Restos de Colecção

5 de janeiro de 2014

Palácio das Comunicações

A “Central Telegráfica e Telefónica de Lisboa”, também conhecida pelo “Palácio das Comunicações” foi inaugurada em 1953 com projeto do ano de 1942, que, embora contrariado, o arquitecto Adelino Nunes (1903-1948) assinou, traduzindo o estilo tradicionalista - habitualmente denominado “Português Suave” - que então dominava inteiramente as encomendas oficiais.

  

Lembro que foi o arquitecto Adelino Nunes o responsável  pelos projectos de arquitectura inseridos na "Comissão para Elaboração do Plano Geral das Construções e Redes Telefónicas e Telegráficas", criada em 1934 com o propósito da modernização e ampliação das Comunicações Postais, Telefónicas e Telegráficas (CTT), em que foram construídas cerca de 200 Estações dos CTT espalhadas pelo país, a fim de levar definitivamente a todo o território a última inovação tecnológica que veio permitir a comunicação rápida à distância.

Maqueta e fases de construção

Praça D. Luiz I antes da construção do “Palácio das Comunicações”

 

Em 26 de Outubro de 1953 é autorizada a criação do "Presepe dos CTT", que entraria em funcionamento em 1954. A creche e infantário, instalados no “Palácio das Telecomunicações” eram destinados a assistir os filhos das empregadas durante o horário de trabalho. Em 1964 seria inaugurado o "Presepe dos CTT” da cidade do Porto.

Em 30 de Junho de 1956 seria inaugurada, neste edifício, a “Central Telefónica Interurbana de Lisboa”. Esta veio substituir a que estava em funcionamento na Estação Central dos Correios de Lisboano Terreiro do Paço, e que tinha sido inauguarada em 17 de Agosto de 1946.

Estação Central dos Correios de Lisboano Terreiro do Paço

Pagela da inauguração da “Central Telefónica Interurbana de Lisboa” no “Palácio das Comunicações”

A propósito o jornal “Diário de Lisboa” escrevia, nesse dia:
«Só uma parte, mas muito considerável, da central Telefónica do Terreiro do Paço foi ainda transferida para as novas instalações - uma centena de circuitos entre Lisboa e o Porto e muitas dezenas de circuitos, entre a capital e outras cidades do País.
O material é moderno e actualizado, mas não inteiramente novo. Com ele se gastaram apenas 3.000 contos, em vez do 15.000, desmontando em vários centros urbanos as posições que haviam deixado de ser necessárias e adaptando-as ás novas funções.»

 

 

 

Em 1957, enquanto a “APT - Anglo Portuguese Telephone” instala o telefone 2 milhôes, e a “RTP - Rádio Televisão Portuguesa” inicia as suas emissões experimentais e posteriormente regulares, é instalada no “Palácio das Comunicações” uma nova central telefónica, com um sistema de bateria central, adaptado pelo “GECA - Grupo de Estudos de Comutação Automática”.

A inovação, aliada à redução de custos, tornaria este centro fundamental para a automatização da rede telefónica nacional, a capacidade técnica na área dos sistemas de comutação automática e consequente instalação e exploração, fabricando estações de bateria central entre outros equipamentos, culminando em 1957 com a instalação desta nova central.

 

 

 

Em 2010 o imóvel, totalmente arrendado aos “CTT - Correios de Portugal”, já era propriedade do fundo de investimento imobiliário “Novimovest” e gerido pelo “Santander Asset Management”, tendo sido adquirido pela “Habitat Vitae”

Actualmente  edifício renomeado de “Central Station”, no qual funcionou até há 2 anos a estação central dos CTT em Lisboa, quer afirmar-se como o novo hub de empreendedorismo e criatividade da capital. Diz a publicidade: «O imóvel está agora vocacionado para acolher empresas e profissionais das áreas de publicidade, marketing, indústrias criativas, start up’s, ateliers, arquitectos, e show rooms de moda e design, pretendendo dinamizar uma comunidade inovadora e criativa no local.»

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Portuguesa das Comunicações

3 de janeiro de 2014

2 de janeiro de 2014

Livraria Ática

A “Editoral Ática, Limitada”, foi fundada em 1930 por Luiz de Montalvôr (1891-1947). De seu nome Luís Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos, foi poeta , ensaísta, editor. A “Editoral Ática, Limitada” rapidamente se afirmou no panorama editorial português pelo aparato gráfico das suas edições, e pela criteriosa selecção de títulos, passando a designar-se “Ática S.A.R.L. Casa Editora” nos anos 40 do século XX.

Luiz de Montalvôr e Fernando Pessoa



A 7 de Dezembro de 1946, inaugura a livraria “Ática” na esquina da Rua do Carmo com a Rua Garrett, em Lisboa. O projecto desta livraria ficou a cargo do arquitecto Alberto Pessoa. No seu interior podia ser apreciado um painel de azulejos encomendado ao mestre Jorge Barradas.

Publicidade e artigo no “Mundo Literário” em Dezembro de 1946

     

Anteriormente esta loja tinha sido ocupada pelos Secção de Turismo dos Caminhos de Ferro Alemães entre 1942 e 1946 e anteriormente por uma loja de roupa feminina e, anteriormente a esta, outra que dava pelo topónimo “Cardoso dos chapéus”, que só vendia chapéus para senhora sendo a sua primeira designação comercial “Cardoso & Cardoso”, mais tarde abreviado para “Pepe Cardoso, Lda.”

                              “Cardoso dos Chapéus”                                “Secção de Turismo dos Caminhos de Ferro Alemães”

 

O exterior da livraria “Ática” ficaria igual à fotografia anterior, onde estava instalada a Secção de Turismo dos Caminhos de Ferro Alemães”.

Luiz de Montalvôr - um dos poetas editor, colaborador e fundador da revista “Orpheu” em 1915 - não foi muito feliz na meteórica passagem pela “Editorial Ática”, que dirigia, pelo Chiado.

Orpheu

Mais tarde esta livraria mudar-se-ia para a Avenida da Liberdade.

Em 1942, Inicia a publicação das “Obras Completas de Fernando Pessoa”. Numa primeira fase dirigidas por Luiz de Montalvôr e João Gaspar Simões, a organização da obra foi posteriormente continuada sob a direcção de alguns dos nomes mais relevantes da cultura portuguesa, tais como Jacinto do Prado Coelho, Joel Serrão, Georg Rudolf Lind, David Mourão-Ferreira, Vitorino Nemésio ou Jorge de Sena. Editora exclusiva da obra de  Fernando Pessoa, de 1942 até à sua entrada no domínio público, foi a “Editorial Ática” a empresa responsável pela divulgação nacional e internacional da obra de Fernando Pessoa.
Em 1946, publicou as “Obras Completas de Mário de Sá-Carneiro”, e, mais tarde, a “Colecção Poesia”, cuja capa - desenhada por Almada Negreiros - se tornou uma referência da iconografia portuguesa do século XX.

 
 

 

Publicou “Noite de Satan”, “A Caminho” e “Arte Indígena Portuguesa”, em colaboração com Diogo de Macedo. Parte da sua obra poética foi publicada por várias revistas, entre as quais se destacam além da “Orpheu” e “Presença”, a “Exílio”, a “Athena” e “Seara Nova”.
Luiz de Montalvôr, viria a morrer afogado no rio Tejo, a 2 de Março de 1947, num acidente de viação que vitimou, igualmente, a sua mulher e o filho único de ambos, ficando ligada a uma fase pouco lucrativa da firma. Acidente? Suicídio? «Façamos com a dor, sem um queixume, / as guirlandas formosas desta vida!».

Artigo no “Mundo Literário” no nº 44 de 8 de Março de 1947

Março 1947


24 de Dezembro de 1947


Chegou a ter uma sucursal na Rua das Chagas, em Lisboa.


Depois da livraria “Ática” ter encerrado na Rua Garrett, em 1950, o espaço seria ocupado pela “CRGE - Companhias Reunidas de Gaz e Electricidade” actual EDP, até ao grande incêndio do Chiado ocorrido em Agosto de 1988, em que o edifício foi totalmente destruído.

Actualmente, e depois da reconstrução da zona atingida pelo incêndio do Chiado em 1988, o estabelecimento tem uma aparência, e não só, completamente diferentes, e é ocupada pela loja da cadeia “Nespresso”.

Loja da “Nespresso”

 

Fernando Pessoa diria sobre o poeta Luiz de Montalvôr:

«Não nos ilude Luís de Montalvor na expressão essencial dos seus versos: vive num mundo seu, como todos nós; mas vive com vida num mundo seu, ao passo que a maioria, em verso ou prosa, morre o universo que involuntariamente cria.»
 
fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital, Arquivo Municipal de Lisboa