17 de novembro de 2013

Cortejo Histórico de Lisboa em 1947

O "Cortejo Histórico de Lisboa" inserido nas "Comemorações do VIII Centenário da Tomada de Lisboa aos Mouros", teve lugar em Lisboa no dia 6 de Julho de 1947, com a presença do Presidente da República o Marechal Óscar Carmona,  o Presidente do Conselho Dr. Oliveira Salazar, Cardeal Patriarca de Lisboa D. Gonçalves Cerejeira, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (substituto) Luís Pastor de Macedo, ministros e outras individualidades.

                     Tribuna de Honra do “Cortejo Histórico de Lisboa”                                   Cartaz do VIII Centenário

  

Organização das “Comemorações do VIII Centenário da Tomada de Lisboa aos Mouros”

A concepção, organização e direcção artística, do “Cortejo Histórico de Lisboa” ficou a cargo de Leitão de Barros (1896-1967) cineasta, jornalista, dramaturgo e pintor. Este cortejo inspirado nas cerimónias faustosas de D. Manuel I, foi constituída por mais de três mil figurantes, todos vestidos a rigor, numerosos carros, andores, charolas, etc. Leitão de Barros teve como principais colaboradores Carlos Ribeiro e José Matos Sequeira. Recordo que foi Leitão de Barros que realizou em 1931 o primeiro filme sonoro português "A Severa".

Leitão de Barros nos bastidores do Cortejo Histórico

  

Para acompanhar as fotos optei por transcrever excertos dum épico, vibrante e patrióticamente exaltante, texto escrito pelo jornalista e repórter Artur Portela (pai do actual jornalista Artur Portela) no “Diário de Lisboa” em 6 de Julho.

«Cortejo de dois quilómetros e dois mil e quinhentos figurantes que, perpassa incessantemente, entre a cidade atónita, viva de quase meio milhão de espectadores, que densamente recobrem as ruas, as praças, os telhados, os edifícios, as árvores como enxames de abelhas, multidão absurda, desvairada neste assombro imenso, que do Oriente, simbolicamente caminha para o Ocidente, como se o Sol em chamas, numa suprema glorificação, coroasse com a sua tiara de fogo este jubileu monumental de grandeza.»

  

Programa do “Cortejo Histórico de Lisboa” e percurso

 

 

«São oito seculos de historia, que desfilam através das ruas de Lisboa. De todas as apoteoses, é, singularmente, a mais bela, bizarramente, a mais deslumbrante, um verdadeiro furacão de oiro, coruscante de pedrarias, coroado de estatuas, refulgente de epopeia, triunfal de carros, engalanados de estandartes, tropeante de mais quinhentos cavalos, baios e hacaneias com animais exoticos, elefantes hidropicos e camelo faraonicos, estrondeante de canoras tubas e longas de prata, com palanquins da India e rajás da Pérsia, Ormuz, Gôa e Malaca (...), balsões com todos os reis que engrandeceram a cidade maioral desde Afonso Henriques, com a sua loriga e bacinete de ferro, até D. Manuel, o mais sumptuoso, nos seus brocados orientais, gentes de armas, que descem das tapeçarias de Pastrana, confrarias negras, os ofícios da Casa dos 24, carros e palamentas, pavilhões aurifulgentes.»

 

 

 

 

«Lisboa nunca viu coisa assim! A história não o regista, nem a memoria dos homens! Está muda de espanto. A alma da multidão parece aterrorizada! Sufoca na hipnose deste espectáculo, que marcha lento, sobrecarregado de pedrarias, fulgindo metais preciosos, irradiando lhamas, escorrendo fulgores de purpura, gemas, lantejoulas, paineis e plumas e que parece não ter fim, atroante e caudaloso, por vezes em torvelinhos feericos, outras entre florestas de lanças e de guiões, em que as armaduras relampejam, há catedrais fundidas em oiro, carros de cristal, baldaquinos de prata, nuvens de incenso, andores majestosos - numa palavra, Lisboa moura afonsina, joanina, dionisíaca, manuelina, as suas muralhas, as suas conquistas, as suas descobertas, os seus foros, as suas reliquias, o povo e a historia, reis, fidalgos,
navegadores, capitães, donatários, o clero, e as suas ordens, homens de armas passavantes, mesteirais e confrarias, num arco iris deslumbrante de trajos, em pintura sumptosa, raiados de vermelho, epifanias de roxo, turbilhões de azul, ao som de acordes marciais e clangores de guerra, num "Te-Deum" glorificante à cidade eterna.»

 

 

 

 

«Tempestades de aplausos rebentam na multidão oceanica, em ressacas de entusiasmo (...). O povo grita no desvairamento da visão alucinada.(...) entre ovações intermináveis e olhos maravilhados, que não querem acreditar que aquilo foi realidade, ontem, e hoje é beleza, transfiguradora de arte, de estatuaria, de pintura, de sumptuosidade e de historia triunfais.»

«Já é impossível dar nota de tudo. São duas horas fatigantes, que cansam a retina, e, continuamente se renovam de maravilhas. A multidão violada de tanta beleza, como que sucumbe de deslumbramento. Isto cansa, mas os olhos, na visão imorredoura, obstinam-se, cruciantemente, abertos á transfiguradora magia.»

 

 

 

 

«E o desfile, alfim termina, com guarda romana, capacetes e couraças de oiro, grande manto escarlate, de espadas curtas, entre o coro de charamelas, que já não se ouve, num troar de aplausos que parece abalar os velhos muros da cidade imortal!.»

E terminou com o desfile do “Carro da Cidade” , puxado por dezoito cavalos brancos alados e escoltado pela “Guarda Fantasiada” dos soldados romanos. Este carro transportava quatro raparigas que encarnavam as figuras simbólicas da cidade de Lisboa: “Lisboa Primitiva”; Lisboa Brigantina”, “Lisboa Pombalina  e “Lisboa Eterna”.

Desfile do “Carro da Cidade”

 

Este cortejo seria repetido a 20 de Julho do mesmo ano, já com a presença de Eva Perón ("Evita"), esposa do Presidente da Argentina, durante a sua visita a Portugal.

Na altura, foi produzido um pequeno documentário pela Câmara Municipal de Lisboa, acerca deste “Cortejo Histórico de Lisboa”, e dirigido por António Lopes Ribeiro. Este documentário, de cerca de 12 minutos, e que seria o primeiro a cores realizado no nosso país, pode ser visto no “Youtube” e no seguinte link: “1947 - Cortejo Histórico de Lisboa

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, Hemeroteca Digital de Lisboa, Frenesi Loja

3 comentários:

rmg disse...


Meu caro

Álvaro Salvação Barreto era o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa , lugar que ocupou de 1944 a 1959 , salvo erro .
Em 1947 Luís Pastor de Macedo era o Presidente substituto , lugar que ocupou desde esse ano até 1959.

Um abraço

José Leite disse...

Caro RMG

Tem toda a razão. Grato pela correcção

Um abraço

José Leite

Anónimo disse...


Acabava de nascer... !

O meu pai aflito não conseguia passar para a antiga maternidade Magalhães Coutinho e só dizia... "Deixem-me passar, tenho que ir para a maternidade " rs