Restos de Colecção

6 de maio de 2011

Restaurante “A Abadia”

O “Palácio Foz”, ou mais correctamentePalácio Castelo Melhor”, foi mandado construir, no século XVIII, pelo 4º Conde (e mais tarde 1º Marquês) de Castelo Melhor, D. José Vasconcelos Sousa Câmara Faro e Veiga. Neste palácio funcionaram a “Pastelaria Foz”, o “Salão Foz”, o “Club Maxim’s”, o “Central Cinema”, o restaurante “Abadia”, e o “Club dos Restauradores”.

Em Abril de 1917 foi inaugurado no velho edifício do “Palácio Castelo Melhor”, então propriedade dos condes de Sucena, (que o tinham comprado ao Crédito Predial em 1910 fruto da execução de uma hipoteca sobre o palácio em 1908), um estabelecimento denominado “Pastelaria Foz”, que nas suas caves tinha instalado o restaurante “A Abadia” , ambos propriedade da firma “Leitão & Cª.”

A “Pastelaria Foz” ocupava grande parte do andar térreo do “Palácio Castelo Melhor”, sendo servida por três das cinco portas da fachada (já demolidas), executadas por Domingos Costa em cantaria e ferragens, ornamentadas com motivos zoomórficos e de carácter vegetalista. Nelas trabalharam igualmente Jesus Peres Mora, Emílio Campos e elementos das oficinas “Jacob Lopes da  Silva & Cª.”

Exterior da “Pastelaria Foz” em 1918

 

O salão da pastelaria, era uma pastiche concebida ao gosto Luís XV e rocaille, por Viriato da Silva, com a colaboração do escultor José Neto.

Seu interior

Na cave da “Pastelaria Foz” ficava o restaurante "Abadia" . Este restaurante foi construído em 1916, e inaugurado conjuntamente com a “Pastelaria Foz”, no lugar anteriormente ocupado pelas cocheiras e arrecadações do Palácio Foz, com o projecto arquitectónico de Rosendo Carvalheira.

                                                           Abril de 1917                                                                         Junho de 1917

   

A 30 de Abril de 1943 este café-restaurante passou para a posse do Estado e estava dividido em três partes:

O "Claustrum" , com a sua " taberna vínica ", conforme se pode ler num dístico em ferro forjado. Imaginemos o secretismo de entrar neste local de culto original de 1917, quem entra dá de caras com um velho poço onde ainda corre água, de uma das imensas nascentes lisboetas, este fica localizado num espaço que copia um antigo claustro conventual, de influência manuelina. A restante decoração é feita com dragões, cachos de uvas, pombas, elefantes e muitos outros símbolos com segundos sentidos, entre os quais os bustos de 24 maçons que utilizavam este espaço.

         

                                   “Claustrum” com uma “Cela” na foto da esquerda, e poço na foto da direita

              

O "Refectorium" ,inspirado nos claustros do românico cisterciense peninsular. Nas cachorradas do “Refectorium” representaram bustos de personalidades decerto bem conhecidas na época (algumas ostentam símbolos de lojas macónicas), que seria curioso tentar identificar, e nas mísulas do “Claustrum” associaram aos temas clássicos cabeças de elefante de trombas entrelaçadas.

         

As "Celas", pequenas dependências de carácter reservado suspensas sobre o "Claustrum".

                                                               

                

Colaboraram na decoração e concepção deste restaurante, os escultores Costa Mota e José Neto e os pintores Domingos Costa, Luís Borges e José Bazalisa.

A par das caves do Teatro da Rua dos Condes, também neste restaurante “Abadia” realizavam-se as reuniões gastronómicas do grupo maçónico “Os Makavenkos”. O grupo dos Makavenkos era uma sociedade gastronómica-filantrópica fundada em 1884 por Francisco de Almeida Grandella (fundador dos “Armazens Grandella & Cª.”) com fins de solidariedade e beneficência. Faziam dela fazendo parte, entre outros, o duque de Lafões (D. Caetano de Bragança), Bulhão Pato, Rafael Bordalo Pinheiro, D. Francisco de Sousa Coutinho e o almirante Ferreira do Amaral. Política e religião eram assuntos nunca discutidos, tendo o seu ex-líbris como divisa «Honni soit qui mal y pense».

                                               

Máximas dos “Makavenkos’”

“Zela pelas coisas municipais, porque são também tuas.
Não deixes danificar as paredes e os muros, consentindo que lhe escrevam e as sujem.
Ama o teu país e sobre tudo a tua linda cidade de Lisboa. Evita por isso suja-la e que os mais a sujem."

É conhecida a sua intervenção na conspiração revolucionária que conduziu à implantação da República em 1910, assim como o subsídio da construção de empreendimentos de utilidade pública no âmbito da saúde e um altruísmo sem par (auxiliavam órfãos pobres, artistas desamparados e doentes carenciados). Também não faziam questão de guardar segredo no que toca às suas extravagâncias e excentricidades: nos vetustos jantares que serviam, faziam questão de reunir belas mulheres – sobretudo actrizes  – e eram acompanhados por uma orquestra de músicos de olhos vendados.

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

5 de maio de 2011

ANP nas Eleições de 1973

ANP era a sigla de “Acção Nacional Popular” , partido do antigo regime do Presidente do Conselho Prof. Dr. Marcello Caetano, que após ter concorrido às eleições de 1969, e ter ganho, concorreu de novo às eleições de 28 de Outubro de 1973. De seguida material de propaganda eleitoral para essas eleições.

                                                                        Cartazes, em 1973

                         

                                                       Folheto de propaganda da ANP em 1973

 

                               

                                 clicar para ampliar

panfletos in: Ephemera

Relembrando texto do post de 10 de Maio de 2010, com o título “O Ano Político de 1973” na etiqueta “Política” ….

« A Acção Nacional Popular elegeu a totalidade dos deputados, tendo a CDE, coligação entre o PCP e o PS, desistido por considerar que não existiam condições para a realização de eleições livres. Os trabalhos do novo Parlamento iniciaram-se em 15 de Novembro de 1973 e terminaram com a dissolução em 26 de abril de 1974.»

Uma passagem do Jornal Expresso de 9 de Outubro de 2008, a propósito do ciclo “Tempos de Transicção”:

«João Salgueiro foi o primeiro orador do colóquio 'O Regime e a Ala Liberal', realizado na quarta-feira e inserido no ciclo 'Tempos de Transição'. O secretário de Estado do Planeamento de Caetano recordou a derradeira conversa que teve com o último Presidente do Conselho do Estado Novo: "A última vez que estive com ele foi na quarta-feira de cinzas de 1974, já depois do golpe das Caldas da Rainha. Marcelo Caetano disse-me: 'Acabo de pedir a demissão [ao Presidente da República]. É a terceira vez que o faço e desta vez não volto atrás'. Mas depois voltou atrás. Foi pena".»

4 de maio de 2011

Hotel Ritz

O suíço César Ritz fundador do primeiro Hotel Ritz é considerado o pai da hotelaria. Iniciou a sua vida profissional a trabalhar no Hotel Savoy e abriu seu primeiro hotel em 1898 em França. Daí em diante o turismo passou a conhecer "o rei dos hoteleiros e o hoteleiro dos reis", como ficou conhecido.

César Ritz é sinónimo de elegância e sofisticação. Era um grande anfitrião, recebia a realeza e as classes abastadas. Era chamado de "mago" porque transformava hotéis decadentes em sofisticados, nada menos do que os melhores. A hotelaria é dividida em antes e depois de Ritz, ele revolucionou todos os padrões da época e continuam até hoje. Personalizou o serviço. Foi ele que criou os uniformes dos funcionários dos hotéis, estabeleceu várias modalidades de serviço, aumentou os quartos, inovou com a prática das casa de banho privativa em cada quarto, centralizou os serviços na recepção para melhor atender os clientes.

Projecto do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, o Hotel Ritz, de Lisboa, foi inaugurado em 25 de Novembro de 1959, após 7 anos desde o início do projecto. A inauguração, foi grandiosa e contou com as presenças do Rei Humberto de Itália, os Príncipes de Sabóia, os Condes de Barcelona e os Duques de Bragança.

                                                                           Maquete do Hotel Ritz

         

Este arquitecto não chegou ao final das obras por ter falecido em 1957, tendo sido substituído pelo arquitecto Leonardo Castro Freire. A arquitectura, a dimensão, a ousadia construtiva que colocou parte do edifício sobre pilares, ou a complexidade e actualidade do programa hoteleiro, fazem desta obra uma das mais monumentais da cidade de Lisboa. Domina a cidade como um grande paralelepípedo com a cobertura em terraço, linhas puras e recorte anguloso a quebrar a continuidade das frentes de rua e a escala da arquitectura circundante, “impositivamente moderno e também monumental”.

                                         

        

Nos anos 50, Ricardo Espírito Santo Silva e Manuel Queiroz Pereira, entre outros empresários, uniram-se para apetrechar Lisboa com uma unidade hoteleira de grande luxo, ao nível das melhores do mundo. O promotor deste hotel foi a “Sociedade de Investimentos Imobiliários”, da qual faziam parte alem de outros Manuel Queirós Pereira e Ricardo Espírito Santo.

A “Sociedade de Investimentos Imobiliários SODIM, S.A.R.L.”, com um capital social de 30.000 contos e dez sócios (cada com uma quota de 3.000 contos, equivalente a 10%), tinha sido constituída em 28 de Agosto de 1953. Os sócios iniciais eram António de Medeiros e Almeida (Proprietário da empresa importadora de automóveis A. M. Almeida), António Manuel de Almeida, Caetano Sanguinett Beirão da Veiga, José Eduardo de Barros Guedes de Sousa, José Ribeiro de Espírito Santo Silva, Manuel Cordo Boullosa (Empresa de petróleos Sonap), Manuel Teixeira de Queiroz Pereira, Ricardo Ribeiro do Espírito Santo Silva e ainda as empresas Bensaúde e Companhia, Lda. e Empresa Geral do Fomento, S.A.R.L..

                                        Salão Nobre                                                                  Jardim de Inverno             

        

Acarinhada desde a primeira hora, a ideia da construção de um grande hotel de luxo, que se transformaria na sala de visistas da cidade, acabou por receber um forte impulso com a venda por parte do estado Português de um terreno de 13.000 metros quadrados, no centro de Lisboa, junto ao Parque Eduardo VII.

Após a morte de Ricardo Espírito Santo Silva a direcção do projecto foi integralmente assumida por Manuel Queiroz Pereira, que visitou diversos hotéis estrangeiros para conhecer o que de melhor existia na altura.

Acompanhado por Georges Marquet – um belga proprietário da companhia Les Grands Hôtels Européens, que nos Anos Cinquenta era responsável pela exploração de algumas das melhores unidades hoteleiras mundiais -, Manuel Queiroz Pereira negociou o nome Ritz com o dono da famosa cadeia hoteleira, Charles Ritz, sendo então criada a Sociedade Hotéis Ritz – Portugal.

Na construção do Hotel Ritz foram utilizados materiais de primeira qualidade, entre os quais 15.000 toneladas de mármore. O hotel tem 15 andares, com uma área total de 52.000 metros quadrados. Foram construídos 290 quartos (incluindo 20 suites) em dez dos andares. Nos restantes estão a garagem, aréas técnica e pública, dois restaurantes ("Grill" e "Varanda"), um bar e 14 salas de conferências.

                                         Salão de Estar                                                                       Barbearia

        

                                                                                      Sala de leitura

                                       

Alguns dos mais prestigiados artistas portugueses contribuiram para a decoração do ‘Hotel Ritz’ com obras de grande valia – entre eles, Almada Negreiros, Martins Correia, Lagoa Henriques, Sara Afonso e Carlos Botelho. Carlos Calvet e Lino António criaram motivos para tapeçarias, que depois foram produzidas na famosa fábrica de Portalegre. As tapeçarias do salão de baile foram produzidas em Bruxelas e os três esplendorosos candelabros de cristal que aí se encontram vieram da Áustria, por encomenda especial.
 
Com uma localização privilegiada, sobre o Parque Eduardo VII, os terraços permitem fruir de horizontes espectaculares sobre as sete colinas da cidade e uma ampla panorâmica do rio Tejo.

                                               Suite                                                                                   Bar

        

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

Ocupando 13.000 metros quadrados, na sua construção foram utilizados materiais de primeira qualidade, entre os quais 15.000 toneladas de mármore. O hotel tem 15 andares, 290 quartos (incluindo 20 suites) em dez dos andares. Nos restantes estão a garagem, áreas técnica e pública, dois restaurantes ("Grill" e "Varanda"), um bar e 14 salas de conferências.

Na decoração nenhum pormenor foi descurado. Prestigiados artistas portugueses como Almada Negreiros, Martins Correia, Lagoa Henriques, Sara Afonso e Carlos Botelho contribuíram para a decoração com valiosas obras. Carlos Calvet e Lino António criaram motivos para tapeçarias, produzidas na fábrica de Portalegre. As tapeçarias do salão de baile foram fabricadas em Bruxelas e os candelabros de cristal são austríacos. Todas as portas são em mogno americano e as que servem de ligação entre os quartos têm dez centímetros de espessura, para assegurarem um completo isolamento acústico; o mesmo acontece com as janelas, equipadas com vidros duplos, produzidos em série pela primeira vez em Portugal.

Após a revolução de Abril de 1974 as convulsões por que passou o país reflectiram-se no ‘Hotel Ritz’, que foi intervencionado e utilizado durante bastante tempo para acolher os regressados das antigas colónias. O hotel passou por um período de auto-gestão, até que a família Queiroz Pereira procedeu à recompra de parte significativa das acções, tornando-se sócia maioritária da ‘SODIM, S.A.R.L.

Em 1979 foi estabelecido um contrato de management com a cadeia “Inter-Continental”, acordo que terminou no final do ano de 1997.

                                              

Foram iniciadas em 1990 obras de renovação total do ‘Hotel Ritz’, começando pela infraestrutura técnica e estendendo-se depois aos quartos e suites e finalmente às áreas públicas. A decoração começou por estar a cargo de Maria José Salavisa, passando em 1992 o responsável a ser o arquitecto de interiores francês Pierre-Yves Rochon, reconhecido internacionalmente pelo trabalho desenvolvido em projectos hoteleiros de luxo, como por exemplo a renovação do ‘George V Four Seasons Hotel’ , em Paris.

                                                               Fotos actuais, de uma suite e Salão de estar

         

Em 1997 foram executadas as obras no "lobby", bar e galeria de lojas, que contam com a presença da Cartier, Godiva, Anna Molinari, Antique Luís Ferreira, Mulberry e Louis Vuitton.

                                                                                          Piscina

                                              

Em 1998 o ‘Hotel Ritz’ passou a poder oferecer aos seus clientes uma excepcional Suite Presidencial cuja decoração foi coordenada por Maude Queiroz Pereira Lagos, esposa de Manuel Queiroz Pereira..

                                                                                   Suite Presidencial

         

A partir de 1 de Janeiro de 1998 a gestão desta unidade hoteleira passou a ser assegurada pela Four Seasons Hotels Inc. e a sua nova denominação passou a ser “Ritz Four Seasons Hotel “ Lisboa.

Em 25 de Novembro de 2009 , comemorou os seus 50 anos.

3 de maio de 2011

Antigamente (10)

                                                       Cinema ao ar livre, em Caxias, em 1961

 

                                                Trabalho na eira (debulhadeira a vapor) , em 1911

                                      

                                                     Campo de aviação na Amadora, em 1928

                                      

                                            Reportagem cinematográfica, na Feira Popular em 1950

                                      

2 de maio de 2011

Epopeia do Patrulha “Augusto de Castilho”

O comando do primeiro cruzador-submarino alemão, o U-139, de 1930, com 2.483 toneladas, foi atribuído ao maior ás da respectiva arma, o capitão de corveta Lothar von Arnauld de La Priére que trouxe consigo o seu inseparável e experiente comandante de artilharia, o capitão-tenente Kurt von Piotr. Foi, talvez, o último dos submarinos alemães a travar combate com os inimigos do Império Alemão até ao dia 24 de Outubro de 1918 em que recebeu a mensagem rádio para cessar toda a actividade bélica e regressar à base. As três unidades desta classe foram, sem dúvida, os submarinos mais poderosos da marinha alemã, equipados como estavam com duas peças de 150 mm e um telémetro retractável, exemplar único em submarinos, além dos 6 tubos para a dotação de 19 torpedos.

                                                                        Submarino alemão U-139

                              

Foi este U-139 que enfrentou, na madrugada de 14 de Outubro de 1918, o pequeno navio patrulha português “Augusto de Castilho”, apetrechado com duas minúsculas peças, uma de 65 mm à vante e outra de 47 mm, à ré. A denominação de navio patrulha revela bem a natureza da unidade enquanto navio de guerra.

Originalmente a embarcação era o arrastão de pesca “Elite”, pertencente à empresa Parceria Geral de Pescarias, Lda. mandado construir em Inglaterra.. Lançado em 1909, foi o primeiro arrastão português para a pesca do bacalhau. Como arrastão não provou bem por variados factores; máquina apesar de grande, era fraca para puxar as redes; elevado consumo de carvão, a técnica da pesca com a rede estava na mão do mestre de redes, um Francês contratado que não colaborava com o capitão do arrastão, o pessoal não estava preparado para este tipo de pesca, pelo que o navio foi retirado do bacalhau, experimentou pescar no Cabo Branco, com sucesso, mas acabou por ser substituído por navios mais pequenos.

A 13 de junho de 1916, devido à Primeira Guerra Mundial, o “Elite” foi requisitado pela Marinha Portuguesa para ser usado em missões de patrulha e escolta oceânica, entre o Continente a Madeira e Açores. Com cerca de 315 toneladas de deslocamento, accionado por uma máquina a vapor de tríplice expansão atingia a velocidade de 10 nós, sendo classificado como navio-patrulha de alto mar, o navio recebeu uma peça de artilharia de 65 mm à vante e outra, de 47 mm à ré. O navio foi rebatizado em homenagem ao almirante Augusto Vidal de Castilho Barreto e Noronha.

                                                                 Navio patrulha “Augusto Castilho”

                                      
 
Antes do combate que lhe provocou o afundamento, o “Augusto Castilho” já, por duas vezes tinha enfrentado submarinos inimigos. A 23 de Março de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Augusto de Almeida Teixeira, escoltando o vapor Loanda entre Lisboa e o Funchal, atacou a tiro um submarino inimigo que, imediatamente, mergulhou. A 21 de Agosto de 1918, sob o comando do primeiro-tenente Fernando de Oliveira Pinto, ao largo do cabo Raso, bombardeou um submarino inimigo de grandes dimensões que rapidamente desapareceu.

Naquele dia fatídico, o navio português escoltava o paquete “San Miguel”  (da Empresa Insulana de Navegação) que seguia da Madeira para os Açores com 206 passageiros e 54 tripulantes, entre os quais mulheres e crianças. Este navio patrulha tinha já escoltado de Lisboa para o Funchal o paquete Beira e, como a autoridade marítima da ilha não permitiu o desembarque da guarnição antes do período de quarentena, dado que em Lisboa grassava a peste, o 1º tenente José Botelho de Carvalho Araújo ofereceu-se para fazer a escolta ao “San Miguel” e assim aproveitar de uma forma útil os "dez dias da tabela" em que os seus homens teriam de ficar encerrados no vapor bélico. Depois, voltariam ao Funchal com direito a deambularem pelo morro da cidade. A canhoneira “Mandovi”, escalada para a protecção do paquete, ficou de guarda ao Funchal, cidade que tinha sido bombardeada a 12 de Dezembro do ano anterior pelo também cruzador-submarino U-156.

                                 Navio vapor “San Miguel” (1905-1930), da Companhia Insulana de Navegação                                            

                                      

O encontro com o gigantesco submarino-cruzador deu-se pelas duas da madrugada, como escreveu Kurt von Piotr no seu relatório do combate artilheiro: "Estava de guarda no quarto do meio e havia um luar claro quando às 2.00 da madrugada avistei duas embarcações, uma maior e um vapor mais pequeno que o comandante, entretanto chegado à torre, resolveu atacar a tiro de canhão. Levámos três horas a aproximarmo-nos dos dois navios que tentavam escapulir-se com quanta força tinham as suas máquinas. Pelas 5.00 da madrugada, o comandante deu-me licença para abrir fogo, o que fiz com a peça de 15 cm de vante, apontando-a para o vapor mais pequeno, por tomá-lo como o navio escolta".

Carvalho Araújo já tinha tomado a decisão de enfrentar o inimigo para permitir a fuga do “San Miguel”, apesar de o U-139 estar a disparar a uma distância totalmente fora do alcance das pequenas peças do “Augusto de Castilho”. Toda a guarnição correu para os seus postos de combate. Fogueiros e chegadores esforçavam-se até às últimas consequências para atingir os 10 nós, enquanto os marinheiros levam mais cunhetes para as peças e caixas de fumo para atirar à água e fazer fumo de encobrimento, caso seja necessário retirar, ajudados nessa tarefa pelos três passageiros militares e outros quatro civis, todos impedidos de desembarcarem no Funchal pela leis da quarentena.

            1º tenente Carvalho Araújo                                    Guarnição do “Augusto Castilho”

 Augusto Castilho.13

O imediato, o jovem guarda-marinha Manuel Armando Ferraz, dirige o tiro, correndo da peça da proa para a da ré. Ambas eram disparadas a olho, pois o pequeno “Augusto de Castilho” não possuía telémetro. Enquanto isto, o U-139 disparou um primeiro tiro contra o escoltador português que não acertou e um segundo contra o paquete que cai a 10 metros da proa do S. Miguel. Os dois tecnocratas da guerra alemães, De La Priére e Von Piotr, estavam no seu meio. Ambos tinham uma predilecção pelo combate artilheiro e sabiam estar em condições de superioridade, pelo que podiam poupar os torpedos que restavam. Julgavam mesmo que o problema seria resolvido em instantes; até trouxeram para a torre uma máquina de filmar. Queriam fixar no celulóide a morte daqueles portugueses perdidos e praticamente indefesos em pleno Atlântico para a glória posterior de um "Reich" que pouco mais teria afinal do que umas parcas semanas de existência.

                           Guarnição das peças de artilharia de 65 mm à vante, e de 47 mm a ré

                            

A terceira granada do U-139 rebenta na amura de estibordo do “Augusto de Castilho”, como relatou o sargento-ajudante Luís Simões em artigos publicados posteriormente no Diário de Notícias e reproduzidos pelo escritor e director da Biblioteca Nacional, João Palma Ferreira, na sua obra memorialista "Viagens, Fantasias & Batalhas".

Vendo o S. Miguel prestes a ser atingido, o bravo Carvalho Araújo ordena ao seu timoneiro que aproe directamente ao submarino, o que levou La Priére a mandar fazer marcha à ré, enquanto dispara salva sobre salva contra o pequeno pesqueiro a vapor. As granadas germânicas começam a rebentar dentro do navio, fazendo numerosas vítimas mortais, a primeira das quais foi o aspirante Eloy de Freitas. A cabine do telegrafista desfez-se quase ao mesmo tempo que a peça de vante é posta fora de acção. Ficou só o pequeno canhão de 47 mm da popa a fazer fogo com grande dificuldade. Entretanto, o S. Miguel vai-se afastando mais, daí a pouco estará fora do alcance dos canhões do U-139. Mesmo assim, os artilheiros do caça-minas não desarmam; continuam a disparar e o seu navio a receber granada sobre granada. Ao fim de duas horas de combate estavam praticamente esgotadas as munições e parte da guarnição do “Augusto de Castilho” morta ou ferida. Do S. Miguel já nada se via. Por ordem de Carvalho Araújo, o sargento Simões ainda vai disparar o último cunhete sobre o submarino alemão que se encontrava a curta distância. Esgotado o último cartucho, o U-139 ainda dispara contra o caça-minas que, por ordem do comandante, tinha içado a bandeira verde rubra da sua querida República.

                                                Exemplo dum rombo provocado por torpedo      

                               

Carvalho Araújo não quis ir para o fundo com uma bandeira branca, por isso foi atingido por uma das últimas granadas que explodiu junto ao local em que se encontrava na cabine de comando. O herói cai no convés, morto, enquanto o imediato fica gravemente ferido.

Terminado o fogo pelas 08.30, os sobreviventes lançam a custo o escaler salva-vidas ao mar, fazendo-se a ele cheio de gente. O resto do pessoal, sob o comando do guarda-marinha Ferraz muito ferido, totalizando vinte homens tentava, quase sem o conseguir, pôr a baleeira na água. Os do salva-vidas ainda tentaram ajudar, mas receberam ordens com armas apontadas do submarino alemão para se afastarem imediatamente do local. Os sobreviventes desesperavam; não conseguiam mover a baleeira, pelo que aproveitaram um bote que estava dentro do picadeiro, mas também sem o conseguir. Por fim, 12 dos sobreviventes lançaram-se ao mar numa jangada de salvamento e em coletes de cortiço.

                                                             Página da revista Ilustração Portuguesa, em 1923

                                   

fotos anteriores in: Hemeroteca Digital

Os artilheiros alemães observavam sorridentes as dificuldades dos portugueses e, depois, resolveram fazer sinal aos portugueses para subirem para o seu tombadilho, ajudando-os com cordas e bóias lançadas ao mar. O enfermeiro ou médico de bordo apareceu e, ajudado por uns camaradas, começou a fazer uns pensos aos mais feridos, enquanto Von Piostr filmava a cena em todos os seus detalhes. "Também deram uns refrescos em copos de alumínio", escreveu o sargento Simões. O guarda-marinha Ferraz falou em francês com Von Piotr, conseguindo convencê-lo a deixar ir a bordo do caça-minas buscar o bote e os feridos que lá ficaram.

                                               “Augusto de Castilho” junto ao submarino U-139

                                                

Tiveram o consentimento dos alemães, mas não permitiram que os náufragos portugueses levassem um sextante e uma bússola. Obviamente, temiam que aparecesse algum navio das esquadrilhas aliadas de S. Miguel, entretanto avisadas pelo paquete português e não queriam o local e o rumo do submarino devidamente assinalado. Os alemães limitaram-se a apontar a direcção da ilha de S. Miguel, iniciando os náufragos portugueses a odisseia de navegarem a remos até à ponta do Arnel na Ilha de S. Miguel. O bote comandado pelo guarda-marinha Ferraz metia água, pelo que foram precisos os sobretudos e luvas para colmatar as brechas. Foi um autêntico martírio e esforço inaudito, a viagem por mais de duzentas milhas em seis dias quase sem água nem mantimentos. Eram 12 náufragos, dos quais 8 estavam feridos, sendo que um morreu na viagem. Seis cadáveres foram para o fundo no Augusto Castilho, entre eles, o do bravo comandante Carvalho Araújo que quando soube que as munições estavam no fim disse ao imediato: -"Deixá-lo! Morro como português". O artilheiro Von Piotr ainda escreveu no seu relatório: "Foi com grande pesar que deixámos a valente guarnição à sorte incerta num barco prejudicado pelos estilhaços de granada e mediocremente calafetado".

- Texto anterior baseado em excerto do livro “Um Século de Guerra no Mar” de Dieter Dellinger

                                                     

A marinha portuguesa perdeu durante a 1ª Guerra Mundial 89 embarcações (registados), entre navios vapor, iates, barcas, lugres, traineiras e escunas. O primeiro a ser afundado foi o vapor “Mira” de 1.633 tons, em 24 de Novembro de 1914 e pertencente aos ‘Transportes Marítimos do Estado’ . O último navio vapor a ser afundado foi o “Cazengo”, de 2.889 tons, torpedeado em 8 de Outubro de 1918, e pertencente à ‘Companhia Nacional de Navegação’, em águas francesas durante a viagem de Liverpool para Lisboa. Morreram 4 homens da tripulação.

                           Navio vapor “Cazengo” (1899-1918), da ‘Companhia Nacional de Navegação’

                               

A última embarcação afundada, cujo incidente haja registo, foi o lugre “Maria Emília”, navegando à vista das ilhas Bermudas, em 5 de Novembro de 1918. Pertencia à praça da cidade do Porto.

- Dados estatísticos retirados do livro: “Ao Serviço da Pátria” de Costa Júnior

O nome de “Augusto Castilho” foi dado de novo a um navio da Marinha de Guerra, em 1970, a uma corveta ‘Classe João Coutinho’

                                                      Corveta  “Augusto Castilho”  (1970-2003)

                                

O nome do tenente Carvalho Araújo, foi posteriormente também dado a um Aviso de 2ª Classe (1915-1964), a um Paquete (1930-1972) da ‘Empresa Insulana de Navegação’, ao Navio Hidrográfico (1959-1975)  e finalmente a um cargueiro (1972-1986) da ‘Empresa Insulana de Navegação’ .

                            Paquete “Carvalho Araújo” (1930-1972) da Empresa Insulana de Navegação