Restos de Colecção

17 de maio de 2018

Self-Service e Snack-Bar “Noite e Dia”

O Restaurante Self-Service e Snack-Bar "Noite e Dia", localizado na Avenida Duque de Loulé, em Lisboa, e projectado pela dupla de arquitectos Victor Palla e Bento de Almeida, foi inaugurado Outubro de 1965. Não sendo o primeiro self-service a aparecer em Lisboa,  - o primeiro tinha sido o “Solar de Aviz” na Avenida da Liberdade - foi dos mais importantes da sua época, e incluía um snack-bar na cave.

Arquitecto Victor Palla

 

Artigo publicado na revista "Banquete" de 5 de Novembro de 1965

Anúncio em 26 de Junho de 1967

Passo a transcrever um pequeno excerto dum artigo publicado no jornal "Diario de Lisbôa" de 3 de Novembro de 1969:

«... Um desses «snack-bars» triunfantes, com muita gente a mastigar lá dentro, é o Noite e Dia, na Avenida Duque de Loulé. Trata-se do único estabelecimento do género com «self-service», e, de acordo com as palavras do encarregado, são servidas por dia cerca de 1.200 refeições.
-Servidas ...?
Ele riu-se:
-Tem razão. São os clientes que levam os tabuleiros para as mesas ... Mil e duzentas pessoas, todos os dias, pegam nos tabuleiros. Isto no Self. No Snack propriamente dito temos, por dia, uma clientela de quinhentas pessoas.
Este Noite e Dia ainda foi mais longe ao ataque aos estômagos vazios: tem um serviço especial de refeições ao domicílio. Uma embalagem de plástico - e pronto: o cliente leva para casa com que guarnecer os pratos.

 

- Em relação a qualquer restaurante, faz-se presentemente num «snack» bem apetrechado muito mais dinheiro. Vende-se o dobro, sabe? A vida é outra, exige mais rapidez em tudo. O cliente já não tem paciência para estar meia-hora à espera que o sirvam. Chega - e quer comer. Quer ficar ainda com tempo para dar uma volta pela cidade.
(...) efectivamente, os preços, de uma maneira geral, são muito acessíveis: 25$00 é o preço médio de uma óptima refeição. Claro que há muita gente ainda, de temperamento comilão, que se não satisfaz com o «snack». Exige a «pratalhada», com muito vinho e um magnífico arroto no final. Essa gente, porém, pertence a uma outra geração, uma geração de digestão difícil, engravatada, que não raro ata um guardanapo no pescoço por causa das nódoas e dos perdigotos.
Em suma: uma outra geração, a nova, justifica a existência e a inauguração constante de «snack-bars». O «snack-bar» está dentro do futuro.»

30 de Novembro de 1977

No início dos anos 80, o “Noite e Dia” encerraria em definitivo, e nas suas instalações seria criado o night-club “Confidencial”, depois ”Casa de Simone”, que ao longo dos anos mudaria de designação, mas sempre na mesma área de negócio - actualmente “Gallery”. Na mesma altura, era criado pelo fundador da revista “Gaiola Aberta”, o designer José Vilhena, e no prédio contíguo a Norte, o night-club “Night and Day”.

Foto actual do exterior do antigo “Noite e Dia”, a partir do “Google Maps”

fotos: Arquivo Municipal de Lisboa, Ilustração Portuguesa

14 de maio de 2018

e-Book “Teatros de Lisboa (1591-1976)”

Informo os estimados leitores, seguidores e amigos que, a partir de hoje, já está disponível gratuitamente, o segundo e-Book, editado por José Leite e publicado pelo "Restos de Colecção", intitulado "Teatros de Lisboa (1591-1976)", com 186 páginas contendo 314 fotos e documentos.

 

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Vídeo de apresentação (clicar no botão reproduzir)



Aproveito para, informar das alterações efectuadas na barra de menús deste blog. Assim, o ítem “Artigos Actualizados” passou para o ítem “Índices e Actualizações”, e foi criado o ítem “e-Books Restos de Colecção”, onde pode aceder às páginas de cada e-Book já lançado, com os respectivos links para consulta e download dos mesmos. Também pode obter informação acerca de lançamentos futuros.

10 de maio de 2018

Hotel Costa em Sintra

O “Grand Hotel Costa”, localizado no Largo da Rainha D. Amelia, na Vila de Sintra, e propriedade de José Pedro Costa terá aberto entre 1890 e 1907, já que até 1890 não encontrei nenhuma referência ao mesmo, tendo encontrado só em 1907.

“Grand Hotel Costa” em foto de 1921

Em 1890 existiam na Vila de Sintra os seguintes hotéis: Hotel Victor”, “Hotel de l'Europe”, “Hotel Durand”, “Hotel Braz”, “Hotel Nunes”, “Hotel Netto”, “Hotel Garcia”, “Hotel Sant’Anna”, "Lawrence's Hotel" e o "Hotel François", em S.Pedro de Sintra.

“A Handbook for Travellers in Portugal (John Murray) 1864        “A Handbook for Travellers in Portugal (A C Smith) 1875

  1864 A Handbook for Travellers in Portugal (John Murray)       1875 A Handbook for Travellers in Portugal (A C Smith)

Almoço dos sargentos da Escola Pratica de Infantaria de Mafra, no “Grand Hotel Costa” em 21 de Julho de 1913

1907

No livro “Lisbon and Cintra : with some account of other cities and historical sites in Portugal”, de Inchbold, A. Cunneck, de 1907, pode-se ler (depois de traduzido para português) :

«O imponente Hotel Costa sombreado por árvores altas, de frente para a antiga praça do mercado no centro da Vila, servia de residência privada a uma Dama portuguesa de gostos literários, que utilizava o salão, frequentado pela sociedade exclusiva das quintas históricas e dos escritores eleitos.
Nas noites de Inverno, ao observar as chamas duma lareira no salão elevado do mesmo hotel, muitas vezes me questionei se esses velhos intelectuais não pretenderiam, talvez, serem um leve reflexo daquelas afamadas noites alegres da era Manuelina que tinham lugar no Palácio.
Aquelas noites reconhecidas pelas suas exibições geniais de inteligência cintilante e alegria, onde Gil Vicente, o iniciador  do teatro português, ensaiou os seus dramas, e sua filha Paula tocava música doce, Bernardim Ribeiro recitava suas letras de amor às damas da assistência, um emulando o outro, improvisando o diálogo em verso; aquelas noites às quais Sá de Miranda - o pai de poesia portuguesa - se referia quando se retirou da sua vida em Lisboa e Cintra para a sua frondosa quinta no Minho.»

Publicidade em 1913, ao “Hotel Cintrense” visível nestes dois postais

Depois de ter sido fundado por José Pedro Costa, a propriedade do “Hotel Costa” passou para uma senhora ingleza, cujo nome não consegui saber. Em 1921, é adquirido pela empresa “Barreiros, Lda.”, que promove obras de remodelação e conservação. A revista “Illustração Portugueza” nº 808, de 1921, descrevia assim o “Grand Hotel Costa” renovado:

«A sua entrada, ampla e ridente, serve á esquerda uma sala de visitas, luxuosamente mobilada em Luis XV. Á direita ficam o escritorio e varios quartos de dormir.
No segundo andar estadeia-se a espaçosissima sala de jantar, onde, bem á vontade, cabem cem pessoas. Ladeando-a, fica um terraço, para comer ao ar livre. Ao fundo ha uma casa que serve de copa e de auxilio ao serviço da cosinha, sendo está situada no ré-do-chão. O serviço culinario é transportado por dois elevadores.
No terceiro andar ha muitos quartos, magnificamente mobilados, com excelente cubagem. O ar de Colares e da Praia das Maçãs inunda-os de deliciosa frescura. De todos os pontos do belo edificio o horisonte que se disfruta é sempre um rincão maravilhoso da paisagem sintrense, cujos admiradores em todas as visitas, permanencias e vilegiaturas não esquecem o acolhimento gentilissimo e o serviço superior que sempre - e agora mais do que nunca - lhes são proporcionados no Grand Hotel Costa, desvanecido titulo de orgulho na industria do turismo em Portuga.»

 

                                        1928                                                                                            1933

            

1933

1940

Mais tarde, em 1928, já era anunciada a passagem da sua propriedade e gerência para novos donos, que no ano seguinte reduzem o nome para “Hotel Central”. Mas não ficariam por muitos anos, já que em 5 de Fevereiro de 1932, era anunciada a reabertura do “Hotel Costa”, já remodelado, com nova gerência do Hotel Miramar do Monte’Estoril. Em 1940, mais uma nova gerência é anunciada, e a partir desta não consegui saber mais nada da história do “Hotel Costa”. Apenas que depois de encerrado por muitos anos, viria a ser ocupado pelo novo Posto de Turismo, inaugurado em 13 de Junho de 1982. Lembro que o anterior, denominado “Comissão Municipal de Turismo” tinha sido inaugurado em 12 de Julho de 1962, defronte do Palácio da Vila.

“Comissão Municipal de Turismo” inaugurada em 12 de Julho de 1962

        

Posto de Turismo instalado no edifício do antigo “Hotel Costa” e inaugurado em 13 de Junho de 1982

 

fotos in: Hemeroteca Digital, Delcampe.net

6 de maio de 2018

Antigamente (145)

Stand da “Petromax” (candeeiros a gás) na Feira das Caldas da Rainha, em 1927

“Salão Automóvel do Porto” no Palácio Cristal, em 1933

 

Atrelados turísticos na Nazaré

 

Parque de bungalows da “Orbitur”, na praia da ilha da Armona, em Olhão

fotos in: blog “Porto, de Agostinho Rebelo da Silva aos Nossos Dias”, Delcampe.net, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)

2 de maio de 2018

Teatro Ádóque

A companhia teatral “Ádóque - Cooperativa de Trabalhadores de Teatro”, foi fundada em 1974, tendo-se instalado no “Teatro Desmontável”, - propriedade de “Companhia Rafael d’Oliveira” - situado no Largo Martim Moniz, em Lisboa. A sua abertura ocorreu a 23 de Setembro de 1974, com a revista “Pides na Grelha”.

Na génese da “Companhia Rafael d’Oliveira” esteve a “Trupe Silva Vale” e a passagem da liderança da mesma do actor Silva Vale para Rafael de Oliveira, em 1918. A designação “Companhia Rafael d’Oliveira” surgiu como definitiva apenas em 1933.

Esta sociedade artística, que subsistia através das receitas dos seus espectáculos, assentava numa dinâmica familiar, em que qualquer um dos societários acumulava diversas funções que poderiam ser tanto de cariz artístico, como técnico ou administrativo. O elenco inicial contava apenas com dez artistas, entre eles Rafael de Oliveira e sua mulher Ema de Oliveira. Em 1936 e em nome de uma maior autonomia, surgiu um “Teatro Desmontável” - uma grande estrutura independente, movida, inicialmente, por via ferroviária e, mais tarde, em dez camiões - do qual a Companhia fez uso até Setembro de 1974, quando o arrendou à “Companhia Ádóque”, em Lisboa. A Companhia conheceu o seu período de maior sucesso durante as décadas de 1940 e 1950, chegando a realizar digressões às Ilhas, a Angola e a Paris. Do seu vasto repertório destacam-se peças como “Amor de Perdição” (1921-1973), de Camilo Castelo Branco, “A Rosa do Adro” (1922-1974), de Manuel Maria Rodrigues, e “As Duas Causas” (1933-1972), de Mário Duarte e Alberto Morais.

O “Ádóque Teatro” funcionou, desde Setembro de 1974, no largo Martim Moniz, em Lisboa, como já anteriormente mencionado, estreando em 23 do mesmo mês a revista "Pides na Grelha", até 1982, quando subiu à cena a sua última revista intitulada "Tá Entregue à Bicharada".

 

Entre os fundadores desta cooperativa artística contam-se o actor, autor e encenador Francisco Nicholson, o cenógrafo Mário Alberto e o coreógrafo Fernando Lima.

«O principal objetivo do Ádóque era um trabalho inovador na revista e nos espetáculos para crianças, funcionando em regime de autogestão, o que, na área do teatro musicado, foi a primeira vez que aconteceu em Portugal.
(…) «Um punhado de pessoas que estavam dispostas a serem cocriadores de algo que fosse um marco inovador no conceito de criar e interpretar o teatro de revista, numa perspetiva sociológica sem precedentes".,
escreveu Luciano Reis no seu livro “Teatro Ádóque (1974-1982). História dum sonho teatral” 

A este grupo estiveram ligados actores como Francisco Nicholson, Ermelinda Duarte, Henrique Viana, Bombom, Delfina Cruz, António Feio, Camacho Costa, Maria Tavares, Rui Mendes, Virgílio Castelo, Natália de Sousa, Maria Vieira, Teresa Madruga, etc., e argumentistas como Francisco Nicholson, Gonçalves Preto, Henrique Viana, Ary dos Santos, Ferro Rodrigues e César de Oliveira além dos músicos Fernando Tordo, José Jorge Letria, Ermelinda Duarte e Paulo de Carvalho.

 

Francisco Nicholson (1939-2016), falecido em 12 de Abril de 2016, foi o autor do prefácio do livro, atrás mencionado, de Luciano Reis, no qual, referindo-se ao que norteou os fundadores, escreveu: «Acreditávamos em novos caminhos para o teatro de revista, liberto de todas as formas de censura - política, ideológica, económica, preconceituosa, religiosa, conservadora, eu sei lá tantas, tão ardilosas e subtis se apresentavam». O actor e encenador afirma ainda, no mesmo prefácio que todos estavam munidos de «uma fé inquebrantável» e acrescenta: «Éramos irreverentes, descarados, impertinentes, malcriados, mas sempre fraternos, generosos, despojados. Ah! Sempre com a preocupação de sermos politicamente muito incorretos...».

 

 

O “Teatro Ádóque” produziu 21 espetáculos, aos quais assistiram «mais de 1,2 milhões de espetadores», em Lisboa e «em mais de 70 localidades do país», tendo a sua produção de palco dado origem a 15 discos - 12 singles e três álbuns. Terminaria a sua actividade em 1982, tendo estreado a sua última revista "Tá Entregue à Bicharada", a 12 de Março de 1982.


Bilhete gentilmente cedido por Carlos Caria

Quanto ao seu encerramento o jornal "Diario de Lisbôa", em 16 de Setembro de 1985, e a propósito do início da demolição do "Teatro Ádóque", escrevia:
«O fechar do pano naquele espaço, em 1982, teve a sua origem em mais uma das ideias controversas do presidente da edilidade, ao planear erguer naquela zona um gigantesco centro comercial. No entanto, a tarefa prioritária de Krus Abecassis foi a de despejar o Ádóque conduzindo assim o grupo à inactividade.
(...) Quanto ao grupo do Teatro Ádóque, (Francisco Nocholson e Magda Cardoso orientam uma escola de teatro, dança e bailado nas instalações da Junta de Freguesia de Benfica), embora possua um terreno que lhe foi cedido pela CML, em Outubro de 1983, aguarda a resposta das entidades competentes, aos seus pedidos de apoio, de forma a poder dar continuidade ao sonho (…)»

Pouco antes de encerrar, em 1982, com a sua última Revista em cartaz

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, OPSIS