Restos de Colecção: A "Tendinha" do Rossio

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11 de junho de 2019

A "Tendinha" do Rossio

A "Tendinha" localizada na Praça D. Pedro IV (Rossio) em Lisboa, foi fundada em 1818. Apesar do painel de azulejos colocado no seu interior, indicar a sua fundação em 1840, o anúncio publicitário publicado no jornal "A Capital" de 8 de Abril de 1914, e que publico de seguida, refere que a mesma terá ocorrido em 1818 ...

A "Tendinha" (dentro da elipse) em 1881


Anúncio no jornal "A Capital" em 8 de Abril de 1914


A partir de 1840 a "Tendinha", pelas mãos do seu proprietário João Lourenço Represas, começou a comercializar o negócio de vinhos «com um typo de Collares e outro de Bucellas que era um verdadeiro delirio e um completo assombro. A medicina recommendava aos convalescentes a especialidade d'este Collares, conhecido pelo nome de Collares Ramisco e, embora os conhecimentos therapeuticos se tenham desenvolvido, a verdade é que os medicos ainda hoje não encontraram melhor tonico para aconselhar os seus clientes.»

Gravura de 1848


João Represas faleceria em 1894 deixando o seu estabelecimento à sua mulher, conhecida por Viúva Represas. Mais tarde suceder-lhe-ia, na gerência seu genro José Nunes Godinho, que era proprietário da "Rouparia Central" na Rua do Ouro.

Na revista "Serões" de  Julho de 1901, pode-se ler: «Dois passos andados,cheguei então á Tendinha, á celebrada Tendinha do afamado vinho de Collares, ponto de reunião de toureiros e aficionados de todas as estações do anno, onde só se discutem, touros, cavallos e ... mulheres.»

   

Quando no início do século XX José Godinho pensou em fazer obras e melhoramentos na "Tendinha", não faltaram os protestos «contra essa profanação .... Não, a "Tendinha" devia continuar assim mesmo, visto que o seu ramo de negocio não ficava prejudicado por se manter dentro de um velho relicario. E, todavia, se bem que com aquella aparencia modesta, o tradicional estabelecimento tem altos titulos nobiliarchicos, brazões de fidalguia que não são vulgares encontrarem-se.»

Os "Marialvas" e os "Nizas", linha nobre de boémios que marcaram uma época e definiram uma geração e «confirmaram o genio venturoso e bravo duma raça», ao regressarem das touradas e antes de se dirigirem para o "Marrare", ali discutir, junto de um cálice de precioso vinho, as vitórias e derrotas das arenas. Para exemplificar aqui fica uma passagem do livro "Philosophia de João Braz" da autoria de António da Silva Pinto (1848-1911) e editado em 1895:
«Volvidos mezes encontrei o bacharel, e a custo o reconheci. Estava um homem da côrte. Tinha perdido o ar embezerrado de parvalheira com pêllo e tomara os ares decididos de frequentador da tendinha do Rocio e do Marrare do Arco do Bandeira.»

Outras referências à "Tendinha" do Rossio poderão ser encontradas em livros de Fialho d'Almeida (1857-1911), na revista "Serões", etc.

A "Tendinha" (dentro da elipse desenhada) em 20 de Julho de 1928


«E era aquella mesma porta chapeada de ferro, eram aquellas mesmas paredes, pesadas e sombrias, era aquella mesma chave com trinta centimetros de comprimento. Somente, n'esse tempo, a "Tendinha" pagava dez moedas de aluguel de casa, ao passo que, presentemente, o senhorio exige-lhe seiscentos mil reis ...» citações anteriores retiradas do jornal "A Capital" de 10 de Agosto de 1916.

Em 1934, a fadista Hermínia Silva (1907-1993) cria para a Revista "O Zé dos Pacatos" no "Teatro Apolo", o fado "A Velha Tendinha", com música de Raúl Ferrão e letra de José Galhardo.

Disco de 78 rpm do fado "A Tendinha"



Aqui fica a letra:

Junto ao Arco de Bandeira
Há uma loja a Tendinha
De aspecto rasca e banal
Na história da bebedeira
Aquela casa velhinha
É um padrão imortal

Velha taberna
Nesta Lisboa moderna
É da tasca humilde e terna
Que mantém a tradição
Velha tendinha
És o templo da pinguinha
Dos dois brancos, da gimbrinha
Da boêmia e do pifão

Noutros tempos, os fadistas
Vinham, já grossos das hortas
Pró seu balcão caturrar,
Os fidalgos, e os artistas
Iam p'rá 'li, horas mortas
Ouvir o fado e cantar

A ver pelos primeiros 7 títulos dos quadros da Revista ...  1º - Propaganda dos vinhos. 2º - O nosso S. Martinho; 3º - Vinho velho, vinho novo. 4º - Folhas de Parra. 5º - Corpos gerentes. 6º - Fadistas e Marialvas. 7º - Tarde de Touros.


A "Tendinha" em foto dos anos 60 do século XX. Repare-se na balança de rua


Fadista Alfredo Marceneiro no interior da "Tendinha"


Já em 1941, a revista "Olisipo" escrevia:
«De entre as vendas de vinho da capital, tem particular fama a Tendinha do Rossio, junto ao Arco do Bandeira, sôbre cuja porta se vê ainda hoje um quadro alusivo ao que foi a locanda em 1840. Na loja guardam-se e estão à vista na montra as enormes chaves do primitivo estabelecimento à mistura com garrafas de vinho daquele tempo. Continua a ser muito frequentada bem como casa do Zé Dieguez, na Rua Paiva de Andrade, onde se reuniam os oficiais do copo, os marialvas e decilitreiros do século passado, e a adega do Mendonça, dos vinhos da Arruda, no largo da Guia, hoje de Martim Moniz.»

A "Tendinha" continua a comercializar a "Ginginha Sem Rival", produzida pela casa com o mesmo nome e localizada na Rua das Portas de Santo Antão, desde 1894, cuja história poderá ser consultada neste blog no seguinte link: "Ginja Sem Rival".



Depois de ter ficado na posse dos herdeiros até 1974, passou para a propriedade da firma "Calheiros e Carmo Ldª", actuais donos, servindo uma das melhores sopas e sandes de presunto da Beira Baixa. 

1 comentário:

wind disse...

Com sua licença vou levar para colocar no Facebook, porque é muito interessante1

Obrigada

O meu nick no Facebook é Isabel Mar Cruz

cumprimentos