Restos de Colecção

7 de novembro de 2017

Antigamente (141)

Pequeno vapor na baía de Cascais com o Rei D. Carlos ao leme

Estação de São Bento, na Cidade do Porto

Estação de S. Bento

                   “Eden-Esplanada” em Évora em 1946                                     “Cine-Variedades” em Setúbal em 1953

 

Parque da “Orbitur”, na Ilha da Armona no Algarve

5 de novembro de 2017

Antigo Retiro Quebra Bilhas

O “Retiro Quebra Bilhas”, terá aberto as suas portas em 1793, no actual Campo Grande Oriental. Nessa altura «fora de portas» incluía-se no roteiro dos restaurantes modestos nas hortas dos arrabaldes de Lisboa.

1941

1900

8 de Julho de 1900

1941

Situado num dos mais característicos arrabaldes da cidade oitocentista onde vicejavam quintas e hortas, e incluído na área administrativa da Câmara do efémero concelho dos Olivais, tendo a dois passos o palácio dos Marqueses de Valença e Condes de Vimioso e a igreja dos Santos Reis Magos, o “Quebra Bilhas” surgiu na quinta do mesmo nome (de que resta apenas uma reduzida parcela de terreno de cultivo) como um dos mais rústicos retiros de fora de portas. Seria inicialmente um telheiro sob o qual os pipos de vinho alinhados, as toscas mesas, os bancos corridos e a cozinha, improvisada atrás do balcão forrado talvez de zinco, compunham o cenário. Em alturas de pândegas ruidosas, os pés grosseiramente calçados dos dançarinos e batedores do fado levantavam núvens de poeira do chão de terra batida e o mosquedo atrevido zumbia e voejava infrene em torno da clientela tressuada de um vago bolieiro alcunhado o «Quebra Bilhas», que segundo a tradição teria sido o fundador do retiro, posteriormente beneficiado com a construção do modesto edifício de pedra e cal.

«O Quebra-Bilhas era o único antigo retiro lisboeta com o quintalão a funcionar, como era habitual nestas casas», referiu o olissipógrafo Carlos Consiglieri. «Ficava junto à Estrada Real, que era a saída de Lisboa pelo Lumiar e um local de esperas de gado que ia para a praça de touros do Campo de Santana e, depois, para a do Campo Pequeno. Fazia parte de um núcleo de restaurantes muito popular, de que subsiste ainda o “Entre Copos”, que foi muito frequentado por operários da CP.»

Localização do “Retiro Quebra Bilhas”, no Campo Grande (Oriental) e dentro das elipses desenhadas

 

O percurso em que se encontrava o “Quebra Bilhas”, conhecido por caminho dos toiros pelo facto de ser por este que estes percorriam acompanhados por campinos a cavalo desde as Marnotas até à Praça do Campo de Sant’Anna, que D. Miguel e a Infanta D. Maria da Assunção haviam inaugurado em 3 de Julho de 1831, tornou-se por isso um dos preferidos para o negócio de comes e bebes, particularmente rendoso em noites de esperas.

O ”Quebra-Bilhas” era sobretudo frequentado por fidalgotes e burgueses. «A Severa lá cantarolava o seu reportório decotada com um impudor feliz e batia o fado ao som da Banda de Sousa do Casacão, desde o escurecer até que, às duas da noite, o gado pegava de sair para a praça do Campo de Sant’Anna. - Não é essa Lisboa boémia, fadista e zaragateira, que um certo romantismo do passado nos legou, que vamos encontrar no Quebra-Bilhas de hoje. Não haverá "tipóias", nem capote-e-lenço, nem alcatruzes da nora. Mas ainda lá estão os caramanchões de trepadeiras e fartas ramadas de videiras a proteger toscas e improvisadas mesas onde os canjirões de vinho disputam lugares de primazia ". in: “História do Fado” de Pinto de Carvalho (Tinop), 1903

Entretanto, em 10 de Junho de 1898 um concorrente se perfilava …


                                               1959                                                                                          1960

  

Cartão

«Nas suas succedaneas de 1816, já se guitarreava o fado, como succedia na Horta das Tripas, no Escoveiro (á Cova da Piedade), no Ezequiel do Dáfundo, no Miséria da estrada de Pallhavã. na Viteileira da travessa dos Carros, na Itabicha, no Campo Pequeno, no Arco do Cego, na Madre de Deus e no Beato Antonio. E esta tradição do fado manteve se nas hortas das epochas posteriores: José da Bateira, Antonio das Noras, em Arroyos, Quintalinho da travessa do Pintor, Theotonio
da calçada de Carriche ou Nova Cintra (onde se ia em burricadas), a Joanna do Collele encarnido, no lado oriental do Campo Grande (que passou depois para a azinhaga da Torre, no Lumiar) Cá e lá. Jose Gallinheiro. Joaquim dos Melões, na Oulra-Banda, Arieiro, Jose dos Pacatos, retiro do Pardal, nas terras da Casa da Polvora, Salgado do Arco do Cego, Videira do Campo-Grande, a tendinha do Campo, Jose dos Passarinhos, em Alcantara, as Varandas, ao Caminho de Ferro,
Jose dos Caracoes, no Campo Grande, Luiz Gaspar, na estrada das Mouras, Esparteiro do Alto do Pina, Pacatos Velhos, o Rouxinol, nos Terramotos, Quinta do Ferro de Engommar; e, mais recentemente, Pedro da Porcalhota, Cazimiro do Poço dos Mouros, Bazalisa. Quinta do Papagaio. Quinta das Águias, as Leiteiras, Jose Azeiteiro, o Quebra-Bilhas, no Campo Grande, e Jose Roque, de Palhavã. (…)

Hortas.1.1 Hortas.1

Retiro do Caliça em 1904, na Estrada dos Salgados. Ao fundo o cemitério de Benfica

 

Retiro do “Perna de Pau” na Estrada de Sacavém e o “Retiro Manuel dos Passarinhos” na Calçada do Poço dos Mouros

 

“Retiro Bernardino Cordeiro” outro retiro em Algés e em 1961

 

Entre 1860 a 1880 figuraram como cantadores do Fado: José Borrègo, José Pettiz, José Maria Enguia, José Carlos, Saldanha da Porcalhota, José Maior, José Montaurino, Caetano, o Calcinhas, João Campanudo, José Bento d'Oliveira, Patusquinho, etc. » in: “Historia do Fado”, de Pinto de Carvalho (Tinop).

Do livro “Estoina e Estoinices; ruína e morte do Conde de Farrobo”, de Eduardo de Noronha em 1922

 

A seguir excerto da letra do Fado “As Hortas” :

As Hortas

Aos domingos, á tardinha
Quem não sae fóra de Portas,
Não conhece a felicidade
De comer peixe nas hortas

A gente cá de Lisboa
Gosta sempre, aos dias santos,
De se metter pelos cantos,
Comendo e bebendo á tôa;
Petisqueira toda boa
Procura a nossa gentinha:
Come pescada ou sardinha,
com a maior alegria:
P'ras hortas ha romaria
Aos domingos , à tardinha

(…)  in: "A triste canção do sul” (Subsídios para a história do fado), de Alberto Pimentel em 1904

Ah! Fadista …

Em tempos mais recentes, a antiga casa de pasto foi frequentada por figuras conhecidas da política, do espectáculo ou da Cidade Universitária que lhe ficava próxima e do lado oposto do Campo Grande. O actor Vasco Santana ou o geógrafo Orlando Ribeiro costumavam aparecer por lá.

“Antigo Retiro Quebra Bilhas” antes de fechar definitivamente

     

     

Em 17 de Abril de 1987, José Quitério escrevia no jornal “Expresso” :

O Quebra Bilhas «mantém muito do seu encanto de outras idades. O largo portão verde, fronteiro ao plácido plátano, abre para o primeiro compartimento, onde, a par da cozinha, se conserva felizmente um daqueles belos balcões das tabernas antigas, todo corrido e de mármore, e duas largas mesas . (...) Outra sala, mais convencionalmente a refeiçoar, oferece uma simplicidade airosa revestida de artefactos de sabor caseiro. Grande, grande é o quintal-esplanada, de chão empedrado, abrigado por generosos toldos de parreiras e árvores de forte porte, local único e riqueza inestimável para o tempo ameno, daqueles recantos que parecem terem sido feitos, e são eleitos, para os prazeres da mesa, da bebida e do convívio»

O “Antigo Retiro Quebra Bilhas”,  encerrou em Abril de 2006 ficando assim devoluto o prédio cujo andar térreo ocupava.

Reinaldo Caldeira, seu último proprietário comentava ao jornal “Público”: «É um final que não me agrada. Ainda tentei trespassar a casa a uma empregada para que se mantivesse em actividade, mas levantaram-se questões complicadas com o direito de preferência do senhorio, a cujas mãos a casa voltou. Cheguei a andar em tribunal, mas foi para evitar a continuação de um processo, que me foi bastante penoso, que se chegou a este resultado. Há situações que são inultrapassáveis»

O dono do edifício é o “Centro Cultural do Campo Grande”, ex- “Sociedade Lusitana de Cultura” uma instituição da “Opus Dei”, sediado no Palacete Beltrão - que pertenceu a Fausto de Figueiredo e vendido, em 1979, pelos seus herdeiros, à “Sociedade Lusitana de Cultura” -  contíguo ao restaurante. Quanto ao futuro do edifício do “Quebra Bilhas” uma incógnita.

Bibliografia: além dos livros mencionados nas transcrições de textos, foi consultado o site “Jornal da Parceta

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional Digital, Jornal da Parceta

2 de novembro de 2017

Cabeleireiro “Eva”

O Cabeleireiro "Eva", foi inaugurado no edifício "Palácio da Rotunda", na Praça Marquês de Pombal em Lisboa, em 8 de Dezembro de 1960. Propriedade da firma "Eva, Lda." dos cabeleireiros Manuel Brito e Manuel Nogueira, foi concebido e desenhado pelo arquitecto Eduardo Anahory.

Cabeleireiro “Eva” no 1º piso, por cima do Restaurante e Snack “Flórida” do “Hotel Flórida

1960

Manuel Brito já possuía o Cabeleireiro "Brito e Brito" no Chiado, desde 1951, em sociedade com seu irmão Armando Brito, cujo projecto de arquitectura também tinha sido da autoria do arquitecto Eduardo Anahory. Mais tarde, em 22 de Fevereiro de 1952, abriria outro na Avenida da Liberdade, que passava a ser a sede da empresa. Armando Brito abriria outro Cabeleireiro “Brito e Brito”, na Rua Rodrigues Sampaio, nos anos 60 do século XX, este desenhado pelo arquitecto Delfim Marques (colaborador de Eduardo Anahory no “Eva”) e que seguiu os mesmos princípios e soluções adoptados no “Eva”.

22 de Fevereiro de 1951

Lembro que o edifício “Palácio da Rotunda”, parte integrante do plano urbanístico desenhado pelo arquitecto Carlos Ramos, para a Praça Marquês de Pombal, promovido pela “Imobiliária Palácio da Rotunda, S.C.R.L.”, foi projectado, em 1954 pelos arquitectos Porfírio Pardal Monteiro e Jorge Ferreira Chaves. Este edifício integrou zona comercial, Restaurante e Bar do “Hotel Flórida (com o qual faria ligação interior com o edifício principal, na Rua Duque de Palmela), Snack-bar e “Grill Flórida”, o Cabeleireiro “Eva” que ocupou todo o 1º piso, por cima do restaurante, e o restante edifício seria ocupado por escritórios.

“Palácio da Rotunda” em acabamentos, já com a publicidade «Eva, Lda. para a elegância feminina»

O nome de "Eva" para este Cabeleireiro, foi sugerido pelo arquitecto Eduardo Anahory e aceite por Manuel Brito. «Um nome pequeno e feminino».

                                        1960                                                                                           1961

 

O grande salão do Cabeleireiro "Eva" com 315 m2 aproximadamente, incluía uma sala exclusiva para Manuel Brito, com divisórias em estrutura de aço e vidro serigrafado, e várias alas com bacias de lavagem, secadores e bancadas de corte e penteado.

 

Sala exclusiva do cabeleireiro Manuel Brito

 

Os tectos eram falsos em estrutura de madeira e acrílico opaco, fornecendo luz indirecta, complementada com candeeiros cilíndricos. As bacias de lavagem assentes em mármore verde de Viana. Os cadeirões onde estavam instalados os secadores de cabelo, incluíam encaixe para um pampo para pequenas refeições e uma cadeira desenhada por Eduardo Anahory, com sistema de regulação adaptando as costas a duas posições (na zona de lavagem).

 

Interior do Cabeleireiro “Eva”, em 2010

 

Manuel Brito faleceu em 2013, altura em que encerrou definitivamente o Cabeleireiro “Eva”, mantendo-se em actividade os Cabeleireiro “Brito e Brito”, na Avenida de Roma, na Rua Rodrigues Sampaio, ambos em Lisboa. O da Avenida da Liberdade também encerrou em 2010.

Último “Brito e Brito Cabeleireiros”, na Avenida de Roma

Bibliografia:

- Foi consultada a “Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Arquitectura”, de José António Braz Borges. IST   Outubro 2010. Desta foram retiradas algumas fotos e gravuras, agradecendo  a gentileza do seu autor, na cedência deste documento.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Lx60