12 de fevereiro de 2017

Revolta do Porto em 1927

A “Revolta do Porto”,  em Fevereiro de 1927, ou “Revolta Sousa Dias” -  por ter sido liderada pelo General Adalberto Gastão de Sousa Dias - foi iniciada na cidade do Porto a 3 de Fevereiro de 1927, com o fim de pôr termo ao Governo saído da revolução de 28 de Maio de 1926, tendo-se estendido a Lisboa a 7 de Fevereiro de 1927, onde chegou a ser decretado o «estado de sítio».

Artilharia sediada em Gaia que fez fogo sobre o Porto e conflitos na Rua de Santa Catarina e 31 de Janeiro no Porto

 

Militares revoltosos em Gaia e funcionários da Câmara Municipal do Porto tapando uma barricada dos revoltosos

 

A Revolta foi organizada por um comité de democratas nortenhos, na maioria portuenses, entre os quais se incluíam prestigiados militares e democratas, como o general Adalberto Gastão de Sousa Dias, ao tempo sob prisão e com baixa no “Hospital Militar do Porto”, o comandante Jaime de Morais, o capitão Sarmento Pimentel e o tenente João Pereira de Carvalho, e figuras gradas do movimento republicano, como Jaime Cortesão, que fora capitão-médico do Corpo Expedicionário Português, e José Domingues dos Santos.

Após o levantamento militar do Porto, a revolta deveria alastrar a Lisboa, onde as unidades militares aderentes, apoiadas pelos civis mobilizados pelas organizações operárias e democráticas, deveriam impedir o envio de reforços às forças governamentais no norte de Portugal e imobilizar o Governo por tempo suficiente para permitir a consolidação da nova situação política no Porto e a expansão do movimento às guarnições de outras regiões. A revolta foi programada para ocorrer aquando das comemorações do 31 de Janeiro de 1927, mas os atrasos e hesitações entre os conspiradores acabaram por atrasa-la para 3 de Fevereiro.

A rebelião iniciou-se pelas 4h30m da madrugada do dia 3 de Fevereiro, com a saída do “Regimento de Caçadores 9”, a que se juntou a maior parte do “Regimento de Cavalaria 6”, vindo de Penafiel, vários núcleos de outros regimentos da cidade e uma companhia da Guarda Nacional Republicana aquartelada na Bela Vista, Porto.

Tropas fiéis ao governo combatendo a revolta «revilharista» do Porto

O comandante Jaime Morais e o major Severino (1ª foto) e Capitão Aresta (2ª foto), vendados a caminho do quartel general do Ministro da Guerra tenente-coronel Passos e Sousa, instalado num prédio da Avenida das Devezas

 

Ministro da Guerra, tenente-coronel Passos e Sousa com os oficiais de “Artilharia 5”

O comando das forças fora confiado ao general Adalberto Gastão de Sousa Dias, tendo como chefe do estado-maior o coronel Fernando Freiria, apoiado por um comité revolucionário constituído por Jaime Cortesão, Raul Proença, Jaime Alberto de Castro Morais, João Maria Ferreira Sarmento Pimentel e João Pereira de Carvalho. Entre os apoiantes incluía-se também José Domingues dos Santos, o líder da esquerda democrática que em 1918 dirigira a conspiração civil contra a Monarquia do Norte. Jaime Cortesão foi de imediato nomeado Governador Civil do Porto e Raul Proença, além de conspirador, foi organizador e combatente de armas na mão, servindo de ligação aos co-conspiradores de Lisboa.

A partir de 5 de Fevereiro começam a verificar-se em Lisboa greves e agitação nos meios operários, solidários com os revoltosos do Porto. Os militares, contudo, mantém-se nos quartéis. A agitação cresce e a 6 de Fevereiro grupos de civis amotinam-se, sendo reprimidos pela Polícia e pela Guarda nacional Republicana. O Café “A Brasileira” e outros pontos de encontro são encerrados pela polícia, acusados de serem recintos onde se realizavam comícios revolucionários. Fiéis à tradição de radicalismo que marcara as últimas décadas, os marinheiros do Arsenal da Marinha revoltam-se e em conjunto com civis armados assaltam a Brigada do Alfeite. Simultaneamente, no Barreiro os ferroviários do Sul-e-Sueste declaram uma greve geral, paralisando o tráfego de comboios a sul do Tejo, a que o Governo responde com a ocupação militar das instalações ferroviárias.

“Hotel Bristol”, quartel general das forças revoltosas em Lisboa

 

Obús de 15 no Quartel do “1º Guarnição de Metralhadoras” e artilharia no “Parque Eduardo VII”

  

Barricada na Rua da Escola Politécnica junto ao “Palácio Cruz Alagoa” e Quartel do “1º Guarnição de Metralhadoras”

  

Depois de muitas hesitações, só a 7 de Fevereiro, quando no Porto o movimento já colapsava, aparecem as primeiras adesões entre os militares. As adesões são escassas e titubeantes, aparentemente mais ditadas pela solidariedade com as forças no Porto do que pela convicção do sucesso: era a revolução do remorso nas palavras de Sarmento Pimentel. As forças que aderiram tiveram por comandante Agatão Lança, coadjuvado pelo coronel José Mendes dos Reis. Perante o alheamento das principais unidades do Exército, os revoltosos eram na sua maioria marinheiros e companhias da “Guarda Nacional Republicana”, apoiados por civis armadas, muitos dos quais antigos membros do “Movimento da Formiga Branca”.

Algumas unidades da Armada aderem, entre as quais o cruzador “NRP Carvalho Araújo”, sob o comando do comandante João Manuel de Carvalho e a canhoneira “NRP Ibo”. Quando os revoltosos se concentraram no Arsenal foram bombardeados pela Aviação, que havia decidido manter-se fiel ao Governo. Do lado governamental em Lisboa a defesa é coordenada, primeiro, pelo general Luís Manuel Domingues e, depois do dia 9, por Passos e Sousa. O grosso do Exército alinha com as posições governamentais, deixando os revoltosos isolados e pobremente municiados, apesar de terem assaltado o “Depósito de Material de Guerra” e a “Fábrica das Armas”.

Camioneta do jornal “O Século” mobilizada para transporte de alimentos para as tropas fiéis ao Governo

Danos de explosivos num prédio e numa mansarda de outro

 

Na noite de 8 de Fevereiro, o Ministro da Guerra, Passos e Sousa, entra em Lisboa, vindo da vitória no Porto. Acompanhado por tropas também vindas do norte, e assume o controlo das forças governamentais e aperta o cerco aos revoltosos, aos quais exige, como já o fizera no Porto, a rendição incondicional.

Marinheiro e civis presos

 

Condução de presos revoltosos ao “Arsenal da Marinha”

Na tarde seguinte, a 9 de Fevereiro, pelas 19h 30m, já sem munições, Mendes dos Reis aceita a render-se sem condições. A ameaça de fuzilamento sumário dos civis que fossem encontrados armados, que também fora feita no Porto, cumpre-se em Lisboa: no dia 9 de Fevereiro de 1927, junto ao chafariz do Largo do Rato, vários civis e marinheiros foram executados por fuzilamento. Em Lisboa, os combates entre os revoltosos e as forças governamentais causaram pelo menos 90 mortos e mais de 400 feridos.

Artilharia passando junto ao local do armistício e conjunto de oficiais das forças fiéis ao Governo

  

Ministro da Guerra tenente-coronel Passos e Sousa e o Ministro das Colónias comandante João Belo, oficiais da aviação e do quartel general com jornalistas que acompanharam os acontecimentos e na foto da direita o Ministro da Guerra acompanhado pelo Chefe do Estado Maior, ajudantes e oficiais

 

Retirada das tropas fiéis ao Governo

Esta revolta teve como consequências imediatas: o endurecimento da repressão do regime ditatorial, passando a acção da Ditadura a dar prioridade à ordem sobre a Nova Ordem Constitucional; a reorganização da oposição reviralhista, agora com os seus líderes maioritariamente exilados, detidos ou na clandestinidade; e o aparecimento público de movimentos de apoio à ditadura e a institucionalização dos apoios partidários à Ditadura.

Obs: Consultar reportagem ilustrada na revista “Ilustração” de 16 de Fevereiro de 1927 no seguinte link: “Ilustração”

Fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa

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