25 de novembro de 2018

Restaurante e Hotel “Irmãos Unidos”

O “Restaurant Irmãos Unidos” terá aberto as suas portas, pela primeira vez, por volta de 1832, na Praça D. Pedro IV e com entrada, também, pela, então, Rua das Gallinheiras (actual Praça da Figueira) onde ficava a sua cozinha. Quanto ao “Hotel Dois Irmãos Unidos”, mais tarde apenas “Hotel Irmãos Unidos”, terá sido inaugurado por volta de 1853, no mesmo edifício do Restaurant, e que era propriedade duma família galega.

“Hotel Dois Irmãos Unidos” com o “Restaurant Irmãos Unidos” na elipse desenhada e entrada para o Hotel ao seu lado

“Novo Guia do Viajante em Lisboa e seus arredores, Cintra Collares e Mafra” de 1853

O mui conhecido “Restaurant Irmãos Unidos” assim como o “Hotel Dois Irmãos Unidos” foram fundados pelos dois irmãos galegos Florêncio Abril Bugarin e António José António Abril Bugarin, e que se tornou muito conhecido pelo famoso grupo “Orpheu” (que ali nasceu em 1915), sendo apelidado pelo «matafomes».

Excerto em “Caricaturas á penna, esbocetos litterarios em prosa e verso” de Camillo Marianno Froes, em 1862

“Guia do Viajante em Lisboa e seus arredores, Cintra Collares e Mafra” de 1880

Por morte destes irmãos a propriedade deste restaurante e do Hotel passa para o casal abastado de galegos António Venâncio Guisado y Toucedo e Benita Abriz Gonzalez, a quem, por sua vez, sucederá seu filho, António Venâncio Guisado, pai do poeta, deputado e jornalista Alfredo Pedro Guisado (1891-1975). De referir que a sua família possuía uma boa condição económica e tinha negócios na área da restauração, dos cinemas (Royal Cine), imobiliário (possuia andares e armazéns que alugava, por exemplo: Rua dos Douradores, Rua Praia da Vitória, Avenida Defensores de Chaves, etc.) e hotelaria (“Hotel Dois Irmãos Unidos”).

Alfredo Pedro Guisado (1891-1975)

Placa evocativa no prédio do antigo “Francfort Hotel” ex- “Hotel Irmãos Unidos”

Este modesto “Hotel Dois Irmãos Unidos”, que teve anos mais tarde a sua designação simplificada para “Hotel Irmãos Unidos”, já era propriedade do galego Domingo Antonio Gonzalez y Oubiña em 1888, e seria adquirido por volta de 1893 pela firma “A.J.Silva & Cª.”, - de Antonio José da Silva e sua esposa Joaquina Pereira da Silva - que era proprietária do “Hotel Francfort”, na rua de Santa Justa, tendo mudado o nome de “Hotel Irmãos Unidos” para Francfort Hotel”.

1888

1898

“Restaurant Irmãos Unidos” (dentro da elipse desenhada) em 16 de Outubro de 1910

Em 1954 o “Restaurante Irmãos Unidos” já era propriedade de António Guilherme Guisado, irmão de Alfredo Guisado, e que promove, nesse ano, uma grande renovação nas instalações.

“Restaurant Irmão Unidos” em finais dos anos 40 do século XX (dentro da elipse desenhada)

“Restaurant Irmão Unidos” em 1954 com os tapumes das obras, entre a “Camisaria Moderna” e a “Primaz

“Restaurante Irmão Unidos” em foto dos anos 60 do século XX

Irmãos Unidos.4

Foi para decoração duma das paredes do “Restaurante Irmãos Unidos”, que o seu proprietário António Guilherme Guisado, encomendou ao mestre José de Almada Negreiros (1893-1970) um quadro para homenagear Fernando Pessoa, ilustre cliente e membro co-fundador da revista “Orpheu”. Este pintou a primeira versão do retrato de Fernando Pessoa, em 1954, tendo recebido pelo seu trabalho a quantia de 30.000$00. Ao lado do quadro foi mandado colocar uma placa de mármore com o nome dos fundadores da revista “Orpheu” em Março de 1915.

Almada Negreiros (1954)      Placa Orpheu

O “Restaurante Irmão Unidos” encerraria definitivamente em 31 de Dezembro de 1969, depois de ter sido declarada a sua insolvência, tendo sido efectuado um leilão judicial em 17 de Janeiro de 1970, pela firma leliloeira “Sarmento & Mendonça, Lda.”

Artigo na revista do “Diario de Notícias”

Quanto ao quadro de Almada Negreiros seria arrematado, nesse leilão, pelo antiquário Joachim Mitnitzky por 1.350 contos (Um milhão e trezentos e cinquenta mil escudos). A título de compensação António Guizado paga a Almada Negreiros a quantia de 228.000$00 (duzentos e vinte e oito mil escudos). No mesmo ano esta pintura seria adquirida pelo banqueiro Jorge de Brito e posteriormente oferecida ao município lisboeta, estando exposta na “Casa Fernando Pessoa”. Uma cópia, ou melhor 2ª versão deste quadro «invertida» seria pintada por Almada Negreiros e adquirida pela “Fundação Calouste Gulbenkian”. O mestre José de Almada Negreiros faleceria, em Lisboa, neste mesmo ano de 1970, em 15 de Julho.

Actualmente no lugar do “Restaurante Irmão Unidos” uma loja de roupas (via “Google Maps”


fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Arquivo Municipal de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Blog “Rua dos Dias Que Voam”

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