Restos de Colecção F

26 de agosto de 2011

Banco do Minho

O ‘Banco do Minho’ (BM) foi instituído por carta de lei de 14 de Abril de 1864, com sede em Braga, e iniciou a sua actividade em Junho de 1865. O capital inicial foi de 600 contos de réis, elevado a 1200 contos de réis em 1918. O Banco do Minho nasceu na época do boom das remessas financeiras dos emigrantes no Brasil.

Sedeado inicialmente na R. de S. João, 15, em Braga, passou a ter sede própria, construída entre 1873 e 1877, na Rua do Teatro São Geraldo daquela cidade. Possuiu uma agência em Guimarães e filiais no Porto e em Lisboa.

            Sede do Banco do Minho, em Braga                            Teatro de São Geraldo e Banco do Minho

  

Sucursal em Lisboa

    

Sucursal no Porto, na Av. dos Aliados, no projecto de 1918

O ‘Banco do Minho’ viria a ter filiais também no Brasil, nos estados de S. Paulo, Rio de Janeiro,Santos, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Pará e Manaus, sendo a mais importante a de S.Paulo.

                                   Anúncio de 1902                                                                       Anúncio de 1915

                            

Sobreviveu às crises do sector ocorridas no final do séc. XIX, aceitou à priori uma proposta de fusão com o ‘Banco Comercial de Braga’, do qual era credor, negócio que não se viria a concretizar, tendo aquele banco falido pouco depois.

Cheque do século XX

A partir de 1918, desenvolve uma estratégia de participação em empresas industriais, comerciais e financeiras. Entre as empresas não financeiras contam-se a ‘Companhia Fabril do Minho’, a ‘Companhia das Águas do Gerês’, a ‘Companhia Metalúrgica do Norte’ e a ‘Perfumaria Confiança’. Foi accionista maioritário da Sociedade Bancária do Minho, criada em 24 de Maio de 1924, em S. Paulo, no Brasil, destinada a servir de agência local do banco e a ter actividade própria. Apesar de um início de actividade promissor, a situação financeira desta sociedade derrapou e acabou por ser liquidada em 1927.

Agência em S. Paulo, no Brasil

fotos in: Hemeroteca Digital, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

Podia-se ler num artigo de 1925: « (...) dedicando-se a operações bancárias de todo o género, cambiais e de ordens de Bolsa, possuindo na sede e nas filiais óptimas instalações de cofres fortes para alugar. O seu agente geral no Brasil a "Sociedade Bancária do Minho", na Rua da Quitanda, 117, e seus correspondentes em S. Paulo, os nossos prezados amigos Srs. Garcia da Silva & Cª., proprietários da "Loja do Japão", à Rua de S. Bento, tendo naquele grande país montado um serviço especial de cobrança de juros e dividendos, administração de propriedades, liquidação de heranças, etc

O ‘Banco do Minho’ juntamente com o ‘Banco Comercial do Porto’, ‘Banco Aliança’, ‘Banco Comercial de Braga’ e o ‘Banco União do Porto’, consegue autorização para emitir notas bancárias

Cédula de 2 Centavos

 

fotos in: Colecções Senador

Em 1926, algumas das empresas em que o ‘Banco do Minho’ tinha participação apresentam prejuízos e em 1927 os dividendos desta instituição são bastante reduzidos. A situação económica e financeira agravou-se nos anos seguintes. O ‘Banco do Minho’ não resiste à Grande Depressão de 1929 nos EUA, a par do ‘Banco Comercial do Porto’, ambos vítimas de uma corrida aos depósitos e da sua incapacidade de cobertura.

Em 21 de Outubro de 1930 é nomeada uma Comissão Administrativa para gerir o ‘Banco do Minho’. Na sequência do relatório desta comissão, datado de 14 de Abril de 1931, é decretada a liquidação do banco. A Comissão Liquidatária nomeada pelo Estado encerrou actividades em 31 de Dezembro de 1939. O ‘Banco do Minho’, durante a sua vida de 64 anos, que chegou a ser dos bancos mais importantes do país, contribuiu para fomentar e desenvolver o comércio, a indústria e a região. O seu encerramento, por colapso financeiro, acarretou prejuízos cuja dimensão verdadeira continua por estudar.

25 de agosto de 2011

Primeiros Aeroplanos em Portugal

A primeira experiência de aviação e primeira tentativa de voo em Portugal, teve lugar no antigo Hipódromo de Belém, a 27 de Outubro de 1909 pelo piloto francês Armand Zipfel, pilotando um aeroplano “Voisin Antoinette” de 40 CV.

                                                      Apresentação do "Voisin Antoinette”

                                      

                                                                        Armand Zipfel

                                       

                                                                            A tentativa …

                                               

A experiência foi deste modo relatada:  «(...) Não foi das mais felizes a primeira experiencia de aviação realisada no nosso paíz. O apparelho depois de deslizar suavemente pelo solo, uns 30 metros, elevou-se até 10 metros de altura, n'uma distancia total de 300 approximadamente, para afinal,ou por causa do vento ou em virtude de falsa manobra do aviador, cahir no solo, partindo-se-lhe varias peças e salvando-se Zipfel, por milagre. Foi annunciada a segunda experiencia que o vento não deixou realizar.»

Em 11 de Dezembro de 1909, o inventor português João Gouveia, que fabricava papagaios voadores desde 1907, apresentou à Academia de Ciências o seu projecto de avião "Gouveia" com 9 metros de envergadura equipado com um motor "Anzani" de 26 cv. Constrói um hangar, no Seixal em 1911, onde montou o avião e fez experiências, tendo acabado por abandonar o projecto, devido a avarias e falta de meios financeiros.

                                                       João Gouveia e seu aeroplano “Gouveia”

                           

A “Creche O Comércio do Porto”, fundada pelo jornal “O Comércio do Porto”, comprou em Agosto de 1912, em Paris o primeiro aeroplano de Portugal. Foi adquirido e escolhido pelo Dr. Cisneiros Ferreira correspondente deste jornal em Paris.

Tratava-se do biplano, o "Farman-Maurice’", com 15 metros de envergadura, equipado com um motor Renault de 70 cv., atingindo a velocidade de 80 quilómetros por hora. Podia transportar carga útil até 300 quilos. Este modelo era o mesmo que estava a ser utilizado pelo exército italiano na guerra da Turquia.

                                                              Biplano “Farman-Maurice”

                                

Chegado á cidade do Porto foi exposto no Palácio de Cristal. O produto recolhido pelos seus voos no Porto e em Lisboa, reverteram a favor do fundo da “Creche O Comércio do Porto”. Esta creche acolhia os filhos das mulheres que trabalhavam na faina no Rio Douro.

                                                    O “Farman-Maurice” no Palácio de Cristal

                                  


Os voos seriam realizados por Leopold Trescartes, Paulham e Garros. Primeiro voo na cidade do Porto, foi no campo do Castelo do Queijo ao qual assistiram mais de 60.000 pessoas. O aviador Leopold Trescartes, realizou dois voos. No primeiro voo o aviador foi só, mas no segundo foi acompanhado por Luís Marques Merino, elevando-se o aparelho a  uns 300 metros de altitude, pairando no ar um quarto de hora, fazendo várias evoluções sobre a cidade do Porto, Foz e Matosinhos.

                                               Voo no Porto, no campo do Castelo do Queijo

                                                    

Depois de transportado de comboio até à cidade de Lisboa realizou no Hipódromo de Belém o seu voo, no dia 27 de Setembro de 1912. Este voo durou apenas sete minutos devido ao forte vento que se fazia sentir.

                                                              Voo no Hipódromo de Belém

                                   

Lembro que o primeiro português a obter o brevet de piloto aviador em 26 de Dezembro de 1912, foi D. Luiz de Noronha, que fez o curso de engenheiro aviador militar em Chalons, França. Para tal frequentou as melhores escolas de aviação de França e trabalhou nas melhores fabricas de aeroplanos a fim de ganhar experiência.

                                                 Engenheiro aviador militar D. Luiz de Noronha

                                   

Também Alberto Sanches Castro, frequentou um curo de piloyto aviador em França mas desistiu por razões económicas. Mas foi este português que em 10 de Setembro de 1912, efectuou o primeiro voo português em aeroplano com motor, num monoplano "Antoinette" equipado com um ‘Antoinette Vee-8’, com 50 cv, no Mouchão da Póvoa numa pista de 1.200 metros de extensão.

                                                                   Alberto Sanches de Castro

                                                 

                                                                     Monoplano “Antoinette”

                                    

A "Revista Aeronáutica" descrevia o feito no seguinte texto: «os voos realizados foram quatro, todos em linha recta, sem viragens, sendo dois no sentido leste-oeste, e dois em sentido contrário. A maior distância de voo foi de 450 metros, percorrida em 30 segundos, e a maior altura obtida foi de 5 metros».

Em 28 de Setembro de 1912 chega a Lisboa o monoplano "Deperdussin" tipo B que por intermédio do jornal “O Século” tinha sido oferecido ao governo português pelo coronel brasileiro Albino da Costa como prova do não esquecimento das suas origens lusitanas (Cedrim, Server do Vouga). 

                                     

Este monoplano com 8,5 metros de envergadura, estava equipado com um motor "Gnome’"de 80 CV, que lhe permitia atingir uma velocidade máxima de 170 km/h. Em 10 de Março de 1911 bateu o record do mundo em velocidade, de Busson a Reims; em Maio no raid Paris-Roma o aviador Viard fez o percurso no mesmo aparelho e em junho ganhou os longos percursos de Paris-Liége, 320 quilómetros e Calais-Paris 250 quilómetros.

                                                              Monoplano “Deperdussin”, tipo B

                                     

fotos e excertos de alguns textos in: Hemeroteca Digital

Este biplano em Junho de 1913 foi integrado na "Companhia de Aerosteiros", tendo em Janeiro de 1916 sido entregue à "Escola de Aeronáutica Militar" de Vila Nova da Rainha

E em Lisboa a 8 de Outubro de 1912  era desembarcado o biplano "Avro 500"  com a designação de “República”, adquirido em Inglaterra, por 900 libras numa subscrição aberta pelo directório do Partido Republicano e destinado ao exército « (…) o qual se tem elevado com êxito do aeródromo de Belém e pairado sobre a cidade. No seu primeiro voo conduziu o senador sr. José Nunes da Mata n’uma larga travessia.».

                                                                           Biplano “Avro” 500

                               

Este biplano tinha 9 metros de envergadura e estava equipado com um motor "Gnome" de 5o cv, que permitia atingir uma velocidade máxima de 98 km/h. Aliás foi este tipo de avião o primeiro a exceder a velocidade de 100 milhas (cerca de 160 km/h).

                                                                    O “República” levantando voo

                                 

                                                             Amaragem do “República” no rio Tejo

                                          
                                         Foto in: Ex-Ogma

« (…) A 17 de  Outubro querendo o aviador fazer uma prova de resistência, que realizou n'um voo esplendido até Aldegalega, Mouchão da Póvoa e Alcochete, passando sempre sobreo o Tejo, na companhia do sr. Marques da Costa, o motor sofreu uma «panne», sendo obrigado a fazer uma descida precipitada, que o habil piloto conseguiu com o maior sangue frio, por «étapes», até que baixou próximo da Torre de Belem, na água, a uns quarenta metros da praia, vindo para terra em botes os tripulantes do "Republica", que nem sequer se molharam.»

30 de julho de 2011

Marinha de Guerra Portuguesa (6)

                                                        Corveta Afonso de Albuquerque, de 1884

                                  

                                                                      Canhoneira Pátria, de 1904

                                  

                                                                 Torpedeiro Mondego, de 1921

                                  

                                                                    Fragata Corte Real, de 1958

                                  

29 de julho de 2011

Gás da Companhia em Lisboa

Resultante da fusão entre a “Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás” (1848) e a “Companhia Gás de Lisboa” (1887), constituíu-se a 10 de Junho de 1891, em Lisboa, a sociedade “Companhias Reunidas de Gás e Electricidade” (CRGE), para produzir e distribuir gás e electricidade.

                                      1942                                                                           1943

         

A CRGE toma posse de todas as instalações de produção e distribuição de gás existentes à data da sua constituição: as fábricas de gás da Boavista e de Belém, os gasómetros da Boavista, Pampulha e Bom Sucesso, e cerca de 400 000m de canalizações. O número de consumidores privados era à época, superior a 13 000, sendo o preço fixado para o gás de 45 reis/m3 e de 30 reis quando utilizado para o accionamento de motores.

A iluminação a gás inaugurou-se em Lisboa nas noites de 29 e 30 de Julho de 1848, com os primeiros 28 candeeiros. Ainda antes da assinatura do primeiro contrato para a iluminação a gás de Lisboa (1847), entre o governo e a “Companhia Lisbonense de Illuminação a Gaz”, já estavam arrendados os armazéns nos 2 e 3 da Praia da Boavista, para instalar a fábrica. O carvão era descarregado no denominado Cais do Carvão, ali junto, seguindo para a fábrica, onde era destilado em retortas. Seguiam-se depois operações de lavagem, arrefecimento, condensação e depuração, antes do armazenamento do gás nos gasómetros. Em 1852 existiam na Boavista cinco gasómetros e duas baterias de fornos totalizando 120 retortas

                                                             Fábrica de Gás da Boavista                                          

                                  

 

Expande-se a rede de canalização de gás para os concelhos de Oeiras, Cascais, Sintra (1899) e Setúbal (1903), tendo neste último adquirindo uma fábrica de gás aí existente.

Em 1915 a rede de gás está praticamente estabilizada, com uma capacidade de produção nas 2 fábricas que atingia 35 000 000m3/ano e 500km de canalizações; o número de consumidores aumenta para 36 700. Será no período da 2ª Guerra Mundial que se sentirá um significativo aumento dos consumos e do número de consumidores, apesar das dificuldades na obtenção de combustível, quando o Governo decidiu aplicar um plano de restrições aos consumos de energia eléctrica, deixando livres os do gás.

                                                                 Fábrica de Gás de Belém

                                   

 

Em 1938, a decisão do governo em celebrar o duplo centenário do Mundo Português (1140-1640-1940) com uma Exposição Monumental em Belém, veio acelarar a resolução do problema da transferência da Fábrica de Belém. Pretendia-se que os terrenos junto à Torre de Belém estivessem desocupados em 1940, tendo sido decidido construir uma nova fábrica, na zona oriental da cidade. No entanto, a nova fábrica de gás não pôde começar a produção em 1940, conforme previsto, pelo que se realizou a Exposição do Mundo Português com a fábrica junto à Torre de Belém em laboração.

A fábrica continuaria a funcionar em Belém até 1949, anunciando-se em Dezembro daquele ano a venda da sua estrutura e materiais em hasta pública, e, em 7 de Junho de 1950, registava-se fotograficamente a demolição das altas chaminés de alvenaria. A área desocupada pela fábrica foi transformada num jardim, conferindo à Torre de Belém um enquadramento mais digno e limpo.

                                      1910                                                                        1940

             

            
 
A localização da nova fábrica de gás na zona oriental, junto ao rio, com boas ligações ferroviárias e rodoviárias, permitiria um fácil abastecimento e uma eficiente distribuição dos subprodutos. Conforme acordado, o Estado entregaria às CRGE 39.000 m2 de terra na margem da Matinha, na zona oriental de Lisboa. Considerando a área insuficiente para a instalação da nova fábrica, as CRGE optaram por adquirir a Quinta da Matinha.

Sofrendo sucessivos atrasos devido às dificuldades de abastecimento, criadas pela II Guerra Mundial que eclodira, a fábrica começou a sua laboração, em regime experimental, em  Novembro de 1943, sendo a sua capacidade de produção diária de 75.000 m3 de gás extraído da hulha. A fábrica seria oficialmente inaugurada a 8 de Janeiro de 1944, ocupando 4 dos 20 hectares conquistados ao rio.

                                                                 Fábrica de Gás da Matinha

                            

Os procedimentos incluiam 5 fases distintas: numa 1ª fase, após o descarregamento do carvão na ponte-cais e respectivo transporte por meio de vagonetas sobre carris até ao Edifício dos Fornos, o carvão era destilado em retortas verticais; na 2ª fase, de depuração, eram retirados ao gás o alcatrão, o amoníaco e o enxofre; numa 3ª fase, seria extraído o benzol; numa 4ª fase procedia-se à armazenagem do gás no gasómetro de 30.000m3; por último, a 5ª fase incluia os procedimentos necessários ao transporte do gás, que passava por compressores que lhe conferiam alta pressão, para ser distribuído na rede de 300mm.

 

Três postos depressores na cidade15 garantiam a redução da pressão do gás para níveis que permitissem a sua utilização. Estes postos depressores tinham o seu funcionamento continuamente registado no quadro geral de controle da fábrica.

Para além das instalações de produção, existiam na fábrica reservatórios de água, poços artesianos e dois sistemas subterrâneos de abastecimento de água, com a finalidade de assegurar o funcionamento normal e o serviço de combate a incêndios. Uma subestação eléctrica que garantia o funcionamento das instalações da fábrica e a sua iluminação, e também uma destilação de alcatrão (onde lhe seriam retirados subprodutos como benzol, óleos fenólicos, óleos pesados, naftalina, etc. e onde era produzido alcatrão para estradas).

Para consultar a história do gás butano (botija) em Lisboa, consultar post de 29 de Novembro de 2009 com o título: “Gazcidla” na etiqueta ‘Gás’

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian