2 de julho de 2014

Bombeiros Voluntários da Ajuda

Os “Bombeiros Voluntários d’ Ajuda” foram fundados em 10 de Abril de 1880, sob a designação de “Real Associação dos Bombeiros Voluntários da Ajuda”,  no Largo da Ajuda, num pequeno edifício de quatro janelas, junto à estação dos Bombeiros Municipais do Concelho de Belém.

O seu nascimento resultou da iniciativa de uma comissão de moradores, que tiveram conhecimento da existência de uma bomba “Flaud”, numa arrecadação do Palácio da Ajuda, a qual tinha sido oferecida por D. Pedro I (Imperador do Brasil), ao nosso rei D. Luís I. Assim nasceu a 13ª Corporação de Bombeiros Voluntários de Portugal, cujos estatutos foram aprovados por alvará de 2 de Maio de 1881, com base nos estatutos da 1ª corporação de Bombeiros Voluntários de Portugal - os “Bombeiros Voluntários de Lisboa”, fundada por Guilherme Cossoul.

Exemplo de notícia de um incêndio, no “Diario Illustrado” em 10 de Abril de 1880

Depois de cedidas a bomba “Flaud”, acima referida e instalações apropriadas, no Palácio da Ajuda, pelo rei D. Luís I, os Bombeiros Voluntários da Ajuda começaram a funcionar. O seu primeiro Comandante foi António Eliziário Muscatt Cordeiro e o primeiro aspirante foi Artur de Moura Muller. Em assembleia-geral, foi nomeado presidente honorário o Infante D. Afonso, facto registo em carta régia de 2 de Maio de 1881, bem como a autorização para uso do titulo de “Real Associação dos Bombeiros Voluntários d’ Ajuda”.

Em 1883, a “Real Associação dos Bombeiros Voluntários d’ Ajuda” mudou de instalações de novo, tendo passado para a Calçada da Ajuda, onde começou a pernoitar por dois voluntários. Em 1888, com o desenvolvimento da sua actividade,  passou a ter instalado quatro esquadras, em Lisboa, Casa Pia e no Hospital São José. Em 1890 instalou também uma esquadra em Colares. O Infante D. Afonso foi o segundo comandante da “Real Associação dos Bombeiros Voluntários d’ Ajuda”, em 1889.

 

  

Por volta de 1906/1907 a “Real Associação dos Bombeiros Voluntários d’ Ajuda”, mudaria de instalações par a Praça da Alegria, inaugurando as instalações do seu quartel em Fevereiro de 1917.

Notícia na revista “Ilustração Portugueza” em 19 Fevereiro de 1917

“Bombeiros Voluntários d’Ajuda” na Praça da Alegria em 1925

Ao dar-se o movimento revolucionário que implantou a República, em 5 de Outubro de 1910, os “Bombeiros Voluntários d’Ajuda” eram a única colectividade que em Lisboa tinha um serviço de saúde organizado, com que comparecia em todos os incêndios e outros desastres.

Arvorando a sua sede a bandeira da “Convenção de Genebra” e improvisando na sala da direcção um posto de socorros, foi este corpo de bombeiros que levantou os primeiros feridos da Revolução e conduziram também á morgue a primeira vitima do movimento.

Posto de socorros durante a Revolução de 5 de Outubro de 1910

Terminado o período revolucionário e elaborado o relatório dos serviços prestados, foi este enviado às entidades competentes e á “Sociedade da Cruz Vermelha”, onde a nossa Associação se achava filiada. Mas esta sociedade, ao publicar o relato dos seus serviços nesse movimento, os quais só iniciara depois de 5 de Outubro, nenhuma referência fazia aos Bombeiros Voluntários da Ajuda.

Este facto motivou um descontentamento entre todos os associados. Então o mesmo grupo, orientado por Lima Amaro, lançava a ideia da “Cruz Verde”, proposta que a direcção abraçou e que desde logo foi adoptada.Reformados os estatutos da Associação, a 14 de Agosto de 1912, era tornado oficial o distintivo “Cruz Verde”, que passou a ser de uso exclusivo da mesma.

BVA.13 (1924)

 

Na foto seguinte o funeral do Infante Dom Afonso, com a urna a ser transportada pelos “Bombeiros Voluntários da Ajuda”, de que o falecido era comandante honorário.

Comemorações dos 50 anos dos “Bombeiros Voluntários da Ajuda” em 10 de Abril de 1930

 

Quartel dos “Bombeiros Voluntários da Ajuda” na Praça da Alegria, em Lisboa em 1963 e 1965

 

Com os anos, muitos foram os voluntários que fizeram serviço nos “Bombeiros Voluntários da Ajuda”. Alguns, distinguiram-se em termos sociais, como o actor António Silva, que chegou a comandante deste corpo de bombeiros.

«O grande actor, eternizado em inúmeros filmes dos anos de ouro do cinema português, que continuam a fazer sucesso e a contagiar diferentes gerações de público, alistou-se nos BVA, como bombeiro de 3.ª classe, a 1 de Dezembro de 1905.
Ali se manteve até 30 de Abril de 1941, data da sua passagem ao Quadro Honorário. Era, desde 7 de Maio de 1932, comandante.
Cronologicamente, eis a evolução de António Silva, na carreira de bombeiro, totalizando cerca de 36 anos de serviço efectivo: 1905 - bombeiro de 3.ª classe; 1921 - bombeiro de 2.ª classe; 1922 - bombeiro de 1.ª classe; 1929 - ajudante de comando; 1932 - comandante; 1941 - comandante do Quadro Honorário.
Disciplinado e disciplinador foram qualidades que afirmaram António Silva, a par de uma atitude corajosa e abnegada. Não tolerava actos e comportamentos que pudessem atingir a honra, a dignidade e o elevado sentido de missão dos bombeiros.
Procurando exercer a função de comandante com o maior zelo, chegou a sair de cena a fim de responder à chamada. Um dia, impedido de vestir a farda que tinha sempre no camarim, por falta de tempo, seguiu para o local do incêndio, na baixa de Lisboa, figurado de sopeira. Imagine-se, pois, o espanto de um chefe dos Sapadores Bombeiros quando, em pleno de teatro de operações, pensando que uma senhora se intrometera na direcção do ataque às chamas, deu de caras com o prestigiado comandante António Maria da Silva…» in: jornal “Bombeiros de Portugal”.

António Maria da Silva (1886-1971) ao serviço dos “Bombeiros Voluntários d’ Ajuda”

  

Outros, sacrificaram até a própria vida, ao procurarem salvar quem deles precisava, como o Ajudante de Comando José Rodrigues da Silva (morto em serviço a 4 de Abril de 1971). Mas foi com a colaboração de todos que se conseguiu chegar até aos nossos dias. Com um Corpo Activo que conta com cerca de 70 elementos e instalados actualmente na Praça da Alegria, em edifício próprio, os “Bombeiros Voluntários da Ajuda” aspiram a ter um quartel, na sua zona de actuação natural - a Ajuda.

As actuais instalações dos “Bombeiros Voluntários da Ajuda” , e as antigas em venda

 

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Bombeiros de Portugal, Hemeroteca Digital

6 comentários:

jmsc disse...

Mais uma vez expresso-lhe a minha admiração por este post. De facto o meu avô materno foi voluntário nesta corporação por volta de 1919, 1920. Vivia com os meus bisavós na travessa do Salitre, onde exploravam uma pequena papelaria. Talvez das histórias que me contava tenha nascido o meu grande interesse pelos bombeiros da capital. Bem-haja!

José Leite disse...

Caro JMSC

Grato pelo deu amável comentário

Os meus cumprimentos

José Leite

João Celorico disse...

Caro José Leite,
Neste “post”, interessante como sempre, reparando no postal publicitário dos extintores “Minimax”, julgo que os Agentes Gerais, Lima Netto & Companhia, na rua da Prata,145, se devem ter transformado, nos anos 40, na Sociedade Comercial Luso Americana, propriedade de Lima Mayer, representando as máquinas de escrever “Royal” e as calculadoras “Facit” e “Roneo”. Esta firma entrou em declínio ainda nos anos 50/60 e alguns dos seus trabalhadores deram origem à “MESSA”.

Melhores cumprimentos

João Celorico

José Leite disse...

Caro João Celorico

Muito grato pela sua informação adicional.

O mesmo Thomaz Lima Mayer tinha uma empresa de reprografia, a "Lima Mayer & Cª", com instalações em Cabo Ruivo.

Tenho um artigo, já elaborado, acerca desta empresa que publicarei brevemente.

Mais uma vez muito obrigado pelas suas preciosas informações.

Cumprimentos

José Leite

Ulisses Santos disse...

Bom dia José Leite,

Passei ontem na Praça da Alegria e reparei que o quartel passou para o RSB, as novas instalações são junto à Faculdade de Arquitectura na Ajuda.

Cumprimentos

José Leite disse...

Bom dia Ulisses Santos,

Muito obrigado pela informação actualizada.

Os meus cumprimentos