Restos de Colecção

12 de novembro de 2017

Ourivesaria Aliança

A “Ourivesaria Aliança”, propriedade de Celestino da Motta Mesquita e projectada pelo arquitecto Artur Alves Cardoso, foi inaugurada pelo Chefe de Estado, General Óscar Carmona, na Rua Garrett, em Lisboa, no dia 21 de Dezembro de 1944.

Este estabelecimento, era sucursal da “Ourivesaria Aliança” localizada na cidade do Porto, na Rua das Flores tornejando para a  Rua dos Caldeireiros depois de Celestino da Motta Mesquita a ter fundado, em 1925. O projecto desta grande ourivesaria, ficou a cargo do arquitecto Francisco de Oliveira Ferreira.

 “Ourivesaria Aliança” na Rua das Flores, no Porto em 1933                                              1925                 

   

Stand da “Ourivesaria Aliança”, na “Exposição Internacional do Rio de Janeiro”, entre 7 de Setembro de 1922 e 24 de Julho de 1923 inserida nas comemorações do Centenário da Independência do Brasil

Publicidade por ocasião da “Exposição Colonial Portuguesa”, no Porto em 1934

1934

O espaço ocupado pela “Ourivesaria Aliança”, em Lisboa, na rua Garrett, 50-52, tinha sido ocupado pela sucursal da Ourivesaria “Miranda & Filhos”, na Rua de Santo António, no Porto que por sua vez tinha substituído os anterior inquilinos, espaço comercial de ouro e joias, primeiramente "Ourivesaria Chiado" sob direcção da firma “Teixeira & Commandita”, instalados desde 1904, que por sua vez tinham substituído os anteriores inquilinos, “Armadores e Estofadores Pereira Gonçalves & Irmão”, ali instalados desde 1896. Anteriormente a este, tinha estado a famosa confeitaria e pastelaria "Antiga Casa Baltresqui", entre 12 de Julho de 1894 e metade 1896.

12 de Julho de 1894

Projecto de 1903 para a fachada da “Teixeira & Commandita”

"Ourivesaria Chiado" de “Teixeira & Commandita”. Logo a seguir, duas portas abaixo, a "Leitaria Garrett"

Posteriormente, em 1909, esta loja seria ocupada pela Ourivesaria “Miranda e Filhos”, com sede na cidade do Porto, na Rua de Santo António.

Ourivesaria “Miranda e Filhos”, na Rua de Santo António no Porto

 

Artigo acerca da "Miranda & Filhos" na revista "Illustração Portugueza" de 31 de Dezembro de 1912




Em 14 de Janeiro de 1914, a “Miranda & Filhos”, com a intenção de encetar uma profunda remodelação das suas instalações, apresentam um pedido de alteração da fachada do estabelecimento da Rua Garrett n.os 50 a 52, o qual é aprovado em 7 de Março do mesmo ano, que corresponde ao existente. Numa decoração dos seus interiores ao estilo Luís XVI, e igualmente, de 1914, sob o risco de Artur Alves Cardoso (1882-1930), terá sido pintada no tecto do Salão Principal a tela "Toilette de Vénus", bem como os vários medalhões ovais nas paredes da mesma sala.

Ourivesaria “Miranda & Filhos”, abaixo do “Café Chiado”, em 1935

21 de Dezembro de 1925

1926

                       Á direita na foto do “Café Chiado”                            Ourivesaria “Miranda & Filhos”, na elipse desenhada

 

A propósito da «nova» Ourivesaria “Miranda & Filhos”,podia- se ler no jornal “A Capital”, em 14 de Julho de 1916:

«Tudo n'aquella cathedral da joia artistica e da pedra preciosa respira a elegancia e bom gosto. Nas montras, sugiram peças de argentaria que deslumbraram, enormes brilhantes que custavam dez e doze mil escudos, perolas de uma belleza imcomparavel, thesouros de inestimavel valor.
Até ao apparecimento da casa Miranda & Filhos, Lisboa não vira mais opulentas collecções de joias, como não vira ourivesaria mais rica, mais artistica, mais deslumbrante. Ella é filial de uma outra não menos rica nem menos afamada que os srs. Miranda & Filhos possuem no Porto, na Rua 31 de Janeiro, a qual é para a capital do Norte o que a casa do Chiado é para Lisboa. Estabelecimentos como este, que nada se parecem com os d'outros tempos, honram os seus proprietarios e as cidades que os possuem.»

A “Ourivesaria Aliança” surgiu, em Lisboa, após a aquisição efectuada, por parte da sede localizada no Porto, em 1940, do espaço da ourivesaria “Miranda & Filhos” e do armazém existente nas traseiras, tendo ficado as obras de ampliação para a construção do Salão de Exposições sob a responsabilidade do arquiteto Oliveira Ferreira. Em 1940, ter-se-á dado início às obras de ampliação da Ourivesaria, transformando o rés-do-chão e a sobreloja num único espaço amplo, tendo-se para o efeito substituído o piso superior por uma galeria circundante.

Interior da “Ourivesaria Aliança” após a sua inauguração em 1940, em fotos de 2004

 

 

No dia da inauguração da “Ourivesaria Aliança”, podia- se ler no jornal “Diario de Lisbôa”, de 21 de Dezembro de 1944:

«Falar de tão grandiosa obra é o mesmo que homenagear o sr. Celestino Mesquita, que pôs nela toda a sua inteligencia, todos os conhecimentos que possue, expondo, em valioso certame, as suas opulentas pratas de arte, tão célebres no país, como no estrangeiro, pratas que, nas maiores esposições internacionais, mereceram com justiça grandes prémios e "hors-concours. Nada existe na sala de vendas, como no lindo salão nobre, estilo Luis XVI, que não esteja em relação com o bom gôsto e luxo exuberante.»

1944

1957

1963

A “Ourivesaria Aliança”, em Lisboa encerraria as suas portas no dia 15 de Fevereiro de 2012. Adquirida pela cadeia de joelharias espanhola “Tous”, depois de uma profunda e belíssima reforma das instalações, reabriria em 17 de Dezembro de 2012, com a designação de “Tous”. O projecto, com assinatura da “Solayme Real Estate”, uma empresa espanhola de recuperação de imóveis, contou com uma equipa de arquitectos, onde constam alguns portugueses.

Fotos actuais que, felizmente, dispensam quaisquer comentários

 

 

 

 

A “Tous” foi fundada em 1920 e assenta num modelo de negócio familiar que é gerido por Salvador Tous e Rosa Oriol. A empresa que sempre se dedicou à joalharia, expandiu a sua oferta para acessórios, perfumes e relógios. Com sede em Barcelona, tem cerca de 400 lojas em 45 países.

Quanto às instalações da “Ourivesaria Aliança” na Rua das Flores, no Porto, parte delas estão, actualmente, ocupadas pela casa de chá “Joia da Coroa” .

Apesar da sua finalidade ter sido bem diferente, simplesmente exemplar !!

 

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Estação Cronographica, Oportocool

9 de novembro de 2017

Francisco Batista Russo & Irmão

A empresa “Sociedade Comercial e Industrial de Automóveis Francisco Batista Russo & Irmão, S.A.R.L.” teve a sua origem na firma “Francisco Batista Russo e Irmão”, fundada na Rua das Picoas, em Lisboa em 1926, por Francisco Baptista Russo (pai), iniciando a sua actividade com a importação de pneus da marca inglesa “Avon”. De referir , e a título de curiosidade, que este senhor - natural de Vila de Aldeia Galega do Ribatejo, actual Montijo - antes de se dedicar ao ramo automóvel, dedicou-se à indústria de panificação, e numa Sociedade com um irmão, possuía também debulhadoras para descasque do trigo.

“Francisco Batista Russo & Irmão, S.A.R.L.”  na Rotunda de Cabo Ruivo em 1970

Em 1954, com a empresa já nas mãos dos irmãos Francisco e Horácio Batista Russo, inicia a importação dos camiões “MAN” de origem alemã, com a sua sede instalada na Avenida António Augusto de Aguiar, 19 r/c. E pouco tempo depois, inicia a comercialização da scooter de marca alemã “Diana”.

18 de Maio de 1957

O ano de 1956 será um ano de viragem da “Francisco Batista Russo & Irmão”, ao iniciar a importação exclusiva  de automóveis e motos, da marca bávara “BMW”. O primeiro modelo a ser comercializado em Portugal seria o famoso e original “Isetta” seguindo-se-lhe os “BMW 503” e “BMW 507”.

1956

6 de Outubro de 1956

17 de Novembro de 1957

BMW “Isetta” no Aeroporto de Lisboa em 1960

É neste ano, ao comemorar os seus 30 anos, que a “Francisco Batista Russo & Irmão” inaugura, em 6 de Maio, o seu stand de automóveis e motos “BMW”, e camiões “MAN”, na Avenida António Augusto de Aguiar, 3, no edifício contíguo ao Hotel Eduardo VII”.

  

Recordo que anos mais tarde os irmãos Horácio Batista Russo e Fernando Batista Russo, por desavenças sepraram-se e Horácio continuou com o império Batista Russo, já representante das marcas “BMW”, “MAN”, “Steyr” e “Saviem”, chegando a importar os primeiros automóveis da marca japonesa “Toyota” para Portugal.  O Francisco fundaria, ainda nos anos 60 do século XX, com outros sócios a empresa “Univex”, com as representações das marcas “Fiat”, “Steyr” e “Fuso”, comércio e reparação de camiões.

28 de Junho de 1960

21 de Julho de 1962

Em 1958 decidem construir o seu “ex-libris”, as oficinas da “Francisco Batista Russo & Irmão” na Rotunda de Cabo Ruivo, em Lisboa, cujo projecto de arquitectura da autoria do arquitecto Joaquim Ferreira daria entrada na CML em 6 de Setembro de 1958. Iniciada a sua construção em finais de 1960 ficaria concluída em 1962, ano da sua entrada em funcionamento, tendo como seu director técnico José do Couto Nogueira. Foi em 1960 que esta empresa passaria a “Sociedade Comercial e Industrial de Automóveis Francisco Batista Russo & Irmão, S.A.R.L.” .

 

Por esta altura, constroem uma instalação fabril em Vendas Novas, a “VN - Montagem e Reparação de Automóveis Batista Russo Lda.”, para montagem dos camiões “MAN”, “Steyr” e “Atkinson” que iniciaria a sua laboração em Dezembro de 1963, mesmo antes da sua inauguração oficial. Mais tarde seriam, também, montados nesta unidade fabril, os automóveis “BMW” dos modelos 1600 e 2002.

5 de Dezembro de 1963

Linha de Montagem em Vendas Novas

 

  

Concurso da pasta dentífrica “Signal”  num anúncio de 1969

Nos ano 90 do século XX, a “Sociedade Comercial e Industrial de Automóveis Francisco Batista Russo & Irmão, S.A.”, entra em insolvência.

Quanto à linha de montagem da “VN - Montagem e Reparação de Automóveis Batista Russo Lda..”, seria utilizada para a montagem dos veículos todo o terreno “UMM - União Metalo-Mecânica”, modelo “Alter II”, iniciada Janeiro de 1993  e finalizada em Dezembro do mesmo ano. No ano 2000 ainda seria retomada a montagem deste modelo já renovado.

No século XXI esta unidade industrial passa a montar veículos comerciais da marca japonesa “Izuzu”, chegando a ocupar, em 2013, o 4º lugar entre as montadoras de veículos comerciais, ligeiros e pesados, em Portugal. Por deslocalização desta linha de produção da “Izuzu” para Itália, em Dezembro de 2013, esta unidade industrial encerraria definitivamente em 2014 e seria pedida a sua insolvência em 2015.

Quanto às instalações de Cabo Ruivo, actualmente ao abandono à espera de algum projecto de reconversão ou substituição do edifício … pela sua importância no comércio automóvel, muito pela importação exclusiva de marcas conceituadas europeias, mas também pela venda de produtos portuguesas, o edifício ficaria para sempre associado ao esplendor económico e industrial dos anos 60 do século XX, tornando-se emblemático referência ao local, que ficaria popularmente conhecido, até hoje, como "Rotunda do Batista Russo".

2015

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Municipal de Lisboa