1947 e 1948, seguindo-se 30 “Guy” Arab III 6LW, em versão de exportação com com volante à direita e que também foi utilizado em grandes quantidades na Holanda e na Bélgica. De modo a responder às necessidades das empresas rodoviária, a “UTIC” optou por passar a construir as suas próprias carroçarias. Para tal inaugurou em Lisboa - Cabo Ruivo uma fábrica. Posteriormente construiu uma outra nos arredores do Porto, em Laborim, que com alguma autonomia, construiu os seus próprios modelos.

 

Desenho do autocarro “AEC UTIC” da foto anterior

 

Desenho do autocarro anterior “AEC UTIC” modelo U2055 de Março de 1972

Autocarro “AEC UTIC”  modelo U2035, na Praça do Império em 1968

Desenho do autocarro “AEC UTIC”  modelo U2035 da foto anterior


Os desenhos digitais publicados foram gentilmente cedidos por Eugénio Santos via  “Memórias de Empresas e Autocarros Antigos

 

A “Empresa de Viação Eduardo Jorge, Lda.” operou com grande sucesso e reconhecimento até 12 de Junho de 1975, altura em que foi nacionalizada, passando a concessão desta região Amadora- Oeiras, Sintra para mãos da recém criada “Rodoviária Nacional, E.P.” que iniciou a sua actividade efectiva a 1 de Junho de 1976, tendo até esta data sido gerida por uma Comissão Instaladora. A Amadora, mesmo após o 25 de Abril de 1974, veio a  manter o topónimo de uma artéria da recém criada na cidade da Amadora a Eduardo Jorge. 

A “Empresa de Viação Eduardo Jorge, Lda.” à data da nacionalização em 5 de Junho de 1975, era assim constituída:

- 94 carreiras
- 250 autocarros, dos quais 10 autocarros de turismo e 5 autocarros de 2 pisos
- 967,9 km concessionados
- 926 Funcionários: 303 motoristas, 73 de escritório, 189 de manutenção e 343 no movimento

Autocarro “ AEC UTIC” da RN ex nº 184 da “Empresa de Viação Eduardo Jorge, Lda.”

Em 15 de Maio de 1995, em final de processo de privatização, a “Empresa de Viação Eduardo Jorge, Lda., Queluz CEP 5” da RN, é adquirida pela “Vimeca Transportes, Lda.” empresa fundada em Carnaxide, em 21 de Setembro de 1931.

Bibliografia:  Blog “Gazeta de Miraflores”

Fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Memórias de Empresas e Autocarros Antigos, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais),  Portugal Memória, Fundação Portimagem

2 de outubro de 2016

Cinema “Mundial”

O Cinema “Mundial” localizado na Rua Martens Ferrão, em Lisboa, e projectado pelo arquitecto Manuel Ramos Chaves, foi inaugurado em 22 de Setembro de 1965. O seu primeiro proprietário foi o empresário David de Araújo através da sua empresa “Mundial Filmes”, que tinha mandado construir o edifício.

 

    11 de Maio de 1964                                                             15 de Outubro de 1965

 

«O cinema Mundial, que se fica devendo á tenacidade do empresário David de Araújo, é uma sala confortável, elegante, de óptimo aspecto. Situado próximo da Avenida Fontes Pereira de Melo, o novo cinema, que ontem, pela primeira vez, recebeu o público, sem dúvida que enriquece a zona no campo do espectáculo.» in “Diario de Lisbôa”

O filme exibido para a sua abertura foi "A Idade Ingrata" com Jean Gabin e Fernandel

Programa e bilhete


bilhete gentilmente cedido por Carlos Caria

O “Mundial”, viria a tornar-se sistema multi-salas com 3 salas. A Sala 1, e a principal, uma no piso da entrada e as outras duas, Sala 2 e Sala 3, no piso -1, piso este onde havia ainda uma outra sala e um bar .

Em 2004,  era propriedade da “Lusomundo Audiovisuais”, que alegando esta razões de segurança e fraca afluência de público às três salas de exibição encerra o “Mundial”.

Em Janeiro de 2005, a sala 1 reabriu com uma peça de teatro, tendo, posteriormente acolhido alguns espetáculos, esporadicamente.

Este espaço vai reabrir no início do próximo ano de 2016, mas como centro cultural e empresarial. Até ao final do ano os promotores da iniciativa, liderados pelo actor Paulo Matos, afirmam que a primeira fase das obras estarão deverá estar concluída “no primeiro trimestre de 2016”, altura em que o espaço começará a funcionar.

A primeira fase de obras no edifício da Rua Martens Ferrão, na zona de Picoas, passa pela renovação da fachada. com uma cor diferente, um ar diferente, uma renovação integral. Do tempo em que era cinema ficaram três salas - uma no piso da entrada e duas no -1, piso onde há ainda uma outra sala e um bar. No primeiro piso há uma varanda e uma mezzanine. O edifício tem uma outra cave, no -2, onde funcionou o Club “Black Tie” (anteriormente e durante muitos anos, a Boite “Cave Mundial”).

                                  Bar-Dancing “Cave Mundial”                                        Club “Black Tie”

         

Segundo um artigo publicado no “Diário de Notícias” de 16 de Setembro de 2016, e disponibilizado pelo blog IÉ-IÉ, uma sociedade de «seis ou sete pessoas», na qual se destaca o actor Paulo Matos, comprou o "Mundial" em 2015, para o transformar numa nova sala de teatro lisboeta, o "Espaço Mundial".

Depois de retirado o ecrã de cinema e nas palavras do Paulo Matos «esta sala é a maior e é ainda maior porque tem um segundo palco». Esse mais elevado permite aumentar o número de espectadores na plateia de 260 para 500 lugares. Contará com 2 estúdios em baixo, um foyer, bar e uma varanda onde será instalado um restaurante.

Se as obras correrem como previsto, está pensada a inauguração do "Espaço Mundial" para o dia 5 de Maio de 2017, "Dia Mundial da Língua Portuguesa".

Fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa