4 de dezembro de 2015

Navio “Ponta Delgada”

Depois de ter recebido o paquete Funchal” em 11 de Outubro de 1961, a “Empresa Insulana de Navegação” (1871-1974), viria a receber o pequeno navio de passageiros “Ponta Delgada”, em 27 de Dezembro de 1961. Este navio tinha sido projectado pelo engenheiro construtor naval Rogério de Oliveira, que além de navios de guerra, como as corvetas das classes “João Coutinho” e “Baptista de Andrade”, foi responsável pelo projecto dos paquetes Príncipe Perfeito” (1961-1976) e Funchal” (1961- ).

 

O “Ponta Delgada”,  foi construído nos estaleiros da “CUF - Estaleiros Navais de Lisboa” (1937-1960), localizados em Lisboa, na Rocha Conde d’Óbidos, e que mais tarde, em 1960, passaria a concessão à recém-criada “Navalis - Sociedade de Construções e Reparação Naval, SARL” (1960-1962) e futuraLIsnave - Estaleiros Navais de Lisboa SARL” (1963- ), que ficaria concessionária destes estaleiros a partir de 1 de Janeiro de 1963. Depois da quilha assente em 14 de Novembro de 1960, o “Ponta Delgada” seria lançado à água em 3 de Abril de 1961, sendo madrinha a Dª. Maria Madalena Pinto Basto Bensaúde.

O “Ponta Delgada” seria entregue à “Empresa Insulana de Navegação” em 27 de Dezembro de 1961, sendo o seu primeiro comandante o capitão Armando Gonçalves Cordeiro. A propósito da cerimónia de entrega o jornal “Diario de Lisbôa” escrevia a determinado passo:

«Em nome da Insulana, o sr. engº. Couto dos Santos disse que a construção do navio confirmava e excelência da mão-de-obra nacional e que esta nova unidade, destinada a carga e passageiros, ajudará a resolver o problema das ligações marítimas entre as ilhas dos Açores. Descreveu as modernas características do barco, que vem enriquecer a frota mercante nacional e cujo projecto se deve ao sr. engº. construtor naval Rogério de Oliveira, assinalando as óptimas condições de segurança, conforto e comodidades para os passageiros.
Dispõe o "Ponta Delgada" de cabinas, restaurantes, salas de estar e botequins, tanto na classe turística como na terceira, e ostenta uma decoração a um tempo sóbria e elegante. A propulsão é assegurada por um motor diesel, de 1.400 BHP, que permite a velocidade de cruzeiro de 14 nós á hora; e no equipamento de navegação está incluída uma moderna instalação de radar, além de outra aparelhagem, como sonda eléctrica, radiogoniómetro, etc.
O navio segue em breve para o porto de Ponta Delgada.»

O “Ponta Delgada”, que custou 27.347.000$00, seria o sexto e último navio de passageiros a ser construído nos estaleiros da Rocha Conde d’Óbidos. Os anteriores navios mistos de passageiros e carga a serem ali construídos, foram: “Alfredo da Silva” (1950-1973), “Ana Mafalda” (1951-1975), “Rita Maria” (1953-1978), “Manuel Alfredo” (1954-1973) e “Santo Antão” (1957-1962) todos construídos para a “S.G. - Sociedade Geral de Comércio Indústria e Transportes, Lda.” (1950-1972) do Grupo CUF.

                          Alfredo da Silva” (1950-1973)                                                  “Ana Mafalda” (1951-1975)

 

“Rita Maria” (1953-1978)

                 “Manuel Alfredo” (1954-1973)                                                     “Santo Antão” (1957-1962)

 

O navio “Ponta Delgada”, com capacidade para 400 passageiros (138 alojados em camarotes e 262 sem acomodação) e 32 tripulantes , destinava-se ao serviço de cabotagem no arquipélago dos Açores,  vindo substituir outro navio de passageiros da EIN, o “Arnel” (1955-1958), construído nos “Estaleiros Navais de Viana do Castelo” assim como  o seu gémeo o “Cedros” (1955-1973). O “Arnel” tinha naufragado à 4h da madrugada do dia 19 de Setembro de 1958, depois de ter encalhado no Baixio dos Anjos, na Ilha de Santa Maria, nos Açores. Dos 158 passageiros a bordo, a registaram-se 10 mortos e 17 desaparecidos.

“Arnel” a navegar, e encalhado no Baixio dos Anjos, na Ilha de Santa Maria

 

Em 17 de Janeiro de 1962 o “Ponta Delgada”  saiu para a sua primeira viagem, de Lisboa para a cidade de Ponta Delgada, nos Açores, onde chegou dois dias depois, e em 30 de Janeiro. Iniciaria o serviço de cabotagem largando de Ponta Delgada para as ilhas do Grupo Central. Em Agosto de 1966 efectuaria um cruzeiro Lisboa - Funchal - Lisboa fretado à “Federação Portuguesa de Vela”.

“Ponta Delgada” na Fajã Grande, na Ilha das Flores

Depois da “EIN - Empresa Insulana de Navegação” se ter fundido, em 1972, com a “Companhia de Navegação dos Carregadores Açorianos” (1920-1972), em 4 de Fevereiro de 1974 funde-se com a Companhia Colonial de Navegação” (1922-1974) tendo sido criada a “CTM - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos SARL” (1974-1985), para quem transitou nesta data a propriedade do “Ponta Delgada”, ao qual foi então atribuído o nº. oficial 463. O navio continuou a assegurar o serviço de passageiros entre as ilhas dos Açores durante 22 anos. Depois de imobilizado em Lisboa entre 5 de Dezembro de 1983 e 14 de Maio de 1984, o ”Ponta Delgada” regressaria aos Açores onde operou até 19 de Outubro de 1984, regressando a Lisboa a 22 de Outubro do mesmo ano, onde ficou imobilizado.

O navio “Ponta Delgada” já com a s cores da “CTM - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos SARL”

Interiores e tombadilho do “Ponta Delgada”, em 1983

 

 

 

A 16 e 17 de Agosto de 1985 este navio foi fretado para ser efectuada a bordo a rodagem de um filme, efectuando a última saída para o mar com as cores da CTM. Em 23 de Setembro de 1985 foi vendido à empresa “Contramar - Companhia de Transportes Marítimos”, de Lisboa, por 15.000 contos, permanecendo imobilizado em Lisboa. Em 5 de Julho de 1986 o navio efectuou um cruzeiro Lisboa - Sesimbra - Lisboa, após que seria alvo de uma modernização e nova pintura de branco, no estaleiro da “Lisnave” na Rocha do Conde d’Óbidos, em Lisboa, sendo adaptado para cruzeiros costeiros. Em 8 de Agosto saiu para Portimão para efectuar cruzeiros na costa do Algarve, regressando a Lisboa a 26 de Setembro de 1986.

Navio “Ponta Delgada” com as cores da “Contramar - Companhia de Transportes Marítimos”, a partir de 1985

 

O “Ponta Delgada”, depois de ter funcionado como bar e restaurante atracado na doca de Alcântara, até  Janeiro de 1987, em Outubro do mesmo ano teve a chaminé aumentada e modernizada em Lisboa. Fretado à companhia grega “Marine Faith”, do Pireu, o “Ponta Delgada” saiu de Lisboa a 5 de Janeiro de 1988 com destino a Moçambique, tendo escalado Las Palmas, Tenerife, Dacar e Walvis Bay, entrando no Maputo a 4 de Fevereiro. Em 9 de Fevereiro foi entregue ao Governo Moçambicano, iniciando a 17 do mesmo mês a primeira de uma série de viagens na costa de Moçambique, onde operou até 18 de Agosto. No regresso de Moçambique fez escalas em Walvis Bay, Dacar e Funchal, onde esteve de 25 de Setembro a 6 de Dezembro, entrando em Lisboa pela última vez em 8 de Dezembro de 1988.

Após 13 anos imobilizado em Lisboa, devido à falência do armador, acabou abandonado e vandalizado no cais do Poço do Bispo, onde se afundou a 3 de Junho de 2001 por alagamento do casco. Em Dezembro de 2007, e depois de um complicado e longo processo burocrático relacionado com a propriedade do navio, começou a ser desmantelado no local do afundamento.

 

Características do “Ponta Delgada” :

Tipo: Navio de passageiros e carga, em aço e a motor
Nº oficial: H 480
Indicativo de chamada: CSHL
Arqueação bruta: 1.054 toneladas; Arqueação líquida: 476 toneladas
Comprimento ff.: 67,17 m
Comprimento pp.: 60,00 m
Boca: 10,20 m
Pontal: 6,25 m
Calado: 3,51 m.
Máquina propulsora: 1 motor diesel “Sulzer” de 7 cilindros, modelo 7 TAD 36; potência de 1.575 bhp a 260 rpm; 1 hélice Velocidade: 13.5 nós (máx. 14 nós)
Passageiros: 400, assim distribuídos: 74 - turística, 64 - 3ª classe, 262 sem acomodação
Capacidade de carga: 1 porão para 359 m3 de carga geral
Tripulantes: 32

Bibliografia: Foi, também, consultado o livro: «Paquetes Portugueses», de Luís Miguel Correia, Edições Inapa, Lisboa, 1992.

fotos in: Navios e Navegadores, Blog dos Navios e do Mar, Alernavios, Trove Australia National Library

4 comentários:

João Celorico disse...

Caro José Leite,

Este navio, construção nº 191, lançado na carreira nº 1, ficou-me bem gravado na memória, não só devido ao trabalho que normalmente estas coisas dão, como também às constantes mudanças de “humor” do senhor engenheiro projectista porque de cada vez que analisava um desenho de construção, tinha uma alteração a propor e que, claro, tinha que ser aceite. Quase se pode dizer que era uma alteração permanente porque também o futuro comandante e o seu criado tinham direito a opinar. Ele eram, as canalizações, o equipamento, o material de revestimento, os cortinados, etc. etc..
Quanto à chaminé, nunca eu achei bem. Dava um aspecto ainda mais atarracado ao navio, mas eu não era arquitecto naval… Parece que mais tarde alguém foi da minha opinião!
Foi com dupla tristeza que soube do seu fim, por mim e por ele!

Cumprimentos,

João Celorico

José Leite disse...

Caro João Celorico

Muito agradeço as suas informações e comentários adicionais, que felizmente vêm sendo hábito, de quem viveu de perto estas aventuras e desventuras marítimas.

Os meus cumprimentos

José leite

CAP CRÉUS disse...

Penso que o itinerário que se encontra no post, fui eu quem enviou para outro alguém.

O meu Pai foi 2º piloto, imediato e depois comandante do Ponta Delgada.
Entre todos os Navios onde andei (Ponta Garça, Ribeira Grande, Corvo, Lagoa, Bailundo...), este é sem dúvida o Navio da minha infãncia. O meu mais que tudo.
Com ele estive em todas as ilhas dos Açores, assisti a muita coisa e vivi muito.

Hoje, tenho imensas saudades dele e tive o azar de fazer umas ultimas fotos com ele já quase afundado.
Obrigado pelo post.

Mário Vilar

Rui vasconcelos disse...

Falar do NAVIO MOTOR PONTA DELGADA é falar um pouco de mim,é falar um pouco de todos os Acoreanos, anos, muitos anos a viajar nesta excelente embarcação, muitas historias haveria para contar de episódios passados a bordo, umas bastante engraçadas outras menos, particularmente quando a viagem normal de 3 horas passava a 4, 5, 6 e mais, sempre debaixo de mau tempo, sim mau tempo que obrigava por vezes a passar ao largo da nossa Ilha de destino, porque nao existiam as condicoes de seguranaca minimas para desembarcar os passageiros, de partir o coracao e sentir a saudade bater mais fundo. Falar do NAVIO MOTOR PONTA DELGADA é falar de sentimentos fortes, a unica ligação que tinhamos à nossa terra natal que é a mesma coisa que dizer às nossa Familias e Amigos. Estas fotografias trazem a minha memoria imagens fortes do meu passado. Estou muito triste e deveras desapontado, penso que se houvesse vontade POLITICA E NÃO SÓ, O NAVIO MOTOR PONTA DELGADA NUMCA, MAS NUMCA, DEVARIA ACABAR DESTA FORMA HUMILHANTE, NAUFRAGADO JUNTO A UMA DOCA, O MAR DA PALHA, PENSO EU, O CEMITERIO NORMAL PARA EMBARCACOES VELHAS, MAS NUMCA NAUFRAGADO, DEVERAS TRISTE, MERECIA SEM DUVIDA ALGUMA, OUTRO FIM.