15 de novembro de 2018

Hotel Nunes em Sintra

O “Hotel Nunes”, propriedade de João Nunes, abriu as suas portas entre 1864 e 1875, na Vila de Sintra, junto ao “Palácio da Vila” ou “Palácio Nacional de Sintra”, na Rua do Arrasario (actual Conselheiro Segurado). Nesta Rua, e em 28 de Maio de 1879, e praticamente à sua frente, abriria em 28 de Maio de 1879.,o “Hotel Netto” propriedade de José Maria Netto, e cuja história poderá ser consultada neste blog, utilizando o seguinte link: “Hotel Netto”.

Na foto seguinte: dentro da elipse branca o “Hotel Nunes” e dentro da elipse vermelha o “Hotel Netto”

Em 1863 eram indicadas no "Novo Guia do Viajante em Lisboa e Seus Arredores”, de J.J. Bordalo (Rua Augusta), as seguintes hospedarias em Sintra:
«Victor, a mais antiga e mais afamada da villa; Durand, tambem acreditada ha longo tempo; Hotel d'Europe, moderna e dependente da hospedaria do mesmo nome em Lisboa; Francois, fóra da villa, em S. Pedro de penaferrim, e outras de menos luxo. O preço do quarto e comida regula entre 1200 e 1440 réis diarios por pessoa.»

           “A Handbook for Travellers in Portugal” de 1875                                                       1877

 

No capítulo VIII do romance “Os Maias” de Eça de Queirós, publicado em 1888, o “Hotel Nunes” é referido por diversas vezes, uma delas ao descrever o passeio de Carlos e Cruges por Sintra. Carlos procura Cruges na sua residência em Lisboa, mas vem a encontrá-lo na Rua de S. Francisco, casa da sua mãe, que lhe implora para trazer queijadas. Os dois partem em direcção à vila num break, e ao chegarem perto de Sintra, Carlos informa Cruges:
«Nós não vamos para a Lawrence (hospedaria Lawrence’s) - disse Carlos, saindo bruscamente do seu silêncio e espertando os cavalos. - Vamos para o Nunes (Hotel Nunes), estamos lá muito melhor! (…)
- Vamos para o Nunes que se come melhor!. (…)
E apenas o break parou à porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar, tímido e de longe - receando alguma palavra rude da sentinela.
Carlos, no entanto, saltando logo da almofada, tomou à parte o criado do hotel, que descera para recolher as maletas. (…)
- Então, depressa dois quartos! - exclamou Carlos, com uma alegria de criança, certo agora que “ela” estava em Sintra. - E uma sala particular, só para nós, para almoçarmos.»

Pelo caminho, o recordar da Vila Velha, com o seu mercado e três dos seus hotéis: «O Nunes "das pandegas fáceis", o Victor funcionando também como uma espécie de Casino, e o Lawrence’s, o mais antigo da Península Ibérica e o mais requintado de Sintra.

No edifício onde se instalou o “Hotel Nunes” tinha funcionado desde 1850 a “Pensão de Bragança”. A propriedade pertencia nessa época ao 7º Visconde de Asseca (1825-1852), e posteriormente à Viscondessa d’Asseca . Pelos documentos abaixo publicados, José Nunes em 1903 ainda era o proprietário do Hotel. Em 1913, o “Hotel Nunes” já era propriedade do galego Antonio Lopez Alvarez.

No livro “Paço de Sintra - apontamentos historicos e archeologicos do Conde de Sabugosa” (1903)

1907

 

                                                1913                                                                                          1914

 


Nota: no anúncio publicitário anterior, de 1913, está indicado, erradamente, como proprietário António Lopes Alves. O proprietário do “Hotel Nunes” era o galego António Lopez Alvarez, irmão de José Lopez Alvarez, dono do “Hotel Netto” a que lhe sucederia Manuel Lopez Alvarez.

1933

 

1934

Em 1944, no livro “The Portugal Journal”, de Mircea Eliade, pode-se ler (depois de traduzido):

«Nós comemos no Hotel Nunes (onde comemos da última vez também); divertimos-nos e aborrecemo-nos, alternadamente, porque era um domingo e, por causa das multidões, demoraram três horas a servir a nossa mesa!). A primeira vez que estive aqui foi com A. Cotrus e a família Antohi, em Fevereiro de 1941. Tinhamos acabado de chegar de Inglaterra e eu estava à espera de dinheiro para nos permitir voar para casa. Como eu poderia ter imaginado que ficaria em Portugal quatro anos e que as coisas acabariam assim? . ..»

Em Agosto de 1967 o grupo hoteleiro “Tivoli”, adquire o “Hotel Nunes”, para o demolir e erguer um novo hotel a que chamará “Hotel Tivoli Sintra” de 4 estrelas e com 77 quartos, inaugurado em 20 de Setembro de 1980. A sua construção pelo tempo decorreram - entre 1977 e 1980 - chegaram a ser apelidadas de «obras de Santa Engrácia».

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Rua dos Dias que Voam, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Rio das Maçãs

13 de novembro de 2018

Alfaiataria “Lourenço & Santos”

A alfaiataria "Lourenço & Santos, Lda." localizada na Rua 1º de Dezembro, em Lisboa e numa das lojas do edifício do "Avenida Palace Hotel", foi inaugurada em 3 de Dezembro de 1910.

Foram seus fundadores Luís Lourenço, ex-alfaiate do prestigiado Armazém de Fazendas e Fato Feito "J. Nunes Corrêa & C.ª", fundado em 14 de Abril de 1856, e seu sócio Manuel Gomes dos Santos, proprietário do atelier de modista "Le Chic Parisien", na avenida da Liberdade, 11. A alfaiataria “Lourenço & Santos, Lda.” instalou-se numa loja onde anteriormente funcionava a loja de flores e corôas “A La Ville de Paris” de Marius Lathelize, que era sucursal lisboeta, com filial no Porto e propriedade de F. Delport.

11 de Março de 1893

 

“Lourenço & Santos, Lda.” em foto de 3 de Fevereiro de 1928, com os viticultores do Douro a caminho do Congresso

Em 8 de Outubro de 1957, a "Lourenço & Santos, Lda.", inaugura uma segunda loja na Praça dos Restauradores, no nº 47 A-B, bem perto do Cinema "Condes". Esta loja, - que são duas ligadas interiormente na rectaguarda - foi projectada pelo arquitecto Carlos Tojal, que viria a ser, igualmente, responsável pelo projecto de remodelação e ampliação da "Loja das Meias", em 1960. A sua decoração inclui balaustradas, balcões abertos, tectos em níveis, chão em tacos de azinho envernizados. Na cave, a sala de provas também com uma decoração cuidada e as salas da alfaiataria. As montras amplas têm o nome da firma em néon e numa das entradas a marca em calçada à portuguesa.

Nova loja da “Lourenço & Santos, Lda.” (dentro da elipse desenhada), por altura da sua inauguração

8 de Outubro de 1957

Antigas duas lojas (uma de vestuário de senhora e outra de flores) no espaço que esta loja veio substituir

Por altura da comemoração do seu primeiro cinquentenário (bodas de ouro), em 1960 a loja no edifício do “Hotel Avenida Palace” é alvo de melhoramentos e de introdução das secções de camisaria e novidades. A sua abertura teria lugar em 19 de Dezembro de 1960.

                             3 de Dezembro de 1960                                                           17 de Dezembro de 1960

 

 

A firma "Lourenço & Santos, Lda.", já propriedade de José Augusto Guerra Machado (depois de ter pertencido a seu pai Augusto Lopes)  deixaria as suas instalações, no edifício do "Avenida Palace Hotel" em 2006, passando a ser ocupada pela “Calzedonia”, loja de meias, peúgas, collants, leggings, fatos de banho, e ficaria apenas com a sua segunda loja, da Praça dos Restauradores anteriormente mencionada.

Em 2009, a firma "Lourenço & Santos, Lda." foi adquirida pelo grupo "Diniz & Cruz - Vestuário do Homem, Lda." detentor das marcas de pronto-a-vestir, feminino "Dalmata" e masculino "Do Homem", ficando Paula Diniz como gerente da loja.

Loja “Lourenço & Santos, Lda.” na Praça dos Restauradores, actualmente

 

 

 

 

A empresa “Diniz & Cruz - Vestuário do Homem, Lda.” foi fundada em 24 de Agosto de 1972 por José Manuel Cruz, Fernando Diniz, José Manuel Diniz e José Coutinho com a marca “Do Homem”. Em 1982 cria a marca de pronto-a-vestir feminino “Dalmata”, com a firma  “Dalmata - Indústrias de Cofecções, Lda.”. A sua fábrica localiza-se na Estrada de Alfragide, na Amadora.

Fábrica

Atelier na fábrica

 

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Lourenço & Santos, Lda.

11 de novembro de 2018

Cine-Teatro S. José em Cascais

O Cine-Teatro "S. José", propriedade de José Afonso Villar e projectado em 1958 pelos arquitectos Joaquim Ferreira e Gonzaga Bronze, foi inaugurado na vila de Cascais em 19 de Março de 1959.

Quanto à sua inauguração o jornal “Diario de Lisbôa” anunciava:
«A inauguração do S. José faz-se esta noite, com a apresentação da peça "Tá-Mar», de Alfredo Cortez num espectáculo de gala, a que assiste o chefe de Estado. A companhia do Nacional desloca-se a Cascais, com o prestígio do seu nome e do autor levado ao Festival de Paris. Amanhã a mesma companhia, irá ali representar "O Processo de Jesus". Depois, o Cinema chamará a nova casa de espectáculos às suas verdadeiras funções.»

Com os trabalhos de engenharia da responsabilidade do engenheiro Nunes Abrantes e a decoração interior a cargo de Fred Kradolfer, esta sala de Cinema e Teatro tinha capacidade para 998 espectadores, distribuídos pela plateia e dois balcões, e servida por dois foyers e dois bares.

Numa das suas lojas instalou-se em Junho de 1960 a famosa geladaria “Gelados Santini”, que tinha tido a sua primeira loja no “Tamariz” no Estoril, fundada em 26 de Agosto de 1946.

 

Com «ar renovado, quente e refrigerado» o seu palco foi montado sob a direcção do mestre Mota do "Teatro Nacional de S. Carlos" em Lisboa, e equipado com um écran gigante.

  

   

Programa de Fevereiro de 1970

                               

Bilhete para 18 de Abril de 1965


folheto de cinema, programa e bilhete gentilmente cedidos por Carlos Caria

O “Cine-Teatro S. José” encerraria definitivamente em 26 de Janeiro de 1978, com a última exibição do filme “O Último Comboio do Katanga”.

Já na década de 80 do século XX foi adaptado para comércio e escritórios, com projeto do arquiteto Gil Graça, tendo perdido as caraterísticas arquitetónicas que o caraterizavam, sobretudo por via da introdução duma enorme estrutura envidraçado que passou a revestir integralmente a sua fachada principal e parede lateral, passando a designar-se “Edifício S. José”.

 

foto in: Delcampe.net, Vasco Morgado, Arquivo Municipal de Cascais