Restos de Colecção

7 de março de 2018

Leiria & Nascimento - Leiloeiros

A empresa de leilões “Leiria & Nascimento, Lda.”, com sede na Rua da Emenda, em Lisboa, foi constituída em 20 de Novembro de 1933, em substituição da “Casa Liquidadora (antigo Bazar Catholico) de Maria Guilhermina de Jesus”, com a entrada do sócio João Filipe Nascimento, gerente bancário na Casa Bancária José Henriques Totta”.

Sala de leilões no “Palácio Quintela-Farrobo”, na Rua do Alecrim

Tudo começou com a fundação da loja “Bazar Catholico”, na Rua de S. Bento, em Lisboa, por José Leiria em 1892.

José Pedro da Cruz Leiria, nascido em Faro a 26 de Agosto de 1850, começou a sua vida profissional como escultor, pintor e dourador. Aos 15 anos era já oficial e aos 22 anos dedicou-se a gravar em marfim e a restaurar louças, que fazia com tal mestria e perfeição que José palha, um dos primeiros negociantes de antiguidades daquele tempo, o contratou para trabalhar exclusivamente para si. Ficou 2 anos a ganhar 2$250 réis por dia. Passou, depois, a trabalhar por conta própria, tendo feito diversos trabalhos para o Rei D. Fernando, a Duquesa de Palmela, Condessa de Ficalho, etc.

«Em 1881 foi este distincto artista para Cascaes, montar um atelier d'esta especialidade, mas tendo sido pouco feliz na sua empreza, voltou para Lisboa, indo abrir na rua de S. Bento o Bazar Catholico, que em pouco tempo adquiriu grande reputação pela honestidade das suas transacções e pela variedade e bom gosto dos objectos que o sr. Leiria conseguia angariar. Foi ahi que começou a serie de leilões que tão boa aceitação tiveram do público, e continuaram depois na rua da Escola Polytechnica, onde a concorrencia era sempre constante e composta dos principaes entendedores de objectos raros e antigos.»

Anúncio do “Bazar Catholico” no jornal “A Nação” de 16 de Julho de 1888

Quanto à licença , e em 1902 …

Nos finais de 1892, José Leiria mudaria o seu estabelecimento para a Avenida da Liberdade, 31 « para dar mais latitude ás suas operações de compras e vendas, e para ter o seu estabelecimento em ponto mais central da cidade», constituindo para o efeito a firma “Leiria & C.ª” e «na qual poz o numero 31 em todas as cinco portas, para se não confundir com outras da mesma especie ali situadas, e ahi tem conseguido o que nenhuma outra Liquidadora até agora conseguiu, que é fazer leilão todas as noites, sempre com a casa cheia de compradores, e de variados objectos de todas as qualidades para lhes vender, e onde vae agora inaugurar os leilões pelo systema do antigo Bazar Catholico, isto é, no primeiro domingo de cada mez, e destinado á venda de antiguidades, moedas e objectos artisticos.»

Imagem mais antiga a que tive acesso da “casa Liquidadora”, no edifício de esquina

Foto já do século XX

Publicidade em 31 de Dezembro de 1893

 

O estabelecimento de “Casa Liquidadora”, inicialmente com cinco portas, em finais de 1893 já ocupava 10 portas na Avenida da Liberdade. Em 1901, a numeração era, de novo, actualizada passando o estabelecimento a ocupar desde o nº 93 ao 97 e do 107 ao 113 da Avenida da Liberdade e os números 98 a 106 da Travessa do Salitre. Em 1908, a “Casa Liquidadora” ocupava desde o número 93 ao 99, e desde o 107 ao 113 da Avenida da Liberdade, e desde o número 98 a 116 da Travessa do Salitre.

Entretanto , em 1901, a “Casa Liquidadora”, é adquirida por Maria Guilhermina de Jesus, passando a designar-se “Casa Liquidadora (antigo Bazar Catholico) de Maria Guilhermina de Jesus”. Em 1927 esta cede os números 135 e 137 para a instalação do Café Luso”.

Catálogos de 1901 e 1903

  1903 Catálogo

                                             1907                                                                                          1908

 

                               Carta de 4 de Maio de 1911                                                                       1912

 

Em 1933 a “Casa Liquidadora”, ainda sob a gerência de Maria Guilhermina de Jesus atravessava dificuldades financeiras. Para as disfarçar, esta associa-se ao bancário João Filipe Nascimento, gerente na Casa Bancária José Henriques Totta”, e constituem a 20 de Novembro de 1933 uma nova firma, a “Leiria & Nascimento, Lda.”. Em 1935 abandona as instalações que ocupavam desde os números 107 ao 113 da Avenida da Liberdade e os números 98 a 106 da Travessa do Salitre, instalando-se aí o “Café Lisboa”, inaugurado no ano seguinte em 1936. A “Casa Liquidadora” ficava, assim, reduzida ao número 133 da Avenida da Liberdade, mantendo a sua sede na Rua da Emenda, 30.

O “Café Lisboa”, já instalado em parte das antigas instalações da “Casa Liquidadora”

Catálogo de 1936

A “Casa Liquidadora” manter-se-ia na Avenida da Liberdade, 133 até 1937, altura em que arrenda a quase totalidade do “Palácio Quintela-Farrobo” - actual “Palácio Chiado” - na Rua do Alecrim, então, propriedade da filha do antigo proprietário António Carvalho Monteiro, conhecido pelo “Monteiro dos Milhões”, e dono da “Quinta da Regaleira” em Sintra”.

Exterior e interiores da “Casa Liquidadora” quando instalada no “Palácio Quintela-Farrobo”, na Rua do Alecrim

 

 

 

 

 

Quanto ao percurso recente da sociedade “Leiria & Nascimento, Lda.” «Conhece altos e baixos, acentuando-se o declive no pós-25 de Abril. Em 1986, então desactivada, Clara Ferreira Marques associa-se a outras quatro pessoas e adquire a mais antiga leiloeira do país, de regresso às ingratas mãos de uma senhora. “Era um negócio completamente dominado por homens. Nos jornais diziam que tinham entregue o leilão a um franguinho de aviário, por ser muito miúda. Mas era determinada.” in “Jornal I “ de 24 de Janeiro de 2012. Nesta altura, a “Leiria & Nascimento, Lda.” já estava instalada na Avenida Álvares Cabral, 135 nas antigas instalações do Jardim Cinema”.

Sede da “Leiria & Nascimento, na Rua da Emenda, 30-36 em imagem retirada do “Google Maps” em 2009

O “Jornal I “, continuava no seu artigo, de 24 de Janeiro de 2012: «Neste compromisso, dir-se-ia que hoje há espaço para rubricas com preciosas Montblancs ou modestas canetas descartáveis, ainda que há 130 anos Guilhermina Leiria tenha começado a escrever esta história com uma elegante pena. À margem das datas reservadas a leilões, é possível entrar no número 35 da Avenida Álvares Cabral, em Lisboa, antigo Cinema Jardim, e levar para casa Malangatana, Pedro Proença, Álvaro Lapa, Fátima Pinto, Menez, Camarinha, cadeiras de Philip Starck, a famosa mesa PikNik de Dirk Wynants e Xavier Lust, arte africana ou pianos entre 2 mil e 8 mil euros, a partir de preços fixos a que se soma a comissão da casa, 15%.
Por 2,75 milhões de euros, intermediou a venda da mais cara obra de arte transaccionada no país, o quadro, de autor desconhecido, “Vista de Lisboa antes do terramoto de 1755”, que mora na sede do BES. Em 2008, a venda de um Tiepolo para o Museu de Arte Antiga rendeu 1,5 milhões de euros. “Deu-me muita luta. Entendia--se que não devia sair do país, apesar de ter interessados fora de Portugal que ofereciam 4 milhões de euros. Dói à casa leiloeira e ao proprietário, mas há a compensação pessoal de termos peças nossas em museus.” Para a história fica ainda a venda-relâmpago de uma primeira edição de “Os Lusíadas”, que atingiu os 400 mil euros, e a longa série de leilões do espólio do comandante Ernesto Vilhena, recheado de arte sacra.»

Mas … logo a seguir a este artigo, em Fevereiro de 2012 é aberto o processo de insolvência, que entretanto é travado pela constituição de uma nova sociedade, em Janeiro de 2014, que não evitará a sua dissolução e insolvência definitiva em 27 de Novembro de 2015.

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital

4 de março de 2018

Mala Real Portugueza

A parceria "Mala Real Portugueza - Companhia de Navegação a Vapor, S.A.R.L." foi constituída por Sousa Lara e Sousa Leal, em 27 de Junho de 1888, com um capital social de 900.000$000 réis e com sede na Rua do Arsenal, 54-1º em Lisboa. Esta parceria teve origem no contrato celebrado entre o Governo português e a "Empreza Africana de Navegação a Vapor" - constituída em Lisboa, no ano de 1887, pelos mesmos sócios - para o estabelecimento de carreiras de vapores para as colónias portuguesas das costas ocidental e oriental de África, mediante um subsídio anual de 98 contos de réis (98.000$000 réis).

ex-Sede da “Mala Real Portuguesa”, na rua do Arsenal no 1º andar por cima da agência da casa bancária “Borges & Irmão”

ex-Posto de recepção de encomendas da “Mala Real Portuguesa” na Praça do Município, 6 em Lisboa (dentro da elipse)

A empresa encomenda, então, ao estaleiro escocês "Scott & Sons" - fundado em 1851, em Bowling, substituindo o "Scott & Mcgill" - quatro vapores de grandes dimensões de 3.400 toneladas atingindo 14 nós de velocidade máxima, tornando-os nos maiores e mais luxuosos paquetes portugueses, com a particularidade, de poderem ser transformados em cruzadores auxiliares, tendo a estrutura sido reforçada para a montagem de 6 peças de artilharia. A frota destes paquetes ficaria assim constituída:

- "Rei de Portugal", com a sua estreia em Setembro de 1889, e que daria nome à classe composta por mais três paquetes gémeos - “Loanda”, “Moçambique” e “Malange” -  com as seguintes características comuns:
  Comprimento: 110,78 metros
  Boca: 12,86 metros
  Arqueação bruta: 3.460 toneladas
  Máquina: tríplice expansão com 4.000 CFI, com três caldeiras e uma hélice
  Lotação: 220 passageiros assim distribuídos: 75 em 1ª classe; 25 em 2ª classe; 120 em 3ª classe; 91 tripulantes, além de 240 praças e 12 degredados. De referir que era habitual o envio de forças militares e presos degredados para as colónias. A 1ª classe situava-se a meia-nau, a 2ª classe na popa e a 3ª classe à proa.

“Loanda” (1889-1894)

A frota ainda incluía três vapores destinados à cabotagem na costa de Moçambique, ficando, assim, composta a sua frota:
- "Tungue", entregue pelos estaleiros "Scott & Sons" em 2 de Maio de 1889, fabricado em aço, equipado com uma máquina de tríplice expansão com 1.400 CFI atingindo 13 nós de velocidade máxima.
- "Ibo", transferido da "Empresa Africana de Navegação a Motor".
- "Rovuma", ex-"Plymouth" construído em 1887 de 252 toneladas e comprado em Agosto de 1889.

“Ibo” (1889-1897)

“Tungue” (1889-1902)

Apesar dos quatro navios da classe “Rei de Portugal” serem muito bons, a todos os níveis, não se teve em conta o fraco desenvolvimento de África, com Moçambique ainda a dar os primeiros passos nos seu desenvolvimento, não tendo, por isso, praticamente comércio com Lisboa.  Isto era, ainda, agravado com o facto dos interesses ingleses, franceses e alemães, instalados nesta colónia portuguesa, que davam preferência às suas companhias de navegação, deixando os navios da “Mala Real Portuguesa”, sem carga para transportar, além de que a sua manutenção era dispendiosa. A juntar a isso, o facto da “Empreza Nacional de Navegação” já estar implantada na África Ocidental, não deixando espaço para o transporte de mercadorias entre Angola e Lisboa, pela “Mala Real Portugueza”.

Dois anúncios em 15 de Julho de 1890

             

9 de Outubro de 1890

Oficiais do paquete “Moçambique”, em Maio de 1892


Pelo que, e quanto ao contrato que referi no início, o "Jornal do Porto" de 6 de Agosto de 1892 comentava:
«Em 1887 a Mala Real Portugueza entrou no concurso para o transporte de passageiros do Estado, seguindo a linha do Cabo; foi-lhe esse serviço adjudicado com u subsidio de 98 contos por anno, afastando assim a Castle Mail, que era a companhia que até então fizera esse transporte. No entanto a nova empreza contava, apezar da exiguidade do subsidio, poder vencer todas as difficuldades, se, como era intenção do ministro, fosse decretado o serviço de cabotagem para a costa oriental nas condições em que se faz na contra-costa. Não sucedeu assim; e, por consequência, o cumprimento do contracto tornou-se absolutamente impossível.»

“Malange” (1890-1902)

 

Perante a iminência da falência da empresa, uma comissão constituída em 4 de Junho de 1890, aconselhou que a carreira para Moçambique, passasse a ser efectuada através do Canal do Suez, mediante um aumento substancial do subsídio anual concedido à “Mala Real Portuguesa”. O novo contrato seria assinado em 12 de Janeiro de 1891, passando a empresa a utilizar o Canal do Suez, nas suas viagens mensais a Moçambique e passando a receber um subsídio anula de 378 contos de réis (378.000$000 réis). Neste contrato a “Mala Real Portuguesa” ainda era obrigada a fazer a ligação de Moçambique com Angola e assegurara a cabotagem na costa de Moçambique.

14 de Julho de 1891

31 de Maio de 1892

Quanto a este novo contrato o mesmo “Jornal do Porto” referia:
« … Carreira mensal entre Lisboa e Mossamedes, com escalas tanto na ida como na volta, por S. Vicente ou S. Thiago, S. Tomé e Loanda. Carreira mensal ligando com a precedente, entre Mossamedes e Tungue, com escala, tanto na ida como na volta, por Lourenço Marques, Inhambane, Quelimane, Moçambique e Ibo, devendo esse serviço prolongar-se até Zanzibar. Carreira supplementar mensal entre os portos de Chiloane, Sofala, Pungue e Inhmissengo ou Chinde, ligando com a segunda carreira no porto que fôsse mais conveniente.
O governo concedia á empreza o subsidio de 378 contos correspondente a doze viagens redondas; o exclusivo do transorte de passagens e carga do estado entre Lisboa e os portos da costa oriental, salvo quando o governo empregasse n'esse serviço navios do estado.»

Vista parcial do convés do paquete “Rei de Portugal”

Apesar do generoso subsídio estatal a “Mala Real Portugueza” não conseguiu manter a sua actividade, e o contrato foi rescindido com o Estado em 14 de Abril de 1892, tendo a companhia sido multada em 372 contos de réis. Em 25 de Agosto de 1892 era decretada a sua falência que apresentava um passivo de 3.200 contos de réis, uma fortuna para a época.

A respeito da sua falência a revista “Occidente” de 1 de Setembro de 1892 escrevia:

«Com respeito à Mala Real Portugueza a resolução do governo, baseada no parecer da procuradoria geral da corôa, foi desfavoravel a esta empresa, não permittindo a alteração das viagens serem feitas pelo Cabo em vez de ser pelo Canal do Suez, de lhe conceder o adiamento que pedia para pagar os emprestimos que o Estado lhe fez.
D’este modo a Mala Real Portugueza requereu fallencia e foi-lhe nomeada uma administração. Este acto do governo pouco em harmonia com a brandura dos costumes, fez grande sensação e terá sido o assumpto de todas as conversações assim como dos artigos de fundo de alguns jornaes, em que se tem distinguido o Diario Popular pelos desconchavos com que tem pretendido deffender a Mala Real Portugueza e atacar o sr. ministro da marinha.
Cremos bem que todos lamentam a sorte da Mala Real Portugueza principiando pelo governo que não pôde deferir às suas pretensões, mas da falta do costume nascem os espantos, é um dito muito velho, o governo procedeu correctamente, em vista do concurso que precedeu o contracto que a mesma empreza fez com o governo, que pede espera aos seus credores, não serem de molde a elle fazer concessões aos seus devedores.»

Depois de vendidos em leilão quatro dos seus navios - “Rovuma”, “Loanda”, “Ibo” e “Tungue” -  a sua frota ficou reduzida aos paquetes “Rei de Portugal”, “Moçambique” e “Malange”. A “Mala Real Portugueza” foi reorganizada em 1898, passando a fazer viagens exclusivamente para o Brasil. Por este facto o paquete “Moçambique” mudaria de nome para “Álvares Cabral”, em 25 de Novembro de 1898.

22 de Abril de 1899

                                    Fevereiro de 1900                                                                    14 de Julho de 1900

  

A linha do Brasil não deu os resultados esperados, e a “Mala Real Portugueza - Companhia de Navegação a Vapor, S.A.R.L.” seria liquidada em 1902 e os seus navios vendidos. O “Malange” comprado pela “Empreza Nacional de Navegação”, e os “Rei de Portugal” e “Álvares Cabral” vendidos à italiana “Prince Line Ltd.” para transporte de emigrantes entre o Mediterrâneo e Nova Iorque, depois de rebatizados de “Napolitan Prince” (ex-“Rei de Portugal”) e “Sicilian Prince“ (ex-“Alvares Cabral”).

“Manouba”, da “Compagnie de Navigation Miste (Cie. Touache)”, de Alger. Ex- “Napolian Prince”, ex- “Rei de Portugal”

Na foto seguinte, e já em estado de abandono, as antigas instalações da sede e escritórios na Rua do Arsenal, 54 -1º entre o “Hotel Portuense” e a agência da casa bancária “Borges & Irmão”, no início da primeira década do século XX.

Bibliografia: Livro «Paquetes Portugueses», de Luís Miguel Correia - Edições Inapa - Lisboa - 1992

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Blog dos Navios e do Mar, Livro “Paquetes Portugueses”,  Arquivo Científico Tropical

1 de março de 2018

Theatro do Salitre

O "Theatro do Salitre", mais tarde "Theatro de Variedades", foi inaugurado na Rua do Salitre, em Lisboa, em 27 de Novembro de 1782. Era propriedade de João Gomes Varela, foi construído pelo arquitecto-decorador Simão Caetano Nunes, «que fora ponto no teatro do páteo do Conde de Soure e que nele montara lambem os scenários e maquinismos.». No espectáculo de inauguração tomou parte o «o famoso equilibrista Tersi que fazia prodígios, assustando os ingénuos com falsas quedas e outros truques de efeito naqueles tempos em que os títeres eram o enlevo das pessoas crescidas.»

À esquerda na foto, o “Theatro de Variedades”. As duas portas à direita na foto davam acesso à “Praça do Salitre”

Em 1781, João Gomes Varela pensou em aproveitar uma das duas propriedades que possuía no Salitre, para um centro de diversões. Se bem o pensou melhor o fez. Principiou por instalar um Jogo da Péla; afixou os seus habituais editais em letras vermelhas e conseguiu estabelecer uma certa frequência ao novo estabelecimento. Em 1784 já lhe tinha adicionado, casa da ópera, botequim, bilhar, jogo do Cachei (?).

Mais tarde, corridas de touros, para o que tinha construído uns palanques. Inauguraria, em 4 de Junho de 1790, um tauródromo a primeira praça de touros de Lisboa, a “Praça do Salitre”. Para tal o construtor ter-se-á limitado a copiar a praça que existia na Calle de Alcalá, em Madrd, reduzindo as dimensões.

«Pegado ao teatro existia o tauródromo, de forma rara porque atirava para o quadrado, construído entre 1777 e 1780. Em 1790 é inaugurado pelo príncipe D. João e Pina Manique, uma nova Praça de Toiros, a primeira destinada ao público. Espectáculo bárbaro que humanistas deputados nas Cortes bem pensaram proibir; em vão, pois como Fernando Tomás confessa, até eles aos domingos lá estavam caídos a assistir às lides taurinas. Espectáculos sempre anunciados pelas ruas da capital com cortejo vistoso, tinham entre as lides e os habituais combates entre toiros e cães de fila, os momentos cómicos em que pontificava o preto Pai Maranhão e as lutas entre balões aquecidos a gás.»

Em 1831, desapareceram dali as touradas, que reapareceriam depois na Praça do Campo de Sant’Anna”, inaugurada em 3 de Julho de 1831.

“Teatro de Variedades” junto ao “Circo do Salitre” (“Praça do Salitre”)

Na elipse, Rua do Salitre ao “Passeio Público”, onde se situavam o “Theatro de Variedades” e “Theatro-Circo de Price”

Segundo Gustavo Matos Sequeira o “Theatro do Salitre”, era um espaço apertado, feio, sem atractivos. Ao “Theatro do Salitre”, depois “Nacional e Real Theatro do Salitre” e finalmente "Theatro Nacional do Salitre", (antes de renomeado de “Theatro das Variedades”), terá valido o seu variadíssimo reportório, tendo conseguido atrair diversas camadas da população lisboeta. Apresentou grande variedade de espectáculos: ópera, tragédia, drama, comédia, farsa, mágica, vaudeville, variedades, bailado, música, ginástica, equilibrismo, malabarismo, ventriloquia, prestidigitação, fantoches e até feras amestradas, conseguindo, assim, atrair diversas camadas da população lisboeta.

Anúncio no jornal “O Portuguez” em 29 de Dezembro de 1826

Gravura na revista “Occidente” de 15 de Setembro de 1897. Legenda desta gravura a seguir


Desenho anterior composto por três partes:
Em cima: praça circense hexagonal (Praça do Salitre); acrobatas actuam em palco montado na arena; homem a cavalo e luta entre mouros e soldados de Cristo; público em camarotes e público em pé. Centro: rua onde se situava o Teatro das Variedades (designação que viria a ser adoptada pelo Teatro do Salitre) e retratos de Isidoro e António Pedro.
Em baixo: interior do teatro destruído e algumas figuras, entre as quais um diabo, um morcego e um homem de cartola e bengala. Interesse teatral: A imagem procura fixar a destruição do Teatro do Salitre através da ilustração de alguns dos seus momentos altos: a praça circense que estava ligada ao teatro, onde eram muito apreciadas as lutas entre Cristãos e Mouros e as danças pírricas; a modernização do teatro, quando assume o nome de Teatro das Variedades; Isidoro e António Pedro, dois actores que deixaram marcas naquele teatro; e, finalmente, aliadas à imagem da destruição, algumas personagens de mágicas, o género que vingou nos últimos anos daquele espaço teatral.

Tabela de preços oficial, de 1771, praticada pelo “Theatro do Salitre”

«Nos fins do seculo XVIII representou se no theatro do Salitre uma farça intitulada Casa de café e bilhar. Era ornada com musica de Marcos Portugal. N’ella eram satyrisados, entre outros indivíduos, o José Pedro das Luminárias, então empregado no Nicola, o padre Lagosta (José Agostinho de Macedo), e o Pax- Vobis, um pobre diabo que, trajando casaca encarnada, vagueiava pelas ruas seguido da gaiatagem. N'esta farça visava-se o botequim do Nicola.»   in: “Lisboa d'Outros Tempos” (Tinop) 1899.

                                        1816                                                                                          1822

 

                                          1835                                                                                          1843          

 

Entretanto nem tudo correu bem e …

«Em junho deste ano (1852) o Carreira «maneta», meteu-se a emprezário do Condes, de sociedade com o José Vicente do Guarda-Roupa do Calhariz, e organizou companhia levando do Salitre alguns elementos artísticos. Durou menos de um ano a nova empreza, pois tendo começado a 13 de junho de 1852 veiu a acabar a 13 de fevereiro do ano seguinte. O Salitre entra então na agonia. O público divorciara-se definitivamente do inestético teatro, onde parece que todas as noites se representava o drama suísso, tantos eram os «cães» que o infestavam.
De 1853 a 1855 emudecem os cartazes e os anúncios. Era o princípio do fim.(...)
Depois dos espanhóis, fechou o Salitre por uns dias. As estridentes exclamações castelhanas, sucederam os uivos e os rugidos de outros actores.
A 24 de abril de 1857, a empreza apresentava ao público uma colecção de feras: !O Manes de Thalia!

Com o rugido da última fera, foi-se o último alento do velho teatro do Salitre, mas, como a Fénix da lenda, renascia, pouco depois, em 1 de fevereiro de 1858, com o título de «Theatro de Variedades» levando à scena, todo pintado e retocado de novo, a célebre mágica A lotaria do Diabo, de Francisco Palha e do Oliveira.
Os vistosos cartazes do Xavier meteram à força, pelos olhos do público, os atrativos da nova peça e da nova companhia; e todos sabiam que o ensaiador era o elegante, mas sebento, José Romano, originalíssimo sugeito que fora a Paris sem cinco réis, «pedibus calcantibus» pedindo pelas estradas como um mendigo; que o Isidoro, que na peça fazia o Abdalah era o director-gerente da sociedade; que os scenários e os faios eram novos em folha, e que a estrela era a provocante e telhuda Luísa Cândida, uma das Circes da scena que mais javardos fez com o filtro dos seus encantos pessoais.
Da companhia faziam também parte a Maria do Ceu, que fora bailarina em São Carlos, a Ludovina e a Elisiária, duas bonitas raparigas, a Maria Emília e a Francisca. Dos actores, àlêm do Isidoro, contavam-se os seguintes : Rodrigues, Faria, Queiroz, Nunes, João Ferreira, Sousa, Guerreiro, Gonçalves e os dois estreantes Joaquim de Almeida e António Pedro, tendo este entrado para o teatro a ganhar uma moeda por mês.»  
 in: "Depois do Terramoto - subsidios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa" - Vol II de Gustavo Matos Sequeira (1917).

Capa e primeira página da peça “Mafoma” de Voltaire de 18 de Março de 1786, exibida do “Theatro do Salitre”

 

O “Theatro do Salitre”, antes e depois de transformado em “Theatro de Variedades” era maior que o Theatro da Rua dos Condes”, mas ainda muito mais feio, um enorme corredor tortuoso e deselegante.

Theatro da Rua dos Condes

Em 11 de Novembro de 1860, oTheatro-Circo de Price, inaugurado em 11 de Novembro de 1860, instalar-se-ia no topo do “Passeio Público”, isto é, na Praça da Alegria de Baixo. Este Theatro-Circo, também foi conhecido por “Circo de Cavalinhos”, “Circo de Mme. Tournour”, “Novo Circo Price” e “Lisbon Amphitheatre Anglo Franco Português”. Acerca da sua história consultar neste blog o seguinte link: Theatro-Circo de Price”.

Theatro-Circo de Price” e primeiro anúncio, no jornal “A Nação”, em 13 de Novembro de 1860

 

Em 17 de Agosto de 1864, tinham sido aprovadas, na reunião dos accionistas da «Sociedade» algumas alterações aos antigos estatutos sociais e parece que os interessados contavam que a próxima época os indemnizasse dos prejuízos sofridos e decorresse sem que as bocas do mundo teatral se apercebessem. Tal não sucedeu e  «a chicana estabeleceu os seus alcaçares na calçada do Salitre», escrevia a “Chronica dos Theatros”, no seu número de 1 de Janeiro de 1866. Joaquim José da Silva Cordeiro, como procurador de D. Josefa Serrate, proprietária do Teatro, abrira, então, fogo cerrado contra a direcção da «Sociedade». A viúva do fundador João Gomes Varela, que o alugara, primeiro por 400$000 réis, depois por 480$000 réis e, mais tarde, por 600$000 réis, fazendo-se o arrendamento por três anos, desde 1 de Outubro de 1863 a 30 de Setembro de 1866, vendo que lhe não pagavam, accionou uma penhora à empresa; apoderou-se das chaves e tomou posse do Teatro.
«Finalmente no meio desse prélio entre Thetis e Thalia, aparece um homem que soluciona tudo. Como? não sei. E António Gonçalves Pinto Bastos. Aplaca os contendedores, amansa D. Josefa Serrate, afasta do Salitre os beleguins, organiza uma companhia e acrescenta o título do teatro. Vai funcionar o “Theatro das Variedades Dramaticas”».

                         2 de Fevereiro de 1858                                                           4 de Março de 1865

   

A empresa, querendo renovar o “Theatro das Variedades Dramaticas”, em finais de 1864 mandou pintar a sala, os salões e os corredores dos camarotes. Pelo que se lia no jornal “Diario de Noticias” de 6 de Janeiro de 1865:
«O theatro de Variedades Dramáticas, como já noticiamos, deve abrir no dia 20 do corrente com a comédia mágica do sr. Joaquim Augusto d'0liveira - «Os amores do diabo», a qual tem 3 actos e 1 prologo, divididos em 19 quadros. O scenário é pintado pelos srs. Villela e Lima ; os aderesses, do sr. João Francisco Pereira dos Santos ; o vestuário, do sr. Cruz.»

Após a sua inauguração o mesmo “Diario de Noticias” relatava:
«Realizou-se a inauguração na noite de 4 de Fevereiro. Foi um verdadeiro triunfo! Aplausos e palmas que farte, felicitações ao emprezário, muita alegria e muita animação. Excepto as maquinarias do mestre Assunção, que estava longe de ter os méritos do João Vieira, o mais tudo agradou até o desempenho, coisa que há muito tempo não sucedia no Salitre.
O regente da orquestra, não mencionado na informação do Noticias, era Eduardo Azimouth.»

                    8 de Fevereiro de 1877                                        Mas, no “Guia do Viajante em Lisboa” para 1880 …            

              

As duas últimas companhias que pisaram o palco arqueológico do Salitre, foram as dirigidas pelo popular Costa Marreco, que reincidira em ser empresário, e pelo actor Avelar Machado. E…

«Em 24 de agosto de 1879 soou o primeiro embate da picareta contra as paredes do infeliz e glorioso teatro que suportara durante noventa e sete anos os mais duros revezes da sorte. (...)
Sob o asfalto da mais nobre artéria cidadã repousam os teus restos. Em derredor pairam, com a tua memória - aos olhos dos visionários como eu - as comoções, as lágrimas, as gargalhadas e os deslumbramentos que tu proporcionaste a umas poucas de gerações.
Foste generoso e liberal. Merecias ter tido melhor sorte.»   in: "Depois do Terramoto: subsidios para a historia dos bairros ocidentais de Lisboa"
- Vol II de Gustavo Matos Sequeira (1917).

Desenhos na revista “Occidente” em 21 de Setembro de 1881

Planta topográfica após as demolições e construção da Avenida da Liberdade

Com o início das demolições do Teatro e dos edifícios próximos teriam, igualmente, início as obras de construção da Avenida da Liberdade, assim referenciadas no livro “Diccionario do Theatro Portuguez” de Sousa Bastos (1908):

«A 24 de Agosto de 1879, para dar principio ás grandes obras da Avenida da Liberdade, começou a demolir- se o theatro das Variedades, antigo theatro do Salitre., de péssima construcçâo, mas que deixou saudades pejas alegres noites que alli se passaram com Izidoro, António Pedro Furtado Coelho, Joaquim d'Almeida, Lucinda Simões e outros artistas notáveis.»

Em 11 de Janeiro de 1890, seria inaugurado um novo teatro na Rua Nova da Alegria, o “Theatro d’Alegria” , construído em ferro e madeira, cuja gravura e artigo no jornal “Diario Illustrado” publico de seguida. Este teatro era propriedade de “Castanheiro e Barata”, e foi projectado por João Augusto Barata, tendo a sua construção durado cinco meses.

 

«A salla é elegante, como dissemos, e dispõe dos seguintes logares: quatro frizas; doze camarotes, n'uma só ordem, cento e vinte e seis cadeiras de balcão; trezentas e quarente de platéa; e cento e vinte seis logares na galleria que fica ao fundo do balcão, em amphitheatro.
Depois do antigo theatro das Variedades e do velho templo da arte mais profanamente conhecido pelo Rua dos Condes, é decerto o theatro d'Alegria o que melhor preenche a falta de theatros populares, proprios para verão e inverno, assim como que um divertimento de meia estação.» in revista “Occidente”.

O “Theatro d’Alegria” não teria uma vida longa, mas antes curta, tendo sido vendido em hasta pública e posteriormente demolido.

Décadas mais tarde, na Rua do Salitre, e em 1946, seria fundado, por três homens de teatro, Gino Saviotti, Vasco de Mendonça Alves e Luís Francisco Rebelo, o “Teatro Estúdio do Salitre”. Foi um projeto que, durante quatro anos, levou à cena um número significativo de peças de teatro de autores nacionais e estrangeiros, no micro Teatro, do “Instituto Italiano de Cultura de Lisboa”, instalado no edifício da ”Casa d’Itália”, situada na Rua do Salitre, próximo do Largo do Rato.

“Casa d’Itália”, na Rua do Salitre junto ao Largo do Rato

 

Foto “de família” do “Teatro Estúdio do Salitre”

Interior do “Teatro Estúdio do Salitre”

 

O seu primeiro espectáculo, “O Homem da Flor na Boca”, de Luigi Pirandello e encenado por Gino Saviotti,  foi apresentado em 30 de Abril de 1946.  Este teatro seria extinto, quatro anos depois, em 1950.

Fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)