Restos de Colecção: Teatros de Lisboa
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2 de maio de 2018

Teatro Ádóque

A companhia teatral “Ádóque - Cooperativa de Trabalhadores de Teatro”, foi fundada em 1974, tendo-se instalado no “Teatro Desmontável”, - propriedade de “Companhia Rafael d’Oliveira” - situado no Largo Martim Moniz, em Lisboa. A sua abertura ocorreu a 23 de Setembro de 1974, com a revista “Pides na Grelha”.

Na génese da “Companhia Rafael d’Oliveira” esteve a “Trupe Silva Vale” e a passagem da liderança da mesma do actor Silva Vale para Rafael de Oliveira, em 1918. A designação “Companhia Rafael d’Oliveira” surgiu como definitiva apenas em 1933.

Esta sociedade artística, que subsistia através das receitas dos seus espectáculos, assentava numa dinâmica familiar, em que qualquer um dos societários acumulava diversas funções que poderiam ser tanto de cariz artístico, como técnico ou administrativo. O elenco inicial contava apenas com dez artistas, entre eles Rafael de Oliveira e sua mulher Ema de Oliveira. Em 1936 e em nome de uma maior autonomia, surgiu um “Teatro Desmontável” - uma grande estrutura independente, movida, inicialmente, por via ferroviária e, mais tarde, em dez camiões - do qual a Companhia fez uso até Setembro de 1974, quando o arrendou à “Companhia Ádóque”, em Lisboa. A Companhia conheceu o seu período de maior sucesso durante as décadas de 1940 e 1950, chegando a realizar digressões às Ilhas, a Angola e a Paris. Do seu vasto repertório destacam-se peças como “Amor de Perdição” (1921-1973), de Camilo Castelo Branco, “A Rosa do Adro” (1922-1974), de Manuel Maria Rodrigues, e “As Duas Causas” (1933-1972), de Mário Duarte e Alberto Morais.

O “Ádóque Teatro” funcionou, desde Setembro de 1974, no largo Martim Moniz, em Lisboa, como já anteriormente mencionado, estreando em 23 do mesmo mês a revista "Pides na Grelha", até 1982, quando subiu à cena a sua última revista intitulada "Tá Entregue à Bicharada".

 

Entre os fundadores desta cooperativa artística contam-se o actor, autor e encenador Francisco Nicholson, o cenógrafo Mário Alberto e o coreógrafo Fernando Lima.

«O principal objetivo do Ádóque era um trabalho inovador na revista e nos espetáculos para crianças, funcionando em regime de autogestão, o que, na área do teatro musicado, foi a primeira vez que aconteceu em Portugal.
(…) «Um punhado de pessoas que estavam dispostas a serem cocriadores de algo que fosse um marco inovador no conceito de criar e interpretar o teatro de revista, numa perspetiva sociológica sem precedentes".,
escreveu Luciano Reis no seu livro “Teatro Ádóque (1974-1982). História dum sonho teatral” 

A este grupo estiveram ligados actores como Francisco Nicholson, Ermelinda Duarte, Henrique Viana, Bombom, Delfina Cruz, António Feio, Camacho Costa, Maria Tavares, Rui Mendes, Virgílio Castelo, Natália de Sousa, Maria Vieira, Teresa Madruga, etc., e argumentistas como Francisco Nicholson, Gonçalves Preto, Henrique Viana, Ary dos Santos, Ferro Rodrigues e César de Oliveira além dos músicos Fernando Tordo, José Jorge Letria, Ermelinda Duarte e Paulo de Carvalho.

 

Francisco Nicholson (1939-2016), falecido em 12 de Abril de 2016, foi o autor do prefácio do livro, atrás mencionado, de Luciano Reis, no qual, referindo-se ao que norteou os fundadores, escreveu: «Acreditávamos em novos caminhos para o teatro de revista, liberto de todas as formas de censura - política, ideológica, económica, preconceituosa, religiosa, conservadora, eu sei lá tantas, tão ardilosas e subtis se apresentavam». O actor e encenador afirma ainda, no mesmo prefácio que todos estavam munidos de «uma fé inquebrantável» e acrescenta: «Éramos irreverentes, descarados, impertinentes, malcriados, mas sempre fraternos, generosos, despojados. Ah! Sempre com a preocupação de sermos politicamente muito incorretos...».

 

 

O “Teatro Ádóque” produziu 21 espetáculos, aos quais assistiram «mais de 1,2 milhões de espetadores», em Lisboa e «em mais de 70 localidades do país», tendo a sua produção de palco dado origem a 15 discos - 12 singles e três álbuns. Terminaria a sua actividade em 1982, tendo estreado a sua última revista "Tá Entregue à Bicharada", a 12 de Março de 1982.


Bilhete gentilmente cedido por Carlos Caria

Quanto ao seu encerramento o jornal "Diario de Lisbôa", em 16 de Setembro de 1985, e a propósito do início da demolição do "Teatro Ádóque", escrevia:
«O fechar do pano naquele espaço, em 1982, teve a sua origem em mais uma das ideias controversas do presidente da edilidade, ao planear erguer naquela zona um gigantesco centro comercial. No entanto, a tarefa prioritária de Krus Abecassis foi a de despejar o Ádóque conduzindo assim o grupo à inactividade.
(...) Quanto ao grupo do Teatro Ádóque, (Francisco Nocholson e Magda Cardoso orientam uma escola de teatro, dança e bailado nas instalações da Junta de Freguesia de Benfica), embora possua um terreno que lhe foi cedido pela CML, em Outubro de 1983, aguarda a resposta das entidades competentes, aos seus pedidos de apoio, de forma a poder dar continuidade ao sonho (…)»

Pouco antes de encerrar, em 1982, com a sua última Revista em cartaz

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, OPSIS

19 de abril de 2018

Teatro Dom Luiz Filipe

O "Theatro do Principe Real D. Luiz Filippe de Bragança”, parte integrante do, então, “Real Collegio Militar”, foi inaugurado mo Largo da Luz em 2 de Março de 1903, por ocasião das comemorações do primeiro centenário deste Colégio, e com a presença do Rei D. Carlos I.

Ao fundo a entrada para o “Teatro do Principe Real D. Luiz Filipe de Bragança”

Em 1814, quando o “Real Colégio Militar” se transferiu da Feitoria (Oeiras) para o “Hospital Real de Nossa Senhora dos Prazeres”, situado num dos topos da Alameda da Luz, havia um outro edifício que se destacava do lado poente no qual era ainda visível a ruína que o terramoto de 1755 lhe causara. Do lado sul estavam os restos do que fora o imponente santuário de Nossa Senhora da Luz. Seguia-se-lhe para norte o extenso piso térreo de um edifício conventual, decapitado dos seus dois andares superiores pelo abalo sísmico que destruíra Lisboa. Conta-se que, no lugar desse santuário, teria aparecido a um homem que fora cativo dos árabes quando da falhada conquista de Tanger em 1437, uma imagem rodeada de "luz" igual à que, no cárcere africano, lhe valera às suas súplicas de liberdade.

Nasceu assim uma espontânea devoção popular pela santa e pelo local, a quem deram o nome de "Luz". Seguiu-se-lhe a construção de uma ermida que foi benzida em 1464, sendo por D. João III confiada aos cuidados de freires de Cristo que, até disporem de um convento que se iria construir, ficaram acomodados numa pequena e humilde casa local. Tal convento só veio a concretizar-se anos mais tarde e, apesar de já dispor em 1599 de algumas condições de habitabilidade, as obras de edificação prosseguiram nos anos imediatos. O santuário definitivo (de que hoje só existe o que foi a capela-mor) mandou-o construir às suas expensas a infanta D. Maria (filha do terceiro casamento de D. Manuel e irmã de D. João III), para servir a sua jazida eterna.

Com a secularização das ordens militares em 1789, retiraram-se do “Convento da Luz” os poucos freires que ainda ali residiam depois do terramoto. E o que restava do convento foi ficando ao abandono até 1851, quando aí (e no hospital) foi instalado o “Depósito Geral de Cavalaria”, quatro anos mais tarde mudado para Belém.

Quase decorridas duas décadas, em 1873, o “Real Collegio Militar”, depois de deambular por Rilhafoles e, duas vezes, por Mafra, regressou em definitivo à Luz, ocupando então o edifício do antigo hospital e também o outrora convento dos freires de Cristo, cujas instalações se encontravam, como se calcula, em muito mau estado e que ficariam conhecidas, até há bem pouco tempo, por "quartéis velhos".

Fernando da Costa Maya, major e professor do Colégio, refere em 1903, na página 97 da sua obra "Memoria Historica e Descriptiva do Real Collegio Militar", fazendo referência a um relatório de 22 de Setembro de 1902 do general Morais Sarmento, então director, que desde 1892 estaria sendo construído um Teatro onde o general tencionava «fazer realizar pelos alunos não somente representações de comédias, como conferências literárias e científicas, recitações de poesias escolhidas nas línguas ensinadas no Colégio, concertos musicais, etc.», acrescentando em nota de rodapé: «Deve ser inaugurado no dia 2 de Março do corrente ano, por ocasião da festa do centenário do Colégio.»

Se aquela data está correcta o "Teatro Principe Dom Filipe" terá demorado dez anos a ser construído, a menos que tivesse sido interrompida a sua construção. «(...) Foi aprovado pelo Conselho Superior de Obras Públicas o projecto de uma sala de espectáculos que, quando concluída, será uma das mais notáveis e proveitosas instalações deste estabelecimento. Para iniciação das respectivas obras destinou já o Senhor Ministro das Obras Públicas a verba que, de momento, podia conceder, sendo nossa esperança que o seu espírito esclarecido continuará a dispensar a essa obra a atenção que merece, dados os seus intuitos educativos. Mas, como foi  que semelhante aspiração, sempre desejada pelas sucessivas gerações de alunos e jamais realizada entrou nos domínios da execução? (...) e só me resta confirmar que é, efectivamente ao elevado e generoso patrocínio que Sua Alteza Real se dignou dispensar dispensar á ideia da construção de uma sala de espectáculos, que o corpo de alunos deverá a realização desse seu ardente desejo.»

Com a construção da sala de espectáculos pretendida, o Teatro adquire no Colégio crescente importância e adesão de alunos e professores. E a primeira prova de força foi logo na inauguração, dia 2 de Março de 1903, pelas 21 horas. O espectáculo teve a intervenção da tuna colegial, e foram representadas duas comédias em um acto. Na primeira parte "Roca de Hercules" de Manuel Pinheiro Chagas, interpretada pelos alunos Soares Branco, no papel de Visconde e Prostes da Fonseca, fazendo em travesti a personagem de Viscondessa. Na segunda parte a peça "O Portador d'esta", da autoria do ex-aluno Conde de Mesquita. 

                 

Depois da implantação da República em 1910, o "Teatro Principe Dom Luiz Filipe" sofre uma interrupção na sua actividade como narraria Tomás Alcaide:
«O teatro do Quartel Velho esteve impedido de servir durante a conflagração que ensanguentou a Europa de 1914 a 1918, por se encontrar ocupado por um grupo de metralhadoras do Exército.
Esse impedimento não correspondeu à total ausência de espectáculos escolares por muito tempo, pois apenas se debelaram as naturais preocupações da guerra, e apesar de não haver salão apropriado, se fizeram récitas, para as quais se transformavam em verdadeiros teatros os gerais ou camaratas das companhias.»

“Programa” em 1920

“Programa” em 1926

Com as transformações e reorganização operadas no “Colégio Militar” nos anos quarenta do séc. XX, no antigo convento ficou instalada a "Formação" colegial, uma subunidade militar de apoio de serviços - reabastecimento, transportes, oficinas, manutenção de instalações -, que integrava também as cavalariças e as instalações dos soldados que já ali existiam do antecedente.

«Também no edifício do Quartel Velho, lado da igreja, existia o Teatro D. Luiz Filipe, uma sala de espectáculos pequenina, mas montada com muito gosto; tinha um palco espaçoso, uma plateia comportando duas cenetenas de lugares, um balcão cuja lotação rondava a meia centena de assentos, e um camarote com algumas cadeiras onde tinha lugar o Director e seus acompanhantes. Era no teatro que tinham as aulas de Canto Coral.» transcrições anteriores in: “História do Colégio Militar”

A concretização de um plano geral de infra-estruturas delineado em 1978 para o “Colégio Militar” e concluído trinta anos depois, permitiu que o edifício dos "quartéis velhos" ficasse definitivamente devoluto no final de 2007.

O convento de freiras de Cristo ficou então confiado à “Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar”, que nele tem a sua sede e demais instalações sociais, e que vem procedendo à recuperação e adaptação do conjunto edificado, no respeito pelo património e pela sua traça arquitetónica original.

 

 

   

 

Por outro lado, o actual “Teatro Dom Luiz Filipe”  - ou “Teatro da Luz” - é, gerido pela “Associação Armazém Aér(i)o”, uma companhia de novo circo que propõe o cruzamento interdisciplinar de diferentes elementos e linguagens artísticas. Com uma lotação para 200 espectadores, exibe espectáculos de Teatro, Circo, Dança e Música.

   

Bibliografia: “História do Colégio Militar” de José Alberto da Costa Matos

fotos: Arquivo Municipal de Lisboa, Lifecooler, Teatro Dom Luiz Filipe, “História do Colégio Militar”

1 de março de 2018

Theatro do Salitre

O "Theatro do Salitre", mais tarde "Theatro de Variedades", foi inaugurado na Rua do Salitre, em Lisboa, em 27 de Novembro de 1782. Era propriedade de João Gomes Varela, foi construído pelo arquitecto-decorador Simão Caetano Nunes, «que fora ponto no teatro do páteo do Conde de Soure e que nele montara lambem os scenários e maquinismos.». No espectáculo de inauguração tomou parte o «o famoso equilibrista Tersi que fazia prodígios, assustando os ingénuos com falsas quedas e outros truques de efeito naqueles tempos em que os títeres eram o enlevo das pessoas crescidas.»

À esquerda na foto, o “Theatro de Variedades”. As duas portas à direita na foto davam acesso à “Praça do Salitre”

Em 1781, João Gomes Varela pensou em aproveitar uma das duas propriedades que possuía no Salitre, para um centro de diversões. Se bem o pensou melhor o fez. Principiou por instalar um Jogo da Péla; afixou os seus habituais editais em letras vermelhas e conseguiu estabelecer uma certa frequência ao novo estabelecimento. Em 1784 já lhe tinha adicionado, casa da ópera, botequim, bilhar, jogo do Cachei (?).

Mais tarde, corridas de touros, para o que tinha construído uns palanques. Inauguraria, em 4 de Junho de 1790, um tauródromo a primeira praça de touros de Lisboa, a “Praça do Salitre”. Para tal o construtor ter-se-á limitado a copiar a praça que existia na Calle de Alcalá, em Madrd, reduzindo as dimensões.

«Pegado ao teatro existia o tauródromo, de forma rara porque atirava para o quadrado, construído entre 1777 e 1780. Em 1790 é inaugurado pelo príncipe D. João e Pina Manique, uma nova Praça de Toiros, a primeira destinada ao público. Espectáculo bárbaro que humanistas deputados nas Cortes bem pensaram proibir; em vão, pois como Fernando Tomás confessa, até eles aos domingos lá estavam caídos a assistir às lides taurinas. Espectáculos sempre anunciados pelas ruas da capital com cortejo vistoso, tinham entre as lides e os habituais combates entre toiros e cães de fila, os momentos cómicos em que pontificava o preto Pai Maranhão e as lutas entre balões aquecidos a gás.»

Em 1831, desapareceram dali as touradas, que reapareceriam depois na Praça do Campo de Sant’Anna”, inaugurada em 3 de Julho de 1831.

“Teatro de Variedades” junto ao “Circo do Salitre” (“Praça do Salitre”)

Na elipse, Rua do Salitre ao “Passeio Público”, onde se situavam o “Theatro de Variedades” e “Theatro-Circo de Price”

Segundo Gustavo Matos Sequeira o “Theatro do Salitre”, era um espaço apertado, feio, sem atractivos. Ao “Theatro do Salitre”, depois “Nacional e Real Theatro do Salitre” e finalmente "Theatro Nacional do Salitre", (antes de renomeado de “Theatro das Variedades”), terá valido o seu variadíssimo reportório, tendo conseguido atrair diversas camadas da população lisboeta. Apresentou grande variedade de espectáculos: ópera, tragédia, drama, comédia, farsa, mágica, vaudeville, variedades, bailado, música, ginástica, equilibrismo, malabarismo, ventriloquia, prestidigitação, fantoches e até feras amestradas, conseguindo, assim, atrair diversas camadas da população lisboeta.

Anúncio no jornal “O Portuguez” em 29 de Dezembro de 1826

Gravura na revista “Occidente” de 15 de Setembro de 1897. Legenda desta gravura a seguir


Desenho anterior composto por três partes:
Em cima: praça circense hexagonal (Praça do Salitre); acrobatas actuam em palco montado na arena; homem a cavalo e luta entre mouros e soldados de Cristo; público em camarotes e público em pé. Centro: rua onde se situava o Teatro das Variedades (designação que viria a ser adoptada pelo Teatro do Salitre) e retratos de Isidoro e António Pedro.
Em baixo: interior do teatro destruído e algumas figuras, entre as quais um diabo, um morcego e um homem de cartola e bengala. Interesse teatral: A imagem procura fixar a destruição do Teatro do Salitre através da ilustração de alguns dos seus momentos altos: a praça circense que estava ligada ao teatro, onde eram muito apreciadas as lutas entre Cristãos e Mouros e as danças pírricas; a modernização do teatro, quando assume o nome de Teatro das Variedades; Isidoro e António Pedro, dois actores que deixaram marcas naquele teatro; e, finalmente, aliadas à imagem da destruição, algumas personagens de mágicas, o género que vingou nos últimos anos daquele espaço teatral.

Tabela de preços oficial, de 1771, praticada pelo “Theatro do Salitre”

«Nos fins do seculo XVIII representou se no theatro do Salitre uma farça intitulada Casa de café e bilhar. Era ornada com musica de Marcos Portugal. N’ella eram satyrisados, entre outros indivíduos, o José Pedro das Luminárias, então empregado no Nicola, o padre Lagosta (José Agostinho de Macedo), e o Pax- Vobis, um pobre diabo que, trajando casaca encarnada, vagueiava pelas ruas seguido da gaiatagem. N'esta farça visava-se o botequim do Nicola.»   in: “Lisboa d'Outros Tempos” (Tinop) 1899.

                                        1816                                                                                          1822

 

                                          1835                                                                                          1843          

 

Entretanto nem tudo correu bem e …

«Em junho deste ano (1852) o Carreira «maneta», meteu-se a emprezário do Condes, de sociedade com o José Vicente do Guarda-Roupa do Calhariz, e organizou companhia levando do Salitre alguns elementos artísticos. Durou menos de um ano a nova empreza, pois tendo começado a 13 de junho de 1852 veiu a acabar a 13 de fevereiro do ano seguinte. O Salitre entra então na agonia. O público divorciara-se definitivamente do inestético teatro, onde parece que todas as noites se representava o drama suísso, tantos eram os «cães» que o infestavam.
De 1853 a 1855 emudecem os cartazes e os anúncios. Era o princípio do fim.(...)
Depois dos espanhóis, fechou o Salitre por uns dias. As estridentes exclamações castelhanas, sucederam os uivos e os rugidos de outros actores.
A 24 de abril de 1857, a empreza apresentava ao público uma colecção de feras: !O Manes de Thalia!

Com o rugido da última fera, foi-se o último alento do velho teatro do Salitre, mas, como a Fénix da lenda, renascia, pouco depois, em 1 de fevereiro de 1858, com o título de «Theatro de Variedades» levando à scena, todo pintado e retocado de novo, a célebre mágica A lotaria do Diabo, de Francisco Palha e do Oliveira.
Os vistosos cartazes do Xavier meteram à força, pelos olhos do público, os atrativos da nova peça e da nova companhia; e todos sabiam que o ensaiador era o elegante, mas sebento, José Romano, originalíssimo sugeito que fora a Paris sem cinco réis, «pedibus calcantibus» pedindo pelas estradas como um mendigo; que o Isidoro, que na peça fazia o Abdalah era o director-gerente da sociedade; que os scenários e os faios eram novos em folha, e que a estrela era a provocante e telhuda Luísa Cândida, uma das Circes da scena que mais javardos fez com o filtro dos seus encantos pessoais.
Da companhia faziam também parte a Maria do Ceu, que fora bailarina em São Carlos, a Ludovina e a Elisiária, duas bonitas raparigas, a Maria Emília e a Francisca. Dos actores, àlêm do Isidoro, contavam-se os seguintes : Rodrigues, Faria, Queiroz, Nunes, João Ferreira, Sousa, Guerreiro, Gonçalves e os dois estreantes Joaquim de Almeida e António Pedro, tendo este entrado para o teatro a ganhar uma moeda por mês.»  
 in: "Depois do Terramoto - subsidios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa" - Vol II de Gustavo Matos Sequeira (1917).

Capa e primeira página da peça “Mafoma” de Voltaire de 18 de Março de 1786, exibida do “Theatro do Salitre”

 

O “Theatro do Salitre”, antes e depois de transformado em “Theatro de Variedades” era maior que o Theatro da Rua dos Condes”, mas ainda muito mais feio, um enorme corredor tortuoso e deselegante.

Theatro da Rua dos Condes

Em 11 de Novembro de 1860, oTheatro-Circo de Price, inaugurado em 11 de Novembro de 1860, instalar-se-ia no topo do “Passeio Público”, isto é, na Praça da Alegria de Baixo. Este Theatro-Circo, também foi conhecido por “Circo de Cavalinhos”, “Circo de Mme. Tournour”, “Novo Circo Price” e “Lisbon Amphitheatre Anglo Franco Português”. Acerca da sua história consultar neste blog o seguinte link: Theatro-Circo de Price”.

Theatro-Circo de Price” e primeiro anúncio, no jornal “A Nação”, em 13 de Novembro de 1860

 

Em 17 de Agosto de 1864, tinham sido aprovadas, na reunião dos accionistas da «Sociedade» algumas alterações aos antigos estatutos sociais e parece que os interessados contavam que a próxima época os indemnizasse dos prejuízos sofridos e decorresse sem que as bocas do mundo teatral se apercebessem. Tal não sucedeu e  «a chicana estabeleceu os seus alcaçares na calçada do Salitre», escrevia a “Chronica dos Theatros”, no seu número de 1 de Janeiro de 1866. Joaquim José da Silva Cordeiro, como procurador de D. Josefa Serrate, proprietária do Teatro, abrira, então, fogo cerrado contra a direcção da «Sociedade». A viúva do fundador João Gomes Varela, que o alugara, primeiro por 400$000 réis, depois por 480$000 réis e, mais tarde, por 600$000 réis, fazendo-se o arrendamento por três anos, desde 1 de Outubro de 1863 a 30 de Setembro de 1866, vendo que lhe não pagavam, accionou uma penhora à empresa; apoderou-se das chaves e tomou posse do Teatro.
«Finalmente no meio desse prélio entre Thetis e Thalia, aparece um homem que soluciona tudo. Como? não sei. E António Gonçalves Pinto Bastos. Aplaca os contendedores, amansa D. Josefa Serrate, afasta do Salitre os beleguins, organiza uma companhia e acrescenta o título do teatro. Vai funcionar o “Theatro das Variedades Dramaticas”».

                         2 de Fevereiro de 1858                                                           4 de Março de 1865

   

A empresa, querendo renovar o “Theatro das Variedades Dramaticas”, em finais de 1864 mandou pintar a sala, os salões e os corredores dos camarotes. Pelo que se lia no jornal “Diario de Noticias” de 6 de Janeiro de 1865:
«O theatro de Variedades Dramáticas, como já noticiamos, deve abrir no dia 20 do corrente com a comédia mágica do sr. Joaquim Augusto d'0liveira - «Os amores do diabo», a qual tem 3 actos e 1 prologo, divididos em 19 quadros. O scenário é pintado pelos srs. Villela e Lima ; os aderesses, do sr. João Francisco Pereira dos Santos ; o vestuário, do sr. Cruz.»

Após a sua inauguração o mesmo “Diario de Noticias” relatava:
«Realizou-se a inauguração na noite de 4 de Fevereiro. Foi um verdadeiro triunfo! Aplausos e palmas que farte, felicitações ao emprezário, muita alegria e muita animação. Excepto as maquinarias do mestre Assunção, que estava longe de ter os méritos do João Vieira, o mais tudo agradou até o desempenho, coisa que há muito tempo não sucedia no Salitre.
O regente da orquestra, não mencionado na informação do Noticias, era Eduardo Azimouth.»

                    8 de Fevereiro de 1877                                        Mas, no “Guia do Viajante em Lisboa” para 1880 …            

              

As duas últimas companhias que pisaram o palco arqueológico do Salitre, foram as dirigidas pelo popular Costa Marreco, que reincidira em ser empresário, e pelo actor Avelar Machado. E…

«Em 24 de agosto de 1879 soou o primeiro embate da picareta contra as paredes do infeliz e glorioso teatro que suportara durante noventa e sete anos os mais duros revezes da sorte. (...)
Sob o asfalto da mais nobre artéria cidadã repousam os teus restos. Em derredor pairam, com a tua memória - aos olhos dos visionários como eu - as comoções, as lágrimas, as gargalhadas e os deslumbramentos que tu proporcionaste a umas poucas de gerações.
Foste generoso e liberal. Merecias ter tido melhor sorte.»   in: "Depois do Terramoto: subsidios para a historia dos bairros ocidentais de Lisboa"
- Vol II de Gustavo Matos Sequeira (1917).

Desenhos na revista “Occidente” em 21 de Setembro de 1881

Planta topográfica após as demolições e construção da Avenida da Liberdade

Com o início das demolições do Teatro e dos edifícios próximos teriam, igualmente, início as obras de construção da Avenida da Liberdade, assim referenciadas no livro “Diccionario do Theatro Portuguez” de Sousa Bastos (1908):

«A 24 de Agosto de 1879, para dar principio ás grandes obras da Avenida da Liberdade, começou a demolir- se o theatro das Variedades, antigo theatro do Salitre., de péssima construcçâo, mas que deixou saudades pejas alegres noites que alli se passaram com Izidoro, António Pedro Furtado Coelho, Joaquim d'Almeida, Lucinda Simões e outros artistas notáveis.»

Em 11 de Janeiro de 1890, seria inaugurado um novo teatro na Rua Nova da Alegria, o “Theatro d’Alegria” , construído em ferro e madeira, cuja gravura e artigo no jornal “Diario Illustrado” publico de seguida. Este teatro era propriedade de “Castanheiro e Barata”, e foi projectado por João Augusto Barata, tendo a sua construção durado cinco meses.

 

«A salla é elegante, como dissemos, e dispõe dos seguintes logares: quatro frizas; doze camarotes, n'uma só ordem, cento e vinte e seis cadeiras de balcão; trezentas e quarente de platéa; e cento e vinte seis logares na galleria que fica ao fundo do balcão, em amphitheatro.
Depois do antigo theatro das Variedades e do velho templo da arte mais profanamente conhecido pelo Rua dos Condes, é decerto o theatro d'Alegria o que melhor preenche a falta de theatros populares, proprios para verão e inverno, assim como que um divertimento de meia estação.» in revista “Occidente”.

O “Theatro d’Alegria” não teria uma vida longa, mas antes curta, tendo sido vendido em hasta pública e posteriormente demolido.

Décadas mais tarde, na Rua do Salitre, e em 1946, seria fundado, por três homens de teatro, Gino Saviotti, Vasco de Mendonça Alves e Luís Francisco Rebelo, o “Teatro Estúdio do Salitre”. Foi um projeto que, durante quatro anos, levou à cena um número significativo de peças de teatro de autores nacionais e estrangeiros, no micro Teatro, do “Instituto Italiano de Cultura de Lisboa”, instalado no edifício da ”Casa d’Itália”, situada na Rua do Salitre, próximo do Largo do Rato.

“Casa d’Itália”, na Rua do Salitre junto ao Largo do Rato

 

Foto “de família” do “Teatro Estúdio do Salitre”

Interior do “Teatro Estúdio do Salitre”

 

O seu primeiro espectáculo, “O Homem da Flor na Boca”, de Luigi Pirandello e encenado por Gino Saviotti,  foi apresentado em 30 de Abril de 1946.  Este teatro seria extinto, quatro anos depois, em 1950.

Fotos in:  Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional Digital, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais)