4 de novembro de 2018

Tinturaria Cambournac

A “Tinturaria Cambournac” foi fundada na Ribeira do Papel, no Cacém, concelho de Sintra, em 1846 por Pierre Joseph Alfred Cambournac, que tinha adquirido, em hasta pública, uma fábrica de papel de palha de milho ali estabelecida desde 1830. A pequena ribeira que passava junto à fábrica ganhou o nome de “Ribeira do Papel”, devido á existência desta fábrica de papel.

Gravura no jornal “Diario Illustrado” em 1 de Novembro de 1877

O jornal "Diario Illustrado" num artigo de 1 de Novembro de 1877, relatava:

«No local onde existiu essa fabrica, está hoje assente uma officina de preparos (spprets) e estamparia annexa á officina de tinturaria estabelecida em 1846 por Pedro Cambournac, na Quinta do Letrado.
Ambas estas officinas pertencem presentemente ao nosso amigo e intelligente industrial o sr. P.J. Alfredo Cambournac, filho do fundador.(...)
O edificio tem dois pavimentos: no inferior estão duas machinas a vapor horisontais, numa força de quatro cavallos a outra de seis.
Foram ali montadas pelo sr. Cambournac, que se tem dedicado com affinco ao estudo da physica e chimica experimental, o que lhe tem logrado o largo desenvolvimento dado ao seu estabelecimento.
Tem, além d'aquellas, todas as machinas e apparelhos que no estrangeiro se applicam a esta industria, e que o seu proprietario foi escolher e adquirir em França e Inglaterra.
O elemento principal da tinturaria é a agua, que o dono do estabelecimento tem procurado à proporção que lhe tem sido precisa; ali é finissima e nasce em solo basaltico.
Para o serviço da officina ha 2 grandes reservatorios de capacidade de 400 metros cubicos.
No pavimento superior está o escriptorio da administração do estabelecimento. (...)
Nos terrenos proximos, onde são lançados os residuos da tinturaria, ha uma vegetação opulenta devida á acção dos saes em que os residuos abundam.
Na officina de tinturaria do sr. Alfredo Cambournac são tintos pelos processos mais modernos e aperfeiçoados, fatos, roupas, damascos, sedas, em rama e em fio.
Os seus productos foram sucessivamente apresentados nas exposições industrial de 1861, nacional de industria de 1863, internacional portugueza de 1865, e na associação promotora da industria fabril, e obtiveram em todas medalhas de prata e de merito.
Os escriptorios em Lisboa, são no Largo da Annunciada, 14 e na rua de S. Bento nº 420.»

27 de Outubro de 1881

1885

                                                 1901                                                                                          1902

 

Lembro que no início da implantação da indústria da estamparia na região de Lisboa, a associação entre negociantes portugueses e técnicos estrangeiros (suíços, franceses, ingleses, etc.) era corrente. Estes técnicos acabavam, por vezes, por aceder à propriedade da empresa, e outos como Pierre Cambournac criavam a sua própria unidade industrial. Só em 1847 é aplicada a primeira máquina de vapor, que permitiria finalmente a introdução das máquinas inglesas de imprimir a quatro cores. Em 1852, só duas fábricas usavam a energia do vapor e ainda em 1881 mais de 1/3 das unidades produtivas continuavam a estampar por processos manuais . Entretanto, a branqueação fora abandonada, importando-se os panos ingleses já preparados para a impressão. Porém, um punhado de grandes fábricas utilizavam já a tecnologia mais moderna e empregavam motores de grande potência.  A “Companhia Lisbonense de Estampagem e Tinturaria de Alcântara”, era no século XIX a maior na seu sector, na região da grande Lisboa, tendo chegado a construir, entre 1883-1890, um bairro para os seus operários, - a “Vila Cabrinha”, em Alcântara. Foi diretor técnico desta fábrica entre o final do século XIX e início do século XX José Cambournac.

De referir que já em 1876, esta unidade industrial já estava equipada com uma secção de lavagem de fatos (“Degraissage à Sec e Detachage”). «Pelo processo empregado, Degraissage á Sec (Dry Cleaning), a fazenda não encolhe nem as cores são alteradas, podendo a fazenda ser lavada repetidas vezes sem inconveniente.»

Em 1885 já fabricava tinta para escrever, sob a marca “Tinta Superior Communicativa”, comercializada em papelarias.

3 de Abril de 1915

Em 30 de Outubro de 1898 o jornal "Folha de Lisboa" informava:

«Os filhos do fallecido proprietario da antiga e bem conceituada tinturaria Cambournac, constituidos em sociedade, acham-se á frente do referido estabelecimento, continuando a exploração da casa sob a firma P. R. Cambournac & Commandita.»

Instalações da “Tinturaria Cambournac” na Agualva-Cacém nos anos 70 do século XX

 

 

 

 

O numero de operários da “Tinturaria Cambournac” chegou a ser de 3.000, o que levou a “Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses - CP”, a instalar o “Apeadeiro do Papel”, situado na passagem de nível do mesmo nome, na estrada Cacém - Massamá, destinado a servir a fábrica, e que viria a ser demolido aquando das obras de alargamento da via férrea.

                                         1911                                                                                       1944

 

Com a revolução de 1974, começaram os problemas com esta empresa. Greves prolongadas, ocupações das instalações, exigências laborais, cortes no crédito por parte da banca, etc, ditariam o enfraquecimento continuado desta. Chegou-se, até, a reivindicar a nacionalização(!!) da “Tinturaria Cambournac” a par da “Tinturaria Portugal” … Este clima culminaria com o suicídio do proprietário, passando a propriedade para os seus herdeiros.

1973

No “Verão quente”, em 27 de Junho de 1975 é decretada a intervenção do Estado, e em 15 de Junho de 1977 era decretada a desintervenção e a restituição aos seus proprietários. As greves e instabilidade na empresa continuaram e nunca mais se recompôs e viria, poucos anos depois, a ser decretada a insolvência e dissolução da “Tinturaria Cambournac de Pedro Carrasqueiro Cambournac (Herdeiros)”.

fotos in:  Biblioteca Nacional Digital, Ephemera, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Ilustração Portugueza

1 comentário:

Anónimo disse...

Mais um apreciável trabalho de pesquisa.
Muito obrigado, Sr. José Leite.

Gostei sobretudo da forma clara e frontal, sem rodeios, como finaliza o seu texto, descrevendo uma realidade que os esquerdistas apoiantes, quiçá autores dos factos que narra ou similares, não querem ver nem que disso se fale.

Por mal dos meus pecados sofri na pele, duramente, as consequências de um processo idêntico ao que descreve, sendo eu completa e totalmente alheio aos factos miseráveis que destruíram a grande Empresa onde trabalhei.

Estamos melhor?

Meus cumprimentos

Manuel Alves